sábado, 12 de agosto de 2017

Cotidiano

Conto de Narja T. S. Machado



Mudou-se para o edifício em maio. Chegou com a sacola vermelha pesando numa mão e o menino agarrado na outra. Este menino tinha o cabelo crespo balançando e o andar cadenciado.

O menino era sério. Dele, parece-me, no momento foi só o que notei. Mas dela havia o fato de vestir a blusa verde com bordados nas mangas, a calça escura de veludo e trazer a gabardine nas costas. Nós a notamos da janela do nosso primeiro andar, porque era muito bonita e usava a tal gabardine, na tardinha quente de maio.

Soubemos, depois, que estava no apartamento vizinho ao nosso, e passamos a ouvir seu canto quase todas as manhãs.

Um dia, pediu-nos que ficássemos com o menino enquanto saía. E pediu meigo, com um jeito travesso de olhar e falar. O menino nos pareceu quieto. Mais triste que quieto. Aceitamos.

Veio buscá-lo à noitinha. Entrou e sorriu-nos sacudindo o cabelo crespo:

– Não incomodou?

E segurou-o pela mão. Ele era quieto, mais triste que quieto. Tinha ficado junto à janela, passando os dedos na persiana e acompanhando o movimento dos carros. Até gostamos dele...

Depois, muitas outras vezes, ainda ficamos com o menino, enquanto ela saía. E voltava sempre com seu sorriso, o olhar se demorando na gente e o levava. Agradecia-nos e perguntava se ele havia incomodado. Claro que não, ficava sempre conosco com o olhar perdido no barulho dos automóveis, por entre as persianas e nada pedia. Pouco nos falava.

Mas parecia gostar de nós, e quando o trazíamos para junto da gente, ele ficava mais quieto ainda, olhos baixos, imóvel, batendo forte o coração.

Um dia nos sorriu. Não, uma noite. Foi assim, ela não veio buscá-lo à tardinha e ele ficou encostado na janela, movimentando os dedos, perdidos nos automóveis. Então, o colocamos na cama. E lhe demos leite quente. E afagamos seu cabelo. Sorriu-nos e percebemos que algo tinha mudado, nele ou em nós.

Na manhã seguinte, ela nos chegou com jeito distraído, pedindo desculpas:

– Mas não incomodou?

Sorriu-nos mais demorado e o levou. Da porta ficamos a olhá-lo, dócil e calmo, seguindo a mão dela.

Bom, então aconteceu que ela nos deixou o menino e se foi, com a calça escura e o cabelo crespo. E ele ficou à janela. À noite choveu, muito forte, e ele ficou assustado. Mas tomou sopa e adormeceu entre cansado e impaciente. Não entendo porque, mas pareceu-nos muito cansado.

Não veio buscá-lo.

Antes do almoço, a vimos descer com a valise vermelha na mão e a gabardine no braço. Ainda a chamamos da janela, mas ela não nos olhou. Então, corremos escada abaixo, sem compreender bem a situação. E da porta do edifício ainda a chamamos, enquanto ela entrava no táxi. E se foi. Ficamos parados na calçada. De longe, acenou-nos com a mão, como se não mais fosse voltar.

E novamente subimos ao nosso primeiro andar. Sem jeito para saber o que fazer ou o que pensar. Na janela ficou-nos o menino, com os dedos calmos se movimentando pela persiana e os olhos incrivelmente perdidos no movimento dos carros.



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