quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Raimundo de Meneses


Raimundo de Meneses


Ilustração de Milton Rodrigues Alves

O historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima era alto e avantajadíssimo gordo. Consideravelmente cheio de banhas. Contraiu núpcias com a Sra. D. Flora Cavalcânti Albuquerque Melo de Oliveira Lima, dotada de fino espírito, porém delgada de corpo, perfazendo violento contraste com o esposo.

Certa tarde, conta o Sr. Elói Pontes, à porta da Confeitaria Castelões, numa roda de amigos, Emílio de Meneses, vendo passar o casal, comentou, risonho e confidencialmente:

– Ali vão a Flora e Fauna brasileiras...

Alguém teve a imprudência de publicar a pilhéria. Oliveira Lima, colérico, escreveu artigo em O Estado de S. Paulo, chamando Emílio de bêbado, vadio e outras coisas injuriosas. A resposta do boêmio foi este soneto:

De carne mole e pele bambalhona
Ante a própria figura se extasia.
Como oliveira – ele não dá azeitona,
Sendo lima – parece melancia.

Atravancando a porta que ambiciona,
Não deixa entrar nem entra. É uma mania!
Dão-lhe por isso a alcunha brincalhona
De “Para-vento da Diplomacia”.

Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha,
Nem para intriga igual habilidade.

Eis, em suma, essa figura estranha!
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha!

As volumosas enxúdias de Oliveira Lima jamais lhe perdoaram a crueldade da invectiva.

Medeiros de Albuquerque, referindo-se a este soneto, considera-o “um dos melhores trabalhos humorísticos, porque nada tem de injurioso, embora seja malicioso. Fala, apenas, com razão, da vaidade do escritor pernambucano. E essa era infinita”.

Raimundo de Meneses, em “Emílio de Meneses, o Último Boêmio”.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Rir é um santo remédio



→ E já que o assunto é felicidade, rir é um santo remédio e ajuda a conquistar a tal felicidade. Veja 10 razoes para você rir.

01. Aumenta o rapport*, fortifica os relacionamentos, ajuda a superar as barreiras da comunicação.

O humor geralmente cria espaços para a colaboração. As diferenças entre membros de uma equipe, gerentes e assistentes podem ser reduzidas quando eles acham um ponto em comum. Em uma grande empresa, os catorze membros de uma equipe de trabalho haviam criado um hábito fora do comum: estabeleceram a “meia hora da piada”, sempre após o almoço. Em pouco tempo, a coesão e a produtividade aumentaram, já que os atrasos acabaram e o grupo passou a trabalhar melhor.

02. Diminui as chances de demissão.

Pessoas que trabalham em um ambiente positivo, que permite o humor, têm maior tendência de permanecer no emprego e manter relacionamentos. O humor também é o segredo de muitos casamentos bem-sucedidos.

03. Aumenta a produtividade.

Está mais que provado que as pessoas que gostam do que fazem, do ambiente em que trabalham e dos colegas de equipe, produzem mais e melhor.

04. Impulsiona a criatividade.

As pessoas bem-humoradas “colorem as coisas”, não têm medo de parecer bobas de vez em quando, arriscam-se, veem tudo sob um prisma mais alegre. São, por isso, indicadas para resolver problemas.

05. Ajuda a controlar o estresse.

Por várias razões, o humor reduz a pressão do perfeccionismo e permite um alívio físico das tensões. É uma válvula de escape muito eficiente.

06. É um ótimo exercício para o sistema cardiovascular.

Uma boa gargalhada aumenta o nível de respiração, a pressão do sangue e o funcionamento do músculo cardíaco. Quando cessa, tudo volta ao normal. Boas gargalhadas durante o dia permitem esse exercício do sistema cardiovascular.

07. Estimula os órgãos internos.

Uma boa risada é uma ótima massagem nos órgãos internos, ajudando-os a trabalhar melhor. Pode auxiliar, inclusive, o funcionamento dos intestinos.

08. Estimula o sistema imunológico.

Quando o sistema de defesa do nosso organismo está forte, temos menores chances de pegar resfriados, gripes, etc. Aproveitamos melhor a vida e realizamos nosso trabalho de maneira satisfatória.

09. Suaviza a dor.

Gargalhadas liberam endorfinas.

10. Além de tudo isso, é divertido.

Graças ao humor, somos mais felizes, saudáveis, criativos, produtivos e nossos relacionamentos tornam-se mais agradáveis.


*****

*Rapport é um conceito originário da psicologia que remete à técnica de criar uma ligação de empatia com outra pessoa. O termo vem do francês rapporter, cujo significado remete à sincronização que permite estabelecer uma relação harmônica.

(Parte de um artigo de Leila Navarro, palestrante motivacional,
na revista MI Muscle In Form – 2014)


domingo, 20 de agosto de 2017

Você Sabia? A origem de @



Na idade média os livros eram escritos pelos copistas à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um “m” ou um “n”) que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.

O nome espanhol Francisco, que também era grafado “Phrancisco”, ficou com a abreviatura “Phco.” e “Pco”. Daí foi fácil o nome Francisco ganhar em espanhol o apelido Paco.

Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de “Jesus Christi Pater Putativus”, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adotar a abreviatura “JHS PP” e depois “PP”. A pronúncia dessas letras em sequência explica porque José em espanhol tem o apelido de Pepe.

Já para substituir a palavra latina et (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como “e comercial” e em inglês, tem o nome de ampersand, que vem do and (e em inglês) + per se (do latim por si) + and.

Com o mesmo recurso do entrelaçamento de suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de “casa de”.

Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço – por exemplo: o registro contábil “10@£3” significava “10 unidades ao preço de 3 libras cada uma”.

Nessa época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês, “at” (a ou em).

No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contábeis dos ingleses. Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo seria uma unidade de peso – por engano . Para o entendimento contribuíram duas coincidências:

1 → a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo “a” inicial lembra a forma do símbolo;

2 → os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de “10@£3” assim: “dez arrobas custando 3 libras cada uma”. Então o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar arroba.

Arroba veio do árabe ar-ruba, que significa “a quarta parte”: arroba (15 kg em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe (quintar), o quintal (58,75 kg).

As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados). O teclado tinha o símbolo “@”, que sobreviveu nos teclados dos computadores.

Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio eletrônico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido “@” (at - em Inglês), disponível no teclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome do provedor.

Assim Fulano@ProvedorX ficou significando: “Fulano no provedor (ou na casa) X”.

Em diversos idiomas, o símbolo “@” ficou com o nome de alguma coisa parecida com sua forma.

Em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês, apestaart (rabo de macaco).

Em outros idiomas, tem o nome de um doce em forma circular: shtrudel, em Israel; strudel, na Áustria; pretzel, em vários países europeus.


A galinha e o povo



Em uma de suas reuniões, um político brasileiro pediu que lhe trouxessem uma galinha. Agarrou-a forte com uma das mãos enquanto a depenava com a outra.

A galinha, desesperada pela dor, quis fugir, mas não pôde. Assim, o político tirou todas suas penas, dizendo aos seus colaboradores:

– Agora, observem o que vai acontecer.

O político soltou a galinha no chão e se afastou um pouco dela.

Pegou um punhado de grãos de trigo, começou a caminhar pela sala e a atirar os grãos de trigo ao chão, enquanto seus colaboradores viam, assombrados, como a galinha, assustada, dolorida e sangrando, corria atrás do político e tentava agarrar algumas migalhas, dando voltas pela sala.

A galinha o seguia fielmente por todos os lados.

Então, o político olhou para seus ajudantes, que estavam totalmente surpreendidos, e lhes disse:

– Assim, facilmente, se governa os estúpidos. Viram como a galinha me seguiu, apesar da dor que lhe causei? Tirei-lhe tudo, as penas e a dignidade, mas, ainda assim, ela me segue em busca de farelos.

Assim é a maioria das pessoas que seguem seus governantes e políticos, apesar da dor que estes lhes causam e, mesmo lhe tirando a saúde a educação e a dignidade, pelo simples gesto de receber um benefício barato ou algo para se alimentar por um ou dois dias, o povo segue aquele que lhe dá as migalhas do dia.



O cântico da Terra

Cora Coralina*


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


*Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi uma poetisa e contista brasileira.

Nascimento: 20 de agosto de 1889, Goiás - Falecimento: 10 de abril de 1985, Goiânia, Goiás.


Fragmentos da História do Brasil

A tragédia de Osório


Falta à nossa literatura Shakespeare, quem sabe Balzac, para narrar a tragédia amorosa de um grande herói da Pátria. Em 1829, o general Osório era tenente em Rio Pardo e se apaixonou por Ana, filha de próspero fazendeiro da região.

O fazendeiro, aparentado com poderosos do Império, opôs-se ao romance porque Osório era homem pobre. Para separar os namorados, conseguiu que o Exército o transferisse para uma guarnição da fronteira.

No exílio, Osório escrevia diariamente a Ana. Jamais recebeu resposta porque as cartas eram interceptadas pelo fazendeiro.

Mesmo sem notícia do bem-amado, Ana manteve-se fiel. Quando o pai decidiu casá-la com um parente rico, desesperada escreveu a Osório, pedindo que viesse buscá-la, para fugirem.

Por azar, o portador da carta adoeceu no meio da viagem. Quando Osório recebeu o apelo, era tarde. Ao chegar em Rio pardo, Ana havia casado na véspera.

Osório voltou para a fronteira e só muitos anos mais tarde teve olhos para outra mulher. Quanto a Ana, adoeceu de desgosto e faleceu antes que o indesejado casamento completasse um mês.

Pedro I e a francesa


Falta também ao Brasil um Bocaccio para relatar a crônica galante do Imperador Pedro I. O episódio, envolvendo a francesa Louise Saisset, cabeleireira e seu marido Antoine, dono de uma loja de modas, é digno de figurar no Decameron.

Apaixonado pela mulher, D. Pedro ordenou o seu camareiro, Chalaça, que chamasse o lojista ao Palácio e ali o retivesse, sob qualquer pretexto, enquanto se divertia com Louise na residência do casal.

Antoine, metido em contrabando, desconfiou que a conversa espichada escondesse a intenção de prendê-lo. Aproveitou a primeira distração para fugir, chegando esbaforido em casa.

D. Pedro estava à vontade no quarto do casal quando entrou o marido. O primeiro impulso foi jogar-se pela janela, mas a cabeleireira o impediu, para evitar escândalo. Enfaixou-lhe a perna e contou a Antoine que Sua Majestade – oh! que desgraça! – caíra do cavalo nas proximidades e torcera o joelho. Socorrera Sua Majestade e o trouxera para casa, de onde não poderia sair nas próximas 24 horas, por recomendação médica.

Naquela noite, Antoine Saisset dormiu no sofá da sala, enquanto sua prestimosa mulher cuidava, com desvelo, do Imperador do Brasil.

Os amores de Tiradentes


Perpétua Mineira viveu no Rio de Janeiro ao tempo da Inconfidência. Dizem que foi amante de Tiradentes. Não deixou rastro e não ser em crônicas de Joaquim Manoel de Macedo, que recolheu dos mexericos de ruas. Enjeitada em Minas Gerais, dera com os costados no Rio. Ganhou o nome porque gostava de perpétuas, flores tidas por agourentas.

Perpétua abriu restaurante na Rua do Ouvidor, freqüentado por Tiradentes. Os dois se apaixonaram à primeira vista.

Até aí, nenhuma novidade. Tiradentes era chegado a amores vadios por desilusão com a única noiva que teve, Antônia Maria Espírito Santo, que lhe foi infiel.

Quando Tiradentes foi executado em 1792, dizem que Perpétua encontrou junto da forca, manchado de sangue, o lenço com as iniciais do alferes, que bordara para ele, havia três anos, pouco antes de ser preso.

A história é pouco provável. Se Perpétua Mineira teve vida real, cultivou flores e bordou lenços, não esperou três anos para ver o bem-amado estrebuchar na forca. Com o terror imposto ao Rio de Janeiro e à Vila Rica, para reprimir qualquer veleidade revolucionária, logo que Tiradentes foi preso ela deu às de Vila Diogo, como se falava então.

Ou, como diríamos hoje, deu no pé, sem flores nem lenço nem documento.

A morte de um herói


Biografia curiosa é a de um cão vira-latas que um dia entrou no 31° Batalhão de Voluntários do Rio de Janeiro e foi adotado pelos soldados. Ganhou o nome de Brutus. Quando estourou a Guerra do Paraguai, recebeu o posto de mascote e seguiu para a frente de batalha.

A crônica do 31° Batalhão de Voluntários registra a bravura de Brutus. Enfrentava os paraguaios de igual para igual, com as armas que tinha: dentes e latidos. Ferido em ação, mesmo assim continuou com grande garbo, mordendo e latindo para o inimigo.

Finda a guerra. Brutus voltou para o Rio de Janeiro, coberto de glórias. Passou a ter no quartel tratamento digno de herói. Entrava e saía à hora que bem entendia. Tinha hábitos previsíveis: carimbava o poste mais próximo e rendia homenagem às cadelinhas da vizinhança.

É triste o destino dos velhos soldados. Em um desses passeios, um mata-cachorros da Prefeitura do Rio de Janeiro, incapaz de distinguir um grande herói de um mero cão vadio, jogou-lhe carne envenenada.

Brutus morreu na rua, fulminado pela estricnina. Seu corpo foi empalhado. Hoje é peça no Museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro.


(Do livro “Notas Curiosas da Espécie Humana”, de Jayme Copstein)

sábado, 19 de agosto de 2017

Cal viva no Natal



João Cândido sendo preso

Graças ao papel desempenhado por Rui Barbosa, a Revolta da Chibata terminou com um decreto anistiando todos os revoltosos e pondo fim aos castigos físicos. Até então, como mostro em “História Regional da Infâmia”, as penas eram estas: “Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo”. Como se viu, o marujo Marcelino recebeu 250 chibatadas. A anistia, porém, durou três dias. Outro decreto, de 28 de novembro de 1910, autorizou “a baixa, por exclusão, das praças do Corpo de Marinheiros Nacionais, cuja permanência se tornar inconveniente à disciplina”.

A limpeza dos quadros aconteceu em 7 de dezembro. Três dias depois, sem qualquer ligação direta com os revoltosos da questão da chibata, estourou uma nova revolta, na Ilha das Cobras. O governo ordenou o bombardeio do local. Mário Maestri, em “Uma História da Revolta da Chibata”, precisa: “A esquadra inglesa prestou bons serviços ao massacre, iluminando, durante a noite, com os potentes holofotes de seus navios, os marinheiros encurralados”. A ilha tornou-se um monte de escombros. João Cândido, apesar de ter cumprido as ordens dos superiores, embarcado no Minas Gerais, foi preso, assim como seus companheiros “anistiados”. Ele e mais 17 homens foram enfiados na solitária número 5 da prisão da Ilha das Cobras, onde não cabiam mais de seis prisioneiros.

Jogaram cal viva na cela escavada na rocha. O comandante Marques da Rocha foi passar a noite de Natal em casa e levou a chave da solitária com ele. Um trecho de “João Cândido, O Almirante Negro”, de Alcy Cheuiche, revela o horror daquela noite de 25 de dezembro de 1910: “João Cândido não grita por socorro. Precisa poupar o fôlego para seguir respirando. Os que mais gritaram foram os primeiros a desmaiar uns sobre os outros. O pó de cal entra por suas narinas e parece lhe queimar a garganta, forçar caminho para os pulmões fechados. Sem água há dois dias, recolhe na concha da mão um pouco da própria urina e bebe com sofreguidão. Seus pés descalços pisam nos corpos dos companheiros”. Dezesseis homens morreram ali.

O Almirante Negro sobreviveu. O promotor João Pessoa, cujo assassinato seria o estopim da Revolução de 1930, pediu 20 anos de pena para Marques da Rocha. Ele foi absolvido pelo Conselho de Guerra. Os marinheiros foram condenados ao degredo no Acre. Maestri resume: “A viagem constituiu uma sucessão de bárbaros assassinatos, a sangue-frio. Já no dia seguinte à partida, às 23h, impacientes, os oficiais da escolta determinaram o fuzilamento do marinheiro Hernani Pereira dos Santos e a prisão a ferros, como animais, de sete outros anistiados”. E completa: “Na noite de 1° de janeiro de 1911, apenas o navio se afastara da cidade, o comandante e os três tenentes ordenaram a execução de mais quatro marinheiros”. Foram nove os executados. Absolvido em 1912, João Cândido continuou banido. O Brasil ainda não pagou aos seus familiares o que deve ao Almirante Negro.


João Cândido antes de seu falecimento

Juremir Machado da Silva: juremir@correiodopovo.com.br


Os 10 alimentos mais saudáveis do mundo



O nutricionista e psicólogo americano Jonny Bowden  esteve no ano passado no Brasil para lançar o livro “As Refeições mais Saudáveis do Mundo”. Com doutorado em Nutrição pela Universidade Clayton pela Saúde Natural, ele se dedica há mais de duas décadas  à pesquisa dos alimentos e aqui enumera quais são os dez mais saudáveis do mundo e que deveriam fazer parte do nosso cardápio diário:

01 → Sardinha: é rica em proteínas e possui minerais essenciais, como magnésio, ferro e selênio, que têm ação anticancerígena. Esse tipo de peixe também ajuda o organismo a liberar o mercúrio e tem altas concentrações de Ômega 3, um tipo de gordura “boa”, essencial para o funcionamento do cérebro, do coração e para a redução da  pressão arterial. As sardinhas são chamadas de “comida saudável em lata” por Bowden, que aconselha que sejam compradas as preservadas no próprio óleo ou em azeite, quando não puderem ser consumidas frescas.

02 → Repolho: as folhas do vegetal contêm grandes concentrações de substâncias antioxidantes e anticancerígenas chamadas de indoles e sulforafanos. Uma pesquisa da Universidade de Stanford, nos EUA, apontou o sulforafano como a substância química achada em plantas que mais eleva o nível de enzimas  anticancerígenas no organismo.

03 → Folha de beterraba: geralmente jogada fora, é rica em vitaminas, minerais e antioxidantes. Contém carotenóides, pigmento natural dos vegetais que ajuda a proteger os olhos contra o envelhecimento. Bowden afirma que a beterraba em si também é um dos alimentos mais ricos que existem. As folhas podem ser comidas cruas na salada ou refogadas, como espinafre.

04 → Açaí: em suco ou misturado à comida, como é feito no norte do país, o açaí é uma das frutas com maior concentração de antioxidantes. Também é rica em gorduras monoinsaturadas e  poliinsaturadas, que são benéficas e auxiliam na redução do colesterol ruim e na prevenção de doenças cardíacas. Para Bowden, os brasileiros que não consomem a fruta com frequência desperdiçam a benção que a natureza lhes deu.

05 → Goiaba: rica em fibras, minerais e vitaminas. Também possui grandes quantidades de licopeno, o mais antioxidante entre todos os carotenoides. O licopeno auxilia na prevenção do câncer de próstata e reduz os riscos de surgimento de catarata e doenças cardiovasculares.

06 → Cereja fresca: tem altas concentrações de antocianina, um antiinflamatório natural. Deve ser comida ao natural ou misturada com iogurte ou vitaminas.

07 → Chocolate meio-amargo: rico em flavanoides, que diminuem a pressão sanguínea e promovem o bom funcionamento do sistema circulatório, tem altas concentrações de magnésio, um mineral importante para mais de 300 processos biológicos do organismo.

08 → Frutas oleaginosas: são as castanhas, as nozes e as amêndoas. Bowden afirma que todas trazem inúmeros benefícios, apesar do elevado teor calórico. Possuem muitos minerais, proteínas e altos níveis de Omega 3 e Omega 9.

09 → Canela: ajuda a controlar o nível de açúcar e de colesterol no sangue, o que previne o risco de doenças cardíacas. Para usufruir dos benefícios da especiaria, basta polvilhar um pouco de canela em pó no café ou no cereal matinal.

10 → Semente de abóbora: é uma grande fonte de magnésio. Esse mineral é tão importante, explica Bowden, que estudiosos franceses concluíram que homens com altas taxas de magnésio no sangue têm 40% menos chances de sofrer uma morte prematura do que aqueles com baixos índices. Para consumi-las, toste-as no forno e coma-as por inteiro, inclusive com a casca, que é rica em fibras.


Fonte: Matéria publicada na Revista Época


Calendário Positivista

O Positivismo é uma corrente filosófica cujo iniciador principal foi Augusto Comte (1798-1857). Surgiu como desenvolvimento filosófico do Iluminismo, a que se associou a afirmação social das ciências experimentais. Propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente teologia ou metafísica. Assim, o Positivismo - em sua versão comtiana, pelo menos - associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.

O antropólogo estrutural Edmund Leach descreveu o positivismo em 1966 na aula Henry Myers da seguinte forma: "Positivismo é visão de que o inquérito científico sério não deveria procurar causas últimas que derivem de alguma fonte externa mas sim confinar-se ao estudo de relações existentes entre factos que são diretamente acessíveis pela observação."

Todavia, é importante notar que a palavra "Positivismo" não é unívoca, pois inúmeras correntes de outras disciplinas assumem o nome de "positivistas" sem guardarem nenhuma relação com a obra de Comte. Exemplo paradigmático disso é o Positivismo Jurídico, do austríaco Hans Kelsen e do italiano Norberto Bobbio. Neste artigo trataremos apenas e tão-somente do que se refere à obra de Augusto Comte, deixando de lado outras correntes, quer tenham o título de "positivistas", quer não tenham.

O Positivismo fez grande sucesso na segunda metade do século XIX, mas, a partir da ação de grupos contrários (marxistas, comunistas, fascistas, reacionários, católicos, místicos), perdeu influência no século XX. Todavia, desde fins do século XX ele tem sido redescoberto e revalorizado como uma forma de perceber o homem e o mundo, a ciência e as relações sociais.


Augusto Comte

(1798 – 1857)

Ano do calendário positivista se divide em 13 meses de 4 semanas ou 28 dias, mais um dia complementar e festa universal dos mortos. É um dia bissexto, festa geral das santas mulheres, no fim do ano, sem nome de mês nem de semana.

Assim o calendário é uniforme e perpétuo. Todos os anos e meses começam em lunedia (segunda-feira). Os dias da semana são denominados: lunedia, martedia, mecuredia, jovedia, venerdia, sábado, domingo.

Os 13 meses do calendário positivista têm caráter histórico e cronologicamente são:

 1.° mês Moisés, representa a teocracia antiga;
 2.° mês Homero, a poesia antiga;
 3.° mês Aristóteles, a filosofia antiga;
 4.° mês Arquimedes, a ciência antiga;
 5.° mês César, a civilização militar;
 6.° mês São Paulo, o catolicismo;
 7.° mês Carlos Magno, a civilização feudal;
 8.° mês Dante, a epopéia moderna;
 9.° mês Gutenberg, a indústria moderna;
10.° mês Shakespeare, o drama moderno;
11.° mês Descartes, a filosofia moderna;
12.° mês Frederico, a política moderna;
13.° mês Bichat, a ciência moderna.

História dos Ritmos Gaúchos



Valsa

O compasso ternário como dança é muito antigo. Originária das danças tirolesa austríacas. Entretanto com o título de valsa somente aparece no Séc. XVII e se realiza nos bailados de óperas no Séc. XVIII. Chega ao seu apogeu no Séc. XIX, com as "Valsas Vienenses" estilizadas pelos músicos e compositores da família Strauss.

Veio para o Brasil nos fins do Séc. XVIII era conhecida "valsa figurada", trazida pelos portugueses. No Século XIX foi difundida e dançada a valsa de par com todas as pompas do Reino e do Império. Hoje, no sul do país a valsa ganhou seu estilo próprio, ritmo e dança. Adaptou-se aos costumes e maneiras do peão gaúcho.

Chotes

Dança de salão originária da Hungria. O "Schottisch" invadiu a França, Alemanha e Inglaterra no Séc. XIX. Apareceu no Brasil no período Regencial e foi moda no Segundo Império. De norte a sul o chotes é uma dança muito popular, cantado ou somente em solo instrumental. É dançado em pares com três passos comuns diferentes: um e um, dois e dois ou dois e um. No Rio Grande do Sul, além dos passos comuns, dança-se o chotes marcado e também, principalmente, entre os descendentes da imigração açoriana, dançam o chotes afigurado sem limites de passos e figuras.

Em Santa Catarina também é dançado os passos comuns, chotes afigurado, chotes marcado e chotes contrapasso. No Paraná, além dos passos comuns é mais dançado o chotes marcado, ou seja: uma marcação e um valseio de um em um passo. Nas colônias de origem alemã e italiana dança-se chotes de carreirinha e chotes de quatro passos.

Milonga

Dança argentina ao som de guitarras muito popular no Uruguai de onde entrou para o Brasil. Hoje aculturada no pampa gaúcho, faz parte do acervo musical do sul brasileiro. Rancheira. Dança de origem árabe. Trazida e estilizada na Argentina. No rio Grande do Sul o ritmo é mais vivo e a coreografia mais saltitante, estilo popular.

Vanera

Habanera ou Havanera - dança e canto popular originária de Havana - Cuba. Ritmo em 2/4 sendo o primeiro tempo forte e bem acentuado. Música popular em quase todos os países hispano-americanos. No Rio Grande do Sul foi muito usada pelas Bandas das colônias de imigração italiana. Nos campos, os gaiteiros gaúchos denominavam de "vanera" e fez deste ritmo o mais amplo repertório para animação de fandangos, bailantas e festas gauchescas.

Bugio

"Bugiu" de Bugio - ritmo gaúcho de origem muito remota - fins do Séc. XIX. Dança de peões com chinas indígenas, sob qualquer som musical da época. No início do Séc. XX já era dançado ao som de gaitas de botão, mas ainda como dança não social. Na década de 50 o bugiu foi requintado com arranjos de gaitas apianadas e na década de 60 passou a Ter letra própria enfocando a presença do macaco bugio no contexto da letra. Hoje o Bugiu é dança de salão e deu origem a grandes festivais como "Ronco do Bugiu"  em  São  Francisco  de  Paula e "Querência do Bugiu" em São Francisco de Assis.


Fonte: livro SOM BERTUSSI, Adelar Bertussi e Waldir Teixeira


Bloco dos democratas



A letra do samba “Plataforma”, de João Bosco e Aldir Blanc, lançado em 1977 no LP “Tiro de Misericórdia”, que sintetiza o espírito que norteia a alegria de brincar sem censuras ou regulamentos nas ruas de uma cidade, mas na verdade era uma mensagem dirigida à ditadura militar do Brasil, que queria guiar o destino de todos os brasileiros dentro de sua ótica de impor ideias e comportamentos.

Não põe corda no meu bloco,
nem vem com teu carro-chefe,
não dá ordem ao pessoal.

Não traz lema, nem divisa
Que a gente não precisa
Que organizem nosso carnaval.

Não sou candidato a nada
Meu negócio é madrugada
Mas meu coração não se conforma
O meu peito é do contra
E por isso mete bronca
Nesse samba plataforma;

Por um bloco,
Que derrube esse coreto,
Por passistas à vontade
Que não dancem o minueto;

Por um bloco,
Sem bandeira ou fingimento
Que balance e bagunce
O desfile e o julgamento;

Por um bloco,
Que aumente o movimento
Que sacuda e arrebente
O cordão de isolamento.

Não põe no meu...



João Bosco de Freitas Mucci, mais conhecido como João Bosco, (Ponte Nova, 13 de julho de 1946) é um cantor, violonista e compositor brasileiro.

Aldir Blanc Mendes (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946) é um compositor e escritor brasileiro.

Leito de Procusto



Quanto ao leito de Procusto o Dicionário Aurélio Eletrônico explica o que seja:

1. Leito de ferro onde, segundo a mitologia grega, este famigerado salteador estendia aqueles que capturava, cortando-lhes os pés quando o ultrapassavam e estirando-os quando não lhe alcançavam o tamanho.

2. Por extensão. Situação independente da vontade do indivíduo em que este peca e sofre as consequências, quer por excesso, quer for falta.

Quem já ouviu falar de Procusto? Segundo a lenda, ele foi um ladrão que vivia próximo à Elísios, na Ática. Originalmente chamado de Damastes ou Polípemon, ele adquiriu o nome de Procusto ("o Estirador") porque obrigava suas vítimas a se deitarem num leito de ferro e cortava-lhes os pés quando excediam o tamanho deste, ou esticava-os com cordas quando não o atingiam.

Segundo a mitologia, Procusto era o soberano de um pequeno reino que se situava no caminho para a Grécia, onde os viajantes se hospedavam freqüentemente. Nesse reino, os hóspedes eram sagrados e recebidos como príncipes, tudo era feito visando seu bem estar.

O rei, ansioso em agradar seus hóspedes resolveu criar uma cama perfeita, onde o visitante poderia descansar e se refazer das agruras da viagem. Depois de anos de rigorosos estudos e experimentos, o rei julgou ter chegado às medidas e proporções ideais, e concebeu um leito, onde um homem ideal estaria encaixado em perfeita "harmonia". À noite, quando um hospede ia deitar-se, Procusto ordenava que seus serviçais "auxiliassem" o mesmo a adequar-se ao leito, esticando-o ou cortando os "excessos" de seu corpo, e infelizmente, poucos sobreviviam à sua hospitalidade e boas intenções. Seu nome real era Damastes, Procusto, que significava "o esticador", era seu apelido.


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Histórias pitorescas da bossa nova



Todo mundo ouvia falar muito de João Gilberto. Diziam que era um cara maluco, que já havia sido internado, vivia de cabelo enorme, barbado e que, como um vampiro, só saía à noite.

Certo dia, chegou à casa de Ronaldo Bôscoli. Não era nada do que diziam as más línguas.

Cabelo cortado, barba feita, sapato engraxado e, claro, um violão debaixo do braço. Tocou um violão fantástico que deixou todo mundo boquiaberto e explicou que tinha brigado com o Tito Madi, não tendo para onde ir. Já era madrugada quando João, convidado pelo Bôscoli, mudou-se para o pequeno quarto-e-sala do Edifício Haiti onde já moravam, além do Bôscoli, Mièle e um empregado chamado Chico. Cinco “artistas” num quarto-e-sala.

Era um sujeito de hábitos muito estranhos. Ficava horas ao telefone, horas no banheiro, para desespero dos outros moradores. Dormia vestido, com uma gravata tapando os olhos. Ficava,como um morto, em decúbito dorsal. Sempre muito limpo, muito asseado.

Havia um sistema para compras de mantimentos para a casa em que todos cooperavam. Só que o João Gilberto só comprava o que gostava: Tangerina!

Ia pra rua de madrugada, passava na feira e comprava quilos de tangerina. Chegava por volta das seis horas e acordava todo mundo, cantando as músicas do dono da casa, Ronaldo Bôscoli. Aprendeu “Lobo Bobo” (que o Bôscoli fez para a Nara) e “Saudade fez um Samba”, com acordes magníficos, deslumbrando a todos.

Certo dia disse ao Ronaldo (a quem ele chamava de “Ronga”):

- Que suéter bonito, Ronga! Vocês cariocas têm bom gosto! Me empresta?.

O coitado do Bôscoli emprestou o lindo suéter que ficou pra sempre com o “cara-de-pau”.

Quem quiser vê-lo, compre o primeiro LP que gravou: “Chega de Saudade”. O suéter está lá.


Capa do primeiro LP gravado por João Gilberto em 1959.
Na foto, João Gilberto está com o famoso suéter.




Duas histórias chinesas



I

Honestidade Insincera

(Adaptação de uma lenda chinesa)

No reinado de Ts’u havia um jovem chamado Honesto. Seu pai roubou uma ovelha e ele foi avisar o juiz, que mandou prender o culpado e resolveu puni-lo. O jovem Honesto pediu para arcar com a pena em lugar do pai. E, no momento em que o castigo ia ser aplicado, dirigiu-se ao oficial:

– Quando meu pai roubou a ovelha e eu dei parte, não agi com honestidade? Quando meu pai ia receber o castigo, não estaria eu, como filho, honrando meu pai? Se forem punidos igualmente o honesto e o filial, quem haverá de não ser punido em todo o reino?

Ao ouvir essas palavras, o juiz soltou rapaz. Quando Confúcio ouviu a história, disse:

– Estranho! Um rapaz sujar o nome do pai para criar uma reputação para a própria honestidade! Se isso fosse honestidade, seria melhor ser desonesto.

II

Suspeita Injusta

(Adaptação de uma lenda chinesa)

Um certo homem perdeu um machado. Suspeitou imediatamente que o filho do vizinho o havia roubado. Assim que avistou o menino, teve a impressão de estar vendo um sujeito que acabara de roubar um machado; quando o ouviu falar, suas palavras soaram como as de alguém que acabara de roubar um machado. Todas a suas atitudes e gestos eram os de quem acabara de roubar um machado.

Mais tarde, quando estava cavando uma vala, encontrou o machado perdido.

No dia seguinte, ao tornar a ver o filho do vizinho, achou que suas atitudes e gestos não eram mais as de quem acabara de roubar um machado. O menino não mudou, quem mudou foi o homem! E a única razão para essa mudança morreu em sua suspeita.


(“O Livro das Virtudes” – uma antologia de William J. Bennett)
Editora Nova Fronteira


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Caolha


Júlia Lopes de Almeida


Ilustração de Alex Trimurti

A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados.
O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante.
Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda gente.
Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa fábrica de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se a pouco e pouco manifestando na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora…
Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se.
Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal.
Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe pagasse com um beijo todas as amarguras da existência?
Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para o triste coração de mãe! Mas… os beijos foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos braços e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão!
Ela compreendia tudo e calava-se.
O filho não sofria menos.
Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo – o filho da caolha.
Aquilo exasperava-o; respondia sempre:
– Eu tenho nome!
Os outros riam e chacoteavam-no; ele se queixava aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los – mas a alcunha pegou. Já não era só na escola que o chamavam assim.
Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!
Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar!
As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lanche, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros, e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:
– Taí, isso é para o filho da caolha!
O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado:
– Filho da caolha, filho da caolha!
O Antonico pediu à mãe que não o fosse buscar à escola; e muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas.
A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho.
Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo – o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio.
Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda: os seus colegas agruparam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua saraivada de cereais sobre o pobre Antonico!
Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta poupava-o: tinha medo que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!
Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: sr. Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali.
Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! Amava como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos negros como veludos e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento de esquecida ternura!
Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! Tornara a encontrar o seu querido filho! Pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:
– Sou muito feliz… o meu filho é um anjo!
Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjecturas.
Ao princípio pensava: – É o pudor.
Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia sujeitar a ser alcunhada em breve de – nora da caolha, ou coisa semelhante!
O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos!
Depois o seu rancor se voltou para a mãe.
Ela era a causadora de toda a sua desgraça! Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; iria considerar-se humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente…
Salvava assim a responsabilidade do protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento e amor…
Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe.
A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo engordurado. O Antonico pensou: “Ao dizer a verdade eu havia de sujeitar minha mulher a viver em companhia de… uma tal criatura?” Estas últimas palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
 – Limpe a cara, mãe…
Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou:
– Afinal, nunca me explicou bem a que é devido esse defeito!
– Foi uma doença, – respondeu sufocadamente a mãe – é melhor não lembrar isso!
– E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê?
– Porque não vale a pena; nada se remedeia…
– Bem! Agora escute: trago-lhe uma novidade. O patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja… já aluguei um quarto; a senhora fica aqui e eu virei todos os dias saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma coisa… É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!…
Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olhar desconfiado e medroso.
A caolha se levantou e, fixando o filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém:
– Embusteiro! O que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato!
O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha.
Ela o acompanhou, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se cabaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.
O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.
Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar a casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho – murcho e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.
Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava.
Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo o que houvera.
A madrinha escutou-o comovida; depois disse:
– Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está!
– Que verdade, madrinha?
Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho – queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz se arrependera das palavras que dissera e tinha passado a noite à janela, esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas… Via o porvir negro e vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação.
A madrinha do Antonico começou logo:
– O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito!
– Cala-te! – murmurou com voz apagada a caolha.
– Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha, rapaz! Quem cegou a tua mãe foste tu!
O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu:
– Ah, não tiveste culpa! Eras muito pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu o enterraste pelo olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!
O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:
– Pobre filho! Vês? Era por isto que eu não queria dizer nada!

*****

(Os cem melhores contos brasileiros do século – Objetiva)


Júlia Lopes de Almeida

Nascimento: 24 de setembro de 1862, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro;
Falecimento: 30 de maio de 1934, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida, nascida no Rio de Janeiro em 1862, demonstrou desde cedo interesse para a escrita e, apesar de a sociedade não considerar adequado esse trabalho para mulheres, ela teve o privilégio de receber o apoio do pai e, mais tarde, do marido.

Figura menor no criticado cânone da academia brasileira, que ainda inviabiliza muitas escritoras, publicou seu primeiro texto na Gazeta de Campinas, em 1881. Trabalhou como jornalista, dramaturga, cronista, romancista, além de escrever contos, inclusive infantis. Participou das reuniões para formação da Academia Brasileira de Letras, mas ficou de fora por ser mulher. Seu marido, Filinto de Almeida, diz-se, foi eleito em sua homenagem.

Nas peças que escreveu, o drama das personagens femininas aponta para a falta de perspectiva e resignação do casamento e as possibilidades de realização na vida de solteira. Isso é representado através do abandono ou impossibilidade dos estudos da futura esposa, o sonho de realização profissional que lhe é proibido.  E, na mulher que foge do casamento arranjado, faz-se sentir a esperança. Também mostra o papel da própria mulher que reproduz o machismo se imbuindo do poder opressor, representando o controle que possui e a humilhação que proporciona.

Quando descreveu cidades como Santos e Rio de Janeiro em suas crônicas, é possível sentir o clima de um Brasil recém-república no qual as concepções urbanas higienistas (física e moral), que se espelhavam em padrões europeus, somados com um quê de belle époque brasileira, davam um tom de encantamento com uma urbanidade produzida e excludente. Ecos de crítica também acabam ressoando em seus textos, contudo há sempre uma limitação latente: Júlia Lopes de Almeida possuía claras demarcações em seus escritos.

Pode-se pensar em concessões que se obrigava a praticar para garantir seu lugar, mesmo que diminuído, entre os escritores da época. Contudo, é importante refletir sobre qual tipo de mulher Júlia representa: uma mulher branca, privilegiada e letrada, que, embora defenda a educação e vida profissional das mulheres, muitas vezes associa a necessidade destas conquistas ao papel que a mulher deveria exercer na época. O caráter restrito de sua crítica reflete um posicionamento que evita o enfrentamento direto, utiliza um discurso que pode até ser considerado atenuado, porque tenta se inserir num meio hostil, podendo falar de suas reflexões, vez por outra, por suas personagens e narrações, como em A Caolha.