sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os dias eram assim...


Aos Nossos Filhos

Ivan Lins
(1945)
  
Perdoem a cara amarrada,
Perdoem a falta de abraço,
Perdoem a falta de espaço,
Os dias eram assim...

Perdoem por tantos perigos,
Perdoem a falta de abrigo,
Perdoem a falta de amigos,
Os dias eram assim...

Perdoem a falta de folhas,
Perdoem a falta de ar,
Perdoem a falta de escolha,
Os dias eram assim...

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim.

Quando lavarem a mágoa.
Quando lavarem a alma.
Quando lavarem a água.
Lavem os olhos por mim.

Quando brotarem as flores.
Quando crescerem as matas.
Quando colherem os frutos.
Digam o gosto pra mim.


→ A foto da capa do disco Ivan Lins/Nos dias de hoje traz, para facilitar a vida dos censores, a foto dele de frente e de perfil, com se autoidentificasse como um elemento a ser fichado pelos órgãos de segurança.



Os dias eram assim...

Se pensarmos nos compositores que se posicionaram contra a ditadura (Chico Buarque, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e seus parceiros) e escolhermos as canções engajadas que compuseram, sobretudo ao longo da década de 1970, Aos Nossos Filhos é uma das mais fortes.

É uma canção de ninar. Nas três primeiras estrofes, a letra fala do presente (o momento em que foi escrita)* como se ele já fosse passado. Perdoem por isso, perdoem por aquilo, os dias eram assim. Quem ouviu na época sabe o efeito que tinha!

*Na foto acima de Ivan Lins, vemos a data do disco: 14.05.78 (1978) em plena ditadura militar no Brasil.

As três últimas estrofes falam do futuro como se o autor (ou a intérprete) não fosse mais estar vivo. Quando ocorrer isso, quando ocorrer aquilo, façam a festa por mim.**

A morte prematura de Elis Regina, intérprete definitiva da canção, acabou conferindo mais beleza e melancolia à letra de Vítor Martins.

Nos últimos tempos, sempre que ouço Aos Nossos Filhos, o “façam a festa por mim” cola nos meus ouvidos.

O verso vem sempre acompanhado por uma pergunta: Que festa podemos fazer?

Texto de Sílvio Osias

**Que seria a volta da democracia, que só viria quatro anos depois.


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