quarta-feira, 21 de junho de 2017

Poderosa Capitu



Por Beth Brait*

As grandes obras, além de falar do mundo e dos homens de forma inusitada, têm a qualidade de dialogar com outras criações, reaparecendo sob diversas formas, em diferentes momentos. Esse é o caso da personagem Capitu, protagonista do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Se considerarmos a primeira edição da obra como sendo a data de seu nascimento, podemos dizer que Capitu está entre nós desde 1889. Daí em diante, nunca mais deixou de causar polêmica e provocar admiração. Graças à sua intrigante maneira de ser e às dúvidas que pairam sobre um possível adultério, muitas reaparições já foram e continuam sendo promovidas. Da lista, para ficarmos só em algumas, fazem parte: Capitu sou eu, coletânea de contos de Dalton Trevisan, Amor de Capitu, adaptação literária de Fernando Sabino e Capitu, roteiro para cinema que Lígia Fagundes Telles escreveu com Paulo Emílio Salles Gomes. Isso sem contar a quantidade de sites e blogs que se intitulam Capitu ou existem para discutir essa intrigante criatura machadiana.

A MPB também se rendeu à sedução da personagem, como se comprova na canção Capitu, do compositor Luiz Tatit, que aparece no CD O Meio (Selo Dabliú, São Paulo, 2000). Nessa obra, o autor constrói, com engenho e arte, a dimensão de um feminino, de um forte imaginário sobre a mulher, que, vindo do século XIX literário, chega ao século XXI via internet. Mesmo quem jamais ouviu falar da personagem (o que é difícil, mas não impossível), terá, nos versos da canção, as características da Capitu machadiana, musicalmente simuladas. Dentre as qualidades de uma canção capaz de fazer reviver Capitu está o trabalho com a linguagem, com as riquezas da língua, criando um forte e vivo diálogo entre ficção literária, canção e internet.

*****

*Beth Brait é professora livre-docente da PUC-SP e da USP, autora, entre outros, de A personagem e ironia em perspectiva polifônica e organizadora-autora de Bakhtin: conceitos-chave e Bakhtin: outros conceitos-chave.

Capitu

(Luiz Tatit)

De um lado
Vem você
Com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto
Me conquista
Com seu dom

De outro
Esse seu site
Petulante
www
Ponto
Poderosa
Ponto com

É esse o seu
Modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia
Da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente
Amada amante
Você real é ainda
Mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir
Que é tão astuto
Com jeitinho
Alcança tudo
Tudo, tudo
É só se entregar
E não resistir
É capitular

Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

No site O seu poder
Provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício
Vício, vício
É só navegar
É só te seguir
E então naufragar

Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu 

(Revista Língua Portuguesa n° 20 – 2007 – Ano II)


segunda-feira, 19 de junho de 2017

É bom lembrar Paixão Cortes



Paixão Côrtes, 1947, aos 20 anos, acendendo a 1ª Chama Crioula

Em uma espécie de desabafo, na apresentação da obra “Tradicionalismo Gauchesco Nascer, Causas & Momento”, na qual João Carlos Paixão Côrtes, o criador do tradicionalismo, do estudo e pesquisa sobre folclore gaúcho relata como, junto com outros jovens, decidiu que era hora de “preservar, desenvolver, proporcionar uma revitalização à cultura rio-grandense”. E dar um basta ao hábito de se consumir “especialmente as sobras militares de guerra que os norte-americanos procuravam nos meter goela abaixo”. Era o pós-guerra, em 1947. Paixão Côrtes, um jovem nascido em Santana do Livramento em 12 de julho de 1927 – portanto estará completando 90 anos neste 2017 – se juntou a outros como ele, vindos de pontos distantes dentro do solo gaúcho, para complementar seus estudos na Capital, onde eram até ridicularizados pelas bombachas, botas, ponchos e por sorver um mate!

“O culto à bandeira e ao hino rio-grandense fora esquecido”, relata. Por isso, nesses dias de festas juninas, às quais ele dedicou muitas obras, é importante lembrar o trabalho do pesquisador sobre a importância da dança, da música e dos trajes na cultura gaúcha. Nas pesquisas, sem gravadores, ele, Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva, tinham que ouvir os mais velhos e guardar a música “de cabeça” até ter como reproduzir. Nas obras que escreveu – com recursos próprios, outras através do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, e algumas patrocinadas por empresas sensíveis ao tema – o folclorista, compositor, agrônomo e zootecnista Paixão Cortes aborda, entre outras, as festas de salão, dos galpões, manifestações folclóricas de tropeiros, religiosas e as Congadas da etnia negra, de Osório, do morro da Borússia.

Os mais jovens talvez nem saibam que foi ele, com quatro cavalarianos, do chamado grupo dos “oito” do colégio Júlio de Castilhos que, numa virada do dia 7 para o dia 8 de setembro de 1947, embeberam um pouco de querosene e gasolina numa vassoura e “colheram” uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria, no Parque Farroupilha, e levaram até o Julinho. Avivaram a chama de um lampião. Estava criada a Chama Crioula. A mesma que, em todas as Semanas Farroupilhas, ilumina os candeeiros de prédios públicos e de todos os mais de 4 mil CTGs do Brasil e mundo afora. Ele criou o 35, o primeiro, em 1948. É tempo de comemorar Paixão, o gaúcho modelo à estátua do Laçador, símbolo de Porto Alegre.

(Jurema Josefa – jornalista, no Correio do Povo, junho de 2017)



Paixão Côrtes e Barbosa Lessa


A estátua do Laçador, o governador Brizola e o escultor Caringi,
em 1958.


A estátua do Laçador

→ O Laçador foi criado em 1954 pelo artista Antônio Caringi que se espelhou no jovem tradicionalista Paixão Côrtes.

→ O Laçador é um monumento que representa o gaúcho tradicionalista pilchado com o laço na mão, bota, bombacha, lenço, camisa e a guaiaca.

→ Os moradores de Porto Alegre participaram de uma campanha com eleição dentro do projeto “Porto Amado'” em busca de um símbolo que representasse a cidade de Porto Alegre. Essa votação foi feita pela RBS e pelo Banco Itaú. Teve muitas urnas espalhadas nas agências do Banco Itaú, postos, jornais Zero Hora, também nos  shoppings, nas feiras livres e até mesmo nas escolas.

→ Pela Lei Suplementar nº 279, de 17 de agosto de 1992, a Câmara Municipal de Porto Alegre, instituiu oficialmente o Laçador como símbolo de Porto Alegre e, em 2001, ele foi tombado como Patrimônio Histórico da cidade.

→ Entretanto, a estátua ficava em um lugar de destaque onde todos que entrassem na cidade de Porto Alegre poderiam vê-la.

→ Em 2007, após 48 anos, foi transferido do seu local antigo o Largo do Bombeiro para o Sítio Laçador para que pudessem construir o viaduto Leonel Brizola.

→ Muitos moradores reclamam do lugar onde está o Laçador agora por que eles dizem que o Laçador era o ponto de referência de Porto Alegre porque qualquer lugar que você quisesse ir você sempre dizia “dobra a direito do Laçador”, “passa pelo o Laçador”, “dobra a esquerda no Laçador”. Mas agora ele está escondido porque as pessoas não dizem mais o mesmo sobre o Laçador, porque ele não está mais tão à vista e isso deixou os moradores de Porto Alegre decepcionados.

Bibliografia sobre a escultura

“O Laçador - História de um Símbolo”, Porto Alegre: 35 CTG, 1994,
por Paixão Côrtes.

domingo, 18 de junho de 2017

Entre aspas



“Falar muito não quer dizer que você saiba se comunicar.”
(Jim Carrey)

“Sabemos que você ainda está aguardando.
Não desligue. Isso atrasará ainda mais sua ligação.”
(Secretária eletrônica da operadora de TV a cabo)

“A roda que range pode ganhar mais óleo,
mas também é a primeira a ser trocada.”
(Marilyn Vos Savant)

“Você não é famoso enquanto a minha mãe não ouvir falar de você.”
(Jay Leno)

“Você precisa ser original, pois se for igual a uma outra pessoa,
para que vão precisar de você?”
(Bernadette Peters)

“Você nunca deve pisar nas pessoas para subir na vida,
mas pode passar por cima delas, se estiverem em seu caminho.”
(Star Jones)

 “Mais de um otimista ficou rico
comprando o negócio de um pessimista.”
(Robert G. Allen)

“O modo como vejo minha mãe mudou muito.
Ela era bem mais alta que eu quando eu era mais novo.”
(Howie Mandel)

“Um pai perfeito é uma pessoa com excelentes teorias
sobre como criar filhos, mas que não tem filhos.”
(Dave Barry)

“Diversão para toda a família é uma coisa que não existe.”
(Jerry Seinfeld)

“Seja bom e gentil com seus filhos,
eles não são apenas o futuro do mundo,
mas também aqueles que vão colocar você no asilo.”
(Dennis Miller)

“Dar um bom exemplo a seus filhos
só faz aumentar o constrangimento deles.”
(Doug Larson)

“Quando se trata de criar filhos, acredito em dar e receber.
Eu dou ordens e eles as recebem.”
(Bernie Mac)

“Existem vantagens em ser avô.
Você brinca, você dá, você ama,
aí você os entrega de volta aos pais e vai ao cinema.”
(Billy Cristal)

“Você não pode ter tudo. Onde iria guardar tudo?”
(Steven Wright)

“Fico sempre aliviado quando alguém faz um discurso fúnebre,
e me dou conta de que estou ali, ouvindo.”
(George Carlin)

“A idade não que dizer nada...
a não ser que você seja um queijo.”
(Bille Burke)

“Aprenda a desfrutar a sua própria companhia.
Você é a única pessoa com quem pode contar
para viver o resto de sua vida.”
(Ann Richards)

“Só há rugas onde houve sorrisos.”
JimmyBuffett)

“Cabelos é a primeira coisa. E dentes, a segunda.
Se um homem tem essas duas coisas, ele tem tudo.”
(James Brown)

“O telefone celular é a única coisa que leva os homens
a competir para ver quem tem o menor.”
(Neil Kinnock)

“Aqui está o segredo para um casamento feliz:
Faça o que a sua mulher mandar.”
(Denzel Washington)

“A coisa mais impressionante na minha mãe
é que durante 30 anos ela nos serviu apenas sobras.
A refeição original nunca foi encontrada.
(Calvin Trillin)

“Os homens desejam das mulheres
 o mesmo que querem de suas roupas íntimas:
um pouco de apoio e um pouco de liberdade.”
(Jerry Seinfeld)

“O amor é a resposta,
mas enquanto você está esperando pela resposta,
o sexo levanta algumas perguntas muito interessantes.”
(Woody Allen)

“A única maneira de se manter saudável,
é comer o que não se quer,
beber do que não se gosta
e fazer o que não se tem vontade.”
(Mark Twain )

“Cuidado ao consultar livros de saúde.
Você pode morrer por causa de um erro de impressão.”
(Mark Twain)

“Se você obedece a todas as regras,
perde toda a diversão.”
(Katharine Hepburn)

“Se Adão e Eva vivessem hoje,
provavelmente processariam a serpente.”
(Bern Williams)

“A verdadeira medida de um homem é maneira como ele trata alguém
 que não lhe pode fazer bem algum.”
(Ann Landers)

“Você já ouviu falar da nova igreja liberal?
Ela tem seis mandamentos e quatro sugestões.”
(Pretty Good Joke Book)

“O problema das pessoas que não têm vícios
é que elas têm certeza de que possuem algumas virtudes irritantes.”
(Elizabeth Taylor)

“Tudo está mudando.
As pessoas estão levando os comediantes a sério
 e os políticos na brincadeira.”
(Will Rogers)

“O homem sabe que está apaixonado
quando passa dois dias sem pensar no carro.”
(Tim Allen)

“O homem apaixonado está incompleto até se casar.
Aí ele está acabado.”
(Zsa Zsa Gabor)

“Dê ao homem um peixe, e ele terá comida por um dia.
Ensine-o a pescar e você se verá livre dele por todo o fim de semana.”
(Zenna Schaffer)

“Nunca pergunte ao seu barbeiro se você está precisando cortar o cabelo.”
(Warren Buffett)

Eu disse ao médico que quebrei a perna em dois lugares.
Ele pediu que eu parasse de ir a esses lugares.”
(Henny Youngman)

“Se você não tem nada de bom para falar dos outros,
sente-se aqui comigo.”
(Alice Roosevelt Longworth)

“Eu realmente não disse tudo que eu disse.”
Yogi Berra



(Do livro “Rir é o melhor remédio”, de Seleções Reader´s Digest)

A Disney que quase ninguém conhece



Castelo da Cinderela

→ Um elevador secreto no castelo da Cinderela conduz a uma luxuosa suíte raramente usada. Foi feita para Walt Disney, mas ele morreu antes da abertura do parque.

→ As pedras da parede do castelo são, na verdade, fibra de vidro. Ele tem 57,6 metros, altura-limite para não precisar de uma luz vermelha na ponta da torre, que serviria de alerta para o tráfego aéreo.

→ Por baixo do Magic Kingdom há uma rede de túneis com cozinhas, lavanderias e vestiários. O labirinto é no nível do solo e o parque, no 1° andar.

→ Cada área de Disney World tem uma cor de piso. As cores foram escolhidas para favorecer o contraste com os cenários e deixar as fotos mais bonitas.

→ Em nome da limpeza, não se vende chiclete nem se fornece canudo na Disney. Um sistema de sucção sob o calçamento remove o lixo que cai no chão.

→ Sensores sob as vias determinam a direção e a distância entre os carros alegóricos e garantem a sincronia dos famosos desfiles de personagens.

→ A base da Árvore da Vida, equivalente a um prédio de catorze andares, é uma plataforma de petróleo desativada, estrutura capaz de suportar a força até mesmo dos furacões da Flórida.

→ Até 2012, a Disney proibia aos funcionários usar barba e bigode. Agora é permitido, desde que a barba não passe de 0,6 centímetro e o bigode vá só até os cantos da boca.

(Revista Veja, maio de 2017)




sábado, 17 de junho de 2017

A canção de despedida de Ariano Suassuna


Ariano Vilar Suassuna (Paraíba, 16 de junho de 1927 ‒ Recife, 23 de julho de 2014) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor brasileiro.

Idealizador do Movimento Armorial e autor das obras Auto da Compadecida, O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, foi um preeminente defensor da cultura do Nordeste do Brasil.


→ Um dos blocos carnavalescos mistos mais tradicionais do Recife, o Madeira do Rosarinho, foi criado por Joaquim de França e um grupo de dissidentes, no dia 7 de setembro de 1926, por causa de divergências com a diretoria do antigo bloco Inocentes do Rosarinho.

→ Inicialmente, o grupo pensou em chamá-lo de Gogoia, por estar reunido embaixo de uma árvore dessa espécie, mas houve um consenso de que o nome não “soava bem”. Cogitou-se então chamá-lo Madeira que Cupim não Rói, por ser a gogoia uma madeira resistente. Por fim, optou-se por Madeira do Rosarinho.

→ Seu símbolo é um escudo, semelhante aos de clubes de futebol, nas cores vermelha, branca e verde, com uma figura mascarada no centro.

→ A sede do bloco, no bairro do Rosarinho (Rua Salvador de Sá, 64), é um local de entretenimento para a comunidade e para os recifenses em geral. Com capacidade para cerca de mil e quinhentas pessoas, o bloco realiza festas e bailes nos seus salões durante o ano todo, além dos dias de Momo.

→ Na quarta-feira de cinzas, o Madeira do Rosarinho sai às ruas com o Bacalhau do Madeira, bloco que arrasta uma multidão de foliões pela comunidade e seu entorno.

→ São destaques no seu repertório musical as marchas Me apaixonei por você, Pára-quedista (grafia da época) e, a mais famosa delas, Madeira que cupim não rói, composta por Capiba, em 1963, como uma forma de protesto contra o resultado do concurso de blocos daquele ano, que concedeu o primeiro lugar ao Batutas de São José, como diz, principalmente, a segunda estrofe da música.

Lúcia Gaspar, Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco.

(Frevo-canção cantado pelo povo do dia do seu enterro)



Madeira do Rosarinho

(Madeira que Cupim não rói)

Capiba

Madeira do Rosarinho,
Vem à cidade sua fama mostrar,
E traz com seu pessoal,
Seu estandarte tão original.

Não vem pra fazer barulho,
Vem só dizer e com satisfação.
Queiram ou não queiram os juízes,
O nosso bloco é de fato campeão.

E se aqui estamos cantando essa canção,
Viemos defender a nossa tradição.
E dizer bem alto que a injustiça dói.
Nós somos madeira de lei que cupim não rói.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Cordel político



O povo na cruz
(Leandro Gomes de Barros)

Alerta Brasil! Alerta!
Desperta o sono pesado.
Abre os olhos que verás
teu povo sacrificado,
‒ Entre peste, fome e guerra ‒
de tudo sobressaltado.

O brasileiro, hoje em dia,
luta até para morrer,
porque depois dele morto
tudo nele quer roer.
De forma que até a terra
não acha mais o que comer.
A fome come-lhe a carne,
o trabalho gasta o braço,
depois o governo pega-o,
há de partir o compasso:
‒ Estado, Alfândega, Intendência ‒
Cada um tira um pedaço.

Assim morre o brasileiro,
como bode, exposto à chuva
tem por direito o imposto.
A palmatória por luva:
A família só herda dele
nome de órfão e viúva.

Tudo agora levantou
(José Costa Leite)
Excertos

O povo sofre desgosto
com seca, fome e imposto,
capim santo e tira-gosto.
Teve gente que deixou
bolacha, manteiga e pão,
fava verde e fruta-pão,
alho, cebola e carvão
tudo agora levantou.

Levantou colher-de-pau,
corvina e bacalhau
e aveia para mingau.
O preço também mudou,
enfiador e sapato,
ganso, guiné, galo e pato,
não vê nada barato,
tudo agora levantou.

Subiu pressão e colchete,
brilhantina e sabonete.
Subiu gelada e sorvete,
caldo de cana aumentou
doce, peixe saboroso,
peixe seco catingoso
Até tabaco cheiroso
Tudo agora levantou.

Subiu lençol e toalha,
batata e chapéu de palha,
rabicho e pau de cangalha
faz tempo que alterou.
Subiu prego e subiu ripa,
barril, ancoreta e pipa,
até miolo de tripa
tudo agora levantou.
A carestia solando o pobre
(Cícero Vieira da Silva)
Excertos

A gente vive pensando:
Meu Deus aonde vou parar
ganhando pouco dinheiro,
não dá pra gente passar.
A carestia é sem fim,
a vida é de amargar.

Subiu todos comestíveis,
subiu arroz e feijão.
Subiu carne, mortadela,
a linguiça, camarão.
Subiu ovos de galinha,
talharim e macarrão.
A carestia no mundo
tem que apertar o nó.
Subiu café e o pão,
carne verde, mocotó
e a barriga dos pobres
breve vai para o gogó.

Ninguém sabe mais que faça
com a carestia no mundo.
A guerra vai arrebentar
em menos de um segundo.
Parece que o povo vai
se esconder no poço fundo.

A última viagem de bonde em Porto Alegre



Dia oito de março é uma data importante na Cia. Carris. Um dos motivos é a comemoração do Dia Internacional da Mulher que é sempre lembrado na empresa com a realização de homenagens às colegas trabalhadoras. Outro motivo é a lembrança de que foi num dia oito de março a última vez que os bondes elétricos circularam pelas ruas de nossa cidade.

Há quarenta sete anos, no dia oito de março de 1970, ocorreu a última viagem de bonde elétrico da Cia. Carris. Consultando o livro: “Memória Carris: Crônicas de uma História Partilhada com Porto Alegre”, temos a seguinte descrição do ocorrido:

“(...) O bonde circulou pela última vez em Porto Alegre, depois de 98 anos de serviço prestado à comunidade, em 8 de março de 1970. O dia foi um misto de luto, saudosismo e euforia. Trajando suas melhores roupas, pais, filhos, curiosos, ricos, pobres e pessoas das cidades vizinhas se acotovelavam na frente da sede da Carris, na Avenida João Pessoa, e nas paradas esperando a última viagem de bonde. Houve solenidade de despedida, à qual compareceram o Prefeito, o secretariado, autoridades civis, militares e eclesiásticas. O Sindicato dos Metroviários hasteou a bandeira do pavilhão a meio-pau, em sinal de luto. Circularam pela cidade, neste triste dia, as linhas G ‒ Gasômetro, T ‒ Teresópolis, e P ‒ Partenon. Toda a população pode usufruir do serviço dos elétricos gratuitamente. Às 20h30min, o último elétrico foi recolhido ao depósito de bondes. Alguns motorneiros e tripulação choravam solitários na frente da sede da Carris (...)”*.

A partir do texto, podemos constatar que este foi um dia de muita emoção. Um misto de entusiasmo com o futuro e saudades e apego pelo passado que se despedia. Quando saímos com o nosso ônibus memória, muitas pessoas nos perguntam o porquê do fim da circulação dos bondes. Depois da leitura de vários textos e da conversas com pessoas que viveram aquela época, constatamos que a união de vários motivos diferentes justificaram a substituição total do sistema de bondes pelo uso de ônibus. Interesses econômicos e a própria visão da população da época, que associava os bondes ao passado e o transporte rodoviário ao futuro, influenciaram nessa decisão. A verdade, entretanto, é que os bondes elétricos continuam muito presentes na lembrança dos porto-alegrenses mais antigos.

*SILVA, Cinara Santos da/ MACHADO, João Timotheo Esmerio, “Memória Carris: Crônicas de uma História Compartilhada com Porto Alegre”. Porto Alegre, Prefeitura Municipal, 1999. Pags; 75-76.

Fotos dos últimos bondes a circular em Porto Alegre


Última viagem do bonde da linha Partenon.


Última viagem de bonde da linha Gasômetro. Na porta, 
o jornalista Archimedes Fortini. 


No centro da foto, de camisa branca sem mangas, 
Telmo Thompson Flores, o prefeito que acabou com os bondes.


Bonde ornado com flores para a última emocionante viagem...

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Duas letras interessantes de músicas

As ciladas da vida


Suponhamos que você, na noite, conheça uma garota de programa. Jovem, linda, sensual, e que lhe conta a história da sua vida. Uma moça normal, cheia de projetos e sonhos, vinda do interior e, por alguma razão, dá um escorregão da vida, resolve se prostituir. Então, você se apaixona pela moça. Vivem momentos felizes por um certo tempo, e, depois alguns meses, você  começa a notar que a moça já não é mais a mesma. Seu olhar não tem mais aquele brilho e aquela intensidade que fez você se apaixonar por ela.

Depois de algum tempo, pela liberdade que você deu a essa mulher, ela conhece alguém. Ela volta a sorrir, seu olhar volta a brilhar e ela o abandona.

Mas você sabe que pelo seu temperamento inconstante ela também vai abandonar esse novo amor. Se ela, pelo menos, tiver uma conduta correta, longe de “programas”, será a sua única felicidade, como narra o compositor Marquinhos Satã na letra da música abaixo, que pode ser ouvida na internet na voz do próprio compositor.

Cilada

Marquinhos Satã

Eh! Mulher,
Me comovi com sua história,
Após se perder na vida,
Tão decidida, querendo se encontrar,
Sem ninguém pra acreditar.

Eh! Mulher,
No início foi meu lado humano,
Fui aos poucos me entregando,
Me apaixonando,
Então foi pra valer
Que eu te fiz meu bem querer.

Mas... de repente eu vi,
Que só palavras, sentimentos,
Não te faziam mais feliz.
Seu sorriso se escondeu,
Seu olhar entristeceu.
Eu me enganei,
Foi onde errei.

Eis que aconteceu...
Alguém que teve alguma sorte,
A mais na vida do que eu.
Seu sorriso, então, voltou,
Seu olhar, então, brilhou,
Sem hesitar...
Me abandonou.

Quem te viu na madrugada perdida,
Dando origem a uma virada em sua vida,
Pra você o amor é nada,
Foi tão fingida... Oportunista...

Se algum dia eu te encontrar por aí,
Não sei bem se vou chorar,
Se vou sorrir,
Mas, ao ver que se mantém
Longe dos “programas”,
Ficarei feliz.

Sargento*

(Uma história que aconteceu há muito tempo,
hoje em dia não tem mais isso...)


(Bada/Pietro Ribeiro/Willians Defensor)

O sargento pediu documento
A um elemento sujo de cimento.
Ele disse:
‒ Doutor, eu trabalho faz tempo,
Mas minha carteira tá cheia de vento.
‒ Que papel estranho é esse?
‒ Alistamento.
‒ Tá vindo de onde, tá indo pra onde?
‒ Do Juramento pro meu aposento.
E o pó que eu carrego no bolso
É talco pro meu cão sarnento.
E o mato é um presente bento,
Erva fina pro meu suprimento,
Raiz forte, isso que é sorte,
Acaba qualquer sofrimento,
Mas não vem com esse papo de arrego,**
Que vai onerar meu orçamento.

Eu trabalho há mais de dez anos
E eu nunca tive um aumento...
Mas não vem com esse papo de arrego
Que vai onerar meu orçamento.

Hoje o bom policial tem bom comportamento...

(Falando, irônico, no final música:)

Não há corrupto nem corrompido,
Está tudo em paz no Rio de Janeiro...

*Música cantada por Arlindo Cruz no CD “Arlindo Cruz Batuques e Romances”

**arrego, propina que algumas “autoridades” pedem a um elemento suspeito para aliviar a sua barra numa abordagem policial por qualquer motivo.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Cinco lixos que ameaçam animais marinhos



Plástico: → pastilhas feitas desse material e usadas como proteção de cargas de navios são um dos produtos mais comumente encontrados no estômago de aves e mamíferos marinhos.

Resíduos de matérias de pesca: → a ingestão de pedaços de rede feita de polipropileno (tipo de plástico altamente resistente) é outra causa frequente da morte desses animais.

Pesticidas: → defensivos agrícolas que escoam para os mares matam, sobretudo peixes, porque induzem a multiplicação de algas responsáveis pelo aumento da produção de toxinas e pela redução das taxas de oxigênio nas água.

Dejetos de navios: → óleos, detergentes e metais pesados despejados diariamente na água por meio do esgoto de navios de cruzeiro carregam bactérias e organismos transmissores de doenças.

Alumínio: → descargas de “chuva ácida”, produzida pela mistura de gases emitidos por navios com a umidade presente na atmosfera, elevam o nível de alumínio na água e alteram seus níveis de pH, o que causa a morte de ecossistemas inteiros.


(Revista Veja, junho de 2017) 



Conheça a linda história de Sarda

resgatado por amigos da Cracolândia de SP


Um homem natural da cidade do Rio de Janeiro encontrado na Cracolândia da região central de São Paulo morreu na noite desta quarta-feira, (7.6.2017), em uma clínica de recuperação para dependentes químicos. Carlos Eduardo Albuquerque de Maranhão, o Cadu ou Sarda, de 46 anos, tinha o tratamento custeado por amigos de infância, que o reconheceram em um vídeo publicado na internet pela página Jornalistas Livres.

A informação da morte foi publicada no Facebook pelo executivo Carlos H. Moreira Jr., amigo que iniciou a campanha para ajudar Cadu. O movimento reuniu antigos colegas do Colégio Santo Inácio, na zona sul do Rio de Janeiro, que estudaram com Cadu.

O grupo lançou uma campanha de crowdfunding para financiar o tratamento.

“Nosso Sarda faleceu há poucas horas durante o período mais crítico de abstinência pela qual passava. Estou vazio, com as emoções bloqueadas e preso dentro de um avião com Wi-Fi. Tristeza profunda”, publicou Moreira Jr. “Entreguei a noticia à família com um enorme peso nas costas. Eu sou parte de um grupo de pessoas que agiram de forma coordenada e movidas por um só sentimento, que é o amor.”

(Revista Isto É)

Já pensou quantos “Sardas estão esperando por nossa ajuda?”

Após ser resgatado e levado para uma clínica de reabilitação, Sarda faleceu por problemas cardíacos. Os amigos que o resgataram, deixaram uma carta linda em homenagem ao Sarda.


Sarda, aluno do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro.

Texto dos amigos do Sarda lido na TV:


“Ao Sarda e a todos os envolvidos:

Ironia do destino que a mais bela lição de vida desses últimos tempos, tenha vindo de alguém que por décadas habitou algum dos lugares mais hostis do nosso país. O mundo parece estar carente de histórias de amor, de repente, o que deveria ser um ato comum de ajuda ao amigo, assume uma dimensão que nos faz refletir sobre o que é normal. O que o Sarda causou em todos, revela um grave problema social que vivemos, mas também revela um problema ainda maior de valores, pelo jeito, o altruísmo anda esquecido.

Queríamos o Sarda agora entre nós, não para aliviar qualquer sentimento de culpa de não termos descoberto a história dos últimos 30 anos da vida dele antes, mas pelo valor absoluto que ele traz a vida de qualquer um. O que ouvimos dele nas ultimas 24 horas antes dele ser internado, não ouviríamos de mais ninguém no mundo. Memórias da infância, uma retórica inteligente e única sobre a diferença ente viciado e o adicto, entre o falar sozinho e falar a sós, sobre políticas públicas. Ele faz e sempre nos fará falta.

O nosso amigo nos deixa e deixa uma mensagem do luxo humano que está dentro de cada um de nós. Incluindo aqueles que não lerão e nem ouvirão essa mensagem, por estarem agora em alguma rua usando drogas, com a mente em um espírito num paralelo, enquanto cada um de nós se prepara para dormir no conforto das nossas camas, embaixo de um teto. Como disse o Sarda, nós adictos, somos invisíveis, inaudíveis, mas não somos inodoros, de uma forma ou de outra, no inicio de tudo, bem lá no inicio de tudo, somos todos humanos.

Que cada pessoa tocada por essa lição de vida, reflita cada dia ao acordar, sobre o mundo no qual quer viver e quer deixar para os seus filhos. Um mundo egoísta, onde o mérito está na esperteza, e na ignorância ao próximo, ou um mundo solidário, onde o interesse individual é parte de interesse coletivo e virtuoso.

Somos todos da mesma turma, amigos do Sarda”


domingo, 11 de junho de 2017

Caderno de Turismo


Marcelino Freire


Zé, essa é boa.
O que danado a gente vai fazer em Lisboa?
Bariloche e Shangri-lá? Translado para lá, para cá.
Travessia de barco pelos lagos Andinos.
Nunca tinha ouvido falar em Viña Del Mar, Valparaíso.
A gente não devia sair do lugar.
Quem já viu se aventurar na Ilha do Cipó? Ilha de Marajó?
Itacaré? Fugir de dentada de jacaré?
O que você quer, homem? Sem dinheiro chegar aonde?
Não tem sentido Oklahoma, nos Estados Unidos.
É delírio. Peregrinar até as múmias do Egito.
Que história é essa de cruzeiro marítimo? Caribe,
Terra dos Vikings, Mediterrâneo? Enfrentar o Oceano Atlântico?
Canadá, Canaã? Deserto de Atacama?
Que besteira ir para Bali, Beijing, Xian, Xangai, Hong Kong.
Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê,
que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando?
Los Angeles? Valle Nevado? Que língua você vai falar no Cairo?
Em Leningrado? Nem sei se existe mais Leningrado.
Zé, esquece.
Nada de Andaluzia. Tahiti. a gente fica é aqui.
Que Sevilha? Roteiro Europa Maravilha.
Safári na África pra quê?
Passar mais fome? Leste Europeu, Escandinávia, PQP.
Presta atenção: a gente nem conhece o Brasil direito.
Bonito, Chapada Diamantina. Dos Veadeiros. A América Latina.
Guiana e Guiana Francesa. Não existe beleza.
Rota do Sol. Rota das Estrelas. Perca. Atrase a viagem, Zé.
Não parta. Você não vai para a Ilha de Malta, não vai.
Eu não deixo. A vida da gente é aqui mesmo.
Não nascemos no Berço da Civilização, Istambul e Capadócia.
Zé, o que há na tua cabeça? Ora joça!
Estamos longe de Miami, homem. Acapulco e Suriname.
Nosso destino é um só. A gente não tem dólar.
A gente não tem cartão, deixa de imaginação.
Você não tem medo de avião?
Tanta asa que cai pelo chão.
Atentado, bomba em Bengasi, doença em Botsuana.
Zé, estou sendo franca: olha bem pra nossa cara.
Por que partir para a Dinamarca? Caracas? Cancun? Congo?
Cachorro a gente enterra em qualquer canto.
Enterra aí no quintal, Zé. E pronto.

Marcelino Freire nasceu em Sertânia, 
Pernambuco em 20.03.1967

sábado, 10 de junho de 2017

Arco-Íris


(Sérgio Fonseca/Gabriel Azevedo)

(Para Talita, Tarsila, Luísa e todas as crianças)


Além do arco-íris, o mundo é mais belo,
Tem tanto castelo suspenso no ar.
Além do arco-íris, o tempo é sem pressa,
Pois nada começa, nem pode acabar.

Além do arco-íris, até mesmo o sonho
Não fica tristonho de ser sonho só.
Além do arco-íris, a lua é mais cheia,
E o sol pela areia espalha ouro em pó.

Além do arco-íris, as nuvens não correm,
Os rios só morrem nos braços do mar.
Além do arco-íris, não tem céu deserto,
E o longe é mais perto que qualquer lugar.

Além do arco-íris, mais livre descalça,
A vida é uma valsa falando de amor,
E o próprio arco-íris a gente até acha,
Que dorme na caixa de lápis de cor.


*Esta música está na internet interpretada pelo grupo Casuarina, e faz parte de seu último CD.


Profissões para o futuro


10 profissões que estão prestes a existir

Texto de Ana Carolina Leonardi, Bruno Garattoni Felipe Germano

Um estudo da Universidade de Oxford revelou: nas próximas duas décadas, os robôs poderão assumir 57% de todos os empregos. Mas nem tudo está perdido. A invasão das máquinas também abrirá espaço para novos tipos de trabalho. Veja aqui os dez mais surreais.

  
10. Psicólogo de robôs

→ Em 1956, um grupo de cientistas da Universidade Dartmouth, nos EUA, criou o conceito de inteligência artificial. Eles achavam que em dois meses conseguiriam esboçar uma máquina capaz de pensar como um humano. Nem chegaram perto. Mas, depois de várias décadas patinando, as pesquisas na área deslancharam nos últimos anos. Tudo graças ao conceito de “machine learning” (aprendizado de máquinas), que consiste em deixar os robôs aprenderem as tarefas sozinhos, por tentativa e erro. Depois de muitas tentativas – literalmente milhões ‒, eles acabaram conseguindo. A tática tem funcionado – e detonou uma revolução no campo da inteligência artificial.

Só tem um problema. Conforme os robôs vão aprendendo, e reescrevendo sozinhos o próprio software, sua lógica vai se tornando cada vez mais complexa e impenetrável – até para o próprio programador, que antes comandava os algoritmos. No futuro, teremos máquinas hiperinteligentes – e vamos precisar de alguém que seja capaz de entendê-las, refletir sobre a “motivação” delas e seus processos de tomadas de decisão. Trata-se de um especialista preparado para intervir, corrigir e redirecionar o aprendizado das máquinas – um sujeito que é tão engenheiro quanto psicólogo. Ou, como escreveu Isaac Asimov, um “robopsicólogo”. Ele nos ajudará a desenvolver (e a domar) as máquinas do futuro – e, de quebra, nos ensinará muito sobre nossa própria consciência.

9. Diretor de filmes de realidade virtual

→ A realidade virtual finalmente está se tornando uma mídia de massa. A Sony já vendeu quase 1 milhão de unidades do PlayStation VR, seu capacete de realidade virtual lançado no final do ano passado. A Lucasfilm está produzindo seu primeiro filme em RV (um episódio de Star Wars, tendo o vilão Darth Vader como protagonista). E o Festival de Cinema de Veneza criou prêmios específicos para as melhores obras nesse formato. A realidade virtual tem tudo dominar o entretenimento – e vai precisar de criadores de conteúdo. O diretor de RV é o mesmo tempo artista e engenheiro, com visão artística e domínio de novas tecnologias ‒ que usa para contar histórias de um jeito totalmente novo.

8. Consultor genético

→ Em fevereiro, o governo americano publicou um documentário histórico: afirma, pela primeira vez, que é eticamente aceitável editar o DNA de embriões humanos. No futuro, isso será inevitável – e a sociedade precisará de um novo tipo de profissional. Alguém que una habilidades do geneticista à sensibilidade de psicólogo para orientar as pessoas sobre quais alterações eles deverão, ou não, realizar nos filhos e em si próprias. É uma questão de responsabilidade social, pois as alterações que fizermos passarão para as gerações seguintes. Ou seja, desenharão o futuro da humanidade.

7. Gestor de energia limpa

→ Imagine colocar painéis solares no teto da sua casa e, além de gerar sua própria energia, poder vender o que sobrar. Isso já é realidade (até no Brasil). Por aqui, desde 2012 a lei permite que você troque seu excedente por créditos nas próximas contas. O movimento é tímido, mas tende a crescer. A Agência Nacional Elétrica estima que até 2024 teremos 1,2 milhões de consumidores produzindo – e lucrando com – sua própria luz. Apesar disso, ainda estamos um pouco atrás de outros países.

Em Nova York, algumas casas já podem vender energia entre si, sem intermediação do governo ou das companhias de eletricidade. Tudo em um sistema a prova de fraudes: o block chain, o mesmo que serve para registrar as transações do Bitcoin, a moeda virtual. Mas isso tudo dá trabalho. Você tem que se organizar e correr atrás da papelada. É aí que surge o gestor de energia limpa. Ele vai cuidar da burocracia e atuar como um consultor de investimentos, vendendo os excedentes de eletricidade para seus vizinhos e para as empresas de distribuição de energia, sempre de acordo com a melhor cotação.

6. Piloto civil de drone

→ No passado, o mercado de drones triplicou: só nos Estados Unidos foram vendidos 2,5 milhões deles. Até 2020, esse número deve triplicar de novo, e chegar a 7 milhões de drones fabricados por ano. Isso porque eles deixarão de ser apenas brinquedos (ou instrumentos militares) e invadirão outras áreas, como a agricultura (haverá drones cuidando das plantações), o comércio (será comum ver drones entregadores de encomendas) e até os esportes – as corridas profissionais de drones deverão se tornar um esporte popular. Em 2016, foi realizado o World Drone Prix, o primeiro evento internacional, e ele já começou grande: ofereceu US$ 1 milhão em prêmios aos pilotos. As corridas aconteceram em Dubai – e o grande vencedor foi o inglês Luke Bannister, de apenas 15 anos.

5. Planejador de velhice

→ As pessoas estão vivendo cada vez mais, e a ciência já desenvolve técnicas para que cheguemos aos 120 anos. Com o aumento da longevidade, seremos aposentados por bem mais tempo – logo, todo mundo vai precisar de um planejador de velhice. Será um especialista que ajuda as pessoas a formarem patrimônio durante a vida e, quando elas chegam à terceira idade, administra seu dinheiro (que tende a ser mais curto) e o seu tempo (que será abundante), programando atividades para preencher os dias da pessoa e mantê-la feliz. Esse equilíbrio, que hoje os próprios idosos tentam manter sozinhos, terá muito a melhorar com a ajuda de um gestor profissional. Afinal, a velhice não é para amadores ‒ e quando ela durar 50 ou 60 anos, menos ainda.

4. Designer de lixo

→ A humanidade produz 1,3 bilhão de toneladas de lixo por ano. Até 2025, a quantidade vai subir 70%. A única saída é reciclar cada vez mais – e esse será o trabalho do designer de lixo. Ele irá desenhar os processos produtivos desde o início para que gerem o mínimo de resíduos, e também será especialista em upcycling: encontram, e dar novos usos para as coisas que estão sendo jogadas fora (sem precisar destruí-las para extrair suas matérias-primas).

3. Nostalgista

→ Nem todo mundo vai acompanhar a velocidade das mudanças. Se a sua avó ainda engatinha nas redes sociais, imagine como será para você no futuro, quando a internet das coisas estiver por toda parte e, sei lá, começar a era dos implantes neurais, conectando o cérebro diretamente à rede. Talvez você fique perdido ou rejeite esse mundo novo. E é aí que entra o nostalgista: um profissional que recria experiências do passado. Ele pode projetar condomínios para aposentados, por exemplo. Atento aos detalhes, reconstruirá a vida do começo do século 21, com os mesmos gadgets e hábitos que hoje achamos modernos – mas que no futuro, serão coisas tão arcaicas quanto cartolas, gramofones e carruagens.

2. Fazendeiro urbano

→ Em 2040, a Terra terá 9 bilhões de pessoas (1,5 bilhão a mais do que hoje). Será preciso encontrar algum jeito de produzir mais comida – e, para não causar uma catástrofe ambiental, fazer isso sem aumentar demais as áreas dedicadas à agricultura e à pecuária (que hoje já ocupam 38,4% de toda a superfície do planeta, segundo dados da FAO).

Uma solução pode ser a agricultura vertical: em que os vegetais são cultivados em edifícios especialmente construídos para isso. A empresa sueca Plantagon quer construir uma estufa tecnológica de 12 andares, que reuniria dezenas de plantações numa área semelhante a de um prédio comum. Nos EUA, a ideia é plantar em balsas flutuantes, que ficariam em espaço desocupados nos rios. Em ambos os casos, as vantagens são as mesmas: produzir muito mais verduras usando menos espaço, e em áreas próximas (ou dentro) das cidades, onde elas serão consumidas, reduzindo drasticamente a poluição gerada pelo transporte. Tudo isso seria coordenado por fazendeiros urbanos. Eles projetariam as lavouras verticais (ou flutuantes) e supervisionariam o trabalho dos robôs responsáveis pelo plantio e pela colheita. A agricultura urbana é tão ousada que chega parecer futurista demais, mas tem altas chances de se tornar real. Por um motivo simples: se não a abraçarmos, boa parte da população não irá sobreviver.

1. Feng Shui de dados

→ Em 2020, o mundo terá produzido inacreditáveis 40 trilhões de gigabytes de dados – ou 5.200 GB para cada habitante, segundo a empresa de armazenamento EMC. É tanta coisa que cada pessoa vaia acabar precisando de um servidor inteirinho para si mesma, e um especialista para ajudar a organizar tudo. Esse profissional vai cuidar de todos os aspectos da sua vida digital, organizando o conteúdo das suas redes sociais, do celular, do computador num conjunto harmonioso e agradável: um feng shui dos dados.


(Da revista Super Interessante – maio de 2017)