sexta-feira, 31 de março de 2017

Trajes de festa



Traje esporte → Usado em eventos como batizados, almoços exposições. É o mais simples e informal. Para as mulheres, calças, camisetas coloridas, camisas, vestidos de alça, saias, suéteres, mocassins, terninhos esportivos. Tecidos: crepe, algodão, linho, veludo, camurça e malha. Para os homens, calças de brim ou gabardine cáqui, jeans, camisas e polos, mocassins esportivos e botas de camurça.

Traje passeio ou Esporte Fino → Típico de vernisages, almoços, conferências, teatro. É um pouco mais formal. Para as mulheres, até as 18 horas, prevalecem pantalonas, túnicas, tailleurs de calça ou saia com blazer e bolsas esportivas, mas não muito grandes. Os eventos noturnos pedem um pretinho com salto e bolsa pequena. Tecidos: seda, microfibra, linho, algodão e jérsei. Já os homens devem usar ternos com gravatas, mas até as 18 horas são permitidas calças esportivas acompanhadas de blazer escuro, mocassins e ternos claros sem gravata.

Traje Passeio Completo ou Social → Aqui predomina a formalidade presente em eventos como jantares, coquetéis, óperas e grandes comemorações. Para as mulheres, conjuntos de crepe, tailleurs de seda, vestidos de musseline, decotes e fendas discretos e vestidos de alça, com bordados sutis. Além disso, usam-se bolsas pequenas, sapatos ou sandálias de salto alto (com meias finas), xales e echarpes de tecidos nobres. Para os homens, terno de padrão único escuro, com camisa social, gravata e sapato preto.

Traje Black-Tie ou Rigor → São roupas para noites de gala. Para as mulheres, vestidos longos ou curtos sofisticados. Valem decotes profundos, brilhos, bordados e transparências. Saltos altos, meias finíssimas, carteiras e bolsinhas de metal. Pode-se usar uma grande echarpe, estola ou mantô do tecido do vestido. Tecidos: brocados, metalizados, tafetás de seda, shantungs, georgettes. Para os homens, smokink e sapatos lisos de verniz ou pretos de amarrar.

Imagem de J. Carlos

(Do livro: “O Original Almanaque Dúvida Cruel”, de Priscila Arida)



Você escutou direito?



Algumas pessoas, por não ouvirem direito, ou por não possuírem determinadas informações culturais, alteram certas expressões, provocando efeitos engraçados. Confira:

Nervos da cor da pele. → Nervos à flor da pele.

Ponho a minha mãe no fogo. → Ponho a minha mão no fogo.

Cerca de arame barbado. → Cerca de arame farpado.

Vexame de abelhas. → Enxame de abelhas.

Perdeu a loção do tempo. → Perdeu a noção do tempo.

Garagem mediterrânea. → Garagem subterrânea.

Nervo asiático. → Nervo ciático.

Raios ultraviolento. → Raios ultravioleta.

Sou meigo no assunto. → Sou leigo no assunto.

Ele é maquiavelho. → Ele é maquiavélico.

Ele é muito presuntoso. → Ele é muito presunçoso.

Terreno baldinho. → Terreno baldio.

Estrepe do carro. → Estepe do carro.

Defeito estufa. → Efeito estufa.

O diabo aquático. → O diabo a quatro.

Clínico Geraldo. → Clínico geral.

Vou ao doutor Ringo. → Vou ao otorrino.

Cambada de ozônio. → Camada de ozônio.

Depois da tempestade vem a ambulância. → Depois da tempestade vem a bonança.

Luta por moradinha. → Luta por moradia.

Armário enrustido. → Armário embutido.

Bife-de-sete-cabeças. → Bicho-de-sete-cabeças.

Sistema de esquecimento central. → Sistema de aquecimento central.


(Do “O Original Almanaque Dúvida Cruel”, de Priscila Arida)




quinta-feira, 30 de março de 2017

Noite Santa


Selma Lagerlöf


Naquela noite um pobre saiu a implorar auxílio, batendo de porta em porta:

‒ Socorrei-me, boas almas! Em minha casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume (1) para aquecer a minha esposa e o pequenino. Dai-me um pouco de brasa, pelo amor de Deus!

Mas era alta noite. Toda gente estava a dormir e ninguém lhe respondia. De repente o homem avistou, ao longe, um clarão e, caminhando para lá, encontrou uma fogueira acesa e, a volta dela, um rebanho de carneiros brancos dormindo e um velho pastor a guardá-los, também mergulhado no sono.

Quando o homem que andava em busca de brasa chegou ao pé dos carneiros, a bulha (2) dos seus passos acordou três canzarrões que dormiam aos pés do pastor.

As largas bocas dos rafeiros (3) abriram-se; para ladrar, mas nenhum som saiu delas. O homem notou que o pelo dos ferozes animais se eriçava e que as suas presas aguçadas luziam ao clarão da fogueira. E todos três se atiraram assanhados contra ele. Um abocanhou-lhe uma perna, outro a destra, (4) e o terceiro segurou-o a garganta; mas as mandíbulas dos molossos (5) ficaram inertes e o homem não foi mordido.

Quis ele, então, aproximar-se mais do fogo, para de lá tirar algumas brasas. Porém os carneiros eram tantos e estavam deitados tão juntinhos, que não havia como passar por entre eles. Foi-lhes forçoso pisá-los para avançar e nenhum deles acordou nem se mexeu.

Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor que dormitava em sua enxerga (6) de peles, ergueu-se impetuoso e irado. Era criatura ruim e mal-encarada. Ao ver ali o desconhecido, agarrou-o, lesto, (7) enorme pedra e arremessou-a contra ele. O perigoso seixo partiu direto ao homem; quando ia, porém, atingi-lo, desviou-se e foi espatifar-se no chão.

Então o homem, aproximando-se dos pastos, falou-lhe assim:

‒ Compadece-te de mim, amigo, e deixa-me levar algumas brasas. Em minha casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume para agasalhar a minha esposa e o pequenino.

O primeiro impulso do pastor foi o de uma recusa cruel; pensou, porém, nos cães que não tinham ladrado nem mordido; nos cordeiros que não tinham fugido; na pedra que não tinha querido ferir o homem. E sentiu um terror vago, indefinível.

‒ Leva o que quiseres ‒ respondeu secamente.

Ora, o lume estava agora quase a apagar-se. Nem ramos a arder, nem achas grandes. Só havia um monte de brasas miúdas, e o homem não tinha pá, nem qualquer outra coisa em que pudesse levá-las. Ao ver isto, o pastor disse:

‒ Podes apanhar as brasas que quiseres!

Mas no íntimo regozijava-se, maldoso, certo de que o homem não poderia levar um braseiro nas mãos nuas. Mas o outro abaixou-se, afastou as cinzas, tomou de uma porção de carvões incandescentes, e pô-los numa aba da esfarrapada túnica. E as brasas não lhe queimaram as mãos, não lhe queimaram as vestias e ficaram a brilhar nelas como rútilos rubis. E o desconhecido partiu.

O pastor vendo tudo isso, disse de si para consigo:

‒ Mas, que noite é esta, em que os cães não mordem e os carneiros não se espantam, e a pedra não fere, e as brasas não queimam? Foi ao encalço do homem e interrogou-o:

‒ Que noite é esta em que até as próprias coisas se mostram inclinadas ao amor e à piedade?

O homem respondeu:

‒ É a noite de Natal, meu amigo. Jesus, o Salvador, acaba de nascer.



Glossário:


(1) Lume: fogo

(2) Bulha: confusão de sons

(3) Rafeiros: cães treinados para guardar ovelhas

(4) Destra: mão direita

(5) Molossos: espécie de cães de fila

(6) Enxerga: colchão rústico

(7) Lesto: ligeiro

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf (Mårbacka, Östra Ämtervik20 de novembro de 1858 – Mårbacka, 16 de março de 1940) foi uma escritora sueca, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1909. É um dos escritores suecos mais lidos, e com maior sucesso internacional. 

Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a ser membro da Academia Sueca, em 1914. 

A Felicidade


Viriato Corrêa


Um dia, andava um homem pelo mundo à procura da Felicidade, quando a ele se apresentou deslumbrante aos olhos:

– Aqui estou para te servir. Pede o que quiseres.

– Dá-me riqueza, que ficarei satisfeito.

A Felicidade bateu-lhe com varinha mágica. E em derredor, tudo se transformou. Quando o homem abriu os olhos, atônitos, estava diante de pilhas de ouro surpreendentes. Eram tão vastos os seus domínios que, da alta torre do seu castelo, não se lhe podiam devassar as linhas fronteiriças. O mar, que espumava nas terras solarengas, coalhava-se de caravelas carregadas de especiarias.

Mas no meio da pompa, no fulgor de todo aquele ouro, o homem sentia-se pequenino e ridículo.

Saiu de novo a procurar a Felicidade. Ela, pela segunda vez, veio ao seu encontro:

– Quereis mais alguma coisa? – perguntou?

– Quero, respondeu o homem. Quero a Inteligência.

– Só se é feliz quando, ao lado da riqueza, a inteligência nos guia e nos afaga. O ouro por si só não basta. Sinto que toda a gente me lisonjeia, mas, no fundo, ninguém me toma a sério, falta-me a inteligência para que eu tenha prestígio, a força e o brilho, que só ela possui.

– É só isso o que lhe falta para ser feliz?

– Só.

– Volta então, para o teu palácio que, ao chegares, terás a clara intuição das ciências e das artes.

O homem voltou. Anseios novos fizeram-lhe brotar de outra maneira o coração, cenários desconhecidos abriram-se-lhes deliciosamente aos olhos. O mundo desvendou-se-lhe mais largo, mais brilhante e mais profundo. De longe vinha gente para lhe ouvir os conselhos, para lhe sentir o fulgor.

Mas pouco a pouco a alegria se lhe foi diminuindo. Abateu-se-lhe o organismo, os ânimos definhavam.

Um dia, temendo a morte, o homem saiu a procurar novamente a Felicidade.

– Não está satisfeito? – perguntou ela.

– Não, respondeu ele. A riqueza e a inteligência não completam a uma felicidade. A felicidade só é verdadeira quando se tem Saúde. Eu não tenho. Falta-me tudo, portanto.

A felicidade tocou-lhe novamente os ombros o homem moveu-se: a juventude sadia floria-lhe nas veias, a ligeireza e a agilidade animavam-lhe os ombros.

Por muito tempo viveu contente, cantando no esplendor da opulência, na clara intuição das coisas, na tonificadora expressão da vida rejuvenescida.

Mas um dia saiu ele de novo ao encalço da Felicidade.

– Ah! te falta alguma coisa?

– A Beleza. De que me serve ter ouro, inteligência, e saúde, se com a minha fealdade, não posso ser amado? Não fosse o meu ouro, todos me apedrejariam.

– Queres então...

– A Beleza.

– Volta. Terás o que queres.

Mas muito tempo depois, o homem já se sentia insatisfeito. A vida luxuosa do castelo já não lhe dava alegria: cansavam-lhe tantas homenagens ao seu talento. Ele tornou a chamar a Felicidade.

– Não estás ainda satisfeito?

– Não.

– Mas já te dei tudo.

– No entanto, sinto que alguma coisa me falta.

– Dizei o que é.

– Não sei. É uma insatisfação que não posso definir. Se olho a grandeza de minhas terras, parece que as terras alheias, mais pequeninas, são mais formosas que as minhas. Se vejo uma criatura gemendo, parece-me que apesar do gemido, ela é mais feliz do que eu. Se douro uma frase, se moldo um conceito, o conceito e a frase me parecem pueris. Eu próprio não sei o que me falta. O que sinto, é uma insatisfação que me enerva, me definha, e me aniquila.

– O que te falta bem sei o que é.

– Dize.

– Falta-te esta coisa simples – que te conforme com a sorte. Não há felicidade enquanto a gente adquire a virtude necessária para satisfazer-se com o que é e com o que tem. O que te falta é Resignação.

– Dá-me, pois, a Resignação.

A Felicidade moveu tristemente a cabeça fulgurante.

– Eu que te pude dar saúde, riqueza, formosura, inteligência, não tenho poder para te dar esse quase-nada que é tudo. Só uma pessoa te poderá criar a virtude da paciência.

– Quem é ela?

– Tu próprio.

*****


Manuel Viriato Corrêa Baima do Lago Filho (Pirapemas, Maranhão, 23 de janeiro de 1884 ‒ Rio de Janeiro, 10 de abril de 1967) foi um jornalista, escritor, dramaturgo, e político brasileiro.

Viriato Corrêa foi membro da Academia Brasileira de Letras, sendo o terceiro ocupante da cadeira 32. Foi eleito em 14 de julho de 1938, na sucessão de Ramiz Galvão, tendo sido recebido por Múcio Leão em 29 de outubro de 1938.


Maginho que virou pandorga


Moacyr Scliar

Pandorgas por Uberti


Eu estava a fim nem sei de quê. Nem sei de quê, mesmo, de tão cheio que eu estava: cheio do trabalho, cheio do patrão.

Foi aí que me veio uma ideia da pandorga. Que boa ideia, cara! Como foi que me ocorreu? Não sei. Olhando para os meus braços, acho. Estavam finos como varas; e as pernas também. Cuidado com o vento de setembro, dizia a velha minha mãe, vai acabar te carregando. Feito pandorga. Aí está: Pandorga.*

Fui falar com o patrão. Pandorga? Gostou da ideia. Riu. Foi a primeira vez que vi aquele homem rindo. Agora, só agora, sei por que ele ria. É que estava se lembrando dele menino, soltando pandorga. Isto foi há muito tempo. Antes de ele mandar na gente.

Ele gostando da ideia, eu deitei no chão, de barriga para cima. Ele trouxe um rolo de barbante grosso, forte. Eu abri bem os braços, e estiquei as pernas.

O primeiro nó foi no meu pulso esquerdo. Um nó duplo, muito forte. Ainda não esqueci como é que se dá nós, ele disse, sorrindo sempre. Eu ri também. Pela primeira vez estávamos nos entendendo. Ele não estava me chamando de preguiçoso nem de ladrão. Estava brincando comigo. Aquilo estava muito bom.

O segundo nó foi no tornozelo esquerdo, o terceiro no tornozelo direito – estes, nós simples. O nó do pulso direito foi duplo, como o do esquerdo. Estava pronta a armação.

Eu sempre fiz pandorga com papel forte; e disse isto para ele, que pandorga, para mim, tinha de ser de papel forte. Mas ele piscou o olho; tenho outra ideia, disse, e então eu pensei que ele queria usar a minha pele, esta pelanca frouxa que me ficou nos braços e no pescoço, depois que emagreci.

Mas não era a pele, não. Era o pano da túnica, desta túnica folgada que eu uso. Fiquei contente – ele agora não estava criticando a minha roupa, ele estava bem satisfeito com a minha roupa.

Esticou o pano e costurou-o em torno ao cordel que ia dos pulsos aos tornozelos. Trabalhou bem, sorrindo sempre, e assobiando. Estava feliz mesmo.

Aí fez a guia da pandorga: três pedaços de barbante. Um preso em laçada ao meu pescoço (ele cuidou para não apertar muito). Os outros dois pedaços, prendeu aos meus pulsos. Pescoço, pulso, pulso: os três pontos mais convenientes. Ele sabia mesmo fazer uma pandorga. Deu um nó, juntando as pontas livres dos barbantes, e estava pronta a guia.

Nesta ele amarrou a ponta de um grande rolo de barbante. Tenho duzentos metros aqui, ele disse, e eu não acreditei. Depois vi que era mesmo verdade.

Então me pôs de pé, recomendando que não me mexesse. Fiquei duro, imóvel, o vento forte de setembro enfunando a túnica. Estávamos no gramado em frente à metalúrgica. Um lindo gramado. Uns cem metros de gramado.

Ele correu, desenrolando o barbante. De súbito, senti um forte abalo. Eu subia! Funcionava, eu, como pandorga! E já flutuava sobre bosques e colinas, a pandorga!

Lá de baixo ele abanava para mim. Eu não podia abanar em resposta, mas esperava que ele visse o sorriso radiante em meu rosto. Porque eu via a felicidade no rosto dele. Era a primeira vez que eu o via alegre, aquele homem pequeno e triste.

Deu dois puxões na guia; quase me estrangula! Mesmo assim respondi, atirando duas vezes a cabeça para trás. Era o nosso código, enfim, nos entendíamos.

Ele me dava linha. Eu agora estava muito alto; o vento forte me sacudia todo. Mas eu aguentava firme. Eu era a armação.

Anoitecia. Eu sabia que ele tinha de voltar para casa... Ele voltou. Amarrou a ponta do barbante ao tronco de uma árvore. Ali fiquei, toda a noite, flutuando no espaço negro, olhando as luzes lá embaixo, e as estrelas acima de minha cabeça.

Bonito, aquilo.

Eu não queria mais descer. Agora que sabia das coisas, eu não queria mais descer.

E não desci: até hoje estou aqui.

Aquele pontinho escuro no céu? Sou eu.

*****

(Do livro “Cadernos de Cultura Gaúcha – 5 contistas”)


Moacyr Scliar por Fraga


Nascimento:  23 de março de 1937, Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Falecimento: 27 de fevereiro de 2011, Porto Alegre, Rio Grande do Sul



*Pandorga, denominação, no Rio Grande do Sul, de pipa, quadrado, papagaio, arraia.




quarta-feira, 29 de março de 2017

Os dez mandamentos das relações humanas



01. FALE com as pessoas. Nada há de tão agradável e animado quanto uma palavra de saudação, particularmente hoje em dia quando precisamos mais de sorrisos amáveis.

02. SORRIA para as pessoas. Lembre-se que acionamos 72 músculos para franzir a testa e somente 14 para sorrir.

03. CHAME as pessoas pelo nome. A música mais suave para muitos ainda é ouvir seu próprio nome.

04. SEJA amigo e prestativo. Se você quiser ter amigos, seja amigo.

05. SEJA cordial. Fale e aja com toda sinceridade: tudo o que você fizer, faça-o com todo o prazer.

06. INTERESSE-SE sinceramente pelos outros. Lembre-se que você sabe o que sabe, porém você não sabe o que os outros sabem. Seja sinceramente interessado pelos outros.

07. SEJA generoso em elogiar, cauteloso em criticar. Os líderes elogiam. Sabem encorajar, dar confiança, e elevar os outros.

08. SAIBA considerar os sentimentos dos outros. Existem três lados numa controvérsia: o seu, o do outro, e o do lado de quem está certo.

09. PREOCUPE-SE com a opinião dos outros. Três comportamentos de um verdadeiro líder: ouça, aprenda e saiba elogiar.

10. PROCURE apresentar um excelente serviço. O que realmente vale em nossa vida é aquilo que fazemos para os outros.

(Autoria desconhecida)



Porto Alegre: Cidade eternizada na literatura


Rodrigo Celente


Praça da Matriz → Em “Cães da Província”, de Assis Brasil, a praça é cenário das andanças de Qorpo Santo.*(1)


(Praça da Matriz atual)

Rua da Praia → Em “Clarissa”, de Érico Veríssimo, a jovem que dá título ao livro fica deslumbrada com o agito da Rua dos Andradas.*(2)


(Rua da Praia - anos 50)

Mercado Público → Em “Os Ratos”, de Dionélio Machado, Nazazieno caminha até o Mercado atrás de dinheiro para pagar o leiteiro.


(Mercado Público atual)

Rua Duque de Caxias → Antônio, protagonista de “O Escorpião de Sexta-Feira”, de Charles Kiefer, vive na Duque de Caxias, para onde leva a suas vítimas.


(Rua Duque de Caxias: Palácio Farroupilha e Pálácio Piratini)

Rua Riachuelo → “Estrychinina”, romance a seis mãos, narra a transição da cidade para a modernidade. E a área central é recorrente na obra de Mário Totta, José Paulino Azurenha e José Carlos de Souza Lobo.


(Rua Riachuelo antiga)

Rua Fernando Machado → Assis Brasil, em “Cães da Província” cita a famosa história do açougueiro que matava as vítimas, seduzidas pela sua esposa, e as transformava em linguiça.*(3)


(Antiga Rua do Arvoredo atual Fernando Machado)

Usina do Gasômetro → Antônio, personagem principal da obra de Charles Kiefer, fica impressionada ao chegar de Pau d´Arco com a beleza do local.


(Usina do Gasômetro e barcos de passeios)

Rua Fernandes Vieira → Moacyr Scliar, em “A Guerra do Bom Fim”, retrata o bairro no início dos anos 40, antes da II Guerra Mundial.


(Rua Fernandes Vieira no Bom Fim)

Avenida Oswaldo Aranha → Aurora, personagem de “Meia-Noite e Vinte”, de Daniel Galera, relembra quando toma conhecimento da morte do amigo, que geralmente andava pelo local onde Andrei foi morto.


(Avenida Oswaldo Aranha)

Avenida Ipiranga → No seu retorno a Porto Alegre, Aurora, Meia-Noite e Vinte, vai repassando pelos locais que marcaram sua vida na capital.


(Avenida Ipiranga e o arroio Dilúvio)


*(1) Quorpo Santo José Joaquim de Campos Leão (Triunfo RS 1829 - Porto Alegre RS 1883). Autor. Qorpo-Santo escreve sua obra teatral no século XIX, mas suas peças só são encenadas a partir da década de 1960. Uma boa parte da crítica teatral brasileira do período o considera precursor do Teatro do Absurdo.


*(2) Em 1865, a Câmara Municipal, em comemoração ao aniversário da Independência, alterou seu nome para Rua dos Andradas, desconsiderando sua identidade centenária e popular. Neste período, o antigo calçamento, executado à base de calha central, para a qual se inclinavam as calçadas, começou a ser substituído utilizando-se o sistema de pista abaulada, com sarjetas adjacentes a cada um dos passeios.

*(3) Na verdade, havia uma mulher que atraía as vítimas para a Rua do Arvoredo, onde seu companheiro as matava para roubar seus pertences. Um amigo, açougueiro, descartava, junto com ossos de animais, os pedaços dos corpos das vítimas. Não há comprovação convincente que o açougueiro, que morava na Rua Riachuelo, fazia linguiça com as carnes dos assassinados.


(Em Correio do Povo, março de 2017)


terça-feira, 28 de março de 2017

Um poema de Luiz Gama



Quem sou eu?

Luiz Gama*

Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra ‒ Ninguém! ‒

    E. Zaluar ‒ Dores e Flores.


Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe,
Como vive o pobre monge.

Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no pletro anda mofino.

Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não ‒ das Kalendas,
E, com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!

Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratantes, bem ou mal
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pinga de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR!

Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
‒ Faz a todos injustiça ‒
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
‒ Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista ‒
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que, tendo ocasião,
São mais feroz que o Leão. 
Fujo ao cego, lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza;
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num momento.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me ‒ tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.

Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa.  O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes
Aqui, nesta boa terra
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, veadores;

Belas Damas emproadas,
De nobreza empatufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães-de-mar-e-guerra,
‒ Tudo marra, tudo berra ‒
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.

Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Syringa
Tinha pelo e má catinga;
O deus Midas, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada!

Do livro: “Primeiras trovas burlescas de Getulino” (1861), in Trovas burlescas e escritos em prosa. Organização de Fernando Góes, Cultura, 1944, SP.


Luiz Gonzaga Pinto nasceu na cidade de Salvador, estado da Bahia, em 21 de junho de 1830. Filho de negra africana livre e de um fidalgo de origem portuguesa. Sua trajetória é marcada pela luta incansável pela libertação dos negros e por uma valorização efetiva a respeito da cultura negra no Brasil. Luis Gama morreu no dia 24 de agosto de 1882, em sua casa na Rua do Brás, a futura Rangel Pestana. O seu enterro foi considerado o mais solene e concorrido que São Paulo conheceu, no século XIX.


Decálogo do Panteísmo*



*Panteísmo é a crença de que Deus é tudo e todo mundo e que todo mundo e tudo é Deus. O Panteísmo é semelhante ao Politeísmo (a crença em muitos deuses), mas vai além dele ao ensinar que tudo é Deus. Uma árvore é Deus, uma rocha é Deus, um animal é Deus, o céu é Deus, o sol é Deus, você é Deus, etc. O panteísmo ensina que Deus é todo o universo, a mente humana, as estações e todas as coisas e ideias que existem. A palavra panteísmo vem de dois termos gregos que significam “Tudo” e “Deus”.

Decálogo

01 → Todas as coisas e todos os seres da natureza são apenas formas múltiplas da energia universal.

02 → A energia universal irradia-se constantemente pelos espaços infinitos. A energia é eterna, suas formas são transitórias.

03 → Sendo infinitos os espaços, consequentemente não tem forma.

04 → O tempo é apenas um movimento padrão que serve para medir a duração dos demais movimentos.

05 → A natureza é toda vida, portanto não existe nada morto – sem movimento – no universo.

06 → As desagregações são, pois, reações que nos próprios processos de decomposição criam novas formas de vida.

07 → O ser humano – como tudo mais – é um produto ou subproduto das forças eternas da natureza.

08 → A inteligência é certo tipo de energia em condições de compreender e aperfeiçoar certos fenômenos.

09 → Tudo o que acontece é resultado das causas circunstanciais. A nossa vontade, por exemplo, é um efeito dos nossos impulsos e passa ser causa depois de atravessar o filtro do raciocínio.

10 → Deus é o espírito vivo das Leis que regem o universo.



(Do Almanaque do Correio do Povo de 1964)


Uma lápide incrível


O túmulo mais visitado em Utah-USA, 
por causa do texto na lápide!



Mister Russell J. Larsen, de Logan (Utah), morreu sem saber que ganharia o concurso do túmulo mais visitado.

Em sua lápide está escrito:

Cinco regras para o homem ter uma vida feliz:

1. É importante ter uma mulher que ajude em casa, cozinhe de tempos em tempos, limpe a casa e tenha um trabalho;

2. É importante ter uma mulher que te faça rir;

3. É importante ter uma mulher em que possas confiar e não minta;

4. É importante ter uma mulher que seja boa na cama e que goste de estar contigo;

5. É muito, mas muito importante que estas quatro mulheres nunca se conheçam, caso contrário podes terminar morto como eu...

E tudo isso porque seu conhecimento sobre as mulheres era simplesmente genial... Morto aos 62 anos, supostamente assassinado por uma amante ciumenta, ele deixou escrito em seu testamento o que gostaria que fosse escrito na segunda face de sua lápide. Seus familiares cumpriram o último desejo do morto.


Saúde em dia


Aos 20, 30, 40 e 50 anos.

O corpo muda com o tempo, e é preciso adaptar a rotina.
O que fazer em cada faixa etária para chegar bem à velhice.



Dos 20 aos 30 anos

Alimentação:

A nutricionista Yole Brasil da Luz explica que o primeiro item que não pode faltar na dieta nessa faixa etária é água – assim como nas etapas seguintes. É preciso adquirir o mais cedo possível o hábito de hidratar-se diariamente para que o nosso corpo não se acostume com o estado de desidratação.

‒ A falta de água faz com que ocorra uma aceleração no envelhecimento das células, pois desequilibra o organismo. A água é muito importante para o funcionamento do intestino e para a qualidade do sono – afirma a nutricionista.

Quanto à alimentação, a maior dificuldade enfrentada por essa faixa etária é a falta de tempo. É nessa etapa que muitas pessoas precisam estudar e trabalhar, sobrando pouco tempo para ao preparo de refeições e tornando os industrializados uma prática (e nociva) tentação. Ainda assim, a indicação é consumir de quatro a seis frutas por dia e vegetais com quatro ou cinco cores diferentes.

‒ Cada cor representa a predominância de uma vitamina, por isso, devemos optar pelos pratos coloridos – diz Yole.

Além disso, a nutricionista indica a ingestão diária de duas oleaginosas e de uma porção de proteína nas refeições.

O cuidado com a alimentação nessa faixa etária é importante, pois, normalmente, é nesse período que se estabelece o cardápio para o resto da vida. É comum, por exemplo, que a opção pelo veganismo ou vegetarianismo seja feita nessa década. Por isso, o acompanhamento de um nutricionista é recomendado.

‒ A alimentação precisa ser equilibrada. Então, seu eu tiro a proteína da carne, tenho que substituí-la por outra proteína na mesma quantidade. É preciso contar com o acompanhamento de um nutricionista, que fará esses cálculos para que não faltem nutrientes – informa Yole.

Também é comum a adesão aos chamados “modismos alimentares”, como a onda “low carb”, que incentiva dietas que vão da restrição ao corte completo da ingestão de carboidratos.

Caso as pessoas queiram perder peso, a nutricionista indica a escolha de carboidratos integrais em substituição aos refinados, por terem mais fibras. Também é importante evitar gorduras saturadas, como as de fonte animal. Outro alerta é para que os jovens realizem check-up periodicamente para monitorar a saúde e a necessidade ou não de mudar a dieta.

‒ As pessoas costumam fazer check-up só quando ficam mais velhas, mas vejo uma quantidade grande de jovens com colesterol ou triglicérides alto e falta de vitaminas. O acompanhamento médico e a realização de exames é sempre importante – afirma a nutricionista.

Exercícios físicos:

No auge da capacidade física, quem está na faixa dos 20 aos 30 anos pode realizar qualquer exercício que tenha vontade, desde que faça uma avaliação médica.

Segundo o professor da PUCRS, Rafael Baptista, a recomendação do Colégio Americano de Medicina do Esporte é que os jovens realizem um programa completo de exercícios, que levem em conta a resistência aeróbica, a força, a flexibilidade, o controle do peso e o percentual de gordura. Para isso, Baptista indica a prática de musculação aliada a corridas e alongamentos.
Aspectos funcionais de equilíbrio, coordenação e agilidade também são importantes na hora da escolha da atividade física.

Dos 30 aos 40 anos


Alimentação:

Algumas atividades metabólicas começam a diminuir nessa faixa etária, e o emagrecimento torna-se um pouco mais difícil. A capacidade de metabolizar os açúcares diminui, por isso é importante reduzir o consumo de alimentos refinados. O açúcar branco pode ser substituído por açúcar mascavo, mel e melado, por exemplo.

A manutenção do peso é importante para não ingressar nos 50 anos com as articulações sobrecarregadas. Frutas, vegetais, proteínas e oleaginosas devem seguir fazendo parte da dieta.

Exercícios físicos:

Pessoas que já realizam exercícios físicos antes dessa faixa etária normalmente seguem com a mesma capacidade física para continuar, segundo o professor da PUCRS Rafael Baptista. Quem ainda não começou a praticar atividade deve realizar avaliações médicas e contar com a ajuda de um educador físico para escolher o esporte mais adequado à sua capacidade e ao gosto pessoal. São indicados exercícios que desenvolvam força, resistência, flexibilidade e equilíbrio. É preciso tomar cuidado ao praticar esportes com maior risco de lesões.

Dos 40 aos 50 anos


Alimentação:

Com a redução da capacidade de metabolizar gorduras, a indicação é reduzir a ingestão desses alimentos. A preferência deve ser pelas chamadas “gorduras boas”, como a do azeite de oliva e do abacate. Também é importante aumentar o consumo de alimentos ricos em ácido fólico, como o feijão e a lentilha.

Se a menopausa já der sinais, ingerir grãos integrais, legumes, pimenta, chá verde, oleaginosas e óleo de oliva podem ajudar.

Nessa fase, ocorre um declínio da produção de hormônios, o que leva à menor capacidade física, mesmo que hábitos saudáveis sejam mantidos. Essa é a hora de focar em exercícios que trabalhem a força e a massa muscular, principalmente a manutenção da saúde óssea.

Atividades que desenvolvam equilíbrio, agilidade e flexibilidade também devem estar na rotina dos quarentões, pois são características que diminuem com o passar dos anos. Musculação, treinamentos funcionais e aeróbicos estão entre os indicados.

Depois dos 50 anos


Alimentação:

A redução de açúcares e gorduras torna-se ainda mais importante, já que o metabolismo segue em queda. Alimentos com cálcio (como o leite), selênio e oleaginosas (como nozes e castanhas) são indicados, além de manter a diversificação das cores dos vegetais. O consumo de fibras, que auxilia o funcionamento do intestino, também é importante.

No caso das mulheres, segue a orientação da ingestão de alimentos como legumes, verduras e grãos integrais para acelerar o metabolismo durante a menopausa. Para repor nutrientes, a nutricionista indica o consumo de água de coco natural (não a industrializada), por ser “o melhor isotônico que existe”.

Exercícios físicos:

Há um declínio maior da capacidade física, e a realização de atividades voltadas para a manutenção da saúde óssea e muscular é fundamental. Pessoas que já realizavam exercícios devem continuar, com treinos adequados para a idade. Os sedentários não podem pensar que estão velhos demais para começar atividades físicas.

Embora não tenham o preparo das pessoas que fazem esportes, é importante iniciar a prática antes da terceira idade para um envelhecimento saudável. Vale a mesma regra para todas as idades: procure um médico e um educador físico para escolher o esporte ideal à sua capacidade física, necessidade e gosto. 


(Do Caderno Vida de Zero Hora, março de 2017)




domingo, 26 de março de 2017

A Estátua do Laçador


Por Ricardo Chaves

Conheça a história da estátua do Laçador

Criada por Antônio Caringi,
a obra foi inaugurada em 20 de setembro de 1958,
tendo sido tombada e considerada patrimônio de Porto Alegre.



Prefeito Leonel Brizola com o escultor Antônio Caringi, em 1958:
Foto: Acervo Família Caringi

No contexto político do Estado Novo (1937-1945), que se caracterizou pelo nacionalismo e pela centralização do poder, Getúlio Vargas (1882-1954) chegou a dizer: “Não temos mais problemas regionais; todos são nacionais, e interessam ao Brasil inteiro”. Com isso, as bandeiras dos Estados chegaram a ser queimadas e os símbolos regionais, assim como os partidos políticos, foram extintos.

É provável que, devido ao seu caráter regional, o projeto do prefeito Loureiro da Silva (1902-1964) de inaugurar, em 1940, uma estátua do artista plástico Marcos Bastos tenha sido inviabilizado. Premiado no Centenário Farroupilha (1935), atualmente, não se tem notícia desse artista, e a sua maquete em gesso, O Bombeador, que representava um gaúcho a cavalo, está desaparecida. Dezoito anos haviam se passado quando, pelas mãos do artista pelotense Antônio Caringi (1905-1981), o ideal de erigir um monumento à figura do gaúcho finalmente se concretizou.



O escultor Caringi e o tradicionalista Paixão Côrtes,
que serviu de modelo para a confecção da estátua:
Foto: acervo da família Caringi.

Inaugurado em 20 de setembro de 1958, O Laçador marcou as comemorações do 123º aniversário da Revolução Farroupilha (1835-1845). De acordo com o saudoso pesquisador Rodrigues Till, com quatro metros e 40 centímetros de altura e pesando, em bronze, 3,8 mil quilos, o monumento teve várias denominações: Bombeador, Boleador e, finalmente, Laçador.

Criado no Rio de Janeiro, no atelier de Caringi, O Laçador esteve exposto no Parque Ibirapuera, no Pavilhão do Rio Grande do Sul, em 1954, durante as festividades do IV Centenário de São Paulo. Depois de ser adquirido pela prefeitura de Porto Alegre, o monumento foi instalado e inaugurado na entrada da Avenida Farrapos. Seu criador, Antônio Caringi, inspirou-se no homem campeiro, tendo sido o seu modelo o tradicionalista João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, nascido em Livramento no dia 12 de julho de 1927.


Festa de inauguração, em 20 de setembro de 1958.
Foto: reprodução / “Jornal do Dia” de 23 de setembro de 1958:
Acervo Musecom.

Considerado patrimônio da cidade, pela lei complementar nº 279, de 17 de agosto de 1992, O Laçador foi tombado pela Secretaria Municipal da Cultura, de acordo com edital publicado na imprensa em 17 de julho de 2001. Em 1991, por votação popular, o monumento já havia sido eleito símbolo oficial de Porto Alegre, confirmando a expressão Vox populi vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus).

Durante a cerimônia de inauguração d'O Laçador, em 20 de setembro de 1958, o prefeito Leonel de Moura Brizola (1922-2004) discursou na Praça do Bombeador, destacando a grandeza do Rio Grande, seu povo e sua tradição. Suas palavras emocionaram a multidão presente. Há consenso de que seu discurso inaugural foi fundamental para alavancar sua campanha para governador do Estado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A banda marcial do Colégio Gonzaga, convidada pela prefeitura da Capital, veio de Pelotas para abrilhantar as comemorações da data farroupilha.

Em 11 de março de 2007, o monumento foi transferido para o Sítio do Laçador, localizado em frente ao antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, a uma distância de 600 metros do seu antigo local. O Laçador encontra-se numa elevação que recebeu a denominação de Coxilha do Laçador. Os custos foram de R$ 1 milhão, e o motivo de sua transferência foi a construção, naquele local, do Viaduto Leonel Brizola. Como símbolo de Porto Alegre, O Laçador segue, ao longo dos anos, recebendo quem chega à nossa cidade. Como um velho amigo, ele abraça a todos com o laço da hospitalidade do nosso Estado, cuja capital, fundada, em 26 de março de 1772, completou 245 anos em 26 de março de 2017.

Parabéns, Porto Alegre!


Colaboração de Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.

(Ricardo Chaves em Almanaque Gaúcho de Zero Hora)