segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O sangue de Badaró



O médico italiano Giovanni Battista Libero Badaró chegou ao Brasil em 1820 e radicou-se em São Paulo, onde instalou seu consultório. Homem de temperamento expansivo, não teve dificuldades para fazer logo boas amizades na nova terra, especialmente com políticos, jornalistas e intelectuais. Influenciado pelas ideias liberais, que reclamavam uma constituição para o Brasil, Badaró engajou-se na luta, fundando o jornal O Observador Constitucional.

Com a deposição do rei Carlos X, em outubro de 1830, que marcou o fim do absolutismo na França, os liberais brasileiros, entusiasmados, intensificaram a campanha pela constituição. Os ânimos foram ficando exaltados. Estudantes e populares passaram a fazer ruidosas manifestações contando com o apoio do jornal de Líbero Badaró.

Na noite de 20 de novembro de 1830, quando saía da casa de um amigo, ele foi atacado por dois homens encapuzados e ferido mortalmente a golpes de faca*. Amigos e companheiros de luta quiseram chamar um médico, mas Badaró não permitiu:

“Sou médico. Sei que os ferimentos são muito sérios. Sinto que estou entrando em agonia. Aproveitem melhor o seu tempo descobrindo quem fez isso, para que outros não venham a ser assassinados. Aqui morre um liberal; mas não morre a liberdade.”

(Do livro “Novas Crônicas Pitorescas da História do Brasil,
de Eloy Terra)

*Na verdade, ele foi morto a tiros de pistola.


O jornalista Libero Badaró no seu leito de morte,
aquarela de Hércules Florence

*****
Giovanni Battista Líbero Badaró nasceu Laigueglia, Itália, em 1798 e morreu em São Paulo, em 21 de novembro de 1830, foi jornalista, político e médico italiano radicado no Brasil.

Assassinato de Libero Badaró aumenta pressão
para saída de Dom Pedro I


No dia 21 de novembro de 1830, um assassinato traiçoeiro desestabilizou ainda mais o frágil governo do imperador Dom Pedro I. Em São Paulo, morria, vítima de um atentado, Giovanni Battista Libero Badaró, jornalista, político e médico italiano radicado no Brasil. Nascido na Itália, na cidade de Laigueglia, em 1798, ele se mudou para os trópicos em 1826. Em solo brasileiro, tornou-se um liberal e viveu na cidade de São Paulo, onde atuava como médico e dava aulas gratuitas de matemática. Fundou o jornal O Observador Constitucional, em 1829, o que não era bem visto pelos absolutistas. Em São Paulo, alguns estudantes do Curso Jurídico fizeram uma campanha contra o governo monárquico. Os manifestantes tornaram-se criminosos para o ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu e foram processados. O Observador Constitucional fez campanha em favor dos acusados e atacou Japiaçu. Desafeto de Japiaçu, Libero Badaró sofreu um atentado no dia 20 de novembro, às 22h, quando voltava para a sua casa na rua São José (hoje rua Líbero Badaró). Suas últimas palavras antes de morrer foram “Morre um Liberal, mas não morre a Liberdade”.

No dia seguinte, ele faleceu e sua frase virou símbolo da liberdade de imprensa. Sua morte ganhou grande repercussão, com milhares de pessoas no seu enterro e mais de 800 tochas acesas. O principal responsável pelo assassinato foi um alemão, chamado Stock, que se escondeu na casa de Japiaçu. O alemão foi preso, mas Japiaçu, apesar de processado, acabou absolvido. Segundo historiadores, a ordem para matar Badaró pode ter partido de Dom Pedro I. O fato complicou ainda mais a situação política do imperador, criticado por sua postura autoritária. No ano seguinte, no dia 7 de abril de 1831, Dom Pedro I abdicou do trono e mudou-se para Portugal, deixando a coroa para o seu filho, Dom Pedro II, de apenas 14 anos.

(Do Blog History)

O crime

Líbero Badaró se aproximava de sua casa entre 10 e meia e 11 horas da noite de 20 de novembro de 1830, quando viu dois homens sentados nas proximidades. Na rua escura, iluminada apenas pela lua cheia, perguntaram-lhe se era o dr. João Baptista Badaró. Diante da resposta afirmativa, disseram que vinham de parte do ouvidor. Badaró mal teve tempo de dizer que não era amigo de Japi-Assú quando sentiu no ventre o impacto do tiro de pistola. A bala causou ferimentos internos incuráveis que lhe provocaram uma agonia dolorosa por quase 24 horas, tempo suficiente para que, na presença de testemunhas respeitadas na cidade, fosse interrogado pelo juiz José da Silva Merciana, cujos “autos da devassa” detalhadamente elaborados permitiram à polícia capturar alguns suspeitos.

Ao juiz, Badaró declarou que não conhecia os atacantes, mas pelo sotaque sabia que eram alemães e, indagado se tinha suspeita de quem eram os responsáveis, não hesitou em apontar como mandante o desembargador-ouvidor Japi-Assú. Era mais do que uma suspeita, pois até o escrivão da Ouvidoria, Amaro José Vieira, em seu depoimento posterior ao crime, disse tê-lo advertido diversas vezes que escutara de seu chefe afirmações de que pretendia matá-lo. O que o jornalista não sabia era que seu assassinato foi cuidadosamente planejado e sua execução – segundo pesquisa de Argimiro da Silveira, publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em 1890 –, começou numa chácara da Freguesia do Braz, quando ao tenente Carlos José da Costa, vindo do Rio para matá-lo, foi indicado o alemão Henrique Stock para acompanhá-lo, identificar e executar a vítima. Badaró faleceu em consequência de hemorragia interna, às 10 horas de 21 de novembro de 1830.

*Japi-Assú – grafia de jornais da época do crime.

Carlos Alves Müller,
especial para a Gazeta do Povo - 19/11/2010


domingo, 26 de fevereiro de 2017

O casario que concorreu ao Oscar



O município de Antônio Prado, na encosta superior da serra gaúcha, tem sorte com o número nove. Em 1899, a colônia – na época, Quinto Distrito de Vacaria – foi elevada à categoria de vila e conquistou autonomia. Nesse mesmo ano, foi eleito o primeiro intendente municipal. Em 1929, Getúlio Vargas esteve na cidade, que demonstrou apoio ao futuro presidente do Brasil. A Revolução de 1930 se tornou um marco no desenvolvimento do município. Foram criadas as condições para, em 1946, se instalar o Moinho do Nordeste, a principal indústria moageira da região.

Uma das grandes preocupações dos diversos governos municipais foi relacionada com o transporte. A dificuldade de acesso ao município, cercado por rios e arroios, isolou Antônio Prado por muitos anos. Isso retraiu o comércio e favoreceu o êxodo da cidade. Mas as casas residenciais e comerciais construídas no início do século, com arquitetura típica italiana, permaneceram preservadas.

Em 1989, o município foi redescoberto. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tombou o maior acervo de arquitetura urbana em madeira da imigração italiana no Brasil. São 48 edificações de madeira e alvenaria que hoje formam o centro histórico de Antônio Prado. Esse conjunto de casas, com muitas janelas, porões e sótãos, se impõe há um século na Avenida Valdomiro Bocchese e na Avenida dos Imigrantes, principalmente. É um emocionante testemunho da formação da antiga colônia, fundada em 1886. O nome foi dado em homenagem a Antônio da Silva Prado, ministro da Agricultura que favoreceu a instalação de núcleos coloniais no Rio Grande do Sul.

Em 1999, outro ano com final nove. Antônio Prado está em festa. Todos os habitantes comemoram o centenário do município. Com exposições, concursos e provas esportivas, além da música e da comida típica, os pradenses mantêm intacta a herança deixada pelos primeiros imigrantes. O casario bem conservado foi cenário para O Quatrilho, reproduzindo Caxias do Sul em 1910. Quem aplaudiu o filme viu as casas do centro histórico e muitos habitantes como figurantes na produção que concorreu ao Oscar.*

O escritor José Clemente Pozenato, autor do romance que deu origem ao filme, é apaixonado pela cidade de Antônio Prado:

“Essa cidade teve a fortuna de preservar uma imagem que não existe mais em nenhum outro lugar. Com isso quero dizer que Antônio Prado não representou apenas Caxias do Sul: representou todas as cidades construídas com o sangue e o suor dos imigrantes e dos seus filhos por todas as montanhas desta região. É um papel que só pode ser invejado”.

Carlos Urbim,

no livro "Rio Grande do Sul - Um Século de História"

Fotos de Antônio Prado


Uma avenida de Antônio Prado 
transformada para ser a Caxias do Sul de 1910


Casario tombado em foto de Renê Hass


Antônio Prado atual, mantendo seu casario colonial

*O Quatrilho, filme de Bruno Barreto, foi filmado em 1995 e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1996, perdendo para a produção holandesa “Antonia”.



Perguntas e respostas esdrúxulas



‒ Em que andar você mora?
‒ No sétimo andar, mas durmo no quarto...


‒ Quando for ao meu apartamento, não suba pelo elevador.
‒ Por quê, está com defeito?
‒ Não. É que moro no térreo...


‒ O que é que aquele violinista está tocando?
‒ Violino!...


‒ Já me viu tocando piano?
‒ Não!
‒ Nem podia. Nunca toquei!...


‒ Conhece aquele cego ali?
‒ De vista!...


‒ Como vai?
‒ Eu vou bem. E você?
‒ Conforme: às vezes vou de ônibus e, às vezes, de táxi.


‒ Você já foi namorada dele?
‒ Já, quando ele morava no Grajaú. Agora que ele mora em Ipanema, ainda não fui lá, não!...


‒ Você acha que viajar ao Japão é um negócio da China?
‒ Bem, isso depende de quem o oriente...


‒ Você já entrou numa Vara de Família?
‒ Já, quando era criança. Era como eu apanhava de meu pai.


‒ Você se retratou, quando foi a julgamento?
‒ Não! Esqueci de levar a máquina fotográfica...


‒ Amanhã vou dar um pulinho até a sua casa.
‒ Por que não vai andando, não é melhor?!...


‒ Você já viu geladeira de 9 pés?
‒ Não! Pensei que todas tivessem 4...


(Jorge Murad - Piadas e Trovas)



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Plantas que tratam


Nereida Vergara

Os chás

De acordo com o médico de família Leonardo Vieira Targa, o município de Nova Petrópolis levantou entre a população atendidas nas Unidades Básicas de Saúde quais as doenças mais frequentes e que medicamentos poderiam ser substituídos ou utilizados junto com as plantas medicinais. Foram mapeados como as de uso mais frequentes as dez variedades abaixo, contempladas também pelas normas da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicas, mantidas pelo SUS.


01. Camomila → Auxilia no tratamento da dispepsia, insônia não orgânica. Uso tópico para dermatites e mucosites inflamatórias.



02. Espinheira Santa → Dispepsia, azia e gastrite.


03. Estévia → Substitui o açúcar. Para o tratamento de diabetes e dietas alimentares livres de açúcar.

04. Hipérico → Para tratamento de depressão leve e moderada. Também conhecido como Erva de São João.


05. Macela → Transtornos do trato gastrointestinal leves.


06. Melissa → Sedativo e calmante suave. Pode ser usado nas cólicas abdominais.


07. Guaco → Para gripes resfriados e bronquites, como expectorante e possivelmente broncodilatador.

08. Malva → Afecções respiratórias, como expectorante. Antiinflamatório. Contusões e nas inflamações da boca e da garganta.


09. Maracujá → Ansiedade e insônia. Foi estudado com bons resultados também como auxiliar na ansiedade em desintoxicação de opioides.


10. Quebre-pedra →Litíase renal, como auxiliar na eliminação de cálculos pequenos. 


(Correio do Povo, fevereiro de 2017)



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os acasos da Medicina


O acaso dos Raios-X

Wilhelm Konrad Röntgen


O acaso tem sido o berço de grandes descobertas. Em novembro de 1895, Wilhelm Konrad Röntgen, professor de Física da Universidade de Würzburg, Alemanha, notou que cristais de bário brilhavam na escuridão do laboratório quando a corrente elétrica passava por uma ampola de vidro, onde havia sido feito o vácuo.

Intrigado, pôs um livro entre a ampola e os cristais, que continuaram brilhando. Mesmo quando uma lâmina metálica foi interposta, o fenômeno se repetiu.

Röntgen decidiu então verificar se as chapas fotográficas virgens de uma caixa que havia no laboratório tinham sido afetadas. Quando as revelou, verificou que estavam veladas. Ao refazer a experiência, interpondo a sua mão entre a ampola e as chapas fotográficas, obteve a imagem de seus próprios ossos, ou seja, a primeira radiografia da história da ciência.

Em 1901, Röntgen ganhou o Prêmio Nobel de Física pela descoberta dos Raios-X, mas doou o dinheiro para a Universidade de Munique, onde passara a lecionar em 1900. Diferentemente do que ocorre hoje, naquele tempo os sábios acreditavam que o ideal da ciência era servir a humanidade e não engordar os próprios bolsos.


O acaso das Vitaminas

Chrstiaan Eijkman


Foi também o acaso que conduziu à descoberta das vitaminas. Em 1897, o médico holandês Christiaan Eijkman pesquisava o beribéri, doença que dizimava populações na Indonésia.

Eijkman observou que o beribéri atacava galinhas alimentadas exclusivamente com arroz polido, sem casca. Durante muito tempo, tentou salvá-las de várias maneiras, mas em vão. Nada detinha o curso da doença.

Em certo fim-de-semana, um jovem assistente de Eijkman, encarregado de alimentar as galinhas, ficou com preguiça de polir o arroz e o serviu com casca e tudo nas gamelas.

No dia seguinte, a surpresa: todas as galinhas estavam curadas.

A partir do acaso, Eijkman observou que pessoas atacadas de beribéri também tinham dieta em que predominava o arroz polido. Todas ficaram curadas quando passaram a consumir o arroz com casca.

Eijkman concluiu haver na casca do arroz uma substância que evitava o beribéri. A análise Química a identificou como pertencendo ao grupo das aminas. Posteriormente, recebeu o nome de vitamina, ou seja, a amina que preserva a vida.

Christiaan Eijkman, que um acaso fez descobrir as vitaminas, ganhou o Prêmio Nobel de 1929.


(Do livro “Notas Curiosas da Espécie Humana”,
de Jayme Copstein, Editora AGE)


E o que é Abreugrafia?


Dr. Manoel Dias de Abreu

→ Abreugrafia é um aparelho que revolucionou o diagnóstico e tratamento da tuberculose, através de um método de diagnóstico coletivo. Seu criador foi Manoel Dias de Abreu, o primeiro no mundo a falar sobre Densitometria Pulmonar.

→ O exame é utilizado no rastreamento da tuberculose e doenças ocupacionais pulmonares, e difundiu-se rapidamente pelo mundo graças ao baixo custo operacional e alta eficiência técnica.

→ Graças a Braeuning e Redeker descobriu-se que a tuberculose, em sua fase inicial, era assintomática, e que, consequentemente, os doentes deveriam ser procurados no seio dos grupos aparentemente sadios. Só a Manuel de Abreu ocorreu a ideia, de profundo alcance social, de aplicação da fotografia do ecran ao exame sistemático das coletividades (abreugrafia como hoje é denominada).

→ O Dr. Ary Miranda, presidente do I Congresso Nacional de Tuberculose realizado em maio de 1939, propôs que fosse utilizado o nome Abreugrafia para designar o método criado por Manuel de Abreu. Anos depois, em 1958, o prefeito de São Paulo Ademar de Barros determinou que as repartições públicas da Prefeitura deveriam obrigatoriamente usar o termo Abreugrafia e instituiu o dia 4 de janeiro, dia do nascimento de Manoel de Abreu, como o Dia da Abreugrafia, imitando o gesto do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Resumindo:

→ Abreugrafia é um tipo de exame que diagnostica precocemente a tuberculose. O método, descoberto em 1936 pelo médico brasileiro Manoel de Abreu, tornou-se conhecido graças ao seu baixo custo operacional e eficiência técnica. O Dia da Abreugrafia foi instituído em 1958 em homenagem ao nascimento de Manoel de Abreu. Antes de ser definido o termo abreugrafia, o exame recebeu nomes como fluorografia, fotofluorografia, radiografia e Roentgenfotografia.

→ Manoel Dias de Abreu nasceu na cidade de São Paulo em 4 de janeiro de 1892 (segundo Carlos da Silva Lacaz o ano seria 1894). Era o terceiro filho do casal Júlio Antunes de Abreu, português da província do Minho, e Mercedes da Rocha Dias, natural de Sorocaba (Estado de São Paulo). Até o ano de 1908, viveu entre o Brasil e Portugal. Casou-se, em São Paulo, em 7 de setembro de 1929, com Dulcie Evers.

→ Manoel Dias de Abreu destacou-se por sua valiosa contribuição à profilaxia da tuberculose, revolucionou os métodos da pesquisa radiológica (fotografia do écran fluoroscópio, hoje conhecido como abreugrafia), criou e aperfeiçoou vários aparelhos e métodos de exames (o meroscópio, a tomografia simultânea, a tomografia vibratória), e traçou novos caminhos para a radiografia pulmonar (princípios da radiogeometria, a quimografia), do coração e do mediastino.

→ Faleceu em decorrência de um câncer de pulmão, na Casa de Saúde São Sebastião, na cidade do Rio de Janeiro, em 30 de abril de 1962 (30 de janeiro segundo Carlos da Silva Lacaz), tendo sido enterrado na cidade de São Paulo.



O brinco


Luís Fernando Veríssimo


‒ Alô?
- Russo, deixa eu falar com a Moira.
- O quê?
- Eu sei que ela está aí. Passa o telefone pra ela.
- Maurão, você enlouqueceu? O que que a Mora ia estar fazendo aqui a esta hora?
- Eu só quero falar com ela, Russo. Não vou brigar, não vou fazer cena...
- Mas o que é isso? Você sabe que horas são?
- Desculpe se interrompi qualquer coisa, mas eu preciso falar com a Moira.
- Maurão. Escuta. São três horas da manhã, eu estou dormindo, não tem ninguém aqui comigo e muito menos a... Ô Maurão! O que você pensa que eu sou? Você e a Moira são meus melhores amigos!
- A Moira não é só amiga, não é Russo? Eu sei. Você e ela...
- Mas que loucura! Marcão...
- Deixa eu falar com ela!
- Quer saber de uma coisa? Vai à... Se a Moira não está em casa eu não tenho nada a ver com isso. Aqui ela não está.
- Você não sabia, mas eu vi você comprando o brinco no calçadão.
- Que brinco?
- Eu vi! E no dia seguinte o brinco apareceu na orelha da Moira.
- E ela disse que eu dei pra ela?
- Ela não disse nada. Eu vi!
- Maurão...
 - Você quer que eu faça uma cena? Então está bem. Estou indo praí agora mesmo. Vamos fazer a cena completa, Russo. Marido traído, revólver na mão, tudo. Te prepara!
Maurão desliga. Russo fica por um momento pensativo. Roberto, deitado ao seu lado, não diz nada. Finalmente, Russo fala. Não há rancor em sua voz, só decepção.
- Você e a Moira, né Roberto?
- Por que eu e a Moira?
- O brinco que eu comprei pra você apareceu na orelha dela.
- Deve ser um parecido.
- Por favor, Roberto. Tudo menos mentira.
- Está bem, eu dei o brinco, Russo. Mas não pra Moira. Pra Lise.
- Pra Lise?!
- É, pra Lise, minha mulher. Juro.
- E a Lise deu pra Moira.
- Será?
- Você sabe onde a Lise está agora, Roberto?
- Deve estar em casa, por quê?
- Porque a Moira não está em casa.
- Você acha que a Lise e a Moira...
- É melhor você ir embora, Roberto. Estou esperando alguém.
- Quem?
- O Maurão vem me matar.
- Eu fico.
- Você vai.
Roberto levanta da cama, se veste e começa a sair.
- Roberto...
- Ahn?
- Você não gostou do brinco?


O Curandeiro



Um curandeiro, uma atendente, uma bola de cristal, um ambiente esfumacento de incenso. O curandeiro, com roupas de mago, apoiado num cajado, dirige-se à atendente.

- Secretária, pode mandar entrar o primeiro paciente.

Aparece um senhor amparado por duas muletas, caminhando com muita dificuldade, totalmente entrevado.

O curandeiro, vendo a situação do paciente, vai logo dizendo:

- Meu amigo, não precisa dizer nada. Já percebi o seu terrível problema. Quero que você vá para trás daquele biombo e se concentre, pois a sua fé e a minha santidade vão curá-lo para sempre da doença que o aflige.

O senhor, quase se arrastando, vai para trás do biombo.

O curandeiro dirige-se, novamente, à atendente e pede:

- Secretária, mande entrar o segundo paciente.

Aparece um rapaz, jeito humilde, vestindo um terno surrado, falando com uma certa dificuldade:

- Pode desabafar, meu bom homem, diga-me o que o aflige?

- U poblema é que xou fanho e gostaria mutcho di xer cantor brofixional. Mã cu exa voz nu dã.

O curandeiro, após ouvir a dicção do rapaz fanho, vai logo dizendo:

- Meu filho, não precisa dizer mais nada. Já percebi perfeitamente a sua dificuldade. A minha capacidade de curandeiro e a sua fé irão curá-lo, para sempre, daquilo que tanto o aflige. Vá para trás daquele biombo e se concentre, pois vou começar as minhas orações.

Dito isso, o curandeiro começa a se concentrar e a secretária a espalhar mais incenso no ambiente. O homem olha fixamente para a bola de cristal, suas mãos estão trêmulas e o seu rosto vermelho e cada vez mais crispado. Com uma voz que parece estar saindo do além, ele dirige-se ao primeiro paciente:

- Meu filhooooo, a sua fé vai curá-lo. Jogue a primeira muleta, não tenha medo, confie em mim, jogue a muleta, meu filho!

Ouve-se um barulho de uma muleta sendo jogada por cima do biombo.

- Agora, sim, que é o teste total da sua fé. Meu filho, jogue a segunda muleta, pode confiar em mim, meu filho, jogue a segunda muleta!

Novamente, ouve-se o barulho de uma segunda muleta sendo jogada por cima do biombo.

- Agora, o rapaz fanho. Meu filho, pode falar comigo! Fale, meu filho a minha capacidade e a sua fé vão curá-lo. Fale comigo, meu filho!

Abrindo a cortina, aparece o rosto incrédulo e assustado do rapaz fanho, dizendo:

- U rabaz da buleta cãiu!


Os dez mandamentos do machista horroroso

Ou

 O crepúsculo dos machões


01. A mulher também é um ser humano quase como a gente.

02. Bem ensinada, a mulher aprende as coisas com muita facilidade.

03. Mulher sempre tem de ter duas melhores amigas pra poder falar mal de uma com a outra.

04. Mulher só precisa aprender a contar até seis. Não existe fogão de sete bocas.

05. Com mulher, marca-se o compromisso duas horas antes para ela não atrasar. Mesmo assim ela atrasa.

06. Só quem entende cabeça de mulher é cabeleireiro

07. Mulher é uma coisa. Mãe é outra.

08 Nunca bata em mulher, a não ser quando há motivo.

09. Existem mulheres que têm quase todas as qualidades do homem.

10. Finalmente, mulher só opina sobre coisas menores, como a escolha do automóvel, a compra da casa, o lugar onde a família vai passar as férias, o que dizer para o patrão na hora de pedir aumento e sobre inseguranças do marido na calada da noite.

Coisas transcendentais, como as viagens interplanetárias, se o homem precisa ou não voltar à Lua, se o rodízio dos carros é fundamental ou a respeito de reeleição, quem resolve é o homem.


(Texto de Jô Soares)


Comprimento dos dedos




Você sabia que o comprimento dos dedos de suas mãos podem revelar coisas sobre sua personalidade?

Nesta foto três tipos de comprimento dos dedos, A, B e C. Confira os dedos e descubra o significado:

A) Diz-se que as pessoas em que o dedo anelar é mais longo do que o dedo indicador são muitas vezes bonitos e atraentes. Irradiam charme e são irresistíveis. Eles são mais agressivos e decisivos e não têm nenhum problema em correr riscos. Os cientistas descobriram que as pessoas com dedos anelares mais longos ganham mais do que aqueles com dedos anelares mais curtos.

B) As pessoas com dedos anelares mais curtos do que os dedos indicadores têm grande confiança em si mesmos, podem até tornarem-se arrogantes. Desfrutam da solidão e não gostam de ser perturbados nos seus tempos livres. Eles não são o tipo de pessoa de dar o primeiro passo quando se trata de relacionamentos, mas de aceitar e apreciar o cuidado que recebem.

C) Aqueles que o comprimento do dedo anelar e o dedo indicador são iguais, são amantes da paz, e sentem-se desconfortáveis quando estão em conflito. Eles são pessoas organizadas e tentam se dar bem com todos, são pessoas que tendem a ser fieis num relacionamento cheio de ternura e carinho para com os seus parceiros.


O que o comprimento dos dedos diz sobre o homem

Por Thiago Perin

Quanto mais longo é o dedo anelar (o que fica entre o mindinho e o do meio) do homem em comparação ao resto de sua mão – especialmente em relação ao indicador –, maior a chance de ele ser um cara que vai atrás do que quer, que arrisca mais, que trabalha duro e que, determinado a vencer, não aceita “não” como resposta. Consequentemente, ele tende a ganhar um bocado de dinheiro e a ter mais sucesso nos relacionamentos do que os outros.

Já os homens cujo dedo mais comprido é o indicador tendem a ser do tipo “pé no chão”, mais tranquilos, sossegados, na deles. Por isso, acabam tirando menos proveito das oportunidades e sendo mais “modestos” quando é hora de se dar bem. O grande risco que eles topam correr, se não for exagero dizer, é o de virarem tediosos.

Quem diz são pesquisadores da Universidade de Concórdia, no Canadá. Eles mediram os dedos e analisaram os traços de personalidade de 413 voluntários, homens e mulheres. E descobriram que os níveis de testosterona presentes no corpo (definidos, em grande parte, ainda no útero materno) afetam o comprimento dos dedos em ambos os sexos.

No caso, os caras do primeiro grupo, do anelar comprido, apresentam mais testosterona, o que os torna, de acordo com o estudo, “homens-alfa”. Mas é só nos homens que isso afeta diretamente o comportamento. Mulheres, a gente sabe que vocês também queriam olhar para as próprias mãos e ficar analisando seus dedos depois de ler esse texto, mas a verdade é que, segundo os cientistas, vocês podem ter dedos de qualquer tamanho – não faz diferença.

(Da revista Super Interessante)



Resumindo:


Dedo anelar é mais longo do que o dedo indicador:

→ São mais agressivos e decisivos e não têm nenhum problema em correr riscos. São muitas vezes bonitos e atraentes e irradiam charme e são irresistíveis.


Dedo anelar mais curto do que o dedo indicador:

→ Desfrutam da solidão e não gostam de ser perturbados nos seus tempos livres. Eles não são o tipo de pessoa de dar o primeiro passo quando se trata de relacionamentos. Têm grande confiança em si mesmos, podem até tornarem-se arrogantes.


O comprimento do dedo anelar e o dedo indicador são iguais:

→ Eles são pessoas organizadas e tentam se dar bem com todos, são pessoas que tendem a ser fieis num relacionamento cheio de ternura e carinho para com os seus parceiros.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Estou procurando...




Feminina, solteira procura companhia masculina, aspectos étnicos sem a menor importância.

Sou uma menina bem humorada que adora brincadeiras de todo tipo.

Adoro longas caminhadas nos bosques, andar de caminhonete em sua companhia, para acampamentos e pescarias e/ou ficar noites inteiras gostosas ao ar livre e deitada com você junto a fogueiras.

Jantares à luz de velas me farão comer na sua mão.

Estarei na porta de entrada, à sua espera quando você chegar de um dia cansativo de trabalho, usando tão somente o que a natureza me deu.

Telefone para (404) 8175-6420 e chame por FIFI...

Estarei lhe esperando.


Desça a página...





Mais de 150 homens ligaram para a 
Sociedade Protetora de Animais de Piracicaba


Papai, eu quero me casar



Papai, eu quero me casar.
Oh, minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com motorista.
Com o motorista você não casa bem.
Por quê, papai?
O motorista aperta muito na buzina,
E depois vai apertar você também.

Papai, eu quero me casar.
Oh, minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com o economista.
Com o economista você não casa bem.
Por quê, papai?
O economista mexe muito na poupança,
E depois vai mexer na sua também.

Papai, eu quero me casar.
Oh, minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com o leiteiro.
Com o leiteiro você não casa bem.
Por quê, papai?
É que o leiteiro tira o leite de vaca,
E depois vai desmamar você também.

Papai, eu quero me casar.
Oh, minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com o padeiro.
Com o padeiro você não casa bem.
Por quê, papai?
É que o padeiro mete muito a mão na massa,
E depois vai amassar você também.

Papai, eu quero me casar.
Oh minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com o Marlon Brando.
Com o Marlon Brando você não casa bem!
Por quê, papai?
O Marlon Brando manteigou a Maria Schneider
E depois vai manteigar você também!

Papai, eu quero me casar.
Oh, minha filha, você diga com quem.
Eu quero me casar com o Ney Matogrosso.
Ney Matogrosso? Aí você casa bem!
Ney Matogrosso vira homem e lobisomem,
E quando é homem não põe medo em ninguém!



Esta música era muito cantada em circos. Algumas estrofes acima foram adaptadas para o programa de televisão “Os Trapalhões”, num quadro do Didi, fazendo o pai; e Zacarias, fazendo a filha que queria se casar. Nesse quadro humorístico, a fala dos personagens era bem caipira.


Respeite os limites


Monique Frebell



Você já tentou beijar o próprio cotovelo? Não? Então tente, você vai se contorcer todo e ele não se aproximará um só centímetro de sua boca. Já tentou lamber a ponta do seu nariz? Não? Nem tente, você vai se babar todo e mesmo assim não vai conseguir.

Estive pensando por esses dias em certos limites que a vida nos impõe, muito difíceis de serem ultrapassados. Há limites por toda a parte, regras a serem obedecidas, fronteiras a serem respeitadas, assim como cada um de nós temos as nossas particularidades e obrigamos aos outros o respeito devido. Pense agora, o que o faz perder o controle, sair da linha, da área segura de si mesmo? Eu respondo por mim, enquanto você se analisa, ok?

Não tente interromper minha noite de sono, eu acordo pisando nas tamancas. Esperneio e grito de tanto ódio que ninguém é capaz de conseguir ter uma noite de sono tranquila depois, você jamais me reconheceria. Se quiser conversar comigo, ser meu amigo, seja objetivo. Detesto conversa mole pro meu lado, não acredito muito em quem fala manso, baixo e pausadamente. Parece que arquiteta as palavras no pensamento antes de expor os argumentos. E eu não tenho muito tempo a perder com quem não sabe o que de exato dizer.

Não ande devagar na minha frente, odeio gente lerda. Tanto espaço pro lado de lá, tem que ficar logo aqui, atrapalhando minha passagem!? Eu sou um pouco estressada, está bem, eu admito, eu sou muito estressada. Não preciso estar naqueles dias para deixar florescer toda ira daqui de dentro.

Não me apego fácil a nada nem a ninguém e o desapego pra mim é a parte mais fácil da vida. Eu não vou levar nada daqui. Nua eu nasci, nua vou partir. Essa é uma certeza que muita gente esquece. Não perco tempo com coisas inúteis nem com pessoas inatas, que ainda não nasceram para a realidade da vida. Não enxergam um palmo à frente sem que precisem de ajuda.

E eu não tenho paciência para ensinar, é verdade que não nasci sabendo, mas tudo o que hoje sei da vida, aprendi sozinha, com os próprios esforços, com os próprios erros. Tenho personalidade mais do que própria, autoestima mais do que sarada, por isso é que talvez me chamam de arrogante e prepotente, mas não é isso. Aprendi a lutar pelos meus ideais e a depender só de Deus para atingi-los e algumas pessoas se incomodam por você não precisar dos favores delas. Elas só se encontram como indivíduos e só se acham úteis quando são requisitadas por alguém, quando clamam a elas por socorro, e eu aprendi desde novinha a não acreditar em promessas falíveis nem em pessoas prestativas demais.

Pessoas não se doam de graça, sem interesses, aquelas que muito se dão, muito cobram, muito pedem em troca, e acaba saindo mais caro do que ter ido à luta sozinha.

Se encontrar comigo no ônibus e quiser sentar ao meu lado, sente com calma, e não invada o meu lado do banco. Você é um e não dois, respeite os limites do meu corpo. Respeite o seu também. Não queira entrar numa calça 38 se você veste 42. Ame-se em primeiro lugar e aí sim, estará apto a amar alguém.

Nunca me interrompa quando eu estiver falando, seja lá onde for, como for e com quem for. Não seja mal educado e inconveniente, não se precipite em participar se não for convocado à conversa. Detesto pessoas ignorantes e entronas, isso me tira do sério, me faz perder a classe.

Não grite comigo. Não aumente o som da TV. Apague as luzes. Feche a janela. Não me irrite. Não me sufoque. Não me compare. Não me desafie. Não me toque. Não me subestime. Respeite os meus limites!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Suporte Técnico




Estimada Equipe de Suporte Técnico,

No ano passado, mudei a categoria Namorado 5.0 para Marido 1.0 e notei algumas falhas no funcionamento geral do sistema, em especial, nos aplicativos de Flores e Joias, que funcionavam perfeitamente na versão Namorado 5.0.

Além disso, o aplicativo Marido 1.0 desinstalou muitos outros programas valiosos, como Romance 9.5, Atenção Pessoal 6.5 e, em seu lugar, instalou outros programas indesejados, como Brasileirão 3.0, Soneca 5.0 e Fórmula-1 8.0.

O aplicativo Conversa 8.0 já não funciona direito e cada vez que quero programar o aplicativo Limpeza da Casa 2.6, o sistema fica interrompido e não responde. Devo mencionar que tentei ativar a função Irritante 5.3 para solucionar esses problemas, mas não tive êxito. Como devo proceder?

Cordiais saudações,

Desesperada.

*****

Prezada Desesperada,

É importantíssimo que você leve em conta que a versão Namorado 5.0 é um pacote de entretenimento, enquanto Marido 1.0 é um sistema operacional. Por favor, acione o comando “Pensei que você me amava.html”, baixe o aplicativo Lágrimas 6.2 e se certifique de instalar a atualização de Culpa 3.0. Caso esses aplicativos funcionem como deveriam, a versão Marido 1.0 deve ativar automaticamente as funções Flores e Joias 2.0.

Em qualquer caso, você deve levar em consideração que o uso excessivo dos aplicativos previamente mencionados podem fazer com que a versão Marido 1.0 passe para a configuração Silencioso Emburrado 2.0, Futebol Com os Amigos 7.0 e Cerveja 6.1. Por favor, considere que a configuração Cerveja 6.1 pode ativar a função Roncos Ensurdecedores 3.0.

Em nenhuma circunstância baixe o aplicativo Sogra 1.0, pois se trata de uma função incompatível com o sistema, podendo provocar danos irreparáveis da configuração. Tampouco experimente reinstalar a versão Namorado 5.0 se você já tem a versão Marido 1.0, pois pode ocorrer a mesma coisa.

Resumindo: Marido 1.0 é um excelente programa, embora possua uma memória limitada e demore a aceitar novos aplicativos. Entretanto, você poderia considerar a possibilidade de adquirir novos aplicativos para otimizar o funcionamento do sistema. Os mais recomendados são Cozinha 3.0 e Roupas Eróticas 7.7.

Sempre à disposição,

Equipe de Suporte Técnico.




Os apelidos do Zé




José morava em uma cidadezinha do interior e, desde criança, era incomodado por Artur, um colega, que dava todos os apelidos possíveis para ele. Era sempre Zé alguma coisa. Quando José ficou adulto, ele se mudou para um bairro mais afastado do centro para fugir dessa pessoa chata. Comprou uma casinha bem cuidada, com um belo jardim na frente e uma árvore muito bonita. Mas o que ele não esperava era que o vizinho da frente era ninguém menos que Artur, o ‘amigo da onça’ que adorava apelidá-lo. E não deu outra: ao ver José ali no quintal debaixo da árvore, ele grita:

‒ Fala, Zé da Árvore! Prazer ter você aqui, hein!

José não acreditou naquilo! Mas, dessa vez, ele não toleraria. No dia seguinte, chamou os serviços da prefeitura e pediu para cortar a árvore. Os funcionários fizeram o serviço, mas deixaram o toco da árvore ali. Ao ver o vizinho, ele disse:

‒ E então, vai me chamar de Zé da Árvore outra vez?

‒ Ah, claro que não. A partir de agora você é o Zé do Toco!

E saiu dando risada.

Furioso com o novo apelido, Zé contratou um tratorista para remover o toco do jardim, deixando ali um buraco. Dias depois, eis que apareceu Artur e, ao vê-lo, José gritou:

‒ Agora quero ver se você vai me chamar de Zé do Toco outra vez!

‒ Claro que não, Zé do Buraco! Ha ha ha!

Zé ficou ainda mais furioso. E, para parar de vez com essa brincadeira sem graça, ele mesmo decidiu tapar o buraco no mesmo dia. Na manhã seguinte, ele está ali no quintal esperando o vizinho piadista. Quando Artur sai de casa, ele o chamou:

Agora acabou! Quero ver que apelido você vai me dar agora! Não tem árvore, nem toco, nem buraco!

Em questão de segundos, Artur responde:

‒ Que nada! Agora você é tapado!

‒ O quê? Como assim? Agora você está me ofendendo!

E antes que Zé partisse para cima dele, Artur responde:

‒ Zé do Buraco Tapado, oras!



Bruxas não existem


Moacyr Scliar


Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa".

Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão.

Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando "bruxa, bruxa!".

Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina.

‒ Vamos logo ‒ gritava o João Pedro ‒, antes que a bruxa apareça. E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último.

E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida descarregaria em mim sua fúria.

Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente.

‒ Está quebrada ‒ disse por fim. ‒ Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim.

Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher à minha mãe. Sorriu.

Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.