quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A origem da fome



Eu procurei entender
Qual a receita da fome,
Quais são seus ingredientes,
A origem do seu nome.
Entender também por que
Falta tanto o de comer,
Se todo mundo é igual.
Chega dar um calafrio,
Saber que o prato vazio,
É o prato principal.

Do que é que ela é feita
Se não tem gosto, nem cor.
Não cheira, nem fede a nada,
E o nada é seu sabor.
Qual o endereço dela,
Se ela está lá na favela,
Ou nas brenhas do sertão.
É companheira da morte,
Mesmo assim não é mais forte
Do que um pedaço de pão!

Que rainha estranha é essa,
Que só reina na miséria,
Que entra em milhões de lares,
Sem sorrir, com a cara séria.
Que provoca dor e medo,
E, sem encostar um dedo,
Causa em nós tantas feridas.
A maior ladra do mundo,
Que nesse exato segundo,
Roubou mais algumas vidas!

Continuei sem saber
Do que é que a fome é feita.
Mas vi que a desigualdade,
Deixa ela satisfeita.
Foi aí que eu percebi,
Por isso que eu não a vi.
Eu olhei pro lado errado,
Ela está em outro canto.
Entendi que a dor e o pranto
Era só seu resultado!

Eu achei seus ingredientes
Na origem da receita,
No egoísmo do homem,
Na partilha que é mal feita!
E mexendo num caldeirão,
Eu vi a corrupção
Cozinhando a tal da fome,
Temperando com vaidade,
Misturando com maldade,
Pro pobre que lhe consome!

Acrescentou na receita
Notas superfaturadas:
1 quilo de desemprego,
30 verbas desviadas,
Rebolou num caldeirão
20 gramas de inflação
E 30 escolas fechadas!

Sendo assim, se a fome é feita
De tudo que é do mal,
É consertando a origem
Que a gente muda o final.
Fiz uma ponte ligeiro,
Se juntar todo dinheiro
Dessa tal corrupção,
Mata fome em todo canto
E ainda sobra outro tanto
Pra saúde e Educação!

(Bráulio Bessa).



Bráulio Bessa Uchoa é um poeta de literatura de cordel, declamador e palestrante brasileiro. Nascido em Alto Santo, no Vale do Jaguaribe, Ceará, ficou famoso após apostar na internet para resgatar a tradicional literatura de cordel. Faz participações no programa Encontro com Fátima Bernardes, na Rede Globo de Televisão. 


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A vacina que salvou o jovem José Meister



É mundialmente conhecido o caso do rapazinho alsaciano de nove anos, José Meister, que, em Julho de 1885 foi mordido catorze vezes por um cão com a doença da raiva. A mãe suplicou a Pasteur que lhe salvasse o filho. Até à data ninguém sobrevivera a estas mordeduras. O cientista esteve hesitante, porque ainda só testara a sua vacina em animais e era um risco enorme experimentá-lo num ser humano. Pasteur disse mesmo ao seu colega de investigação Emílio Roux que estava disposto a servir ele próprio de cobaia para poder testar a reação. Porém surgiu esta emergência e Pasteur passou momentos de angústia até se decidir. E pensou: se o rapaz morre depois de vacinado? Como as hipóteses de sobrevivência sem vacina eram nulas, arriscou. Luís Pasteur era químico e hoje diríamos biólogo, mas não era médico, por isso não podia ser ele a ministrar a vacina sob pena de ser processado. Pediu então ao Dr. Grancher, seu assistente, que o fizesse. Sessenta horas depois de ter sido mordido, José Meister recebeu a primeira de 12 injeções antirraiva, que lhe foram sendo injetadas uma após outra sob apertada vigilância. Família e cientistas aguardaram várias semanas. Por fim o jovem sobreviveu. Este jovem ficou para sempre agradecido a Pasteur e deu mesmo a vida por ele, já vamos saber como e quando.

A repercussão do sucesso da vacina antirrábica foi tal que a Academia das Ciências desenvolveu um projeto para criar uma instituição de investigação (futuro Instituto Pasteur) que foi bem acolhido no estrangeiro, tendo o próprio czar Alexandre III contribuído com cem mil francos. O Instituto foi inaugurado em 1888, no mesmo ano em que Vicent Van Gogh pintava na Provença, a sequência dos «Girassóis».

Pasteur foi admitido como membro da Academia de Medicina, em 1873 e em 1882 na Academia Francesa, prestigiadas instituições.

Em 1940, na 2ª Guerra Mundial, quando as tropas de Hitler invadiram a França, um grupo de militares quis forçar a entrada do Instituto Pasteur – onde repousam, numa cripta, os restos mortais de Pasteur. José Meister era o responsável pela segurança e, ao verificar que não conseguia impedir que os nazistas entrassem, suicidou-se (os cientistas nazistas tinham a paranoia de estudar os cérebros de pessoas consideradas gênios). Mas o cérebro de Pasteur não foi roubado.

Luís Pasteur já entrara na História pela sua descoberta, mas a sua contribuição para a Humanidade foi muito maior. O estudo da fermentação levá-lo-ia a descobrir o porquê dos vitivinicultores, de diversas zonas do seu país, verificarem, com tanta freqüência, que os seus vinhos se transformavam em vinagre, sendo uma enorme perca para a economia francesa. E isto passou a ser particularmente grave a partir de 1860, depois de assinado o tratado comercial entre a França e a Grã-Bretanha, por se verificar que grande percentagem dos vinhos não resistiam à viagem, estragando-se irremediavelmente. Nessa época, a França produzia 50 milhões de hectolitros de vinho por ano. A perda do precioso líquido era uma calamidade. O imperador Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte) pediu a Pasteur que investigasse o porquê da fermentação do vinho e proporcionou-lhe as melhores condições de trabalho, equipando laboratórios para que o grande químico pudesse dedicar-se inteiramente a essa investigação. Foi criado, em 1867 o laboratório de físico-química expressamente para Pasteur, na Escola Normal Superior. Depois de aturados estudos o cientista descobriu que submetendo o vinho a um aquecimento elevado durante alguns segundos, e logo de seguida, a um repentino abaixamento da temperatura a menos de dez graus, matava os germes que alteravam os líquidos. Este sistema foi depois utilizado na cerveja e vinho, daí o termo «pasteurizado» que todos conhecemos.




Minha Casta Dulcineia


Fernando Sabino


Estou numa esquina de Copacabana, são duas horas da madrugada. Espero uma condução que me leve para casa. À porta de um “dancing”, homens conversam, mulheres entram e saem, o porteiro espia sonolento. Outras se esgueiram pela calçada, fazendo a chamada vida fácil.

De súbito a paisagem se perturba. Corre um frêmito no ar, há pânico no rosto das mulheres que fogem. Que aconteceu? De um momento para outro, não se vê mais uma saia pelas ruas − e mesmo os homens se recolheram discretamente à sombra dos edifícios.

− Que aconteceu? − Pergunto a alguém que passa apressado.

É a radiopatrulha: vejo o carro negro surgir da esquina como um deus blindado e vir rodando devagar, enquanto os olhos terríveis da Polícia espreitam aqui e ali. Não se sabe como, sua aparição foi antecedida de um aviso que veio rolando pelas ruas trazido pelo vento, espalhando o medo e possibilitando a fuga.

Eis, porém, que surgem da esquina duas mulheres, desavisadas e tranquilas. Uma é mulata e alta, outra é baixa e tão preta, que só o vestido se destaca dentro da noite − ambas pobres e feias. Veem o inimigo, perdem a cabeça e saem em disparada, cada uma para o seu lado. O carro da polícia acelera, ao encalço da mulata: em dois minutos ela é alcançada...

A outra, trêmula de medo, se encolhe a meu lado como um animal, tentando ocultar-se. O carro faz a volta e vem se aproximando.

− Pelo amor de Deus, moço, diga que está comigo.

Já não há tempo de fugir. A pretinha me olha assustada, pedindo licença para tomar-me o braço, e, assim, protegida, enfrenta o olhar dos policiais. Tomado de surpresa, fico imóvel, e somos como um feliz, ainda que insólito casal de namorados. Compenetro-me, forças secretas dentro de mim endireitam-me o corpo para enfrentar a situação. Ouço a voz de Quixote sussurrar-me que agora, ou vou preso com ela, ou ninguém vai, na verdade, neste instante de heroísmo, unido a um ser humano pelo braço, sinto-me capaz de enfrentar até o Juízo Final, quanto mais a Delegacia de Costumes.

Passado o perigo, a preta retira humildemente o braço do meu, faz um trejeito, agradecendo, e desaparece na escuridão. Eu é que agradeço, minha senhora − é o que pensa aqui o fidalgo. Tomo alegremente o meu lotação e vou para casa com a alma leve, pensando na existência daquelas coisas, como diria o poeta, pelas quais os homens morrem.

*****

(Do livro Quadrante I)


Os vestígios do velho garanhão



Aquele velho Coronel da Guarda Nacional de antigamente tinha muita coisa de Chicuta Campolargo e Tibério Vacariano admiravelmente pintados por Érico Veríssimo na inspiração de tantos tipos humanos espalhados pelo Rio Grande de outrora.

Sim, pelo passado de arbitrariedades e violências no calor de “entreveros” das revoluções; como delegado das zonas conflagradas pela polícia e contrabandistas, e onde campeava um abigeato desenfreado; e como “beleguim façanhudo” que fazia valer a sua “otoridade” nos bochinchos em carreiras, e, mais, na “limpeza” dos meretrícios infestados de maus elementos, contumazes desordeiros, arruaceiros inveterados...

Na longa crônica do Coronel, havia, também, o registro de um machismo safado de insaciável sátiro, inescrupuloso e prepotente no abuso de fêmeas de diferentes naipes e categorias sociais.

Orgulhava-se de ser um garanhão indócil que nunca “repugnava a beldroega”... Um pastor retouçando manadas de éguas e potrancas. Enfim, o mais legítimo “colhudo” como chamam os garanhões na campanha, e até de “cuiúdo”...

Agora, transitava tropegamente pelas ruas. Tendo virado os 85 anos, estava com aparência de muito mais velho, bastante surdo, com achaques respiratórios e urinários, e arrastando os pés.

Com o lombo arqueado ao peso implacável dos anos, apoiava-se em uma bengala que volta e meia brandia acompanhando uma enxurrada de impropérios que nunca lhe eram parcos, embora sem motivação...

Tentava ainda falar grosso em nostalgia de uma autoridade já perdida em pretérito  distante...

Naquele dia, ao sair do consultório médico em revisão clínica, meio afogueado pelo calor de um sol de janeiro, buscou uma mesa do principal bar da praça que carregava seu nome e cuja placa não cansava de ler e sentindo um justificado orgulho.

Passando o lenço pelo rosto suado, vermelho, e algo ofegante pediu alguma coisa para beber.

Alvo de olhares curiosos que lhe davam uma certa faceirice, o velho Coronel como que gozava a doce reminiscência de sua antiga autoridade.

Já achando o garçom um tanto displicente, deu uma batida com a bengala no chão, e alteou a voz meio rouquenha de maneira que chamava mais atenção dos circunstantes.

− Ô sacripanta, vai ou não vai me trazer a bebida que eu pedi?

Alguns segundos após as gargalhadas explodiram e a “otoridade” esboçou um sorriso gajo, vaidoso, inconfundível...

Graças à providencial surdez, o velho garanhão não se deu conta da humilhante, mas espirituosa “tirada” de um gauchão ali presente:

− Mas bah, tchê!... Do “cuiúdo” véio só ficou o relincho!...

*****

(Do livro “O sexo... Como Humor na Medicina”,
do Dr. Caio  Flávio Prates da Silveira)


O Que Restará de Ti


(It rastreatra de Toi)

O que restará de ti
É tudo aquilo que deste
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados.

O que restará de ti
E de teu jardim secreto
É uma flor esquecida,
Jamais fenecida,
E tudo que deste
Nos outros, florescerá,
Pois aquele que perde a vida
Um dia encontrará.

O que restará de ti
É tudo que ofereceste
De braços abertos,
Numa manhã ensolarada,
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada,
E tudo que sofreste
Nos outros reviverá,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

O que restará de ti
É uma lágrima caída,
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração.
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade,
E tudo que semeaste
Nos outros germinará,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

*****

O Que Restará de Ti é uma livre tradução de autoria de Miguel Falabella do poema francês “It rastreatra de Toi” e foi recitado em homenagem à atriz Márcia Cabrita (1964-2017), no Programa Fantástico (12/11/17).


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Histórias de Paraquedistas XXXII


A maior tragédia ocorrida do Regimento Santos Dumont

Hoje, 26° Batalhão de Infantaria Paraquedista

Numa instrução realizada no dia 10 de março de 1966, no RSD, no anfiteatro da 2ª Cia, defronte à cadeia, tendo como monitor o 3° Sgt Jorge Mendonça de Carvalho, Pqdt 1135, do 1954/1 e MS 414, uma granada de boca de fuzil explodiu no meio dos recrutas. Morreram, além do instrutor, oito soldados e dezenas ficaram feridos e mutilados.


Falecidos no acidente;

3º Sgt Jorge Mendonça de Carvalho   (02/09/1925 - 4/3/1966)
Sd Carlos Alberto Sandoval                (12/07/1947 - 4/3/1966)
Sd Edir Franklin de Brito                    (27/12/1947 - 4/3/1966)
Sd Jorge Oliveira  Duarte da Motta     (24/09/1947 - 4/3/1966)
Sd José Silva Moreira                          (22/03/1947 - 4/3/1966)
Sd José Henrique Casanova Mazzei    (21/02/1947 - 4/3/1966)
Sd Nelson Pitão Júnior                         (17/08/1948 - 4/3/1066)
Sd Roberto Fernandes Pereira              (10/12/1947 - 4/3/1966)
Sd Walmir e Silva                                 (28/10/1945 - 4/3/1966)

*Todos os soldados foram brevetados pós-mortem.

Testemunho de quem estava lá no dia do acidente:

Nesse dia, eu estava tendo uma instrução com Sgt Lima Vieira, no Bosque dos Campeões, quando fomos surpreendidos com a explosão. Ao vermos vários soldados correndo pelo pátio, em frente à quadra, foi que nos demos conta da gravidade do acidente. Eram soldados ensanguentados, alguns atingidos no rosto, e que, posteriormente, perderam a vista. O Comandante era o Tenente Coronel Pamplona, que deu ordem para que os feridos fossem levados para o Hospital Carlos Chagas, onde vi uma carreira de soldados mortos, e, posteriormente, para o Hospital Barata Ribeiro, em Mangueira. O Sd Roberto Fernandes Pereira estudou no mesmo colégio que eu, e eu o vi morto no Hospital Carlos Chagas junto com os outros. Foi realmente um acidente terrível.

Sérgio de Oliveira Matos

Eu cursava o CFS (Curso de Formação de Sargentos) realizado no REsI. (Regimento Escola de Infantaria) e fui incumbido de entrar em contato com a esposa dele, comunicando que ele (3° Sargento Jorge Mendonça de Carvalho), seria o patrono da nossa turma.

Clarival Vilaça

O Cabo Soares, hoje Capitão da Reserva, naquela ocasião estava auxiliando na instrução. Foi chamado na Cia para resolver um problema de serviço, quando estava regressando para o local da instrução, a granada explodiu.

Não sei se vocês recordam, e para outros que ainda não tem conhecimento do ocorrido, era uma instrução de granada de bocal usada no cano do mosquetão. Não sei se estava com ou sem a proteção do disparo, caiu no chão (terra batida), ocasionando a explosão. Tanto o sargento como os demais soldados sofreram mais pelo deslocamento do ar, tendo os seus corpos abertos. Os demais, como estavam em um anfiteatro, receberam estilhaços. Muitos foram atingidos nos olhos e nos órgãos genitais. Do outro lado da rua, ficava o xadrez, havia pedaços de peles coladas na parede. Foi um momento dramático e triste.

José Alfredo Stron Nunes

Fiz o Curso de Cabos (CFC/65) com o Sargento Mendonça em 1965. Era ele o responsável por alguns detalhes administrativos do Curso, entre o eles o Livro de Ocorrências, para o qual ele havia me nomeado escrivão por ter boa letra e redação. Com suas sobrancelhas grossas e sua cara indiática de Anthony Quinn (este na verdade um mestiço mexicano, imagino até hoje se seu verdadeiro nome não era Antonio Joaquim), Mendonça era a imagem da cordialidade.

Certos sargentos e tenentes se esmeravam, inflexivelmente, em procurar defeitos nos alunos para rebaixar seus conceitos, matéria eliminatória que podia anular os bons resultados das demais. O Sérgio Chaves já havia passado por esse pesadelo autoritário de um tenente, a quem detestava, merecidamente, pois, no CFC/64, foi o primeiro lugar em notas e reprovado em conceito graças à perseguição do insensível, segundo ele me contou.

Os instrutores e Monitores anotavam méritos e deméritos nas papeletas e depois me passavam para registrar no Livro de Ocorrências. Como também era aluno e assistia a todos os atos do curso de onde vinham os deméritos, ao recebê-las percebia muitas vezes maldade e perseguição em algumas declarações não condizentes com a realidade. Então, chamava o Mendonça e lhe explicava o que realmente vira. Ele sempre me autorizava a aliviar a anotação. Muito cabo, que continuou estudando e depois se tornou sargento metido a inflexível, não sabe até hoje dos riscos que o Mendonça correu para me autorizar a aliviá-los. Na época do acidente, também estava ainda meio doente, cursando o CFS no REsI, recém-alteado do HCEx. Ao fim do dia, fui ao RSD saber dos detalhes e dos mortos. Tive um choque com a morte do Mendonça, de quem gostava muito e com quem me identificava. Um colega me narrou, não lembro quem, que foi ajudar no socorro imediatamente após a explosão e chegou ao ferido, cujo sangue fluía abundantemente pela carótida. Tapou-lhe a artéria com a mão e este lhe disse que fosse atender os outros, que estava bem. O ferido levantou-se com a mão na carótida, deu alguns passos e caiu morto.

Zilton Tadeu

No que diz respeito à história revivida pelo Zilton, nada a alterar. Foi aquilo mesmo, mas não guardo mágoas. Daquela reprovação, por conceito subjetivo, tirei lições de que não se deve transigir com os deveres, mas que se pode transigir com as pessoas.

Nunca encontrei, no meu conhecimento, justificativa para o proceder de alguns oficiais e sargentos daquela quadra da minha vida. Mas, daquele infortúnio passageiro, advieram-me maneiras e procedimentos que muitas felicidades me trouxeram nos 29 anos seguintes em que permaneci no Exército.

Sérgio Chaves

Na realidade, os arquivos oficiais são, em sua maioria, estereotipados e "frios". Jamais um documento oficial, que narra o histórico de uma entidade, consegue colocar no papel a emoção, riqueza de detalhes ou sequer narrativas dos que vivenciaram o fato.

À guisa de detalhes, três fatos marcaram em minha vida naquele episódio: O primeiro foi a "pilha" de cadáveres que vi no hospital Carlos Chagas; o segundo, foi quando ajudava a levar um soldado para a sala de cirurgia do Hospital Barata Ribeiro. Segurando a garrafa de soro e com o braço para cima, minha gandola saiu de dentro da calça. O então Cap. Zamite da "PE" mandou um Sgt, também da "PE", dizer-me para colocar a "gandola para dentro da calça". Não prestou! Falei para o Sgt "PE" dizer ao seu capitão que ordem absurda não se cumpre (Hora imprópria para se falar em uso correto de uniforme). E o terceiro, foi quando, já no HCEx e como escrivão, fui falar com o médico legista - no necrotério - sobre o Sgt Mendonça, e ele veio me atender, fumando, com o cigarro todo sujo de sangue.

“JB” Rodrigues.
  
A explosão da granada

No início de março de 1966, estava conferindo e organizando a munição de dotação do Pelotão, em companhia do meu armeiro, quando ouvi uma grande explosão. Determinei ao Ariosi para que fosse verificar o que tinha ocorrido. O soldado voltou correndo e gritando: “Sargento, explodiu uma granada e tem gente morrendo!” Rapidamente fui verificar. Quando me deparei com aquele quadro horroroso, vendo companheiros despedaçados ou se arrastando pelo chão com os corpos mutilados, feridos ou atordoados, a reação imediata que senti foi de imobilidade. Entretanto, me veio logo à consciência de que eu poderia ser um daqueles acidentados, necessitando, portanto, de socorro. Voltei e fui prestar auxílio. Rapidamente chegaram viaturas que estavam disponíveis na garagem e que foram utilizadas na emergência, para transportar os feridos com a máxima urgência para o hospital. Eram colocados nessas viaturas conforme as condições e a situação permitiam e com a urgência que o caso exigia.

O acidente aconteceu, quando um Sargento estava dando uma instrução com granada de bocal. O manuseio acidental ocasionou a explosão desse artefato, resultando na morte instantânea do Sargento (caiu para trás, com o abdome dilacerado.) com mais seis soldados e outros trinta e quatro mutilados.

Mas porque explodiu a granada? Provavelmente devido a um defeito de fabricação.

Luiz Antônio Lima Vieira, pqdt 7717, 1961/5

No dia de instrução da colocação dessa granada no cano do mosquetão (1964), estava chovendo, por isso a instrução foi realizada no dormitório da 1ª Cia. Um sargento a colocava no cano e depois a retirava. Com a granada na mão, ele retirava um dispositivo de segurança, segurando-a firmemente, dizendo que se ele a largasse, ela explodiria.

Sentado no chão, na primeira fila, atento às instruções, eu. Se desse algum problema, seguramente, eu seria um dos primeiros a morrer.

Nilo da Silva Moraes

Adendo final

Normalmente, a instrução com essa granada, no cano do mosquetão, era feita com uma réplica da mesma. Parece-se com a real, possui todos os dispositivos, mas não tem a carga explosiva. Naquele dia, não se sabe por qual motivo, o sargento realizou a demonstração com uma granada verdadeira. Tirou o seu dispositivo de segurança e a colocou em cima da mesa, quando apanhou a granada, com a parte frontal para baixo, impulsionou o percussor de encontro à carga explosiva ocasionando o trágico acidente. Há outra versão de que a granada, com o dispositivo de disparo armado, caiu da mesa com a cabeça da granada para baixo, explodindo na hora.


Além desses nove (9) mortos, 80 soldados, recrutas e veteranos, foram feridos e alguns mutilados seriamente.


O lenço do gaúcho



Desde o início da colonização do território do atual Rio Grande do Sul, o lenço vem acompanhando nossa evolução. As tribos indígenas, que habitavam nossas terras, especialmente os Charruas, Jaros e Minuanos, com cabelos compridos, usavam tira, fita ou “vincha”, prendendo suas cabeleiras.

Após a chegada dos espanhóis e portugueses é que surgiu a moda de cortar o cabelo.
Em razão dos longos cabelos, que usavam, os indígenas prendiam com tiras de imbira ou couro de pequenos animais. Já na época dos padres missioneiros espanhóis passaram a usar o pano, que circundava a testa a parte traseira do pescoço. Essa tira servia para prender os cabelos e afastá-los dos olhos, na investidas para as caçadas, disputas esportivas ou batalhas de guerra.

As matas bravias e as grandes distâncias a percorrer foram tornando pouco eficaz tal forma de uso da tira. Passaram a prender seus cabelos, puxando parte para trás da cabeça, atando o maço rente a cabeça. À moda “colo-de-cavalo”. Nesse período registra-se o “Peão das Vacarias”. Ele usava tal fita prendendo os cabelos e que era chamada, pelos platinos de “vincha”.

As lutas barbarescas do sul-rio-grandense primitivo mesclaram o ideal e a coragem retemperados pelo sangue bravio, suor e o Vento Pampeano. Ficaram impregnadas, na vincha do herói anônimo, que a história esqueceu, muitas lições de bravura.

Embora que em nossas pesquisas não encontrássemos, qualquer autor referindo-se ao fato, temos a firme convicção de que o lenço de pescoço não surgiu como um adorno, mas sim da evolução da vincha, pelas circunstâncias da época. Quando no modismo de cortar os cabelos não havia mais motivos para o peão usar a tira atada à cabeça. Foi, possivelmente, conservada, enlaçada no pescoço, com as pontas atiradas para trás, grande, retangular, com as pontas viradas para trás, nos moldes usados atualmente pelas mulheres.

O lenço desceu da cabeça para o pescoço, ainda com as pontas para trás. Sua maior afirmação foi quando adotado politicamente, como designativo de cor partidária. Os companheiros ou inimigos eram reconhecidos, na distância, pela cor do lenço. As pontas atiradas para trás pouco destacavam a cor – símbolo de luta. Surgiu, finalmente, o lenço do gaúcho, nos moldes atuais, atado ao pescoço, solto ao peito. Passou a ser instrumento de identificação, ao longe, tremulando ao vento.

Em certo tempo chegou-se a usar o lenço e a vincha, conjuntamente, hoje, em certas apresentações artísticas, ainda encontramos o duplo uso. Há muitas cores de lenços, sendo o branco e o vermelho os mais tradicionais. Há várias formas de atar o lenço gaúcho. As mais tradicionais são 8 formas. Duas têm origem política, o Nó Farroupilha, de uso nos anos de 1835 a 1845 e o Nó Federalista, de 1893 a 1896. O pano geralmente usado é a seda. Um lenço esvoaçando ao vento, sobre o peito de gaúcho, é uma marca registrada da altivez de nossa indumentária gaúcha.

Fonte: Salvador Ferrando Lamberty
 ABC do Tradicionalismo Gaúcho. 146p.


Lenço – nó comum



O Velhinho Meditabundo



Era um pobre de um velhinho,
Que se sentava lá na praça,
Com o seu terno apertadinho,
Todo comido de traça.

Chegava sempre na mesma hora,
Lá pelo final da tardinha,
Sentava-se no mesmo banco,
E ajeitava a gravatinha.

Com o semblante triste e carregado,
No horizonte fixava o olhar,
E com os lábios murchos cerrados,
Se punha a meditar.

Passada uma hora inteira,
Sem muito ânimo, se levantava,
Ajeitava o paletó puído,
E com passos curtos se mandava.

Fazia isso há muitos anos,
E todo mundo ficava a se perguntar,
No que pensava o velhinho,
Quando estava a meditar.

Até que um dia um sujeito,
Vencido pela curiosidade,
Aproximou-se do velhinho,
E perguntou-lhe com humildade:

Desculpe-me a intromissão,
Mas uma dúvida me apavora,
O que faz o senhor aqui,
Todos dias a mesma hora?

E, com voz grave e emocionada,
O velhinho deu a resposta pedida:
É que há quarenta anos neste banco,
Conheci o grande amor da minha vida!

E, com os olhos lacrimejantes, completou:
Apaixonei-me no mesmo momento,
E logo depois, neste mesmo banco,
A pedi em casamento!

Enternecido pelas palavras do velhinho,
O sujeito tentou adivinhar:
Já sei. Ela não aceitou o seu amor,
E com outro foi se casar!

E o velhinho balançando a cabeça,
Infelizmente não foi isso!" - e começou a soluçar,
Foi muito pior... ela disse sim,
E está me esperando para jantar!"


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que jogamos



A maioria dos homens que joga usa o jogo como substituto para o sexo. Mas esta opinião é de uma mulher, a psicóloga Charlotte Olmsted. É por isso que há muito jogo entre soldados, marinheiros, presidiários. E é bom, diz ela, pois evita muitas brigas e algum homossexualismo.

Para outros, a melhor coisa depois de jogar e ganhar é jogar e perder. Pois o principal é jogar. Alguns psicólogos, porém, acreditam que o que mantém uma pessoa jogando é a constante expectativa de ganhar. Mas muitos jogadores admitem ter uma maior inclinação para perder.

Dostoievsky, por exemplo, era um jogador deste tipo. Gostava de perder. Freud, na obra “Dostoievsky e o Parricídio”, diz que o escritor via na sorte a figura do pai a quem estava, com o ato de jogar, pedindo punição. Para muita gente, contudo, o jogo é um desejo essencialmente infantil, um gozo de quem se imagina ganhando um dinheiro pelo qual não trabalhou.

Há muita qualidade que é comum a todos os jogadores: não há um só que não seja supersticioso. Mas também entra no jogo a vontade que os homens têm de se desgastar. Nesse caso o jogo funciona com um desafio à sorte, uma necessidade existencialista do homem em desgastar sua liberdade como bem escolheu.

Para apostadores de corrida de cavalos a coisa é diferente: na grande maioria são pessoas da classe baixa e da média-inferior, que escolhem seus palpites para afirmar sua habilidade em tomar decisões já que vivem numa sociedade despersonalizada em que nada decidem sozinhos. Para John Cotton, escritor e pesquisador norte-americano, o jogo é uma doença mágica. Ela faz com que alguns cocem a cabeça enquanto outros ficam rindo até morrer, como se tivessem sido mordidos por uma tarântula.

Wayne Pearson, um entendido, membro da Junta de Controle ao Jogo de Nevada (EUA), tem informações sensacionais: estatisticamente jogar é coisa normal. As pessoas que não jogam são anormais na sociedade americana. E mais: para os ricos o jogo pode ser um elegante passatempo. Para os pobres, sua última esperança. Mas, de qualquer modo, está presente em todas as classes sociais.


(Texto da revista Realidade, novembro de 1967)

domingo, 19 de novembro de 2017

O barbeiro escritor



(da Revista Língua Portuguesa n° 7, de 2006)

Sem pressa, com toda a tranqüilidade de um bom interiorano, Dovílio Rodrigues, de 70 anos*, nos conta que é barbeiro profissional desde os 14 anos Excelente pão e exímio contador de piadas, aos 26 anos, Dovílio atraía uma freguesia tão numerosa que já não tinha tempo nem para almoçar.

Dovílio credita à pratica dos jogos de tabuleiro e às palavras cruzadas sua prodigiosa memora e um extenso vocabulário que lhe permitiram realizar seu prodígio: escrever um livro composto por palavras iniciadas pela letra P: Pentapaixão.

Ao todo são 180 páginas com 20.267 palavras sequenciadas, todas em p; não há uma sequer iniciada por qualquer outra letra do alfabeto. Não foi um exercício aleatório de alinhavar termos de maneira forçada. As palavras de seu romance surgem guiadas por uma coerência lógica, compõem-se o enredo do qual participam 38 personagens.

O livro narra a história do pedestrianista Plínio Pirilo Perez Proença, que nasceu primogênito, de parto prematuro pélvico podálico (parto pelos pés),cercado dos cuidados de seus prestimosos pais, mas que acaba caindo na promiscuidade, levando uma vida irregular, sem objetivos. Plínio apaixona-se cinco vezes, por mulheres completamente diferente (daí o nome do título do livro, Pentapaixão) e, ao final, consegue se reerguer graças ao poder da prece, tornando-se um pastor penitente. Ao descrever a trajetória do personagem principal. Ao descrever a trajetória do personagem principal – sua decadência moral e seu posterior reerguimento –, Dovílio praticamente esgota todas as palavras iniciadas em p em diversas áreas, como esporte, comércio, medicina, religião.

Uma narrativa em p

No trecho que segue, a descrição que Dovílio Rodrigues faz, em Pentapaixão, de um acidente automobilístico sofrido pelo protagonista, Plininho, por seu pai Paulo Pirilo, e por empregado deles chamado Percy.

* * * * * * * *
  
Paulo Pirilo pagou pedágio. Profissional, pilotava primando pela prudência, pela perícia.

Plininho, percebendo pista plana, pediu pro pai para pilotar. Pai pensou, pensou... “Poucas pessoas pilotando pela pista...” Pelo primeiro pedido, permitiu.

Plininho pilotava pelos pastos, pelas planícies. Porém, pouco praticava pilotagem por pistas pavimentadas, própria para preparar pilotos profissionais. Paulo parou, Plininho pulou, permutaram posição. Percy Penteado permaneceu pela parte posterior.

Plininho pegou Parati. Percy, preocupado, pois poderiam passar por perigos, pediu para Plininho pisar pouco. Porém, principiante para pistas pavimentadas, pé pesado, pouco prudente, pressionando pedal, pisou profundamente.

Passando por pedriscos perdidos pela pista (pouca porção), por pisar pesado, patinou perpendicularmente, passou pela pista para pedestre, perigando precipitar pelo precipício.

Pós passar pela pista para pedestre, pegou placa publicitária, posta por pontaletes plantados paralelos.

Praticamente perdido, pós piruetar, pendeu pela pirambeira, parando penso. Por pouco pararia pendurado, prensado por potente penedo (pesada pedra).

Prejuízos: painel partido, placa penduradas, pisca-pisca pararam piscação, porta prensada, porta-pneu possuindo pequenas pregas produzidas pela pancada, platinado perdeu platina, platô perdeu parafusos principais, pneus partidos, pintura perdida...

Paulo, Plininho, pávidos, pálidos pelo pavor passado, pularam primeiro! Porém, Percy, protegido pelo porta-pneu, pôde permanecer preservado.

*70 anos em 2006.

(Do livro Pentapaixão, de Dovílio Rodrigues
 Unigraf – editora de Matão – SP)

sábado, 18 de novembro de 2017

Advogada e a Vara



Olha só este inusitado pedido de uma advogada da OAB do Rio de Janeiro! Se achar que é mentira, entre no site da OAB/RJ, vá em coluna dos inscritos e digite o nº de inscrição registrado na petição abaixo.

Exmº. Sr. Dr. juiz da 16ª. Vara do Trabalho do Rio de Janeiro.

Doutora Fulana de Tal, advogada do reclamante Beltrana de Tal, vem, ante a presença de V. Exª., informar que, de uma forma ou de outra, resolveu renunciar aos poderes doados pelo autor na folha da procuração. Que a presente renúncia tem motivos justificadores suficientes, trazendo desânimo até a alma; senão, vejamos agora:

1 - A ilustre advogada renunciante é considerada pela maioria a maior advogada de Duque de Caxias (RJ), a mais brilhante, pois sou competente, conheço muito o direito, o errado e o certo. Minha insatisfação é originária da mudança no nome de 'Justiça do Trabalho'. Antes, chamava-se JCJ (Junta de Conciliação e Julgamento), e agora passou a chamar-se "Vara". Esta nova denominação me trouxe e me traz diariamente imensos e grandes constrangimentos.

2 - Antes, para vir fazer audiências ou acompanhar processos eu entrava na Junta, e agora sou obrigada a dizer "estou entrando na Vara", "fui à Vara", "fiquei esperando sentada na Vara". Não concordo. Sou mulher, evangélica, não gosto de gracejos. Deixo a 'Vara' para quem gosta de 'Vara': funcionários 'varejistas', homossexuais, que tem muito, fiquem na 'Vara', permaneçam na 'Vara', trabalhem com 'Vara'. Saio desgostosa por não concordar com termo pornográfico, vara pra lá, vara pra cá...

Em tempo - Outro dia, estava entrando no prédio da Justiça do Trabalho, e o meu telefone celular tocou. Era meu marido. Ele perguntou: “Onde você está?” E olha só o constrangimento da minha resposta: “Entrando na décima Vara.

3 - Assim, comunico minha renúncia. Já comuniquei verbalmente a meu ex-cliente, tudo na forma da lei. Assim posto, Peço e aguardo deferimento.

S. J. de Meriti p/Rio de Janeiro, 05-05-2002.

Dra. Fulana de Tal, Advogada inscrita na OAB-RJ. 

Portugueses - literalmente racionais



Eu caminhando em Portugal, próximo da fronteira com a Espanha, Caminho de Compostela, perguntei a um sujeito parado em uma porteira de uma fazendola:
− Esta estrada vai para a Espanha?
Respondeu sério e meio contrariado:
− Se vai, não sei, mas se for, vai fazer muita falta...

Meus pais e meus tios estão em Lisboa. Vão ao restaurante almoçar. No final, o garçom pergunta:
− Café?
Meu pai:
− Um, por favor.
Meu tio:
− Dois!
Minha tia:
− Três!
Passam alguns minutos e lá vem o garçom. Com seis cafés.

Querendo me informar mais sobre os acompanhamentos de um dos pratos de um restaurante em Alfama, perguntei ao garçom:
− Mas como vem esse bife aqui?
Ele prontamente me respondeu:
− Alguém o traz da cozinha!

Uma vez fui a um restaurante que servia leitão à bairrada:
− Oi, como é o leitão à bairrada?
− Ora, não sabes o que é um leitão?
− Sim, mas o que é à bairrada?
− A região onde estamos.

Meu padrasto estava em um ônibus em Portugal com a família e viram em um outdoor escrito algo como “Pasteizinhos de Belém, desde 1920” e uma foto dos pasteizinhos.
Ele comentou com a família, brincando:
− Olha, gente! Desde 1920!
No que uma senhora portuguesa interrompeu:

− Me perdoem, mas aqueles já foram comidos, chegando lá vão encontrar outros fresquinhos.

Um cliente estava indeciso sobre o que pedir. Viu um garçom passando com um prato que o agradou e falou para o que o atendia:
− Pode me trazer aquele.
A resposta do garçom:
− Não será possível porque aquele já é do senhor da mesa ao lado.

Minha amiga estava almoçando no mesmo restaurante que Fernando Pessoa frequentava assiduamente.
Como ela é formada em Letras, com mestrado em Literatura, estava mais interessada nas histórias do lugar do que na culinária.
No momento de escolher, chama o garçom e pergunta qual era o prato preferido de Fernando Pessoa. Sem pestanejar, ele responde:
− Já se quebrou há muito tempo!

Estávamos num hotel em Lisboa e descemos para fumar. Decidi ir até a recepção para pedir um táxi. Perguntei à funcionária:
− Por favor, você poderia chamar um táxi pra mim?

A funcionária disse que sim, continuou a fazer o que estava fazendo e não chamou o táxi. Daí eu percebi que estava dentro da piada.
Voltei para fora para rir um pouco com minha amiga e voltei novamente para a recepção, como se nada tivesse acontecido.
Claro que ela poderia chamar um táxi, não havia nada que a impedisse de fazê-lo.
Daí eu falei:
− Eu preciso de um táxi agora.
E ela:
− Pois não, senhoire.
E ligou para o táxi.

Um dia em Lisboa eu parei um sujeito na rua e perguntei: “O senhor sabe como chegar no castelo de São Jorge?” Ele respondeu “sei!” e continuou andando.

Meus tios estavam passeando em Portugal e pediram a um senhor:
− Por favor, pode tirar uma foto?
− Claro!
Foi lá e abraçou a minha tia posando pra foto.

Eu estava saindo do hotel e perguntei a alguém:
− Esse ônibus parado aí passa no aeroporto?
O cara responde:
− Não, passa em frente a ele.

Uma vez eu pedi no balcão de uma confeitaria:
− O senhor me vê dois pasteis de Belém?
O cara foi, olhou e não pegou nada.
Eu perguntei:
− Os meus pastéis de Belém?
E ele:
− Ah, a senhora quer que eu lhe dê dois pasteis? Porque só me pediu que os visse.

Um dia, eu estava no aeroporto em Lisboa e ia pegar uma conexão para Londres. Vi uma fila, perguntei a uma senhora que trabalhava no aeroporto:
− Londres é aqui?
Ela muito simpática, disse:

− Não, aqui é Lisboa, e sorriu.

Fui numa doceria no Porto e perguntei para o garçom:
− Posso pedir aqui no balcão ou pode sentar na mesa?
Ele:
− Prefiro que você sente na cadeira mesmo.

Fui comprar pastéis de Belém no local onde eles são fabricados.
Lugar lotado, balconistas concentrados, atendendo todo mundo super-rápido e com muita seriedade.
Os pastéis de Belém vêm (ou pelo menos vinham) numa caixinha sextavada de papelão.
Eu e minha mãe nos aproximamos do balcão, e ela pergunta a um dos atendentes:
− Os pastéis de Belém são aquela caixinha?
O balconista responde:
− Não, senhora, é o que tem dentro!
Ele continuou os atendimentos supersério e eu e minha mãe caímos na gargalhada.

Num bar no centro histórico de Lisboa, uma brasileira entra e pergunta:
− Posso estacionar aqui na frente?
O balconista responde:
− Claro que pode. Só corre o risco de levar uma multa.

Minha tia estava com uma amiga no restaurante. O garçom criou coragem e indagou:
− Que língua estás a falar que estou entendendo tudo?


*****

Mas qual é a explicação para essas histórias? No post de Alexandre Rosas, Felipe Cortez de Sá escreveu:

Eu tive um professor de Lógica que estudou por um tempo em Portugal e um dia ele disse à turma que português não é burro, e sim 'lógico'. Depois que ele disse isso eu passei a ouvir essas histórias pensando de outro jeito.

No mesmo post, a portuguesa Inês Azevedo levantou duas hipóteses:

Perdoem-me, mas nunca vi nada do gênero em tempo real, parece que só acontece na comunicação entre portugueses e brasileiros.

O erro está em pensarmos que somos a mesma língua quando, na prática, não é bem assim.
Também ponho a hipótese de que muitas vezes possa ser o humor português a atacar, é bem irônico e sutil, quando não se está familiarizado com a cultura não se distingue quando é brincadeira ou não.

Ana Luisa Prado, também portuguesa, ofereceu seu ponto de vista sobre a história dos cafés:

Como portuguesa te digo que considero esta história perfeitamente possível e compreensível. Porque em Portugal não é comum que se faça pedidos dessa forma.

Normalmente cada um diz o que quer, o garçom que faz a soma. E a ele não cabe julgar se alguém quer encher-se de café ou não. Ele vai te dar exatamente o que pedires, mesmo que considere teu pedido um tanto estranho.

É verdade, somos bem mais literais que os brasileiros!


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Debate do álcool com o fumo



O Álcool falou ao Fumo,
Em um momento de paz:
− Nós vamos ter um debate
Como gente séria faz,
Pra gente ficar sabendo
De nós dois qual mata mais.

O Fumo disse: − Eu aceito,
Comigo não tem descarte.
Você pode matar muito,
Mas eu mato com mais arte.
O meu nome é “mata-amigo”,
Sou conhecido em toda parte.

Mato quem gostar de mim,
O meu caso é uma traição.
Ataco é logo nos peitos,
Ele morre sem ação,
O médico examina e diz:
− Que morreu do coração.

O Álcool disse: − Eu também
É desse jeito que faço.
Afeto pulmões e fígado
E para o cérebro me passo.
Daí, aos nervos e ao sangue,
Em pouco tempo os desgraço.

Quando eu pego um rapazinho,
Saio por ali assim.
Ele vai pegando o copo,
No começo, achando ruim,
Depois vai se acostumando
Até entregar-se a mim.

Aí o Fumo falou:
− Eu mato mais moderado.
Tenho inúmeros agentes
E sou bastante ajudado.
Como exemplo na maconha
Em quem ando disfarçado.

O Álcool continuou:
− Tenho também meus agentes.
Um dos tais é o uísque,
Esse é um dos mais valentes,
Não respeita gente grande,
Já matou dez presidentes!

Na capital do país,
Eu peguei um senador.
Ele se valeu de um médico,
A cura foi sem valor.
Acabei com a vida dele,
Depois, eu matei o doutor.

Os homens inteligentes
Por mim são mais procurados.
Já deixei muitos poetas
Nas ruas degenerados.
Muitos grandes cientistas
Já matei embriagados.

Disse o Fumo: − Como disse,
Eu só pego de traição
Os grandes estudiosos
Vão pedir-me inspiração,
E em poucos iludidos morrem
Com o cigarro na mão.

Tenho levado muita gente
Para o eterno repouso.
O poeta Castro Alves,
Eu matei tuberculoso.
Neruda me conheceu,
Depois morreu canceroso.

Disse o Álcool: − O que tenho morto
Ninguém mais conta os milhões.
Os maiores homicídios
Dependem de minhas ações.
Provoquei muitos desastres,
De carros e de aviões.

Gosto de desarmonia,
Sou nos bares “procuradas”.
Já fiz muitas moças boas
Ficarem degeneradas.
Sou o desgosto das mães,
E o flagelo das casadas.

A discussão foi além,
Mas eu não pude gravar.
Sei bem que nenhum venceu,
Resolveram se juntar.
Com todos os seus agentes,
Saíram ao mundo a matar.

(Autor do Cordel: Alberto Porfírio)


Afinal, o que é um botequim?


Texto de Jaguar*


A estagiária de segundo caderno me ligou querendo saber o que, na minha opinião, era um botequim.

− Ora – comecei a responder, e embatuquei. Foi aí que me dei conta: nunca tinha refletido sobre essa questão transcendental. Porra, a gente simplesmente vai a um boteco quando está a fim de tomar uma bebidinha, fazer hora, sei lá. Foi o que eu disse para a moça.

Mas, como toda estagiária de segundo caderno, ela foi implacável:

− Seguinte: tenho que fechar a matéria ainda hoje. Vai pensando no assunto, daqui a pouco ligo de novo.

Então vamos lá, antes que ela cumpra a ameaça. Pra mim, todo lugar onde se bebe é um botequim, seja o Bar Brasil, na Lapa, ou o maior boteco do Rio (pelo menos em tamanho), o Bar do Tom, anexo à Churrascaria Plataforma, no Leblon, ou o minúsculo Bunda de Fora, no Jardim Botânico.
.
Um botequim deve ser, de preferência, razoavelmente limpo. Mas não a ponto da gente pensar que está bebendo numa enfermaria. Ninguém morre de infecção contraída em bar. E quantos já morreram de infecção hospitalar?

Nunca me esqueço de uma vez que levei o Nássara para conhecer a filial, num shopping da Barra, do Bar Luiz. Além de genial caricaturista, ele foi também grande boêmio.

A decoração lembrava em tudo o mais antigo bar do Rio. Mas tinha alguma coisa errada.

− Limpo demais – sentenciou –, mas nada que alguns bons bebuns não resolvam.

Outro ponto a ser considerado: bebericar em pé ou sentado? Estou cada vez mais convencido que beber em pé, junto ao balcão, tem várias vantagens, a saber: primeiro, você é servido mais depressa. Depois, fica mais fácil driblar os chatos, se você está numa mesa é presa fácil, eles vão puxando uma cadeira e sentando ao seu lado. E depois você pode escolher o tira-gosto de melhor aparência e fiscalizar se o cara do bar está tirando direito o chope ou fazendo a batida como você pediu, só com meia colherinha de açúcar.

E, é claro, seu santo tem que cruzar com o do garçom. É como um casamento, conheço boêmios que passam mais tempo com o garçom do que com a mulher.

O Bar Bico, em Copacabana, é um bom exemplo desse tipo de botequim.*

Tem tudo que um boteco que se preze deve ter: de ovo cozido a sanduíche de churrasquinho, de caracu com dois ovos, o Viagra dos pobres, ao bate-entope mais barato, pão com ovo. O chope, da Brahma, é bem tirado, na manteiga (com muita pressão), como o cara do balcão comandou. E tem uma vantagem: você, do balcão, controla o cara tirando o seu chope, para ter a certeza de que não é de balde, na minha opinião, crime inafiançável.

Agora a moça pode me ligar: vou matar a pau.

*****

*Bar Bico: Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 1253B, esquina de Francisco Sá. De segunda a sábado, das 8 da manhã à meia-noite.
  
(Texto do livro “Confesso que bebi,
Memórias de amnésico alcoólico”, de Jaguar)



Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (Rio de Janeiro RJ, 1932). Caricaturista, ilustrador, desenhista, jornalista, cronista. Jaguar inicia sua carreira como cartunista, em 1957, na página de humor da revista Manchete. No ano seguinte, a convite de Carlos Scliar (1920-2001), passa a colaborar com a revista Senhor, onde conhece Ivan Lessa e Paulo Francis (1930-1997). Na década de 1960, trabalha por oito anos no jornal Última Hora. Em 1968, lança Átila, você é um bárbaro, uma antologia de seus cartuns. Paralelamente ao trabalho de cartunista, é, durante 17 anos, escriturário do Banco do Brasil, emprego que abandona em 1971. No banco, conhece Sérgio Porto (1923-1968), também funcionário e escritor, que sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, tem vários de seus títulos ilustrados por Jaguar. É um dos fundadores da famosa Banda de Ipanema, inaugurada no primeiro carnaval pós-golpe militar de 1964, e que congregava jornalistas, escritores, cineastas, atores, músicos, artistas plásticos e cartunistas. Funda em 1969, o semanário carioca O Pasquim, ao lado de Millôr Fernandes (1923-2012), Tarso de Castro (1941-1991), Sérgio Cabral (1937), Henfil (1944-1988), Paulo Francis, Ziraldo (1932), entre outros. Em O Pasquim, cria o rato Sig, uma alegoria de Sigmund Freud (1856-1939), que se torna símbolo oficial do jornal, aparece na capa e no começo das matérias, e é o mascote da publicação. Dentre os personagens criados por Jaguar, além do rato Sig, destacam-se: Gastão, o vomitador; Boris, o homem tronco e o cartum Chopnics, publicado inicialmente no Jornal do Brasil. Em 1999, edita a revista Bundas - satirizando a publicação Caras -, com Ziraldo e outros remanescentes de O Pasquim. Em 2000, lança o livro Ipanema - Se Não Me Falha a Memória, pela editora Relume Dumará, e, no ano seguinte, Confesso que Bebi, Memórias de um Amnésico Alcoólico, pela Record.

(Da Enciclopédia Itaú-Cultural)

Eu e Mamãe

Jansen Filho


Mamãe: você se recorda
de quando eu era menino
e saía sem destino
à procura de um brinquedo?...
Papai ficava escrevendo
e toda vez que eu saía
você sempre me dizia:
“Não demore! Volte cedo!”

E quando eu deixava a mesa,
ia em direção à sala,
escutava a sua fala:
“Meu relógio nunca atrasa!”
E para mim se voltando,
dizia, depois da ceia:
“O mais tardar, nove e meia,
você tem que estar em casa!”

Eu saía, como o vento,
correndo pelas calçadas,
brincando com os camaradas
sem presente e sem porvir!
Faltando cinco minutos,
a brincadeira acabava;
e, às nove e meia, eu voltava,
para rezar e dormir...

À beira da minha cama,
você, Mamãe, se sentava
e tranquila me ensinava
Pai-nosso... Ave-maria...
Depois lhe pedia a bênção,
pedia a papai também,
sem falar mais com ninguém,
fechava os olhos, dormia...

Fui crescendo! Fui crescendo!
E, quando mudei de idade,
acabou-se a liberdade
do menino independente!
Com a carta do ABC,
um lápis, uma sacola,
você me pôs numa escola,
− outro mundo diferente!

Mas um dia, a professora
me bateu!... Não sei por quê!
Minha carta do ABC
lhe atirei de encontro ao rosto!
E você, sabendo disso,
caiu prostrada em pranto!
Seu sofrimento foi tanto,
quase morri de desgosto!

Lá me fui para outra escola!
Aquela não me aceitava!
− Dona Faninha me odiava!
pobre velha sofredora!
Hoje, dou graças a Deus,
por algo ter aprendido
e vivo arrependido
do que fiz com a professora!

.............................................

Hoje, que o tempo passou
e eu acordei para a vida,
é que sei, Mamãe querida,
os erros que pratiquei!...
Você bem sabe, mamãe,
que eu fui um menino horrível
pela série indescritível
dos desgostos que lhe dei!

Ajoelho-me ante a distância,
para lhe pedir perdão
e dizer de coração:
“Seu filho se arrependeu!”
Arrependi-me, Mamãe,
de tudo ter praticado,
por isso odeio o passado,
Só porque você sofreu!...

Mas a mamãe carinhosa,
amiga fraterna e boa,
ama, padece, perdoa,
faz o que você me fez!
Se eu voltasse à minha infância,
seria feliz, porque
estou certo que você
me perdoaria outra vez!

(Do livro “Português 1ª Série Ginasial,
De Gilio Guacomozzi e Floriano Tescarolo)


Miguel Jansen Filho, nasceu no dia 1º de maio de 1925, na cidade de Monteiro, Estado da Paraíba e faleceu em São Paulo, no dia 18 de julho de 1994; filho de Miguel Jansen de Paiva Pinto e D. Maria Virgem de Paiva Pinto. Iniciou o curso primário em Monteiro, no Grupo Escolar Miguel Santa Cruz, concluindo no Colégio Olegário Barros, em Taubaté, São Paulo, cursando, também, aí, no secundário, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo.  A partir de 1943, Jansen Filho exerceu vários cargos públicos, entre os quais, destacamos: Encarregado da Estação de Meteorologia, da cidade de Monteiro; Fiscal da Comissão de Abastecimento da Cidade de Campina Grande; Diretor da Divisão da Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo do Estado de São Paulo; Adido ao Gabinete do Superintendente Regional do IAPAS para o Estado de São Paulo. Em Minas Gerais, foi produtor da Rádio Inconfidência de Belo Horizonte.

Jansen Filho começou a fazer versos, ainda criança, em Monteiro, influenciado pela presença dos violeiros e repentistas que frequentavam as feiras livres do interior. Deixando o sertão, estabeleceu-se no Rio de Janeiro e, lá, qual um trovador medieval, era convidado a declamar as suas poesias nas mais nobres residências da Cidade Maravilhosa, sendo aplaudido e admirado por todos. Recebeu o título de Cidadão Honorário da Cidade de São José dos Campos; Membro Benemérito da Academia de Letras da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, de São Paulo; Troféu da Academia Paraibana de Poesia, de João Pessoa; homenageado com a criação do Grêmio Literário Jansen Filho, do Lyceu Paraibano; Membro da Academia Joseense de Letras de São José dos Campos, entre outros títulos e honrarias.