sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Luar do Sertão




Luar do Sertão é uma toada brasileira de grande popularidade. Seus versos simples e ingênuos elogiam a vida no sertão, especialmente o luar. Catulo da Paixão Cearense defendeu em toda a sua vida que era seu autor único, mas hoje em dia se dá crédito da melodia a João Pernambuco (1883-1947). É uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos.

O tema pode ter origem no coco É do Maitá ou Meu Engenho é do Humaitá, de autor anônimo. Este coco integrava o repertório de João Pernambuco e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Ao menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicados por Henrique Foréis Domingues no livro No tempo de Noel Rosa.

Homem simples, sequer alfabetizado, João Pernambuco, a certa altura de sua vida, queixava-se de ter sido vítima de plágio, por parte de Catulo, quanto à autoria desta modinha.”Segundo Mozart Bicalho, Catulo “disse uma vez que o Luar do sertão era uma melodia nortista, mais ou menos pertencente ao domínio folclórico”. O próprio Catulo, em entrevista a Joel Silveira, declarou: “Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga (...) cujo estribilho era assim: 'É do Maitá! É do Maitá'”. O historiador Ary Vasconcelos, em Panorama da música popular brasileira na belle époque, diz que teve a oportunidade de ouvir Luperce Miranda tocar ao bandolim duas versões do É do Maitá: a original e “outra modificada por João Pernambuco, esta realmente muito parecida com Luar do sertão”.

Leandro Carvalho, estudioso da obra de João Pernambuco e organizador do CD João Pernambuco - O Poeta do Violão (1997), declarou: "Por onde João andava, Catulo estava atrás, anotando tudo; foi o que aconteceu com Luar do Sertão: Catulo ouviu, mudou a letra e disse que era sua”.

Luar do sertão

De Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco


Catulo

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão
.

Ai que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão.
Esse luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.

A lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata
Prateando a solidão.
A gente pega na viola que ponteia
E a canção e a lua cheia
A nos nascer do coração.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste
No sertão se faz luar
Parece até que alma da lua
É que diz, canta
Escondida na garganta
Desse galo a soluçar.

Ah, quem me dera
Eu morresse lá na serra,
Abraçado a minha terra
E dormindo de uma vez.
Ser enterrado numa grota pequenina.
Onde a tarde a sururina
Chora a sua viuvez.

Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.
Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão.


Curiosidades

 12 de setembro de 1936. Sábado. Festa no último andar do edifício A Noite; 21 horas: ouvem-se os acordes de “Luar do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, em solo de vibrafone de Luciano Perrone, que será, a partir daí, o prefixo da emissora. Em seguida, a voz limpa e marcante de Celso Guimarães anuncia: “Alô! Alô! Alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”

 Marlene Dietrich, em visita ao Brasil, em 1959, (shows no Copacabana Palace) gostou da música e resolveu gravá-la. Cauby Peixoto (foto abaixo com Marlene) foi quem ensinou, foneticamente, a diva a cantar em português.



 A música foi tocada, por Pixinguinha, Donga e alguns amigos, no enterro de João Pernambuco (Rio de Janeiro. 16 de outubro de 1947) que não teve maiores homenagens.



Augusto dos Anjos


Poeta: 20.04.1884 – 12. 11.1914

Curiosidades biográficas

→ Um personagem constante em seus poemas é um pé de tamarindo que ainda hoje existe no Engenho Pau d'Arco.

→ Seu amigo Órris Soares conta que Augusto dos Anjos costumava compor "de cabeça", enquanto gesticulava e pronunciava os versos de forma excêntrica, e só depois transcrevia o poema para o papel.

→ De acordo com Eudes Barros, quando morava no Rio de Janeiro com a irmã, Augusto dos Anjos costumava compor no quintal da casa, em voz alta, o que fazia sua irmã pensar que era doido.

→ Embora tenha morrido de pneumonia, tornou-se conhecida a história de que Augusto dos Anjos morreu de tuberculose, talvez porque esta doença seja bastante mencionada em seus poemas.

→ Um exemplar do “Eu” faz parte da biblioteca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, por causa dos termos científicos que Augusto dos Anjos utilizava em suas composições.

→ “Eu e outras poesias” é a reunião do livro “Eu” (publicado em vida) a outras poesias que foram acrescentadas postumamente à obra.

→ Em 1900, com dezesseis anos, Augusto dos Anjos deixa o Engenho da família e vai completar os estudos formais na capital do Estado, no Liceu Paraibano. O seu tipo magro, taciturno, logo chama a atenção dos estudantes daquele colégio, entre eles Orris Soares (Avô de Jô Soares) que, posteriormente, seis anos após a morte do poeta, escreverá o Elogio de Augusto dos Anjos, um texto de apresentação para a segunda edição do EU. Este texto será, talvez, o responsável pela descoberta que a crítica – e o público – brasileiro irão fazer da força latente da poesia daquele homem triste.

→ Morreu ainda jovem (em 1914) devido a uma enfermidade pulmonar, deixando para trás suas carreiras de promotor público (formou-se em Direito em 1906) e de professor, além de sua única e marcante obra.

→ A que escola se filiou? – a nenhuma.


Vale a pena ler este artigo:

“Histérico, neurastênico, desequilibrado, a esse tipo de julgamento terá que se acostumar o poeta. Na Paraíba foi chamado "Doutor Tristeza". E um professor de primeiras letras, enfurecido com os temas que considerou antipoéticos dos versos do poeta publicados n'O Comércio, deu-se ao trabalho de mandar imprimir e fazer distribuir pelas ruas da Paraíba uma "carta aberta", cheia de impropérios, atacando rudemente o "Poeta Raquítico". Se Cesário Verde, em Portugal, teve pela frente um Ramalho Ortigão, que não entendeu, a princípio, a qualidade da sua mensagem, Augusto dos Anjos, teve um cidadão, um professor, de quem não se guarda sequer o nome. Mas a resposta do poeta, em versos alexandrinos, a essa "carta aberta" há de ficar. E merece ser lembrada.”

(Eu & Outras Poesias - Civilização Itatiaia - 1982)

Bilhete Postal

Ilustre professor de Carta Aberta: - Almejo
Que uma alimentação a fiambre e a vinho e a queijo
Lhe fortaleça o corpo e assim lhe fortaleça
As mãos, os pés, a perna et coetera e a cabeça.
Continue a comer como um monstro no almoço
Inche como um balão, cresça como um colosso
E vá crescendo, vá crescendo e vá crescendo,
E fique do tamanho extraordinário e horrendo
Do célebre Titão e do Hércules lendário;
O seu ventre se torne um ventre extraordinário,
Cheio do cheiro ruim de fétidos resíduos,
As barrigas então de cinqüenta indivíduos
Não poderão caber na sua ampla barriga;
Não mais lhe pesará a desgraça inimiga,
O seu nome também não será mais Antonio.
Todos hão de chamá-lo o colosso, o demônio,
A maravilha das brilhantes maravilhas.
As hienas carniçais, as leoas e as novilhas,
Diante do seu vigor recuarão, e diante
Do estribado metal de sua voz atroante
Decerto correrão mansas e espavoridas.
Se as minhas orações forem, pois, atendidas,
O senhor há de ser o Teseu do universo.
Seja um gigante, pois; não faça porém, verso
de qualidade alguma e nem também me faça
Artigos tresandando a bolor e a cachaça,
Ricos de incorreções e de erros de gramática,
Tenha vergonha, esconda essa tendência asnática,
Que somente possui o seu cérebro obtuso -
Esconda-a, e nunca mais se exponha a fazer uso
Da pena, e nunca mais desenterre alfarrábios.
Os tolos, em geral, são tidos como sábios,
Que sabem calar-se e reprimir-se sabem,
O senhor é papalvo e os papalvos não cabem
No centro literário e no centro político.
Respeite-me, portanto!

O Poeta Raquítico.

Poemas de Augusto dos Anjos

Versos íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

A árvore da serra

 As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

 Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!...

 Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

A um carneiro morto

Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia de Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!

Debaixo do tamarindo

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos.

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!



Poema recitado pelo palhaço Picolino



          Eu quero explicar a vocês
          O que é ser um palhaço,
          O que é ser o que eu sou
          E fazer isso o que eu faço.

          Ser palhaço é saber distribuir
          Alegria e bom humor
          E com esforço contentar
          O público espectador.

          Muita gente diz “Palhaço”
          Quando quer xingar alguém,
          E esse nome pronunciam
          Com escárnio e desdém.

          E ao ouvir esta palavra,
          Outros sentem até pavor,
          Como se palhaço fosse
          Uma criatura inferior.

          Mas de uma coisa fiquem certos:
          Para ser um bom palhaço
          É preciso alma forte
          E também nervos de aço.

          E além de tudo é preciso
          Ter um grande coração,
          Para sentir isso o que eu sinto,
          Que é grande amor à profissão,

          O Palhaço também tem
          Suas noites de vigília,
          Pois lá, na sua barraca,
          Ele tem a sua família.

          Palhaço, meus amigos,
          Não é nenhum ser repelente.
          Palhaço não é um bicho,
          Palhaço também é gente.

          Falo isso em meu nome
          E em nome de outros palhaços,
          Que, muitas vezes, trabalham
          Com a sua alma em pedaços..

          Ser
palhaço, meu senhor,
          É saber disfarçar a própria dor
          É saber sempre esconder.
          Que é também sofredor.

          Porque se ele está sofrendo.
          Ninguém deve perceber.
          Pois o Palhaço nem tem
          O direito de sofrer.


Zumbis


... e Zumbis

Texto de Luís Fernando Veríssimo


Li que faz sucesso um livro chamado “Orgulho, Preconceito... e Zumbis”, uma versão do romance “Orgulho e Preconceito”, da Jane Austen, com, aparentemente, alguns personagens a mais. Não sei se isto é o começo de uma tendência literária, paralela à nova moda dos vampiros, mas, se for, aqui estão algumas sugestões para outros títulos.

“Guerra e Paz... e Zumbis” - As tropas de Napoleão, invadindo a Rússia, são cercadas por estranhos seres com o olhar parado que riem quando são espetados por baionetas e enterram os soldados de ponta-cabeça na neve. O próprio Napoleão recebe a visita de zumbis na sua tenda e enlouquece, convencendo-se de que é outro Napoleão.

“Romeu, Julieta... e Zumbis” - Depois de se matarem, os namorados voltam como zumbis e começam a atormentar as suas famílias, passando temporadas ora na casa dos Montequios, ora na casa dos Capuletos, assustando os empregados, recusando-se a arrumar o seu quarto, etc.

“Dona Flor e Seus Dois Maridos... e Zumbis” - Dona Flor é obrigada a comprar uma cama maior.

“Os Três Mosqueteiros, Os Irmãos Karamazov, Os Sete Samurais, Os Maias... e Zumbis” - Um romance compilatório em que os diversos personagens se encontram e se desencontram, brigam e se amam em uma Lisboa imaginária, e em que os zumbis só entram para aumentar a confusão.

“Ulisses... e Zumbis” - Zumbis seguem um personagem em Dublin durante um único dia. No fim encurralam o personagem, pedem que ele diga para onde tudo aquilo está levando e ouvem a resposta: “O quê? Eu estou perdido desde a primeira linha!”.

“Dom Quixote de La Mancha... e Zumbis” - Dom Quixote convoca os zumbis para serem a sua guarda pessoal e o seguirem numa carga contra um rebanho de bois, que confundiu com guerreiros vikings. Os zumbis se entreolham, dão uma desculpa e se afastam, lentamente, comentando: “E dizem que nós é que somos estranhos...”.

“O Ser, o Nada... e Zumbis” - Um grupo de zumbis invade o café Les Deux Magots, cerca a mesa do Jean-Paul Sartre e propõe uma nova filosofia, baseada no não-ser ou no ser nada, que Sartre aprova e que toma conta de Paris durante 20 minutos.

“O Velho, o Mar, Moby Dick... e Zumbis” - Outra compilação. A história de um velho pescador, Santiago, que pega uma baleia cinzenta. Quando a baleia vê os zumbis, que nunca fica bem explicado porque estão no barco com o pescador, fica branca.


Texto publicado na Donna, de ZH, de 26 de setembro de 2010


Curiosidades Musicais



Cyro Monteiro


Em 1938, sempre que chegava um navio de guerra da Marinha do Brasil, em Porto Alegre, nas horas de folga, principalmente à noite, os marinheiros iam à rua Cabo Rocha, hoje Professor Freitas de Castro, no bairro Azenha, que, na época era a zona do baixo meretrício.

Uma pequena explicação aos amigos de todo o país: Rio Grande é o principal porto marítimo do Rio Grande do Sul. Os navios entravam no estado por esse porto, subiam pela Lagoa dos Patos, chegando ao rio (estuário) Guaíba e ao porto de Porto Alegre.

Voltando ao assunto, num dos locais mais frequentados da Cabo Rocha (herói Guerra dos Farrapos, foi o revolucionário que comandou o primeiro combate com os imperiais na Ponte da Azenha, 1835) era o Cabaré do Galo, onde havia música ao vivo com um pequeno regional: violão, cavaquinho e pandeiro.

Corta para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, um dos marinheiros, que gostava de música e também era músico, ficou impressionado com uma canção que ouvira num cabaré gaúcho. Procurou um jovem cantor iniciante sem nenhum sucesso gravado, Cyro Monteiro, e disse a ele:

‒ Vou te presentear com um samba gaúcho.

Cyro, incrédulo:

‒ E desde quando gaúcho faz samba?

O marinheiro, então, canta para ele o samba “Se acaso você chegasse”.

Cyro grava a música, que se torna sucesso em todo o país, alavanca a sua carreira de cantor e lança, para todo o Brasil, o grande Lupicínio Rodrigues.

Se acaso você chegasse

(Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins)

Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher que você gostou.
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco,
À beira de um regato
E de um bosque em flor.
De dia me lava a roupa.
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor.


A história do samba acima foi real. Lupicínio consultou a um amigo de farra sobre a possibilidade de manter um caso com a mulher dele já que ela havia se interessado por ele. O amigo, apesar de sentir que havia sido traído, consentiu. Perdeu a mulher, mas continuaram a amizade.

Cyro Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, em 28/5/1913, na Estação do Rocha, era apelidado de “Formigão” pelos amigos e também era conhecido como “O Cantor das Mil e uma Fãs”. Grande torcedor do Flamengo, era respeitado até mesmo pelos simpatizantes de times adversários. Morreu no Rio, em 13/7/1973, aos 60 anos. Foi sepultado no Cemitério São João Batista, “ao som da marcha do Flamengo, cantada por integrantes da torcida jovem, coberto com a bandeira do clube e da Estação Primeira de Mangueira”.


Presente de grego

Esta história foi contada por Cyro num programa antigo da TV Educativa.

Cyro e Chico Buarque eram muito amigos. Cyro diz a Chico que gostaria de gravar uma música sua que não fosse muito longa, pois sabia que as letras dele eram extensas e difíceis de decorar. Pediu, ainda, que a palavra mais longa fosse “oi”.

No nascimento da primeira filha do Chico com a triz Marieta Severo, que nasceu, em 1969, em Roma (Itália)* Silvia Severo Buarque de Hollanda, a sua primogênita, tendo como padrinho Vinicius de Moraes. Cyro, flamenguista doente, presenteou a filha do compositor, fluminense apaixonado, com uma camisa do Flamengo.

Chico fez, para o inusitado presente a seguinte música:


Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita pra virar casaca de neném


Chico por Carlnhos Muller

Amigo Cyro,
muito te admiro,
o meu chapéu te tiro,
muito humildemente.

Minha petiz
agradece a camisa
que lhe deste à guisa
de gentil presente.
Mas, caro nego,
um pano rubro negro,
é presente de grego,
não de um bom irmão.

Nós separados
nas arquibancadas,
temos sido tão chegados
na desolação.

Amigo velho,
amei o teu conselho,
amei o teu vermelho,
que é de tanto ardor.

Mas quis o verde,
que te quero verde
é bom pra quem vai
ter de ser bom sofredor.

Pintei de branco o teu preto
ficando completo
o jogo de cor.
Virei-lhe o listrado do peito
e nasceu desse jeito
uma outra tricolor


Dizem que, apesar de todo o esforço do pai, a Silvinha, filha do Chico, tornou-se flamenguista. Chico, na amizade, chamou de Cyro de “aliciador de menores”.

* Chico Buarque foi “convidado” pelos militares a deixar o Brasil, por isso ele foi morar um tempo na Itália.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Por que sou traficante?



“Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.”

(Martin Luther King)


Toda a população brasileira está ficando cada vez mais à mercê do poder dos traficantes que, mesmo presos em presídios de segurança máxima, conseguem manter sob custódia de suas lideranças milhares de zumbis que fazem tudo o que eles mandam através de mensagens em celulares que não sabemos como eles os têm seu poder.

E por que alguém se torna traficante? Esta pergunta eu gostaria de fazer a um líder de gangue ou a um seu subalterno, mas, creio eu, já sei quais seriam as respostas que ele me daria:

→ Sou traficante, pois sei que os filhos da classe média brasileira consomem cada vez mais drogas de todas as espécies, e isso aumenta as nossas vendas.

→ Sou traficante, pois sei que artistas que aparecem na TV, procuram-me quase que todos os dias. Depois, com a maior cara-de-pau, fazem campanhas contra o uso do produto que eu vendo para eles.

→ Sou traficante, pois pessoas de todos os matizes intelectuais, principalmente o pessoal de criação, como alguns publicitários, usam drogas para abrir seus horizontes imaginativos.

→ Sou traficante, pois a juventude compra o produto que eu vendo cada vez mais. O lucro da venda de tóxicos produz milhões, o que dá para pagar um verdadeiro exército de marginais, que, como eu, nunca fez nada de útil na vida, e ganha muito vendendo ilusões.

→ Sou traficante, pois pelas fronteiras do Brasil é muito fácil entrar qualquer tipo de droga, de todas as espécies, que os consumidores gostam de usar. Entram, no Brasil, toneladas de maconha e cocaína, que são adulteradas aumentando muito o seu peso e o nosso lucro.

→ Sou traficante até por ódio de ver cidadãos do bem fazendo caminhadas contra a violência, em qualquer cidade do Brasil, com faixas como: “Sou da paz”, “Menos violência em nossa cidade”, “Todos contra o tráfico” e, muitas vezes, não notam o comportamento de seus filhos, que compram em todos os fins de semanas quilos e mais quilos de drogas, aumentando cada vez mais o poder e o lucro, que nós, traficantes, usufruímos.

→ Sou traficante porque somos um poder que usa armas mais potentes que a força policial de qualquer cidade brasileira. Pela mesma fronteira desprotegida onde entram toneladas de produtos ilegais, entra, com a maior facilidade, um arsenal de armas de todos os calibres para dar força ao nosso poder em vilas e comunidades do Brasil.

→ Sou traficante, pois vendo qualquer produto a uma mocidade bonita, sarada, para que possa ser mais “feliz” em festas rave, que usa ecstasy para dançar, alegre, uma noite inteira. Ela, a mocidade, não se importa em manter contato comigo, o traficante, até somos amigos. Os seus pais é que me odeiam; seu filho, não.

→ Sou traficante porque pertenço a um poder mais ético e, às vezes, até cruel em relação ao nosso “Código de Honra”. Em nosso meio marginal, julgamos, condenamos e executamos qualquer inimigo que nos ofereça qualquer tipo de perigo. Dos inimigos, isto é, de outra quadrilha de traficantes, tomamos seus pontos de tráfico na marra. Matamos da forma mais sádica, e colocamos o corpo em lugares públicos para estarrecer a classe média inocente.

→ Sou traficante, pois em nosso meio não há SPC; qualquer babaca compra o nosso produto e damos crédito a qualquer viciado. Nós fornecemos a droga, nós os viciamos, eles pagam quase sempre em dia. Não nos interessa como eles, os viciados, conseguem dinheiro, pois se não pagarem, cobramos a dívida com a sua morte violenta.

→ Sou traficante, pois somos milhares de facções que agem onde o Poder Público nos abandonou. Sou um filho sem pai que nasceu sem planejamento familiar, morando numa comunidade pobre, sob domínio de traficantes, onde a única forma de ganhar algum dinheiro era através do trabalho para o tráfico de drogas, produto que a cidade lá embaixo adora e compra aos quilos, diariamente.

→ Sou traficante, pois sei que o tráfico está se fortalecendo cada vez mais e arregimentando sempre um maior número de adeptos para as suas facções criminosas. O traficante, através do seu poderio financeiro e repressivo, passou a ser conhecido e respeitado por todos como sendo o “rei do morro”, o “comandante da área”. O tráfico passou a funcionar nas diversas comunidades como se fosse uma espécie de “Governo Ditatorial” paralelo ao nosso Regime Democrático do Direito, ou seja, um poder paralelo.

→ Sou traficante, pois possuímos dezenas de escravas brancas, moças da classe média, viciadas, que vendem seus corpos para conseguir drogas. Usamos essa carne branca enquanto tiverem belezas, depois, as eliminamos.

→ Sou traficante, pois comecei, ainda criança, na turma dos aviões, fogueteiros, vigilantes, laranjas, informantes e até executores de crimes diversos. Tais crianças e adolescentes na maioria das vezes, por total falta de opção, ingressam nesse mundo de crime e tem aquele “trabalho” como uma espécie de carreira profissional. Muitos sonham em ser o rei do morro. É o chefe do tráfico como herói da criançada que logo cedo tem nos reais fuzis, metralhadoras ou pistolas seus brinquedos prediletos. Um dia eu chego lá...

→ Sou traficante porque sei que todos adoram o produto que eu vendo. Mansões e apartamentos luxuosos colocam em seus banheiros pias com mármore preto para melhorar a visualização da cocaína, que é branca, para consumo de burgueses festeiros.

→ Sou traficante, pois movimentamos muito dinheiro. Podemos subornar quem quisermos. O nosso poder aumenta cada vez mais. Enquanto houver usuários, e eles aumentam cada dia, seremos a maior força empresarial do Brasil e do mundo!

→ Sou traficante, pois vivo de vender ilusões, a felicidade poucos a conseguem, eu vendo alguns minutos de prazer momentâneo. Cada vez mais pessoas me procuram, atendo até por tele-entrega. Aceito qualquer tipo de moeda em troca o meu produto. Já recebi de tudo: cães de estimação, televisão, alimentos, carro e até corpos. O meu poder sobre os endividados é comprovado quando, da prisão, dou ordens para que ônibus sejam incendiados. Quem deve ao tráfico tem suas dívidas perdoadas, mas tem que fazer esse serviço sujo nas ruas.

→ Sou traficante porque matamos qualquer pessoa que tenha contato com um grupo rival, principalmente mulheres que se envolvem com traficantes, pois julgamos que elas são "propriedades" desses elementos. Matá-las é um forma de dar um recado aos adversários do tráfico.

→ Sou traficante porque podemos comprar qualquer elemento envolvido com os nossos processos criminais: Num programa de TV (Fantástico) mostrou a compra de sentenças junto a desembargadores, que assinam Habeas Corpus para a nossa soltura em troca de polpudas propinas.

→ Sou traficante porque temos poder, muito dinheiro e, neste país, podemos comprar o que quisermos.

→ Sou traficante, e quem viver verá, pois sei que a nossa força e o nosso poder está apenas começando...


Obs, É de se pensar: Se um produto que todo mundo quer e consome, pode estar nas mãos de bandidos? Sinceramente, eu não sei a resposta...


Texto de Nilo da Silva Moraes




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Oração de um menino triste



Dizes que sou o futuro;
não me desampares o presente.

Dizes que sou a esperança da paz;
não induzas à guerra.

Dizes que sou a promessa do bem;
não  me confies ao mal.

Dizes que sou a luz dos teus olhos;
não me abandones às trevas.

Não espero somente o teu pão;
dá-me luz e entendimento.

Não desejo tão só a festa do teu carinho;
suplico-te amor com que me eduques.

Não te rogo apenas brinquedos;
peço-te bons exemplos e palavras.

Não sou simples ornamento do teu caminho,
sou alguém que te bate à porta em nome do meus Deus.

Ensina-me o trabalho e a humildade, o devotamento e o perdão.
Compadece-me de mim e orienta-me para o que seja bom e justo.

Corrige-me enquanto é tempo ainda que eu sofra.
Ajuda-me hoje para que amanhã eu não te faça chorar.

Arley Roberto Pereira, 14 anos,
Jornal Folhinha de São Paulo, 6/4/1975.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mulheres inventoras

Veja 10 mulheres inventoras que revolucionaram o mundo


Amalie Auguste Melitta Bentz - filtro de café


Filtro de café foi inventado em 1908 pela alemã Amalie Auguste Melitta Bentz

(Foto: Wikimedia Commons)

→ Nascida na cidade de Dresden, na Alemanha, Melitta Bentz criou o primeiro filtro de café, já que coadores de pano, feitos de linho, eram bastante difíceis de serem limpos. Após fazer diversos experimentos, Amalie usou um papel filtrante colocado dentro de um recipiente de latão, que tinha um furo na parte inferior. Com o café feito mais rápido e sem resíduos do pó, a alemã foi a primeira a produzir o filtro de papel em série, obtendo a patente da invenção em junho de 1908.

Grace Hopper – compilador


→ Além do compilador e do COBOL, Grace Hopper foi a primeira a cunhar o termo 'bug' para se referir a um erro no sistema. À direita, uma mariposa colada a um relatório sobre o computador de cálculos Mark II (Foto: Wikimedia Commons, U.S. Naval Historical Center Online Library Photograph)

Com Ph.D em matemática pela Universidade Yale, a americana Grace Hopper se voluntariou para Marinha americana durante a Segunda Guerra Mundial, onde trabalhou com programação do computador Mark I. Apelidada de “Amazing Grace”, Hopper foi responsável por inventar o primeiro compilador para linguagens de programação (ferramenta que transforma o código-fonte em uma linguagem), levando à criação do COBOL (Linguagem Comum Orientada para os Negócios, em inglês), a primeira linguagem de programação voltada ao uso comercial. Grace também cunhou o termo “bug” para descrever um problema no sistema de um computador, devido a uma mariposa encontrada dentro da máquina.

Hedy Lamarr - conexão wireless


O 'sistema de comunicação secreto' de Hedy Lamarr permitiu a criação, mais tarde, de tecnologias como o Bluetooth e o Wi-Fi.

(Foto: Wikimedia Commons, Google Patents)

→ Além de atriz de Hollywood, famosa pelo longa “Ecstasy” (1933), a austríaca naturalizada norte-americana Hedy Lamarr foi a inventora de uma tecnologia que permitia controlar torpedos à distância, durante a Segunda Guerra Mundial, alterando rapidamente os canais de frequência de rádio para que não fossem interceptados pelo inimigo. Esse conceito de transmissão acabou, mais tarde, permitindo o desenvolvimento de tecnologias como o Wi-Fi e o Bluetooth.

Katharine Burr Blodgett - vidro invisível


Katharine Burr Blodgett revolucionou a ciência e o cinema ao criar o 'vidro invisível'.

 (Foto: Wikimedia Commons, Google Patents)

→ O clássico do cinema “E o Vento Levou”, de 1939, levou 10 prêmios Oscar, incluindo o de Melhor Fotografia, já que as imagens, à época, eram consideradas impecáveis. O filme foi o primeiro a utilizar em suas câmeras o “vidro invisível”, criado pela física americana Katharine Blodgett. Sendo a primeira mulher a obter um Ph.D em física pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, Blodgett inventou um vidro extremamente fino e com baixíssimos níveis de reflexo e distorção. Com isso, acabou revolucionando as tecnologias de câmera e melhorando significativamente aparelhos como projetores, periscópios submarinos, microscópios, telescópios, entre outros.

Letitia Mumford Geer – seringa


Letitia Mumford Geer foi a responsável por introduzir o modelo de seringa operada com apenas uma mão 

(Foto: Wikimedia Commons, Google Patents)

→ Em 2 de abril de 1899, a americana Letitia Geer registrou a patente da primeira seringa para aplicação de substâncias por meio de um pistão, e que podia ser utilizada com apenas uma mão pelo médico. O conceito inventado por Geer facilitou bastante a vida dos profissionais de saúde, e as seringas modernas são inspiradas pelo modelo apresentado pela inventora. O documento que mostra a patente original, registrada no fim do século 19, está disponível online.

Marie Van Brittan Brown – sistema de monitoramento doméstico


A afroamericana Marie Van Brittan Brown criou o primeiro sistema de vigilância doméstica.

 (Foto: Wikimedia Commons, Google Patents)

→ Natural do bairro do Queens, em Nova York, a inventora afroamericana obteve, em 1969, a patente para o primeiro sistema de vigilância por vídeo para uso doméstico. O sistema funcionava com uma câmera que podia ser remotamente controlada e movida por quatro buracos diferentes, transmitindo as imagens para um monitor dentro de casa. A invenção foi a “mãe” dos sistemas modernos de vigilância doméstica, e a patente também está disponível para consulta.

Marion Donovan – fraldas descartáveis


→ Com dezenas de patentes registradas, a americana foi a responsável pela criação da primeira fralda descartável à prova de líquidos, o que facilitou a vida dos pais que sofriam ao trocar e lavar fraldas de pano. A ideia surgiu ao costurar uma cortina de chuveiro à fralda, o que evitava que a roupa do bebê e o berço ficassem molhados. Além disso, Donavan também foi responsável por substituir os alfinetes (perigosos para as crianças) por lacres de plástico nas fraldas.

Mary Anderson – limpador de para-brisa


→ Dirigir em dias de chuva ou neve só se tornou algo um pouco mais tranquilo depois da invenção do primeiro sistema automático para limpar o para-brisa do carro. A invenção da americana foi registrada em 1903, e permitia que o vidro fosse limpo pelas lâminas, que eram ativadas por dentro do veículo.

Stephanie Kwolek – kevlar


Os polímeros ultrarresistentes criados por Stephanie Kwolek permitiram a criação dos coletes à prova de balas modernos.

(Foto: Chemical Heritage Foundation. Google Patents)

→ Filha de imigrantes poloneses, a química americana Stephanie Kwolek foi responsável por criar uma família de fibras sintéticas ultrarresistentes, mas que também eram bastante maleáveis. A tecnologia, batizada de “Kevlar”, foi aplicada a em aviões, pneus, barcos e até raquetes de tênis, no entanto, ficou mais conhecida pelo uso em coletes à prova de balas. Mesmo assim, Kwolek nunca lucrou com suas patentes, já que, à época, elas foram cedidas à empresa na qual a inventora trabalhava.

Tabitha Babbitt – serra circular


Mesmo creditada pela invenção, Tabitha Babbitt não registrou a patente da serra circular.

(Foto: Wikimedia Commons)

→ Nascida em 1779 na cidade de Hardwick, Massachusetts (EUA), Babbitt é creditada por inventar a primeira serra circular, que permitia cortar madeira muito mais rápido do que o método tradicional, utilizando uma máquina movida à água de um moinho para criar o movimento. A invenção, de 1813, não foi patenteada pela americana, e acabou sendo registrada três anos depois por dois franceses que tiveram acesso aos documentos.


Cauê Fabiano – Do G1, em São Paulo

Globo.com – Ciência e Saúde



Todo barnabé tem seu dia de ministro


José Cândido de Carvalho



Tocantins Pereira viu passar vinte anos pela sua mesa de amanuense da Secretaria do Fomento. Vinte anos de processos sobre zebu e capim-jaraguá. Lá fora, longe da caneta de Tocantins Pereira, passaram resmas de moças, jardins de flores e cachos de luar.* Aos domingos, na Pensão Saraiva, no Engenho de Dentro, Tocantins varava os processos do Fomento com fúria de saca-rolhas. Alma de portaria, sempre movido a regulamento, não teve olhos para uma certa Mercodenes Silveira que esperava por ele toda tarde na sala de visitas da Pensão Saraiva. Não adiantou Mercodenes estreitar a cintura e mostrar as boas e variadas fatias de que era servida. À vezes insinuava:

‒ Seu Tocantins, está levando uma Theda Bara no cinema Guarani que é uma beleza, seu Tocantins.

Cansada de trabalhar em seco, a moça da Pensão Saraiva transferiu sua paixão para outro bairro. E sobre essa transferência os anos rolaram. Até que uma tarde, no Mercado das Flores, Tocantins ouviu aquela voz feita de asas de borboleta:

‒ Tocantins, Tocantins!

Era dona Mercodenes que parecia ter saído de uma vitrina de modas. Tinha casado com um senador, homem de recursos e de poder. Que ele, Tocantins, pedisse o que bem quisesse. Morava sozinha em Santa Tereza, uma vez que o senador andava longe, tirando o Brasil da beira do abismo a poder de discurso. Que ele aparecesse, dispensava a criadagem. E maliciosa, de dedo enluvado quase no beiço do informador de papéis da Secretaria de Fomentos:

‒ Peça o quiser, Tocantins. Não tenha acanhamento. Ninguém vai saber de nada.

Então, dando pontapés em vinte anos de boi zebu e capim-jaraguá, Tocantins desembuchou:

‒ Se não é pedir muito, dona Mercodenes, eu queria ser transferido para as Rendas Aduaneiras. O senador seu marido pode fazer isso. É do regulamento. O senador pode fazer, que eu sei que pode, dona Mercodenes.

Mas já dona Mercodenes estava longe. Longe para nunca mais.

*****

*O trecho opõe fortermente a rotina do amanuense ao dinamismo da vida.


Texto do livro “Um Ninho de Mafagafes Cheio de Mafagafinhos”, publicado em 1972 pela editora José Olympio. Trata do segundo volume dos “contados, astuciados e acontecidos do povinho do Brasil”.


José Cândido de Carvalho: 1914 – 1989



Dia de Festa

(Excerto)


José J. Veiga


Era um paletó de listras vivas, estendido com outras roupas numa corda. Aritakê passou, viu o paletó, achou bonito. Olhou a camisa do corpo, rasgada, sem cor: decidiu-se. Ninguém viu Aritakê apanhar o paletó, mas muitos o viram andar pelas ruas com ele, parando de vez em quando para levantar uma aba até a altura dos olhos (não podia baixar a cabeça por causa da vasilha de água).

O dono do paletó, homem correto e respeitador das leis, fez o que achou que devia fazer: levou o caso ao delegado; mas fez questão de explicar que não era pelo valor da peça, era pelo princípio; o paletó ele nem queria mais, não ia vestir roupa que andou em corpo de índio.

Achando que o assunto era de importância secundária o delegado entregou-o ao cabo do destacamento e partiu num caminhão cheio de cachorros para uma caçada que ia durar dias. O cabo gostou, havia muito tempo que não funcionava como autoridade.

Aritakê enchia um pote no chafariz quando o cabo chegou com dois soldados armados de sabre, chegou e deu ordem para agarrar e algemar. Aritakê deve ter pensado que eles o estavam presenteando com alguma coisa, ficou olhando as duas pulseiras niqueladas e sorrindo. Mas quando os soldados o puseram para diante a empurrões, aí ele não entendeu e apontou o pote com as duas mãos. O cabo, homem experiente, não ia se atrapalhar; resolveu o problema quebrando o pote com uma botinada, a água se espalhando entre os cacos pela laje do chafariz.

De empurrão em empurrão, o cabo atrás com os polegares no cinto explicando aos curiosos o motivo da prisão, Aritakê foi jogado no calabouço, lugar reservado a presos perigosos. A porta foi fechada com a chave enorme, Aritakê ficou no escuro.

Afora os empurrões, que ele não entendeu, parece que Aritakê não se importou com a prisão. Sentado no parapeito da janela, atrás dos barrotes de quase um palmo de largura reforçados com chapas de ferro, ele passava o tempo entretido em olhar as listras do paletó, prova do pouco caso que fazia da justiça.

Lá um dia o queixoso procurou o delegado para saber em que pé andava o processo, o delegado disse que não andava em pé nenhum, processo de índio é complicado, segue legislação especial, ele não ia mexer em casa de marimbondo por um assunto tão trivial: bastava o criminoso gramar uns tempos na cadeia para deixar o vício; depois, as famílias todas estavam pedindo a liberdade de Aritakê, precisavam muito dele para baldeação de água.

Os dias passavam iguais e sem sentido mesmo para um índio, a comida chegando com atraso porque os meninos escalados para levá-la não tinham pressa, o soldado que a recebia também não ia interromper a história que estivesse contando ou ouvindo, e Aritakê curtindo fome calado. De tempos em tempos um soldado chegava com uma lata d'água e despejava no pote por cima do lodo antigo. Aos domingos os soldados levavam os presos para despejarem o barril dos detritos e tomarem banho se quisessem. O povo ficava olhando de longe, quem estivesse na janela se retirava por causa do mau cheiro, ninguém aproveitava a ocasião para dar aos presos um pedaço de fumo, uma peça de roupa, dinheiro; achavam que preso tem de tudo na cadeia.

Uma tarde de festa - procissão, foguetes, banda de música - os soldados se descuidaram na vigilância, Aritakê notou a porta do calabouço mal fechada, subiu os degraus de pedra como quem não quer nada, empurrou a porta e foi saindo. Os soldados estavam discutindo sobre armas de fogo em uma sala, do corredor se ouvia a conversa.

Aritakê não levou nada, não tinha o que levar, nem sabia para onde ia. Desceu o largo, parou um pouco na porta da igreja, não se interessou pela barulheira, continuou andando, passou a ponte e foi acompanhando o rio. Já na estrada, passada a máquina de arroz e a cerca do matadouro, ouviu tropel e gritos atrás.

‒ Pega o preso! Vai fugindo!

Aritakê olhou para trás, viu os soldados, entendeu que era com ele. O jeito agora era correr.

‒ Pega! É preso fugido! Pega!

Sentado na porta de sua casinhola com uma criança nos braços um homem ouviu o apelo. Depressa ele entregou a criança a alguém lá dentro e tentou cercar o fugitivo. Aritakê quebrou cangalha fácil e passou.

‒ Pega! Não deixa fugir!

Tranquilamente o homem levou a mão à cintura, puxou uma arma, atirou. No baque do tiro Aritakê perdeu o passo, focinhou de lado e caiu de ombro na beira da estrada, uma perna adiante da outra ainda na posição de correr.

Os soldados já vinham chegando, elogiaram a pontaria.

‒ Vai atirar bem assim na praia ‒ disse um.

O homem e os soldados foram ver o efeito da bala, o homem ainda com a arma na mão - a queda podia ser truque de índio treteiro.

Um soldado virou o cadáver com o pé. A bala tinha entrado nas costas e saído no peito.

‒ Conheceu, tapuio safado! ‒ disse o soldado.

O outro estava interessado era na arma.

‒ É ximite, não é? Dá licença? ‒ examinou e completou, entendido: ‒ Logo vi. Bicho que não faz vergonha. Quer negociar?

*****

Fonte: “Literatura comentada” José J. Veiga,
Editora Abril, São Paulo: 1982 págs. 47/51.


José Veiga, conhecido como José J. Veiga, (Corumbá de Goiás, 1915Rio de Janeiro, 1999) foi um escritor brasileiro, considerado um dos maiores autores em língua inglesa do realismo fantástico. A crítica política e social em seus livros é eivada de lirismo, mas não por isso menos incisiva.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

As pílulas



Arthur Azevedo


Há muitos anos havia no Rio de Janeiro um boticário, em cujo estabelecimento se reuniam todas as noite – das sete as dez – uns indivíduos que não faziam outra coisa senão discutir sobre política.

Uma noite apareceu na roda, levado por um dos mais velhos frequentadores da botica, certo oficial argentino, revolucionário, que fora deportado da sua terra, e andava comendo o negro pão do exílio... no “Frères Provençaux”.

Desde o instante em que esse elemento exótico apareceu na botica, cessou completamente a cordura que havia naquelas confabulações tranquilas e burguesas.

O argentino a propósito de tudo deprimia os homens e as coisas do país que o agasalhava, poupando, nas suas impertinências invectivas, apenas a nossa naturaleza.

A roda era pacata; nenhum dos presentes tomava a peito, com o indispensável ardor, a defesa, aliás facílima, da nossa terra; e quando um deles se atreveu a dirigir-se em voz mais alta ao argentino, este de tal sorte gritou, gesticulou e regougou, e tantas vezes bateu coma bengala no chão e na grade que separava o boticário dos seus fregueses que houve ajuntamento de transeuntes à porta da botica.

O dono da casa, homem de bom natural, que raro se envolvia nas conversas, aviando pachorrentamente lá dentro as receitas enquanto cá fora se discutia com mais ou menor calor, o dono da casa dessa vez saiu do sério e do almofariz, e veio dizer ao revolucionário que não gritasse tanto.

É bem de ver que o homenzinho, habituado a revoltar-se contras os governos de seu país, não suportaria que um simples boticário lhe viesse dizer que não gritasse.

Gritou mais e mais, e tantas coisas disse, que o dono da casa acabou por gritar também.

‒ Ponha-se no olho da rua, sem patife! Bradou-lhe num tom que não admitia réplicas.

E, segurando o argentino pela cintura, obrigou-o, com um empurrão, a dar um pulo até o meio da rua.

***

No dia seguinte, o boticário foi desafiado para um duelo. Entraram-lhe em casa dois sujeitos mandados pelo argentino, que lhe pediram indicasse dois amigos com quem eles se entendessem para regular as condições do encontro.

O boticário, sem levantar os olhos do alambique, disse-lhes que sim, que as suas testemunhas lá iriam ter; mas desde logo preveniu aos dois sujeitos, sendo ele o desafiado, cabia-lhe a escolha das armas.

‒ O nosso comitente aceita qualquer arma, pois todas maneja com igual perícia. Já teve quinze duelos no Rio da Prata; matou sete adversário e feriu oito!

‒ Pois olhem, meus senhores –  respondeu o boticário sempre às voltas com o alambique – a mim não me há de matar nem mesmo ferir.

Nesse mesmo dia reuniram-se as quatro testemunhas e acordaram que o duelo se realizaria na manhã seguinte, no Jardim Botânico. O boticário forneceria as armas.

À hora convencionada achavam-se a postos os adversários, os padrinhos e um médico levado pelo argentino.

‒ Então? As armas?... perguntou este, olhando em volta de si.

‒ As armas cá estão – disse o boticário, aproximando-se e tirando uma caixinha da algibeira do colete. – Escolhi estas.

E, abrindo a caixinha, mostrou duas pílulas.

 ‒ Pílulas! – exclamaram todos.

‒ Pílulas, sim. Este senhor é um militar, um duelista que se gaba de ter matado sete homens, e que maneja perfeitamente a espada, o sabre e a pistola; eu sou um pobre boticário, que não tem feito outra coisa sem sua vida senão remédios. Se algum dia matei alguém, fi-lo sem ter consciência disso... Cabia-me a escolha das armas: escolhi as minhas...

‒ Mas isso não é sério! – exclamou o revolucionário.

‒ É mais sério do que usted supõe; uma destas pílulas tem dentro ácido prússico; a outra é inofensiva. Tiremo-la à sorte, engulamo-la, e o que tiver escolhido a envenenada em poucos segundos deixará pertencer ao número dos vivos.

E, apresentando a caixinha ao adversário:

‒ Sirva-se.

‒ Nunca! Não me presto a um duelo ridículo!

‒ Ridículo? Ora essa! Trata-se de um duelo de morte, e eu não compreendo senão assim. Quando aqui vim, foi disposto a morrer ou a matar. – Vamos, faça favor de escolher uma das pílulas!

O argentino estava lívido.

‒ Se usted não quer escolher, escolho eu; mas se não é um covarde, tem que tomar a outra imediatamente, porque os efeitos do ácido prússico são prontos!

E, tirando um das pílulas, engoliu-a serenamente.

‒ Bom; já engoli uma; vá! A outra! Depressa!...

‒ Ah! Não quer engolir a outra! Pois engulo-a eu, porque são ambas de miolo de pão, e usted é uma maricas!

E engoliu a outra pílula.

***

Nesse mesmo dia o argentino deixou o Rio de Janeiro. Foi comer noutra parte o negro pão do exílio.


******


Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão a 07 de julho de 1855, é uma das grandes figuras do humorismo brasileiro. Foi jornalista, comediógrafo, contista e poeta. Em toda sua obra campeia um fino e gracioso humorismo. Autor dos "Contos Possíveis", "Contos Efêmeros", "Contos fora de moda", "Contos em verso", "Contos Cariocas" e "Vida alheia", espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem "O Dote", "A Almanjarra", "A Véspera de Reis", "O Oráculo", "Vida e Morte", "Entre a Missa e o Almoço", "Entre o Vermute e a Sopa", "Retrato a Óleo" e "O amor por Anexins". Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido "A Gazetinha", "Vida Moderna" e "O Álbum". Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, em que ocupou a cadeira n° 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono, faleceu no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.