quinta-feira, 30 de junho de 2016

Textos de Marcos de Vasconcellos


Londres, anos 40. Paschoal Carlos Magno era o cônsul brasileiro em Liverpool, mas não perdia teatro ou concerto na capital britânica, fustigada pela Lufwaffe de Herman Goering e pelas bombas V-1 (que invariavelmente caíam na Mancha), criadas pelo genial Werner Braun, mais tarde pai, avô e bisavô do programa espacial americano.
Certa ocasião, durante um concerto sinfônico regido por Eugene Ormandy, uma sirene estremeceu o teatro, anunciando ataque aéreo dos alemães. Dessa vez, as bombas eram as primeiras e terrivelmente eficazes V-2 alemãs, precursoras até inocentes dos fantásticos mísseis atuais.
Ormandy, sem se afastar do pódio, voltou-se gravemente para a plateia e para seus músicos e disse com serenidade:
- Os senhores têm plena liberdade de procurar os abrigos antiaéreos.
Aguardou alguns instantes, vendo que ninguém se movia, declarou com firmeza:
- As bombas passam.
E regeu a Nona Sinfonia do maestro alemão Ludwig van Beethoven.


Walter Moreira Salles era embaixador em Washington, meados dos aos 50. Baile na Embaixada Brasileira. Rezando pelo catecismo do protocolo, antes das danças, a orquestra deflagrou o Hino Nacional. Atacada a introdução (conhecida como laranja da China), um diplomata americano, supondo tratar-se de um animado maxixe brasileiro, já que não reconheceu os acordes do hino propriamente dito, levantou-se, tomou a embaixatriz Elisinha Moreira Salles nos braços que, perplexa, viu-se a acompanhar passos entusiasmados pelo salão. Moreira Salles, rápido, fez o mesmo: enlaçou a esposa do diplomata e saiu dançando em direção à orquestra onde, entre dentes, mandou o maestro repetir a introdução e parar por aí.
Salvou, de um golpe, a face do outro, o protocolo e a honra pátria.


Outra conversa séria, presenciada pelo Carlinhos de Oliveira, entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes no bar Veloso, berçário do conhecido Garota de Ipanema. Assunto flagrado pelo cronista e que lá ia pelo meio: o que faria os dois se fossem viados.
Declaração final de Vinicius, vitimado por nove casamentos:
- Eu gostaria de ter um homem que me amasse e protegesse.
E disse isso seríssimo.


Enterro do marido de Clementina de Jesus acompanhado pelo cortejo naturalmente choroso, composto de numeroso contingente de sambistas, inconsoláveis parentes e amigos.
Ao baixarem o caixão do falecido para o seu leito eterno, aproximou-se do túmulo um cidadão de cor, semblante gravíssimo e, após rápida verificação, voltou-se para os circunstantes e anunciou em voz alta:
- 2154!


Biquinha, jogador de vôlei na praia de Copacabana, defronte ao famoso Bar do Carnera, esquina de Djalma Ulrich, ouvia a seguinte notícia:
 - Tim fraturou o perônio.
Comentou:
- Puta merda! Que cabeçada!


O mesmo Biquinha pediu um emprego ao Caruso, dono de várias salas de projeção no Rio. Chamavam-no Vivacidade Caruso. Resposta:
- Você não conhece o métier, mas, em todo caso, fale com minha secretária.
Biquinha:
- Me apresenta ele e deixa comigo!


Um gerente de banco em Ipanema recusando um cheque de um contumaz adiador de fundos:
- O senhor que desculpe, mas só aceitamos cheques visados.
- Mas os meus cheques já naturalmente visados.


Redação da revista manchete, nos tempos da rua Frei Caneca. José Carlos Oliveira multiplicava por mil sua rala força de vontade para deixar de fumar, uma luta cotidiana perdida. Raimundo de Magalhães Júnior aconselhou:
- Bala. Substitua esta maldição por bala.
E Carlinhos municiou-se com balas às quais chupava com unção e esperança. Nada, o cigarro vencia. Nos intervalos entre os parágrafos de uma matéria, o pensamento só acudia com sinais da fumaça mecânica. O Raimundo e mais um conselho antitabagista.
- Cachimbo. Cachimbo é ótimo.
No fim de dois meses, horrorizado e vencido, Carlinhos apurou que tinha três vícios: cigarro, bala e cachimbo.


O ilustre e famoso advogado Stelio Belchior me descreveu assim o sexo oral praticado por homem em senhora, o popular minette.
- Pode ser uma medida preliminar, uma petição inicial, um recurso extraordinário ou um agravo de instrumento para subir o recurso.


O poeta Olegário Mariano, padrinho de batismo pela milésima vez, suportava a arenga latina do padre quando, num dado momento, o pároco lhe perguntou: menino ou menina?
Olegário, apanhado d surpresa, não teve outro recurso a não ser sungar a camisola do bebê que, naquelas alturas da vida, era desprovido de sexo aparente. Afastou os panos que o separavam a revelação e, apurados os fatos, declarou:
Se não me falha a memória, menina.


Texto do livro “300 Histórias do Brasil Pequenas Vergonhas”, 
de Marcos de Vasconcellos. L&PM




Pé de sapato



Osvaldo Molles*

De início, ela quis impor o respeito. Logo no primeiro dia, dona Maricota entrou e foi dizendo para aqueles alunos do primeiro ano primário:

 – Quero disciplina e respeito, se não, dou ponteirada!

A gente era pequeno demais e achava imenso, enorme, aquele ponteiro com que dona Maricota apontava a lição do quadro-negro e desapontava os malcriados com bordoadas justas e certeiras. De vez em quando, o subdiretor botava o nariz enorme pela porta entreaberta. Aí ela sorria. E a classe, logo no primeiro mês, começou a desconfiar que havia namoro.

Não sei por que é que ela implicou comigo. Acho que era por causa do «pé descalço – pé calçado». É que pobre faz assim: compra um par de calçado só. Um irmão calça o pé direito, o outro calça o esquerdo. E o dedão de fora está sempre amarrado num pano sujo de poeira. Dona Maricota não gostava da tapeação. E intimidava:

– Seu Osvaldo, se esse pé não sarar até o dia 21 de abril, dou ponteirada!

É que, naquele tempo, o Brasil tinha sido descoberto no dia 21 de abril. Depois, descobriram o Brasil no dia 3 de maio. E a 21 de abril havia festa. Aí, então, os irmãos que calçavam o mesmo número tiravam o par ou ímpar. Quem ganhava ia à festa. Eu nunca fui, talvez por causa do meu azar em jogo.

Entretanto, dona Maricota costumava sorrir para os três alunos mais bem penteados e bem vestidos da classe. Um deles era o Peixotinho, de colarinho sempre alvo e de gravatinha preta. Levava «manteiga do sítio de papai» para dona Maricota e era o primeiro da classe. Era talentoso na arte de agradar. E tinha um futuro brilhante. Dona Maricota acreditava no futuro do Peixotinho. Hoje, ele é vendedor de bananas na rua da Cantareira.

Foi um pó de arroz antigo, cheirado de passagem, que me trouxe essas lembranças de dona Maricota. E, apesar de tudo, a gente sente saudade do perfume tênue que a professora espalhava quando fazia o esforço de distribuir ponteiradas entre os «pé descalço ― pé calçado» da classe.


(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C – Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.


Conto de Natal para o ano todo


Osvaldo Molles



Era uma avenida na paisagem dos Evangelhos, bem na esquina do Novo Testamento. E apareceu um camelo cor de avelã, servindo coquetel nas tâmaras dos olhos. Na obstinada giba, uma triste cópia da pirâmide. E o focinho crestado pela iluminação da ribalta sem aplausos do deserto, começou a movimentar-se. E disse:

– Nada de meu tinha para dar ao Menino nascido em Belém. Então transportei os Magos que seguiam o caminho da Estrela. Dei meu fôlego ao Menino.

Veio um boi. Um boi que segundo o Dicionário de Caldas Aulete “serve principalmente para trabalhos de campo e para alimentação do homem”. Depois disso, que dizer sobre aquele boi que se casou com a escravidão e que trazia, no focinho, a aliança do melancólico conúbio? E o boi disse:

– O frio da Noite Santa era tão áspero que entrei na manjedoura para me aquecer. Mas vi lá um Menino com frio e sua mãe e seu pai... e não pensei mais em mim. Aqueci-O com o que eu tinha de meu: meu pobre alento.

Veio uma cabra montesa, rústica como uma mulher livre do campo. Vinha mascando liberdade entre os queixos bravios. E falou pouco:

– Eu lhe dei do leite de meu filho.

Veio, depois, uma ovelha, macia como uma reza de criança. No perfil trácio trazia o desenho da educação sem humildade. Sua cabeça baixa tinha a altivez dos que meditam. E disse:

– Nada lhe podia dar e me deitei aconchegada ao Menino, para aquecê-lo na noite álgida. Dei-lhe muito pouco: dei-lhe apenas meu calor.

Veio um jumento sisudo e muito percorrido, desses que já viram quase tudo e que já não querem ver mais nada. Um jumento — muito velho e usado – que conhece muito bem a História:

– Quando o rei Herodes mandou decapitar crianças, eu O levei na fuga para o Egito.

Veio o peixe e disse:

– Eu saltei para o barco de Pedro. Eu lhe dei a fé.

Veio o grão de trigo e falou:

– Eu me multipliquei quando Ele m'o pediu. Dei-lhe a ceia. 

Veio a água ingênua e disse :

– Eu me transformei em vinho. Dei-lhe meu sangue.

E veio o homem. O homem sábio – o único entre os animais que possui o segredo da Eternidade. O homem que é rei da Criação e proprietário do livre arbítrio. E o homem disse:

– Eu lhe dei a cruz.


Histórias de repórteres esportivos



Repórter: – Substituição na equipe tal... Vai entrar Oto.
Locutor:  – Quem?
Repórter: – Oto... Eu disse Oto!
Locutor:  – Desculpe, estamos com problemas técnicos. Dá para repetir?
Repórter: – Oto... Oto... Um nome parecido com aquele hotel lá em São Paulo!
Locutor;  – Ele acabou de entrar e já recebe a bola, lá vai Comodoro...

→ Edson Leite narrava um jogo da Ferroviária, tendo como repórter volante Etel Rodrigues.

Etel:     – Atenção, Edson, substituição na Ferroviária!
Edson: – Pois não, Etel!
Etel:     – Entra Melão no lugar de Parada.
Edson: – Ô Etel, vamos acabar com essa mania de apelidos no futebol. Vamos narrar com os nomes verdadeiros dos atletas. Qual é o nome do jogador?
Etel:     – Vamos verificar na súmula e já informaremos!

O jogo corre solto, Edson é interrompido:

Etel:     – Alô, Edson!
Edson: – Fala, Etel!
Etel:     – O nome do Melão é Wilson Sori.
Edson: – Wilson... o quê?
Etel:     – Sori... esse, ó, erre, i!
Edson: – Levanta pela ponta direita Laerte... vai alçar para a área... subiu... Melão e toca para fora!

→ Para muitos a passagem seguinte aconteceu com Edson Leite, mas, na verdade, os protagonistas foram Reali Júnior e Oliveira Júnior. Jogavam Palmeiras e Noroeste de Bauru, no Parque Antárctica. Para colaborar com a grama aparada do gramado, o clube mantinha, amarrado ao alambrado, um carneiro. O bichinho soltou-se da corda que o prendia e invadiu o campo de jogo. O árbitro paralisou a partida imediatamente. O locutor Oliveira Júnior, distraído, não percebendo nada de anormal, consultou Reali:

– Partida interrompida, o que houve, Reali?
– Entrou um carneiro em campo?
– No lugar de quem, Reali?
– Um carneiro bicho, Oliveira.

Oliveira, nervoso, brada ao microfone:

– Mas você não explica, tem de esclarecer.


(Do livro “Um show de rádio – a vida de Estevam Sangirardi”,
de Carlos Coraúcci)



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Um soneto para ser guardado



Frei Antonio das Chagas foi o nome adotado, no Convento Franciscano, pelo militar e poeta português Antonio da Fonseca Soares. Antonio nasceu em Vidigueira, em 25 de Junho de 1631 e faleceu em Varatojo, em 20 de Outubro de 1682. Passou sua infância e juventude no Alentejo e estudou no Colégio dos Jesuítas, em Évora, não tendo concluído os estudos devido à morte do pai. Alistou-se, então, no exército, em plena Guerra da Restauração, iniciando carreira militar promissora. Envolveu-se nas mais diversas aventuras, cometendo todo o tipo de excessos, fruto do seu temperamento impetuoso. Em 1653, com 22 anos de idade, um desses episódios obrigou-o a fugir para o Brasil, perseguido pela justiça, por ter causado a morte de um rival, em duelo. Passou três anos na Bahia, sem alterar o seu modo de vida irreverente. De regresso a Portugal,em 1656, voltou a participar, ativamente, na guerra.

Foi promovido a capitão, em Setúbal, como reconhecimento pelo seu valor. Em Maio de 1662, com 31 anos de idade, renunciou à vida militar e abraçou os votos monásticos, na Ordem de São Francisco, em Évora. Desde então, Antonio da Fonseca Soares passou a ser Frei Antonio das Chagas. Dedicou o resto da sua vida ao evangelho e a pregar a fé, com o ardor e a paixão que o caracterizavam. Escreveu nos mais diversos gêneros poéticos: sonetos, madrigais, romances, décimas, glosas e dois poemas heróicos – Mourão Restaurado e Canto Panegírico à Vitória de Elvas. Ficou conhecido por um de seus sonetos mais famosos, aqui reproduzido:


Conta e Tempo

Frei Antonio das Chagas (1631-1682)

Deus pede hoje estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo fazer conta,
Hoje quero fazer conta e não há tempo.

Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passa-tempo.
Cuidai, enquanto é tempo em vossa conta.

Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo.

(O Sul de Minas)


O poeta carioca Laurindo Rabelo (1826-1864) readaptou o poema por volta de 1850.


O tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e não fiz conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
Não choravam como eu, o não ter tempo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

5 tops dos tops


5 Maiores injustiçados da música brasileira

Por Nelson Motta, jornalista, escritor e produtor

· Wilson Simonal (hors-concours)
· Johnny Alf
· Rosa Passos
· Sérgio Sampaio
· Walter Franco

5 Museus mais interessantes do mundo

Por Daniela Thomas, cenógrafa e diretora  de arte, cinema e teatro

· Museu do Prado, em Madri. Para ver “As Meninas”, de Velásquez e a fase negra de Goya.
· Beaubourg (Centre Georges Pompidou), em paris. Tem as melhores coleções de arte moderna e uma arquitetura que não envelhece.
· Glyptoteket, em Munique. Um museu maravilhoso, com um acervo de estátuas gregas e romanas e uma arquitetura impressionante.
· Naturhistorisches Museum Wien (Museu da História Natural de Viena). Todo feito com armário do século XIX, parece uma sala de curiosidades, como se quisessem mapear o planeta em quadrinhos.
· Museu da História da Medicina (Josephinum), em Viena. Superinteressante, com réplicas de anatomia humana feitas em cera com uma fidelidade impressionante, dispostas em vitrines delicadas do século XIX.

5 Cenários ideais para uma festa no Rio de Janeiro

Por Cabbet Araújo, empresário da noite e usina de ideias

· Jardins da Casa de Rui Barbosa, em Botafogo
· Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na avenida Brasil
· Estação de trem Central do Brasil
· Estação do metrô Cardeal Arco Verde
· Quinta da Boa Vista

5 Melhores capas de vinil

Por Charles Gavin, baterista fissurado por vinil

· “Secos&Molhados” (Continental), 1973). Simplesmente a capa mais importante e carismática do rock brasileiro
· Zé Ramalho: “A peleja do diabo com o dono do céu! (Epic, 1980). Zé Ramalho queria montar uma cena que ilustrasse bem o título de seu segundo LP. Para isso convidou Xuxa Lopes e Zé do Caixão para posarem ao seu lado na foto da capa. Clássica e culta.
· Nara Leão; “Nara” (Elenco, 1964). Aloysio de Oliveira escolheu Cesar Vilella para elaborar a capa do disco de estreia da musa, e muitas outras da Elenco. O seu design arrojado, moderno e minimalista de Vilella acabou fazendo história na música brasileira.
· “Clube da Esquina” (Odeon, 1972). Essa foto, tirada dentro do carro pelo artista plástico Cafi, no interior de Minas Gerais, acabou se tornando o símbolo visual do projeto capitaneado por Milton Nascimento e Lô Borges. Certamente essa é uma das imagens mais emblemáticas da MPB na década de 70.
 · Bezerra da Silva: “Eu não sou santo” (BMG Ariola, 1990). Mais atual do que na época que o disco foi lançado, a colagem da capa desse álbum de Bezerra da Silva é um soco direto no estômago de nossa consciência.

5 Gols mais bonitos da história do Maracanã

Pela equipe de esporte do Globo

· Pelé, em Santos 3 X 1 Fluminense. Campeonato Brasileiro, março de 1961: Pelé atravessou o campo conduzindo a bola, driblou três jogadores pelo caminho e, já na área adversária, chutou no canto direito, sem defesa para o goleiro tricolor Castilho.
· Bebeto, em Brasil 2 X 1 Argentina. Quartas de final da Copa América, julho de 1989. Silas vai à linha de fundo e cruza para Romário, que ajeita para Bebeto emendar de primeira em voleio indefensável.
· Roberto Dinamite, em Vasco 2 X 1 Botafogo. Campeonato Carioca, maio de 1976: pouco antes da pequena área, Roberto mata no peito, dá um lençol no zagueiro botafoguense Osmar e, sem deixar a bola cair, acerta o chute no canto direito do goleiro.
· Rivelino, em Fluminense 1 X 0 Vasco. Campeonato Carioca, junho de 1975: Rivelino para diante do vascaíno Alcir Portela e, segundos depois, dá o drible que passaria a ser conhecido como “Elástico”, passando a bola por debaixo das pernas do marcador. Na sequência, arranca para a área, dribla mais dois jogadores, ameaça tocar no canto direito e conclui, com categoria, no canto esquerdo do goleiro argentino Andrada.
· Ademir Menezes: Ademir, em Vasco 2 X 1 América: Decisão do Campeonato Carioca de 1950. Ademir: conhecido como Queixada, marcou os dois gols na primeira final do estadual disputado no recém-inaugurado Maracanã.

5 Praias mais bonitas do Brasil

Por Fred D¢Orey, Estilista, surfista e rato e areia

· Ponta do Camarão, Sul da Bahia, ao lado da Praia de Caraíva. Pra não ver ninguém.
· Praia de Itaúna, Saquarema. Pelas ondas.
· Posto 8, Ipanema, em frente ao Fasano. Pra ir a pé.
· Riozinho do Campeche, Praia do Campeche, Florianópolis. Gente bonita.
· Praia da Conceição, Fernando de Noronha. Rasta vibe.

5 Peças que toda mulher deve ter no armário

Por Alice Autran Garcia, Coordenadora de moda da Revista O Globo

· Um blazer preto bem cortado.
· Uma bela camisa branca.
· Uma calça jeans com caimento impecável.
· Um sapato de salto de boa qualidade, bem acabado e confortável.
· Muitos acessórios.

5 Peças que todo homem deve ter no armário

Por Júlio Rego, Consultor de estilo masculino

· Calça jeans. É a maior invenção da moda, na minha opinião. Boa para qualquer hora do dia e da noite.
· Um tênis discreto. Que se possa usar também para sair à noite.
· T-shirts básicas. Uma roupa universal, desde Marlon Brando.
· Um bom blazer azul-marinho ou preto. Sem botões dourados, por favor.
· Uma camisa de colarinho para usar à noite.

Obs.:
Para complementar, recomendo duas calças: uma cinza para a noite e uma bege para o dia; dois pares de sapato: um mocassim para o verão e, claro, cabide. Um bom cabide não amassa a roupa e matem o vinco da calça.

5 Melhores desfiles da Marquês de Sapucaí

Por Hiram Araújo, Medico e enciclopédia viva do carnaval

· “Tupinicópólis” (Mocidade Independente, 1987).
· “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia” (Beija-Flor, 1989).
· “Gentileza X O profeta do fogo” (Grande Rio, 2001).
· “Kizomba”, a festa da raça” (Vila Isabel, 1988).
· “Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas” (Mocidade Independente, 1985).

5 Cuidados que toda mulher deve ter a partir dos 30

Por Paula Belloti, Dermatologista da moda

· Procurar a orientação de um dermatologista. Parece bobagem, mas muita acaba piorando o estado da pelo usando produtos que são ótimos para uns, mas péssimos para outros.
· Transformar em hábito, realmente o uso de filtro solar todo dia. A partir dessa idade, os efeitos nocivos do sol são visíveis. Ele acelera a degradação do DNA celular que fabrica colágeno novo. Normalmente, um filtro com o fator 15 já basta para os dias de sol e chuva.
· Fazer a cada seis meses uma sessão de Thermacool. Radiofrequência que contrai a fibra colágena e remodela o colágeno desgastado, prevenindo a flacidez facial
· Usar um creme a base de ácido retinoico diariamente à noite. E fazer um pelling de ácido retinoico uma vez por mês para estimular a produção de colágeno novo.
· Fazer a cada três ou seis meses uma sessão do sistema Ellos. É um laser com três ponteiras que, de uma só vez, trata manchas, flacidez ou rugas finas.

5 Melhores filmes dos últimos cinco anos

Por Rodrigo Fonseca, Crítico de cinema do Globo

· “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”, de Michel Gondry.
· “Old Boy”, de Park Chan-Wook.
· “Tropa de Elite” (I e II), de José Padilha.
· “Conta a parede”, de Faith Akin.
· “Batman – O cavaleiro das trevas”, de Chistopher Nolan.

5 Maiores jogadores da história do campeonato brasileiro

Por Roberto Assaf, jornalista e enciclopédia viva do futebol

· Zico. Ganhou quatro dos cinco títulos conquistados pelo Flamengo.
· Rogério Ceni. Um símbolo das conquistas do São Paulo.
· Roberto Dinamite. É o maior artilheiro da história do campeonato. Fez 190 gols nos brasileiros que disputou.
· Falcão. Um craque. Grande condutor do tricampeonato do Internacional.
· Edmundo. Ganhou três campeonatos, dois pelo Palmeiras e um pelo Vasco. Neste último, ele quebrou vários recordes. Um deles continua de pé: maior número de gols em uma só partida. Foi no jogo Vasco 6 X 0 União São João todos os gols marcados por Edmundo, em 1997.


Gafes do Rádio




Ainda são comuns nas rádios do interior, programas de avisos, que servem para que as pessoas da cidade se comuniquem com quem mora no campo e, às vezes, nem telefone tem. É simples: a pessoa liga para a rádio, dita um texto passando alguma informação e esse é lido no ar. Nesses programas já ouvi pérolas fantásticas, como as que seguem.

A chave

- Alô, Dona Maria Silva, na comunidade do Rincão do 28! Dona Maria, do Rincão do 28! Deixei a chave de casa debaixo da pedra branca perto da porteira! Quem avisa é o Ezequiel.

O varal

- Atenção no Passo Novo, Vera Lúcia. Estou indo no ônibus das seis da tarde. Me busca na parada e, por favor, leva o Varal. Assinado, Marco Antônio.
Depois fui descobrir que o Varal em questão era o cachorro da família.

O estudioso

- Atenção na Fazenda Santa Maria, Josefa Almeida. Eu rodei em Matemática. Por favor, não conta pro pai. Assinado, Júnior, teu filho.

O casório

- Alô Pedro, peão da fazenda Rancho Fundo. Alô Pedro, da fazenda Rancho Fundo. A tua irmã vai casar amanhã. A égua foi vendida para o mortadela. Assinado, Maria Aparecida, tua mãe.
Claro que, nesse caso, a dona Maria Aparecida misturou dois assuntos diferentes. Eu acho.


Morreu?

- Atenção no Sítio Dom Bosco, Antônio Camargo. No Sítio Dom Bosco, Antônio Camargo. A Elizabete, nossa filha, está muito mal no hospital. O corpo será velado na capela B da Santa Casa... Quem assina é Rita, sua esposa.

Nasceu!

- Atenção na fazenda São João, Paulo. Paulo da Fazenda São João. A égua do seu Manoel deu cria. A tua mulher também. É um guri. Vem para o batizado amanhã. Assinado, teu irmão Jorge.
O Jorge soube aproveitar o que chamamos em jornalismo de “gancho”.

O pai

- Atenção na Fazenda São Gabriel, Alemão. Atenção, Alemão. A Judite, tua mulher, deu a luz ao Frederico teu filho. É um negrinho e tem muita saúde. Parabéns. Assinado, Gorete, tua mãe.

Sensibilidade

Recebo essa contribuição do professor Glauber Pereira, de Bagé (RS):

Um famoso comentarista de uma emissora de Bagé fazia a transmissão de uma partida da cidade, mas estava com a cabeça em outro lugar. Tudo porque um conhecido cartola da cidade, chamado Major Segredo, estava mal no hospital. O comentarista resolveu colocar os ouvintes a par do estado de saúde do cartola e usou toda a sensibilidade possível:
- Meus caros, informo que a vocês que o Major Segredo está mal no hospital. O Major Segredo pode morrer a qualquer momento...
De fato, o Major Segredo morreu. Porém, nosso comentarista, não contente em anunciar a morte aguardada, via transmissão de rádio, apresentou outra pérola. Por ser amigo do finado desde tempos idos, a viúva o convidou para se despedir do amigo com canções. No dia seguinte ao velório, nosso comentarista não teve dúvidas - nem modéstia - em sua participação no programa de rádio:
- Gente, o enterro do Major Segredo estava um espetáculo!

Padre enrolado

Um padre lia trechos da Bíblia em um breve espaço em uma rádio popular. O programa era ao vivo. Certo dia, ele deveria ler Mateus 25, onde diz:
“Tive fome, e não me destes de comer. Tive sede, e não me destes de beber. Era peregrino e não me acolhestes. Estive nu e não me vestistes”.
Só que na última parte, o padre se enrolou:
- Estive nu e não me visitaste... Desculpe... Estive nu e não me visi... não me vestistes.

Insetos?

Alguns locutores gostam de “tomar as dores” do povo e reclamar para valer. Além de tentarem resolver os problemas dos ouvintes, também criam simpatia com eles. Esse, por exemplo, entrevistava o subprefeito de uma localidade e cobrava medidas quanto a infestação de ratos no local.
- ...é um rato maior que o outro! Dá até pra fazer coleção de ratos! A subprefeitura tem um trabalho de acabar com esses insetos lá naquela região?

Novo corte de carne

Durante o anúncio das promoções do dia de um supermercado, um radialista do interior do Rio Grande do Sul, sem querer, criou um nome criativo para um corte de carne. Ele deveria anunciar a chuleta suína, em promoção. Acabou misturando as duas palavras.

‒ Hora certa no giro da notícia para Super Feliz. Hoje tem a chulina... (pausa) A chuleta suína...

Vivo ou morto?

Durante a transmissão de um campeonato de futebol infantil que acontece anualmente em Alegrete, na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, o narrador era o meu amigo Toninho de Lima e, nos estúdios, fazendo o plantão, o radialista local Everaldo Balejos. Primeiro dia de transmissão e o narrador faz toda aquela abertura poética. Anuncia um por um dos integrantes da equipe, até que chega ao plantonista.
- E no nosso plantão esportivo Everaldo Balejos! Boa Noite Everaldo.
Ele responde.
- Boa noite a toda a equipe da Minuano FM. Quero mandar um grande abraço para o saudoso Toninho de Lima, nosso narrador...

E por aí vai...

Lista para chá-de-panela



A despedida de solteira da noiva geralmente é comemorada pela amigas com o já tradicional chá-de-panela. Alia-se assim o útil ao agradável, pois, junto ao bate-papo informal, veem-se os presentes que completarão a cozinha do futuro casal.



Abridor de latas
Abridor de garrafas
Avental
Saca-rolhas
Balde de plástico
Bacia de plástico
(vários tamanhos)
Espremedor de frutas
Conjunto de condimentos
Carretilha de pastel
Coadores de papel
Coador de leite
Coador de suco
Cortador de legumes
Cuida-leite
Desentupidor de pia
Escorregador de arroz
Forma de pudim
Jarra para água
Pegadores de panela
Peneiras
Tábua de carne
Conjunto de concha e escumadeira
Espremedor de batatas
Conjunto de latas
Cesta de lixo
Suporte para os coadores
Colheres de pau (vários tamanhos)
Esteirinhas para mesa
Forma de bolo
Ralador de queijo
Ralo para pia



Medidor de ingredientes
Jarra de leite
Paliteiro
Garrafa térmica
Tábua de pão
Rolo de massa
Quebra-nozes
Tabuleiro
(pequeno – médio – grande)
Tampas para garrafas
Panos de prato
Porta-guardanapos
Formas de gelo
Tesoura
Biscoiteiras
Lixeirinha de pia
Pregador de roupa
Escorredor de louça
Funil
Faca de pão
Pegador de macarrão
Descaroçador de azeitonas
Sacos de lixo
Galheteiro
Cesta de pão
Esponjas
Tesoura para costura
Descansos para copos
Pá de lixo
Bandeja
Batedor de bife
Descascador de legumes

Anatole France e os jovens


Anatole France recebia de vez em quando poetas e romancistas principiantes, cheios de sonhos de glória. O mestre os recebia com benevolência, obedecendo àquela sua teoria: “nunca se dá tanto, como quando se dá esperança”.

- Mestre – perguntou, um dia, um ingênuo novato – leu meus versos que lhe mandei?

- De certo; li-os com enorme prazer.

- Será possível que eu tenha merecido tanto? – indaga o vate que não pôde crer em semelhante ventura.

- Quer uma prova? – continua France. Imperturbável. Vou até indicar a mais bela página do seu livro: a 84, não foi aquela poesia que você pôs o melhor de sua alma?

- Oh, mestre, não sei como agradecer tanta bondade – murmura o rapaz inebriado. – Sim, foi realmente naquela página que eu encerrei o meu mais belo poema.

E parte com o coração em festa. Então, alguém que assistia à entrevista, observa ao autor de “Thaís”:

- Você não pode ter lido o tal livro; li-o eu e não vale nada!

- Confesso a minha mentira – concorda sorrindo Anatole France – nem abri o tal volume.

- E por que disse que a página 84 era a melhor?

- Ora, meu ingênuo amigo! Eu podia ter citado qualquer outra folha: um poeta acha sempre que qualquer um de seus versos é o melhor de todos...

 - E se estivesse em branco a tal 84?

- Isto seria lamentável – diz gravemente o mestre. Mas quando se disfarça a verdade com benevolência é preciso contar com a piedosa cumplicidade do céu...


(Do Almanaque do Correio da manhã de 1941)



Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (16 de abril de 1844 em Paris - 12 de outubro de 1924 em Saint-Cyr-sur-Loire) foi um escritor francês. Seus livros apresentam um tom céptico. Publicou romances e contos que obtiveram grande sucesso, onde se revela possuidor de uma arte requintada e sutil. Seu primeiro grande êxito foi O Crime de Silvestre Bonnard, premiado pela Academia francesa. Outras obras são: Thais, O Lírio Vermelho, O poço de Santa Clara, A revolta dos anjos, etc. Tendo sido primeiramente bibliotecário do Senado, foi eleito para a Academia Francesa em 23 de janeiro de 1896, para a poltrona 38, onde ele sucede Ferdinand de Lesseps. Foi recebido na Academia Francesa em 24 de dezembro de 1896.

Anatole France apoiou a Émile Zola no caso Dreyfus; ao dia seguinte da publicação do "J'accuse", assinou a petição que pedia a revisão do processo. Devolveu sua Legião de Honra quando foi retirada a de Zola. Participou na fundação da Liga dos Direitos do Homem. Foi laureado em 1921 com o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.






Curiosidades matemáticas e latinas



- Escolha um número?
- Pronto: 32.
- Não pedi que o dissesse, mas já que o fez guardemô-lo para a nossa experiência. Triplique o número.
- Pronto: 96.
- Tome agora a metade deste produto.
- A metade de 96 é 48.
- Muito bem! Multiplique 48 igualmente por 3.
- Pronto: 144.
- Poderá de cabeça, ou fazendo a divisão, dizer quantas vezes o 9 está contido em 144?
- Pronto: 16 vezes.
- Duplique o número 16.
- Pronto: 32.
- Eis o número designado.

Em resumo, tem-se o seguinte:

1° - Triplicar o número pensado;

2° - Tomar a metade do produto da multiplicação;

3° - Multiplicar esse produto por 3;

4° - Dividir o resultado por 9, e o número achado neste momento, se tivéssemos feito tudo em surdina, não teria eu, para achá-lo, senão mandar duplicá-lo.

Há duas pequenas observações que não fizemos. Quando se tomou a metade do produto da primeira multiplicação por 3, se eu não conhecesse o número escolhido, teria que perguntar se o resultado era impar. Nesse caso, ter-se-á que juntar 1, para evitar frações. Não se deve esquecer este detalhe.

Quando, por acaso, na última triplicação e divisão por 9, aquele que escolheu o número disser que não encontra nem uma vez o número 9 no resultado, o número pensado foi 1.


Curiosidades latinas

Ana, nas (ananás) - Em latim: Ó Ana, tu nadas?

Uvas Atenas portas? (Uvas até nas portas) - Em latim: Levas uvas para Atenas?

Maria, an tu nes? (Maria Antunes) - Em latim: Maria, por acaso tu fias?

Pande locum vino. (Pão de ló com vinho) - Em latim: Guarda lugar para o vinho.

Cor, quo vado? (Corcovado) - Em latim: Coração, para onde vou?

Maria, tu comes cara, quo is? (Maria tu comes caracóis?) - Em latim: Maria, querida companheira, para onde vais?

Tua neta, Maria, rosa. (Tua neta Maria Rosa) - Em latim: Ó Maria, teus tecidos estão rotos.

No vi horas. (Nove horas) - Em latim: Nado com força para as praias.


Dois tiras da pesada



Detetive Milton Le Cocq de Oliveira

Le Cocq estava para Perpétuo assim como Cara de Cavalo estava para Mineirinho - os quatro mobilizaram o imaginário da época. Mitificados pela polícia, amplificados pela imprensa e admirados nos morros, eles disputaram entre si o papel de mito. Os quatro morreram em “combate”, comovendo a cidade.


À esquerda, Perpétuo prendendo dois marginais

Perpétuo era um caçador; Le Cocq, um matador. “Perpétuo prendeu bandido sem dar um tiro”, dizia o repórter Octávio Ribeiro. Trabalhava com informantes, os "cachorrinhos". Com Le Cocq era diferente. “Chegava com a turma, cercava o barraco e se houvesse a mínima resistência, ia atirando.” Segundo Octávio, Perpétuo foi “um dos primeiros policiais a reconhecer o poder da imprensa”.

Milton Le Cocq de Oliveira, por suas ações e ensinamentos, ficou na memória da polícia carioca como paradigma. Em sua homenagem foi criada a Scuderie Le Cocq, tendo como símbolo uma caveira com duas tíbias e entre seus sócios os remanescentes dos Homens de Ouro, muitos dos quais ocupando até hoje cargos importantes na polícia carioca.


O detetive tinha estratégia e pedagogia próprias. Ao contrário de seu rival, detestava publicidade. Mas os dois supunham-se heróis ao enfrentar o crime. Sem recursos técnicos, procuravam sobrepujar com astúcia o adversário. Dos dois restaram mais lendas que biografias.

Uma das lendas sobre Perpétuo conta que fazia muito calor quando ele resolveu subir o morro da Mangueira para rever os amigos e tomar umas cervejas, como fazia sempre. Além dos amigos, ele tinha ali muitos informantes. Estava numa tendinha conversando quando apareceu Silvino Celestino.

- Quem é o tal de Perpétuo aí?

Quem estava engolindo a bebida engasgou; quem tinha o copo na mão tremeu; o dono da birosca congelou o gesto de limpar o balcão. Só Perpétuo permaneceu calmo. Deu um passo à frente e se apresentou:

- Tá falando com ele.

- Então vai logo rezando, Índio, que você vai morrer.

E Silvino deu um passo para trás, saindo de costas do bar, com a arma na mão, chamando seu alvo para fora. Dizem que Perpétuo deu uma risada e seguiu o bandido. Silvino apontou a arma e deu dois tiros, algumas testemunhas contaram três. Nenhum pegou. Silvino não acreditava no que via, ficou paralisado: Perpétuo se aproximando dele, tomando-lhe a arma, prendendo-o. A notícia primeiro se espalhou pelo morro, de boca em boca: o detetive Perpétuo Freitas tinha o corpo fechado.

Mas para conquistar a cidade era preciso mais do que uma lenda, e o momento histórico do detetive veio em 1950, quando prendeu sem dar um tiro o lendário Mauro Guerra, que estava aterrorizando a população.

Perpétuo se preocupava com a imagem. Quase sempre de terno de linho branco, moreno como um índio, alto e forte, ele costumava subir os morros disfarçado: às vezes era um simples favelado, sujo e malvestido; às vezes, um bandido, com um baralho no bolso da calça e um cigarro de maconha na orelha. Foi quando conversava com um personagem assim, que ele pensava ser um favelado, que Mauro Guerra recebeu ordem de prisão.


Perpétuo descendo o morro com mais um marginal preso

Quatro anos antes, em 1946, Perpétuo já tinha prendido Zé Navalhada, Sombra e Bate-Papo, este último um perigoso assaltante que, ao esticar a mão para cumprimentar quem julgava ser um comparsa, teve o pulso grampeado por uma algema do detetive.

Na sua folha corrida ficaram registradas apenas duas mortes, apesar de sua reputação de bom atirador. A de Bidá e a de Fogueirinha. Bidá, que costumava enfrentar a polícia à bala, tentou puxar o revólver ao receber voz de prisão do detetive. Caiu morto na porta de um barraco no morro do Querosene. Fogueirinha teve o mesmo fim em situação idêntica. Não conseguiu puxar o gatilho.

Perpétuo realizou proezas em quase todos os morros do Rio. No Tuiuti, prendeu Passo Errado, em 54, e Bocage, em 55. Muitos anos antes, em 49, já havia agarrado Zé Pretinho. Charuto, muito perigoso, entregou-se chorando no morro dos Macacos. No morro de Santo Antônio, em 57, foi a vez do terror Montanha. Perpétuo desmontou-o sem dar um tiro. João Cotu, também com fama de valente, levou um susto quando viu Perpétuo sair de trás de um poste. Não ofereceu resistência.


Le Cocq andava de lambreta. Deixava-a ao pé do morro e fazia a escalada carregando uma arma e um binóculo. Passava horas na espreita. “Nunca se deve arrombar uma porta de barraco deixando o peito à mostra”, dizia, e essas obviedades ficaram como ensinamentos e exemplos de sabedoria policial. “Deve-se deitar e dar um pontapé na porta. Também é bom mandar o bandido acender a luz e sair com as mãos na cabeça”, era outra lição. O primarismo tático pressupunha evidentemente métodos ingênuos do adversário.


O bandido Cara de Cavalo

Le Cocq começou a morrer no dia em que um bicheiro o procurou para pedir providências contra Cara de Cavalo. Ele reclamava de extorsão exagerada. A cena parecia moderna: um contraventor se dirigia a um policial para denunciar um bandido por se apoderar de uma parte dos lucros de seus negócios clandestinos.

Le Cocq resolveu agir logo e armou o cerco. Não foi difícil. A hora de trabalho do bandido, os pontos de bicho que frequentava, enfim, seus hábitos diários eram conhecidos. Afinal, ele era um bandido burocrático. Na noite de 27 de agosto de1964, Lair estava recebendo a féria quando percebeu a armadilha. Voltou correndo para o táxi de placa 40-17-94 e fugiram em disparada.

Nesse dia, Le Cocq não estava de lambreta, mas de carro, em companhia dos parceiros Jacaré e Cartola e de um jovem policial em começo de carreira, Hélio Vígio, todos da Delegacia de Vigilância e Capturas. A perseguição foi rápida. Embora o fusca fosse de Vígio, quem dirigia era Cartola. Na esquinada rua Emilia Sampaio com Teodoro da Silva, em Vila Isabel, o carro de Le Cocq conseguiu fechar o táxi. Houve um rápido tiroteio. Le Cocq tombou morto com um tiro da Colt 45 de Cara de Cavalo.

Esse tiro atingiu também o amor-próprio da corporação. O mocinho perdeu o duelo para um bandido pé-de-chinelo. Uma morte sem glória. Na verdade, Milton Le Cocq de Oliveira, o Gringo, aclamado como paradigma e mito da polícia carioca, merecia uma morte mais digna. Ele não tombou cumprindo um mandado judicial, nem uma ordem policial. Sua última missão foi um mandado do jogo do bicho.

Ao matar o lendário detetive, Cara de Cavalo decretou sua sentença de morte. Em poucos minutos, deixou de ser um reles explorador de mulheres e achacador de bicheiros, feio e pobre, com a cara que lhe deu o merecido apelido, para se transformar num formidável bandido.

Todos os companheiros de Le Cocq nesse dia se lembraram da lição do mestre: “O bandido que atira num policial não deve viver”.

A perseguição a Cara de Cavalo foi uma das maiores caçadas que o Rio conheceu. Cerca de 2 mil homens de todas as delegacias e divisões da Secretaria de Segurança foram mobilizados para a operação, comandada pelo delegado Sérgio Rodrigues. Quatro estados participaram da perseguição. A polícia ficou desorientada. A sede de vingança lhe tirou o faro. Houve mortes de pessoas parecidas com Cara de Cavalo, houve brigas entre policiais, muita disputa e rivalidade.

Foi durante essa caçada que Perpétuo morreu, também deforma inglória. Ele achava que ia prender Cara de Cavalo vivo. Desentendeu-se com um jovem colega, Jorge Galante Gomes, esbofeteou-o e recebeu um tiro nas costas. A cruzada em busca do bandido se explicava pelo desejo de vendeta de uma classe ofendida. Mas também porque havia um grande prêmio em dinheiro pela cabeça de Cara de Cavalo.

Um mês e sete dias depois, Cara de Cavalo foi apanhado nos arredores de Cabo Frio, na estrada para o balneário de Búzios. Vestia uma calça e uma camisa furrecas e arrastava uma sandália japonesa. Sem carro, que ele nunca teve, sem dinheiro para uma longa corrida de táxi, o criminoso mais procurado do país pegou um ônibus em Caxias até o Rio e daí um trem até Cabo Frio.

Eram quatro e meia da madrugada de 3 de outubro de 1964, quando a turma da pesada - Sivuca, Euclides Nascimento, Guaíba, Luiz Mariano, Cartola, Jacaré, Hélio Vígio, entre outros - atacou o esconderijo.

“Fui eu que matei ele”, garante Luiz Mariano trinta anos depois. Ele é o titular da delegacia de Vila Isabel, próximo de onde Le Cocq morreu, e presidente da Scuderie Le Cocq. “Na hora que Cara de Cavalo se levantou”, recorda Mariano, “eu dei a rajada que arrancou o dedo dele fora. Ele caiu com a mão pra cima”.

Junto com os policiais estava Nílton Luís, filho do dono da casa. Preso na semana anterior por tráfico de maconha, ele foi, segundo a polícia de Cabo Frio, quem conduziu os assassinos ao esconderijo do marginal.

Em seu depoimento, o delegado Sérgio Rodrigues disse que teria proposto por duas vezes que Cara de Cavalo se rendesse. Só depois da negativa, iniciara a fuzilaria. Quatro jornalistas que, a convite, acompanharam a execução, confirmaram a versão. Evanilda, a filha do dono da casa, e Nisa, a amante de Cara de Cavalo, desmentiram. Elas, que haviam assistido à execução, afirmaram ao delegado Jorge Breta, de Cabo Frio, que o bandido morreu sem reagir. “Ele ainda chegou a se levantar”, disse Evanilda, “mas logo caiu no chão sem alcançar a arma que deixara sobre um móvel.”

Segundo o laudo pericial, dos cem tiros disparados contra Cara de Cavalo, 52 atingiram seu corpo, 25 se alojando na região do estômago.

Outro participante da operação - o delegado Sivuca, que seria eleito deputado estadual com a plataforma “Bandido bom é bandido morto” - contaria mais tarde com prazer: “Então todo mundo atirou no bandido. Mais de cem tiros. O umbigo do cara ficou colado na parede”.



Do livro “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura – Companhia das Letras


Zuenir Carlos Ventura (Além Paraíba, 1° de junho de 1931) é um jornalista e escritor brasileiro. É colunista do jornal O Globo. Ganhou o Prêmio Jabuti em 1995, na categoria reportagem, pelo livro Cidade Partida. Seu livro 1968: o Ano que Não Terminou serviu de inspiração para a minissérie Anos Rebeldes, produzida pela Rede Globo.