quinta-feira, 31 de março de 2016

A crise de 1929 e a roupa de Noel



Noel Rosa* dizia para o grande público que seu primeiro sucesso, o samba “Com que roupa?”, surgira quando sua mãe, preocupada com seu estado de saúde agravado aos olhos vistos pela boemia diária, escondera toda sua roupa para que ele não saísse mais de casa. Segundo o próprio Noel, ele havia combinado com alguns amigos que viessem buscá-lo para uma festa. “Os amigos não faltaram”, contou. “À noite, batiam lá em casa: “Como é, Noel, vamos para o baile?” E eu, dentro do quarto: “Mas com que roupa?” Mal eu tinha acabado de soltar a frase, quando me ocorreu a inspiração de fazer um samba com esse tema...”

A difusão do samba pelo Rio de Janeiro – e por todo o país – fez com que o estribilho “Com que roupa?” virasse designativo de falta de dinheiro.

Para os íntimos, Noel contava também que os versos retratavam metaforicamente um país pobre, com fome e miséria, contexto certamente agravado pela quebra da Bolsa de Nova York. O Brasil era extremamente dependente do mercado internacional, e seu principal produto, o café, responsável por 71% das exportações, deixou de ser vendido para o exterior. A crise de 1929 acarretou, praticamente no mundo inteiro, um nível de desemprego, miséria e fome nunca antes visto no sistema capitalista e que ficou conhecido como a Grande Depressão Econômica.


(Do “Almanaque do Samba”, de André Diniz – Jorge Zahar Editor)

*Noel Rosa: 1910 - 1937
Com Que Roupa?

Noel Rosa

Agora vou mudar minha conduta,
Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar.
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar.

Pois esta vida não tá sopa
E eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou,
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Agora, eu não ando mais fagueiro,
Pois o dinheiro não é fácil de ganhar.
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro,
Não consigo ter nem pra gastar.

Eu já corri de vento em popa,
Mas agora com que roupa?
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou,
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou.

Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo,
Eu vou acabar ficando nu.

Meu terno já virou estopa
E eu nem sei mais com que roupa,
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou,
Com que roupa que eu vou?
Pro samba que você me convidou.


A viagem de Vasco da Gama




Os navios que constituíam a frota de Vasco da Gama – São Gabriel, São Rafael, Berrio e São Miguel – estavam prontos para a viagem maravilhosa que permitiria encontrar o caminho para a Índia.

A beira do rio, enorme multidão aguardava, naquela luminosa manhã de julho de 1497, a hora da partida. Soou o sinal, e logo os marinheiros, cheios de fé e entusiasmo, levantaram ferro e içaram as velas.

Passado o Equador, os navegantes portugueses tudo observam: “trovoadas temerosas, negros chuveiros, noites tenebrosas”, o Fogo de Santelmo e Tromba marítima. Chegam a Sofala, Moçambique, Mombaça e Melinde. Guiados por hábil piloto mouro, Vasco da Gama e sua gente navegam direto a Calicut (Calcutá). Por erro do piloto, a frota surge diante de Capocate, pequeno porto situado duas léguas ao sul da cidade que procuram. Aparecem muitos e ligeiros barcos da terra, e logo o engano se torna evidente.

Após a viagem de dez meses e duas semanas, Vasco da Gama chega a Calicut, na Índia, e o Samori recebe-o no palácio. O Rei está em uma camilha coberta de pano de seda e ouro; na cabeça traz em uma espécie de mitra de brocado e cheia de pérolas e pedraria. Um velho, ajoelhado, de quando em quando lhe serve o betel, folha de “erva ardente”, que ele masca e lhe torna a saliva cor de sangue, saliva que um grande cuspidor dourado recolhe sem impedimento de pragmática.

Decorridos dois anos de viagem, a armada regressa a Lisboa, com as tripulações reduzidas por doenças várias: de 170 homens que partiram da praia do Restelo, em julho de 1497, apenas 55 voltam para narrar as suas aventuras através de mares e terras desconhecidos.

A ciência e a audácia dos Portugueses realiza o mais grandioso cometimento dos tempos modernos!


(Do Almanaque do Diário de Notícias – 1956)



quarta-feira, 30 de março de 2016

Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes


Procissão fluvial


A devoção à Nossa Senhora dos Navegantes teve início no século XV, com a navegação dos europeus, especialmente dos portugueses. As pessoas que viajavam pelo mar pediam proteção à Nossa Senhora para retornarem aos seus lares. Maria era vista como protetora das tempestades e demais perigos que o mar oferecia. Num período em que a tecnologia era bastante limitada, as viagens marítimas eram vistas como uma perigosa aventura, o que justificava a fé e devoção dos viajantes.

Em Porto Alegre, a igreja de devoção a Nossa Senhora dos Navegantes encontra-se no bairro Navegantes, zona norte da cidade. O Navegantes é um dos bairros mais antigos de Porto Alegre. Sua origem está ligada ao percurso realizado entre às regiões de colonização alemã (São Leopoldo, Novo Hamburgo) e a região central da capital. Em 1875 foi transferida para o bairro a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes que se encontrava na igreja do Menino Deus. A partir deste período iniciasse a tradição de procissões em homenagem a santa, realizadas aqui em nossa cidade sempre nos dia dois de fevereiro.

A festa de Nossa Senhora dos Navegantes é a maior festa religiosa de Porto Alegre e a terceira maior do Brasil. No dia dois de fevereiro, além de se homenagear Nossa Senhora dos Navegantes também são feitas homenagens a Iemanjá, sua correspondente nas religiões afro-brasileiras. Neste ano (2016) a festa foi ainda mais especial, já que se estava comemorando os 141 anos de procissão.

A relação entre a Cia Carris e o bairro Navegantes vêm de muito tempo, desde de 1875 a Procissão acontece para o então arrabalde Navegantes. Anterior ao início desta tradição, em 1873, a Cia. Carris passou a fornecer transporte para esta região. No início eram os bondes à tração animal, depois vieram os bondes elétricos. O bonde Navegantes (foto abaixo), com certeza, foi bastante utilizado no passado como meio de transporte para alguns devotos da santa que vinham até o bairro participar da festa de dois de fevereiro.



A Chácara do Finado Tristeza



Estação Férrea da Tristeza - 1902

Tristeza não seria denominação escolhida por um especialista em marketing, para vender terrenos, casas ou sítios de lazer. Mas o subúrbio porto-alegrense que adotou esse nome há século e meio, longe de ser aborrecido ou melancólico, sempre foi bairro inclinado à alegria e à recreação.

Depois de um passado agrícola como produtor de frutas e hortigranjeiros, veio a ser a primeira estação de veraneio dos porto-alegrenses ricos, que ali mantinham chácaras e mansões de lazer à margem do Guaíba. Foi o tempo em que os trenzinhos da Estada de Ferro do Riacho – uma ferrovia municipal que durou até a década de 1930 – faziam seis viagens por dia até o subúrbio, obrigando-se a nove viagens nos domingos, para atender à demanda dos excursionistas dominicais. Depois disso, sem trens mas servida por ônibus, a estação de veraneio se fez bairro, cresceu e multiplicou-se, ganhou clubes náuticos, bares, restaurantes, colégios, comércio forte. Mas nunca perdeu o rótulo de Tristeza, desafio e enigma para os que não sejam familiarizados com a crônica da cidade e de seus arrabaldes.


Estação da Estrada de Ferro do Riacho

A origem desse nome singular foi bem estudada pelo historiador Ruben Neis, que identificou perfeitamente no português José da Silva Guimarães Tristeza a origem do topônimo. Personagem e caso muito antigos, da virada do século 18 para 19.

Talvez porque tivesse perdido, recém-nascidos, seus dois filhos mais velhos, José da Silva Guimarães, ao batizar sua terceira filha, Senhorinha, registrou-a com o sobrenome fantasioso de Tristeza, que desde então incorporou ao nome de seus filhos e ao seu próprio. Para completar sua má sorte, José faleceu em 1826, aos 42 anos, fulminado por um raio, deixando quatro filhos na orfandade. E nunca mais deixou de ser referido por seus vizinhos e descendentes como o “finado Tristeza”, cuja grande chácara tinha sede precisamente na atual “Vila Conceição”, parcela expressiva do bairro.

Na planta de uma mediação judicial de 1833, de que possuímos cópia, na área da atual Tristeza são mencionadas apenas duas casas, ambas na proximidade da Ponta dos Cachimbos: a morada de Bernardino José Sanhudo e a “casa de moradia do falecido Tristeza”.


Sérgio da Costa Franco – “A Velha Porto Alegre” – Edigal


terça-feira, 29 de março de 2016

Erros que divertem




Exemplos recolhidos pelo professor francês Jean Charles num delicioso livrinho, e que são “genialidades” de alunos dos cursos secundários:

→ Os romanos apreciavam muitos combates de radiatores e construíram inúmeras estradas calçadas de lajes, principal das quais foi a Via Láctea.

→ Carlos Magno declarou guerra aos Avaros porque odiava a avareza.

→ Napoleão conseguiu fugir da ilha de Elba disfarçado de águia e encerrou sua vida no oceano Atlântico, expirando nos braço de Santa Helena.

→ Lincoln nasceu numa casinha de madeira por ele construída.

→ A diferença entre um rei e um presidente da república consiste em que um rei é filho de seu pai e o presidente não.

→ Em 1875 só os homens votavam. Hoje, para ser eleitor, é preciso pertencer aos dois sexos.

→ A Itália teve sua população dobrada graças ao esforço pessoal de Mussolini.

→ A Terra gira ao redor do Sol durante o dia e ao redor da Lua durante a noite.

→ Os vinhos italianos são ótimos , princiupalmente o Chianti, o Asti e Agatha-Christie.

→ As cançonetas napolitanas foram escritas por Napoleão.

→ No Pólo Norte os exploradores sentem tanto frio, que para lavarem as mãos, calçam as luvas.

→ O ferro é um metal utilíssimo: por exemplo ferro de passar,

→ O viúvo e o marido da viúva.

→ A vaca é um mamífero cujas pernas chegam até o solo.

→ O judeus mais célebre era Moisés. Ele recebeu os catálogos em cima do Monte Sinai.

→ Os profetas moravam na Profecia, um país pequeno porém corajoso.

→ A Grã-Betranha tem duas Câmaras, a Câmara dos Lordes e dos Milordes.

→ Na Grã-Betrenah o clima e as águas são úmidos.

→ Inseminação artificial é quando o veterinário toma o lugar do touro.



segunda-feira, 28 de março de 2016

Dois valentes

Januário de Freitas Simões Pires


Depois de muito tempo sem se verem, os velhos amigos, que uma diferença apartara, encontraram-se na divisa do campo.
– Bueno, compadre, que tal le vai?
– Bem, gracias, e por lá como vão? A comadre, o afilhado...
– Vão indo como Deus quer e manda.

De um lado, o coronel Severo, gaúcho de têmpera, veterano da revolução de 93, tipo austero, era a figura típica dos patriarcas de antanho. Conservara hábitos e costumes dos seus antepassados, os primeiros povoadores do Rincão, e os cultivava com orgulho e certa sobranceria. Herdeiro de glórias farroupilhas, era respeitado e acatado pelos vizinhos. Embora já idoso, não falhava campereada e era, com firmeza, quem metia o cavalo no rodeio para apartar o novilhada gorda para a charqueada. Nas horas de lazer, principalmente no inverno, quando o minuano guasqueava as coxilhas com seu frio cortante, ele ficava no galpão, tomando chimarrão e emendando algum laço rebentado ou fazendo botões e corredores de tento fino.

Tinha especial habilidade nesse mister, para o que usava sempre, na cintura, uma afiada faquinha de cabo de prata. Pendurava a lonca de couro no esteio do galpão, corria a faca, e o tento saía parelho. Inclinava a mão mais para um lado, e desquinava o tento que ficava assim, pronto para costurar os aperos.

Sua estância era grande e com poucas divisas. O gado andava às soltas, pelos altos e baixados, pela costa do Ibicuí, ora procurando sombras e pastagens, ora nos paradores, fugindo da mutuca. A lotação do campo vinha aumentando e como este estava com uma divisa ainda aberta, o gado da vizinhança ajudava aumentá-la. O pasto vinha escasseando e o rebanho estava fraco.

– Se o inverno vier rigoroso – dizia o coronel – o tendal vai ser grande. Inda mais com essa maldita afetosa...

Resolveu, por isso, correr o aramado na divisa com o Compadre. Assim pensando, entrou em entendimento com o vizinho, mas não chegaram a um acordo.

Achava o coronel que a divisa devia partir da Sanga da Areia, vindo morrer no Capão do Angico. O outro contrariava, julgando-se prejudicado. Insistia o Coronel Severo, com sua autoridade nunca contestada.

Sempre ouvira dizer por seu pai que a divisa era por ali. Até alcançara os marcos de pedra que depois desapareceram.

As relações de ambos foram ficando estremecidas. Cessaram as visitas domingueiras. Nem o afilhado ia mais pedir a bênção ao padrinho. Com receio de se encontrarem, deixaram de assistir à carreira do zaino do Major Machado com o baio do Alegrete.
– Não quero brigar com meu compadre – dizia o Coronel. – Mas ele não tem razão. Não passa de um teimoso e arreliento.

O compadre, por sua vez, dizia:
– Não abro mão dos meus “direitos”. Respeito muito o Coronel; a comadre é uma santa e Quinca é como se fosse meu filho... Mas razão é razão...

Os vizinhos ouviam os pontos de vista de ambos e ficavam contrafeitos. Não queriam tomar partido, e diziam uns:
– Aquela coisa ainda vai dar em “porquera”.
– Ambos são opiniáticos, brabos e teimosos, acrescentavam outros.

O compadre andava sorumbático. Falava sozinho... Montava a cavalo e saía a esmo pelo campo, sem olhar o gado no rodeio nem dava atenção às vacas paridas e não enxergava as bicheiras nos terneiros. Monologava a meia voz... Ia ao tranquito do matungo, com o seu inseparável relho de cabo de pitangueira, duro e pesado como ferro. De vez em quando, levantava-o no ar, como se ameaçasse um inimigo invisível.

Diante dessa situação tensa, o Major Machado, também veterano de 93 e amigo comum de ambos, resolveu intervir na questão, como mediador.
– Que diabo – dizia – isto tem de terminar. Essa divergência pode separar duas antigas famílias do Rincão.

O Coronel Severo ouviu as indiretas do amigo e cortou a conversa abruptamente. Nunca tinha recuado. Não era covarde. Brigara no combate de Inhanduí até o anoitecer, sem ceder um palmo de terra ao inimigo. Não era, agora, depois de velho, que iria arrepiar carreira.

O outro também se mostrou irredutível. O Major Machado não se deu por vencido. Devagarito, foi convencendo um e depois o outro, que acabaram por aceitar a arbitragem.

O amigo marcou a divisa, com plenos poderes de ambos, que lá não apareceram. Cada um mandou buscar, no Alegrete, a parte que lhe cabia na meação.

O aramado foi feito. Moirões de guajuvira e tramas de angico. Sete fios de arame Gorgon, daqueles que não vem mais. Trabalho bem feito, pois ainda havia bons alambradores. O arame esticado como corda de viola, zunia quando soprava o vento norte.

Os ânimos se acalmaram. Não se falou mais no assunto. Mas, aquela velha e tradicional amizade, não voltou a ser o que dantes era. Cada uma na sua fazenda, sem querer ser o primeiro a dar o braço a torcer.

De uma feita, quando ambos recorriam os seus campos, o acaso fez com que se encontrassem um de cada lado da divisa litigiosa.
– Buenas, compadre, que tal te vai?
– Bem, gracias, e por lá como vão? A comadre, o afilhado...
– Vão indo como Deus quer e manda...

Contrafeitos, conversaram pouco sobre assuntos banais. Falaram na seca que já estava forte... No tempo firme... Na peste que já estava pintando... E, conversa vai, conversa vem, olharam para o aramado e, sem querer, falaram no trabalho dos alambradores... Aos poucos o assunto veio descambando para a divisa e... deu-se o inevitável.

Todos os pensamentos recalcados e ocultos naqueles cérebros bárbaros, toda a raiva concentrada, mas latente em seus espíritos, rebentaram subitamente como açude arrombado pela enchente e, aos borbotões, se concretizaram em remoques e ofensas recíprocas.

Montado em seu tordilho-negro, o Coronel Severo, de longo cavanhaque branco, era a figura do centauro dos pampas, vibrando na eclosão de sua bravura nunca desmentida. O compadre violento e agressivo, revidava e ofendia, gesticulando com braço, tendo na mão, o seu inseparável relho de cabo de pitangueira.

No aceso da discussão, simultaneamente, bolearam a perna dos cavalos e tentaram, ao mesmo tempo, transpor a cerca, para um corpo a corpo. Dirigiram-se para o mesmo vão de tramas e, como o arame estava bem esticado, ficaram ambos presos entre dois fios, inclinados, de frente um para o outro. O compadre, assim mesmo curvado para a frente e entre os dois fios com uma mão, pegou na barba do Coronel e, com a outra, levantou a pitangueira...

O Coronel Severo pressentindo quanto era séria a sua situação se recebesse o golpe, puxou da cintura a faquinha de prata, afiada como navalha e, levantou-a por baixo, encostou-a na barriga do compadre, incisivo e convincente, disse:
– Se tu baixar a pitangueira, eu te desço as tripas aqui mesmo!

E ficaram imóveis, tensos espreitando qualquer movimento partido do contendor. Um com o braço no ar, ameaçando o golpe. O outro, com a faca encostada no adversário.

Em segundos, avaliaram o desfecho trágico da luta... Por fim, o Compadre sentiu a inferioridade de sua situação, com a ponta da faca adversária a lhe beliscar o ventre. Afrouxou o braço e baixou o relho.

Cordato, manso, vencido, propôs:
 – Coronel, vamos dá por empate?

Desvencilhando-se do aramado, silenciosos, ambos montaram a cavalo, e seguiram rumos opostos, pela coxilha imensa, entrecruzadas pelos quero-queros inquietos e barulhentos.


(Do Almanaque do Correio do Povo – 1967)


(Reprodução de uma gravura de Berega)


domingo, 27 de março de 2016

Lembro-me, Senhor



Lembro-me, Senhor, do dia em que teus doze apóstolos, inspirados pelo Teu Espírito, convocaram a comunidade dos discípulos e disseram “Escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço”.

E desde então, os sete escolhidos, número perfeito, passaram a servir.

E pensar que me dás igual privilégio!

Mas porque a responsabilidade é tão grande quanto o privilégio, eu Te peço, Senhor:

quando o trabalho me parecer demasiado humilde, lembra-me o Teu vulto cingindo a toalha e lavando os pés dos próprios servidores:

quando estiver cansado que Te veja ao pé do poço de Jacó;

quando estiver sozinho, lembra-me o Getsêmani;

quando desanimado, o monte da Transfiguração;

quando incompreendido, a incredulidade de teus irmãos de Nazaré;

quando tentado com fome, com sede, solitário, lembra-me os teus 40 dias no deserto, entre feras, mas servido por anjos;

quando o peso do dever, das lutas ou do sofrimento se tornar demasiado, lembra-me o caminho do Gólgota, sob a cruz, fora das portas de Jerusalém.

Enfim, Senhor meu, em qualquer tempo, em toda parte, na alegria ou na tristeza, no prazer ou na dor, em repouso ou no trabalho, de dia ou de noite, até que eu volte para junto de Ti, enche-me do Teu Espírito para que eu tenha a sabedoria daqueles sete a princípio escolhidos para servirem Tua mesa.

Que eu não desanime nunca, pés ligeiros, mãos submissas, olhos nos céus, coração tranquilo descansando em Ti.


Texto do Exército da Salvação






Expressões idiomáticas brasileiras




Perder a cabeça = descontrolar-se.
Viver no mundo da lua = ser distraído.
Bater papo = conversar.
Tirar de letra = fazer alguma coisa com grande facilidade.
Custar os olhos da cara = ser muito caro.
Pisar em ovos = ser muito cuidadoso.
Andar com a pulga atrás da orelha = estar desconfiado.
Sem tirar nem pôr = igualzinho.
Ser um zero à esquerda = não ter nenhum valor.
Bater na mesma tecla = insistir na mesma coisa.
Não dizer coisa com coisa = falar sem nexo, sem sentido.
Dar um bolo = faltar a um compromisso.
Pôr no olho da rua = despedir, expulsar.
Pôr as cartas na mesa = esclarecer as opiniões e posições.
Dar o golpe do baú = casar-se com uma pessoa rica por interesse.
Tocar no ponto fraco = atingir a fraqueza de alguém.
Dar com a língua nos dentes = denunciar.
Dor de cotovelo = sofrimento por amor.
Ficar de papo pro ar = não fazer nada (ser preguiçoso).
Ficar de braços cruzados = não fazer nada (não resolver uma situação).
Bater com o nariz na porta = não encontrar a pessoa no local.
Entrar em fria = envolver-se em negócio desonesto ou muito complicado.
Saber na ponta da língua = saber perfeitamente.
Estar duro = não ter dinheiro.
Pôr tudo em pratos limpos = esclarecer uma situação.
Estar de fogo = estar bêbado.
Estar de ressaca = estar sentindo os efeitos de uma embriaguez.
Cara-de-pau = pessoa cínica.
Ficar de orelha em pé = está desconfiado, alerta.
Filho de peixe peixinho é = quando os atos praticados pelo filho são semelhantes aos do pai.
Não dar o braço a torcer = não ceder de modo algum.
Não ata nem desata = não se decide.
Ir por água abaixo = quando alguma coisa não dá certo.
Dar mole = facilitar uma situação.
Pôr a boca no trombone = contar pra todo mundo.
Rodar a baiana = fazer um escândalo.
Ficar de olho = olhar , observar.
Ficar na sua = não se intrometer em assuntos alheios.
Entrar pelo cano = quando uma pessoa não tem bons resultados em uma determinada situação.
Bater boca = discutir com alguém.
Armar o maior barraco = fazer um escândalo em uma discussão.
Ficar boiando = ficar sem entender.
Osso duro de roer = pessoa que é difícil de se convencer.
Olho gordo = inveja.
Fazer das tripas coração = fazer o possível e o impossível.
Pé frio = pessoa sem sorte.
Pé quente = pessoa com sorte.
Perna-de-pau = quem não sabe jogar bem o futebol.
Fazer uma vaquinha = Arrecadar dinheiro de um grupo de pessoas para um determinado fim.
Pegar o bonde andando = escutar uma conversa quando ela já está quase no fim, não escutá-la desde o início.
Estar de saco cheio = estar intolerante, não aguentar a mais uma situação
Farinha do mesmo saco = comparação entre duas ou mais pessoas de personalidade mesquinha.
Mão-de-vaca = pessoa que faz economia de suas coisas exageradamente.
Passar um aperto = passar por uma situação muito difícil.
Bater as botas = morrer.


Copa Davis em Porto Alegre – 1998



Quadra de tênis montada ao lado do Parcão*

Um dos eventos mais legais que participei em Porto Alegre, quando ainda nem morava nesta cidade, foi a Copa Davis de tênis, realizada no Parcão, em 1998, na etapa contra a Espanha.

Toda uma estrutura de quadra de tênis, arquibancada e estandes de diversos patrocinadores do evento foi montada, modificando a paisagem de quem circulava pela Avenida Goethe. Por ali, passaram os tenistas brasileiros Gustavo Kuerten, Jaime Oncins (lembram dele?), Fernando Meligeni, André Sá e Alexandre Simone. E os espanhóis Alex Corretja, Carlos Moya, Julian Alonso e Javier Sanchez.

A torcida brasileira compareceu em massa nos jogos, e o Brasil acabou perdendo por 3x2. Lembro que num dos jogos de duplas, a torcida chamava o Sanchez de “Arantxa”, em alusão à tenista espanhola Arantxa Sanchez, irmã do tenista, ironizando sua atuação e tentando desconcentrá-lo. Foi engraçado! Paulo Santana também se encontrava na plateia, e, num momento, também a torcida se pôs a chamá-lo, só ficando satisfeita quando ele abanou de volta. O Moinhos foi sede de uma competição de primeiro mundo, muito bem organizada e que deixou os amantes do tênis extasiados com o nível dos jogos e do evento. Foi emocionante e inesquecível!

(Ângela Dal Pos)



Guga e Oncins festejando um ponto

No primeiro dia da competição, numa sexta feira, Guga ganhou do espanhol Carlos Moya, e Fernando Meligeni perdeu para Alex Corretja. A competição estava um a um. No sábado, Guga e Jaime Oncins ganharam no jogo de duplas. Dois a um para o Brasil. No domingo, haveria as duas últimas partidas de simples e o Brasil estava por uma vitória. Acabou perdendo as duas partidas, Guga para Correja e Meligeni para Moya, sendo eliminado. Espanha 3 X Brasil 2.

*Gostaríamos de dar o devido crédito da autoria de tão bela foto aérea do Parcão com quadra de tênis onde foram realizados os jogos dessa Copa Davis.


Trovas do “Terno de Reis”



Instrumento de Terno de Reis - Tapes-RS – 1976


O Padre Mário Pedrotti, quando tinha suas funções religiosas em Torres, RS, reuniu o seguinte canto, como exemplo do “Terno de Reis” que foi cantado naquele município na noite de 6 de janeiro, dia dos Reis Magos. Começavam à meia-noite.

Logo que chegávamos à primeira das famílias escolhidas, parávamos diante da porta e o coro começava a cantar:

Com o nome de Deus começo
Pai, Filho, Espírito Santo,
Este é o primeiro verso
Que nesta casa eu canto.

À chegada dos Três Reis,
Momento de alegria,
Vimos trazer notícia
Do milagre que existia.

Em seguida, vinham mais cinco quadrinhas anunciando à família o acontecimento do Natal:

Aqui estamos nesta casa,
Na beira deste telhado,
Para vir te acordar
Deste sono descansado.

Quando levantares da cama,
Faze o sinal da cruz,
Que também nos acompanha
A graça de Jesus.

Chegamos nesta casa,
Neste jardim florido,
Vimos trazer notícia
Que Jesus é nascido.

Em vinte e cinco de dezembro
Que este milagre se deu,
Na gruta de Belém
Jesus Cristo nasceu.

Na gruta de Belém,
Nasceu o filho de Maria.
Deu à luz a criança
Antes de clarear o dia.

Nesse momento, o coro se aproximava mais da janela e levantava a voz:

Acorda se estás dormindo,
Escuta se estás acordado,
Manda-nos abrir a porta
Pelo mais nobre criado.

Depois dessa estrofe, o visitado devia abrir a porta e mandar a gente entrar. Depois de acomodados nas cadeiras, o canto prosseguia:

Porta aberta, luz acesa,
Sinal de muita alegria.
Vamos entrando nesta casa
Junto com a Virgem Maria.

Em seguida, o grupo pedia uma oferta que, normalmente, era cerveja ou vinho:

Cidadão, dono da casa,
Vimos vos visitar.
Vimos pedir vossa oferta,
Se vós tendes para nos dar.

Os Três Reis por serem santos
Saíram a caminhar,
Guiados por uma estrela,
Nesta casa vieram chegar.

Cidadão, dono da casa,
Vós queirais nos desculpar,
O senhor nos dê licença
Que nós queremos descansar.

Nessa altura, o coro parava e corria a cerveja. Todo mundo se cumprimentava desejando muitas felicidades para o novo ano. Depois, vinha o agradecimento, enquanto o grupo se retirava para uma nova visita.

Pela oferta que nos deste,
Ficamos muito agradecido.
Lá no céu haveis de achar
Uma cadeira de vidro.

Obrigado pela oferta,
Que nos destes de boa mente.
Os anjos do céu vos ajudem,
E os seus bens vos aumentem.

Agora vamos sair
De retirada de Belém.
Os Santos Reis se despedem
Até o ano que vem.

Cidadão, dono da casa,
Nos despedimos de vosso povo,
De todos da família
Desejando um feliz Ano Novo.

O senhor nos dai licença
Que nós queremos ir embora.
Fique com Deus em vossa casa,
E nós vamos com Nossa Senhora.

É pena, concluiu o padre Pedrotti, que este costume esteja morrendo, principalmente no interior. “O Terno de Reis” era sempre uma grande festa muito esperada e que era comentada depois por vários dias.


(Do Almanaque do Correio do Povo – 1971)



Três Xirus e Paixão Cortes na Ordem dos Músicos do Brasil,
RS, em 1973


*Parece que na cidade de Osório, RS, o Terno de Ris é ainda festejado, mais pelo aspecto folclórico do que religioso.



sábado, 26 de março de 2016

O cabo eleitoral


(Conto de Idalécio Vitter Moreira)*













Todo o dia, desalentados, confiando bigodes e sacudindo cabeças... os convencionais reiniciaram conversações. Não desatavam o nó, encroado. Em certos momentos, quando tudo parecia deslindar-se, alguns até abraçando-se, ensaiando um fato novo. Os articuladores, então, retomavam conversações entre os três candidatos... Ajustava um detalhe, desajustava outro; de acerto em desacerto as horas troteavam.

No salão grande, de festas – cuias, velhos arreios, chifres enormes e todo tipo de adereços à gaúcha, pelas paredes e teto – atravancados nos lábios, palheiros sem cessar queimando, catinguentos, estratégias sussurradas – em convenção escolhiam o candidato a prefeito.

Cabeça melenuda em pé, olhos melados, abelhudos, bombacha larga, dessas preguedas, botas lustradas, lenço-nó-de-festa abanando, Ramalho tossia disfarçando e... metia-se bem-sim-senhor nos pequenos grupos, esquecendo do “com permício” ou do “dá licença, companheirada”. Enfiava-se oferecido, dando palpites e, sem quase ouvir ponderações, caminhava para outro agrupamento. Sem tréguas, ia a um dos candidatos, abraçando-o espalhafatosamente, bigode penteado roçando a cara do pretendente, parecendo cochichar “sou dos seus”. Meia volta, olhos comprimidos, derretendo-se, enlaçava num gordo abraço o outro. Ia ao terceiro... Para todos tinha-se a impressão de lembrar que era “um dos seus”.

O dia inteiro, escorrido todo em discussões repetitivas, encurtava sem a decisão esperada. De impasse em impasse, as horas gotejavam como roupa molhada em varal, finando-se a tarde com o quadro inalterado. Às pretensões dos três candidatos, e seus correligionários, mantinham-se encalacrados. Ninguém cedia uma teta que fosse.

Ramalho, impertinente, persistia na teimosa romaria. De grupo em grupo. De candidato em candidato – estabanado, bigode cutucando a cara dos postulantes, fala cochichada, ares de cumplicidade e abraços de quem já pensa numa secretaria municipal, numa subprefeitura...

Distribuídos por três cantos do salão, os candidatos e seus cupinchas não faziam concessões. Apenas havia um bolo, e cada qual o queria inteiro!

O trabalho dos articuladores não esfriava – de canto para canto, de leva e traz, de arreglos, mas... nada. Às vezes alguém rompia a cadeia de cochichos: “solucionada a questão!” Cabeças voltavam-se em busca do anúncio, vozerio sumia... Porém, no rabo do eco, alguém recomendava: “Ainda não será para agora...”

Quase noite, quando o desenlace estava mais difícil que parto de terneiro atravessado, deu-se o ajuste conciliador: de um dos grupos sairia o candidato. Do outro, o vice. E do terceiro, algumas secretarias e subprefeituras estratégicas – caso o partido vencesse as eleições municipais!

Ramalho, sorriso de boca escancarada, faceirice de cusco lambendo os pés do dono, bigodes na cara do candidato, abandonou o local da convenção com o escolhido aos abraços, talvez a acentuando que era “um dos seus”.

*****

*Idalécio Vitter Moreira nasceu em Hulha Negra, à época distrito de Bagé, em 24-2-1945. Fez o curso de Técnico Agrícola na ETA-Viamão e, após, transferiu-se para Lagoa Vermelha, onde passou a atuar como professor nesta área. Licenciou-se em Língua Portuguesa e Literatura e passou a lecionar. Freqüentou - sem concluir - pós-graduação em Literatura Brasileira e também ministrou aulas de Sociologia, para o curso de Magistério. Idalécio Vitter Moreira: gaúcho, jornalista e professor. Faleceu em 2004. Deixou Fragmento (contos e crônicas), A quatro mãos, O Silêncio dos Homens e o inédito Os votos do Padre & Outras estórias. 


sexta-feira, 25 de março de 2016

Os Mandamentos do Thomas Jefferson*



01 → Não deixes para amanhã o que puderes fazer hoje.

02 → Não peças o auxílio de outrem no que puderes fazer só.

03 → Não compres objetos inúteis sob o pretexto de que são baratos.

04 → Não sejas vaidoso nem orgulhoso, pois o orgulho e a vaidade custam mais do que a fome e sede.

05 → Nunca te arrependerás de ter comido pouco.

06 → Não despendas o teu dinheiro antes de o teres ganho.

07 → Pratica de boa vontade todos os atos e nunca te cansarás.

08 → Não andes apreensivo, pois não sabemos o que o futuro nos reserva. As desgraças que mais tememos são, em geral, as que não se realizam.

09 → Considera todas as coisas sob um ponto de vista favorável.

10 → Quando estiveres contrariado, conta até dez, antes de proferir qualquer palavra; contarás até cem, se estiveres encolerizado.


(Do Almanaque do Correio do Povo – 1979)


*Thomas Jefferson (Shadwell, 13 de abril de 1743 – Charlottesville, 4 de julho de 1826), foi o terceiro presidente dos Estados Unidos (1801-1809), e o principal autor da declaração de independência (1776) daquele país. Jefferson foi um dos mais influentes Founding Fathers (os “Pais Fundadores” da nação), conhecido pela sua promoção dos ideais do republicanismo nos Estados Unidos. Visualizava o país como a força por trás de um grande “Império de Liberdade” que promoveria o republicanismo e poderia combater o imperialismo do Império Britânico

A morte de D. Pedro II



No dia 15 de novembro de 1889, D. Pedro de Alcântara estava em Petrópolis. Na véspera tivera notícias da demissão do Ministro Ouro Preto e sabia que havia movimento de tropas nas ruas do Rio de Janeiro. A princípio, o Imperador não se mostra muito abalado, tanto que dormiu até mais tarde, fora de seus hábitos, mas quando se cientificou de que na Corte uma rebelião estava em marcha, reuniu a família e, num trem especial, deixou Petrópolis, dirigindo-se ao Palácio do Rio de Janeiro. No próprio dia 15, resolveu convocar os demais Conselheiros, que foram ao Palácio discutir os acontecimentos com o Imperador, após o que várias demarches foram tentadas. Tudo sem resultado.

No dia seguinte, 16, por volta das 15 horas, com o Paço completamente cercado por forças de cavalaria, chegou o major-comandante da referida arma, Frederico Solon Sampaio Ribeiro, acompanhado de mais três oficiais subalternos pedindo para falar ao Imperador. Recebidos pelo monarca, o major Solon entregou-lhe uma carta assinada pelo marechal Deodoro. A mensagem tinha o seguinte teor:

“Os sentimentos democráticos da nação há muito preparados, havia agora despertado. Obedecendo, pois, às exigências do voto nacional, com todo o respeito à dignidade das funções públicas que acabais de exercer, somos forçados a notificar-vos que o Governo Provisório espera do vosso patriotismo o sacrifício de deixardes o território brasileiro com a vossa família no mais breve prazo possível”.

Era a expulsão do homem que havia governado o Brasil durante 35 longos anos.

Mais ou menos ao meio-dia de 17, o Imperador, seus familiares e alguns políticos embarcaram na lancha “Parnaíba”, que os conduziu até a bordo do paquete “Alagoas”, o qual, na noite de 17 para 18, iniciou viagem para Lisboa, levando para sempre de sua pátria a D. Pedro II, o Magnânimo.

Um mês depois morria na capital portuguesa a Imperatriz D. Tereza Cristina, evento que deixou D. Pedro profundamente chocado. Seguindo para Paris, hospedou-se num modesto hotel da Rua de La Árcade (tinha recusado a dotação de cinco mil contos que lhe havia destinado o Governo da República para as suas despesas) e, ali, dois anos depois, em 5 de dezembro de 1891, falecia, aos 66 anos de idade, cercado do apreço e da consideração das maiores figuras da época, na ciência, nas letras, nas artes, da Europa.

Seu corpo foi, primeiramente, transladado para o cemitério de São Vicente de Fora, em Lisboa. Porém, anos mais tarde, foi trazido, junto como da Imperatriz, para o Brasil, jazendo agora na catedral de Petrópolis.

Cumpriu-se, assim, a profecia do soneto famoso do Imperador poeta: A justiça de Deus na voz da história”.

(Amaro Júnior – Almanaque do Correio do Povo – 1979)

Dois sonetos de D. Pedro II


D. Pedro II no exílio

Ingratos

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem ‒ um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs ‒ outrora.

Terra do Brasil

Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
Ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!

Biografia resumida de D. Pedro II


D. Pedro II em retrato do pintor Delfim da Câmara, em 1875
  
→ Pedro de Alcântara João Carlos Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Gonzaga (2/12/1825 ‒ 5/12/1891) nasce na cidade do Rio de Janeiro, sétimo filho de dom Pedro I e da imperatriz Maria Leopoldina.

→ Herda o direito ao trono com a morte dos irmãos mais velhos, Miguel e João Carlos. Tem 5 anos quando o pai abdica.

→ É coroado aos 15, em 1841.

→ Em 1843 casa-se com a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, filha de Francisco I, rei das Duas Sicílias.

→ Interessado pelas letras e pelas artes, mantém correspondência com cientistas europeus, entre eles Pasteur e Gobineaude, e protege os intelectuais e escritores.

→ Durante seu reinado, viaja para várias partes do mundo, conhecendo quase toda a Europa, os Estados Unidos e o Canadá.

→ Calmo e inteligente, é prestigiado pelo progresso que promove na economia brasileira com a introdução da produção cafeeira e a ampliação da rede ferroviária e de telégrafo.

→ Governa o país até o fim do Império. No dia 15 de novembro é confinado ao Paço da Cidade do Rio de Janeiro, onde recebe a mensagem do governo provisório sobre a proclamação da República com tranqüilidade.

→ Lê revistas e faz versos, conforme revela posteriormente em seu diário.

→ Viaja para Portugal dois dias depois da proclamação da República, debilitado pela diabete. Recuperado da doença, passa a viver entre as cidades francesas de Paris, Cannes e Versalhes, onde assiste a espetáculos de arte e participa de palestras e conferências.

→ Morre de pneumonia em Paris, no Hotel Bedford, em 5 de dezembro de 1891, aos 66 anos de idade.


(Do Blog Só História)


A aposta fatídica




Ivan era um homenzinho tímido, tão tímido que os camponeses do lugar lhe chamavam “Pombo”, ou caçoavam dele dando-lhe o título de “Ivan o Terrível”. Todas as noites ia ao botequim, situado logo depois do cemitério da aldeia. Ao regressar à sua cabana solitária, que ficava do outro lado, não atravessava o cemitério. Havia neste um caminho que lhe pouparia distância, mas ele nunca enveredou por aí, nem mesmo em noites de lua.

Certa feita, no inverno, já noite alta, quando a neve e o vento cortante batiam de encontro às janelas do botequim, os fregueses habituais começaram a lançar-lhe os motejos de costume: “A mãe do Ivan, quando o trazia no ventre, assustara-se com um canário. Daí o “Ivan o Terrível, o Terrivelmente tímido.”

Os humildes protestos de Ivan serviam apenas de estímulo para a galhofa, e esta aumentou ainda quando o jovem tenente Cossaco lançou, o horrível desafio:

– Você é um pombo, Ivan. Mesmo com este frio infernal, você prefere fazer a volta do cemitério, mas não ousa nunca atravessá-lo.

– Não há nada de extraordinário em atravessar-se o cemitério, tenente. É um pedaço de terra, como outro qualquer! balbuciou Ivan.

O tenente exclamou:

– Pois então, é um desafio! Atravessar o cemitério esta noite, Ivan, e dar-lhe-ei cinco rublos, cinco rublos em ouro!

Fosse o vodka ou a tentação dos cinco rublos, ninguém soube jamais qual a verdadeira razão. Ivan, molhando os lábios, respondeu, de súbito:

– Está bem, tenente. Atravessarei o cemitério!

Correu pela sala um murmúrio de dúvida. O tenente, piscando os olhos para os outros, desembainhou a espada.

– Tome, Ivan. Quando chegar ao centro do cemitério, em frente ao maior dos túmulos, enfie a espada na terra. De manhã, iremos lá. E, se encontrarmos a espada na terra, os cinco rublos são seus!

Ivan tomou a espada. Os outros beberam-lhe à saúde:

– À de Ivan o Terrível! E as gargalhadas redobraram.

O vento atirou-se contra Ivan quando ele fechou atrás de si a porta do botequim. O frio cortava como a lâmina de uma faca. Abotoando o seu longo capote, atravessou Ivan a estrada enlameada. Ecoavam ainda nos seus ouvidos, mais altas do que o resto, as palavras que o tenente lhe lançara:

– Cinco rublos, Pombo, se você voltar com vida!

Empurrou o portão do cemitério, cujas dobradiça emitiam um gemido lúgubre. Andava ligeiro. “Terra... terra como qualquer outra”. Mas as trevas em torno enchiam-no de um pesado pavor. ‘Cinco rublos de ouro...”. O vento era cruel, e a espada, em suas mãos, parecia um pedaço de gelo. Ivan, trêmulo, sob o longo e pesado capote, desandou a correr.

Deu, finalmente, com o túmulo grande. É possível que tivesse soluçado, a julgar pelo som que o vento se encarregou de abafar. Ajoelhando-se, apavorado e frio, fincou no chão a lâmina que atravessando a dura crosta gelada mergulhou na terra. Afundou-a, então, com toda a força, até ao punho. Estava feito. O cemitério... o desafio... os cinco rublos de ouro.

Ivan ergueu em tão um dos joelhos. Mas não pôde mover-se mais. Alguma coisa o prendeu. Alguma coisa que o detinha firme e implacavelmente. Procurou libertar-se movendo corpo em todos os sentidos, arquejando de pânico, todo ele tomado de um medo horrível, monstruoso. Lançou alguns gritos de pavor seguidos de lamentos articulados sem nexo...

Encontraram-no, na manhã seguinte, em frente ao túmulo. Estava enregelado. A expressão, que se lia no seu rosto, não era, todavia, de um homem morto pelo frio, mas a de quem sucumbira tomado de indizível pavor. E o sabre do tenente lá estava, enfiado na terra onde Ivan o metera, atravessando e prendendo as abas do seu longo capote...




O texto, provavelmente, foi editado na Seleções de 1942.
(Condensado de “Saturday Review of Literature” por Leonard Q. Ross - Seleções de 1942)
Este texto foi retirado do Almanaque do Correio do Povo – 1978,
sem dar crédito ao autor do texto.


A Mulher do Gaúcho*

*(...do pampa rio-grandese)


Raúl Annes Gonçalves




No geral, é vitima do destino. Nascida em um rancho de gente humilde, logo de início torna-se, apesar de tenra idade, responsável por seus irmãozinhos, ajudando a mãe a criá-los. Dos oito aos dez anos irá ao colégio, se houver na redondeza. E a freqüência não vai além do necessário para aprender a ler e rabiscar um bilhete.

Depois de moça, criada sem infância, não conhecerá a liberdade de que desfruta a mocidade. Seus namoros são controlados. Na sala, junto aos namorados, sempre vigiada, tutelada e governada. Jamais age por si mesma.

Depois de casada, logo passará ao rol das velhas. Em bailes, dançará pouco e por pouco tempo. Lua-de-mel é coisa ignorada. Nos primeiros dias de casada terá os pais e irmãos ao seu costado. Se for morar com o noivo, isto é, marido, logo lhe darão uma companheira, porque “mulher só não dá certo”.

Garantido que, no primeiro ano, terá um bebê. E nos outros também. Sua missão, pronto, está definida: criar filhos, cozinhar, costurar, lavar, passar, criar pintos, terneiros guachos, ajudar no plantio e colheita da chácara e ordenhar as vacas de leite cedo todas as manhãs.

Passeios? Para quê? Se há tanto o que fazer? À cidade só vai quando há doença, nela ou nas crianças. No rancho, ela faz e resolve tudo. No marido, quase sempre encontra um bom companheiro e pai amoroso para os filhos, mas completamente alheio aos serviços domésticos, suas necessidades e carência de conforto. Das roupas usadas, faz vestes para os filhos e as roupas velhas dos filhos maiores diminuem para os menores.

Trata dos doentes com auxílio de remédios caseiros e fé em Deus. Não se lastima contra a sorte nem se arrenega. Cumpre sua árdua tarefa como se esta lhe fosse imposta pela vontade de Deus. Não cobiça o alheio nem inveja a vida dos patrões. Sem outro apoio que não o do marido, isolada em seu rancho, dá aos filhos uma educação onde prevalece o respeito às pessoas mais velhas e o temor a Deus. E criam-se e vivem num ambiente de honestidade e honradez que lhes dá alegria de viver e segurança em si mesmos.


(Do Almanaque do Correio do Povo – 1976)



quinta-feira, 24 de março de 2016

O Mate do Gaúcho


Raul Annes Gonçalves


Também chamado chimarrão, entre os campeiros é mais conhecido por mate, simplesmente. O mate é feito e tomado pelos gaúchos somente em cuia proveniente do porongo. Porém, as mulheres utilizam também caneco de barro ou alouçado e cuias feitas de madeira para tomarem seu mate doce. São só as mulheres que tomam mate com açúcar. Elas também apreciam o mate de leite, isto é, em vez de água, o mate é enchido com leite quente, já preparado com açúcar, canela e erva-doce. O mate de leite é tomado de preferência pela tarde, acompanhado com pão, bolacha ou biscoitos entre visitas íntimas, vizinhas ou comadres.

O gaúcho toma o seu mate-amargo pela madrugada. Porém, quando de folga, toma-o a qualquer hora. Em seu rancho ao chegar uma visita ou algum forasteiro, é logo obsequiado com um amargo. O gaúcho costuma pôr na chaleira, destinada ao mate, algum “juju”, isto é, casca de certas árvores, raízes ou folhas de ervas que servem como medicamento.

O mate é tomado no galpão, entre peões, e é enchido só por um deles, sendo passado de mão em mão, sempre da direita para a esquerda. Mas, se na roda houver pessoa de categoria mais elevada, ou mesmo o patrão, a este é oferecido o mate em primeiro lugar.

O mate tomado na sala, entre pessoas de cerimônia, nunca é enchido no próprio recinto.

Neste caso, cabe a uma mulher, de preferência uma das filhas do dono da casa, já moça, “tranquerar” o mate da cozinha para a sala.

Nunca usam duas cuias na mesma roda de chimarrão, salvo em acampamento, quando o número de pessoas é grande.

Ao se agradecer o mate, é de praxe fazê-lo ao entregar a cuia e não ao recebê-la das mãos do enchedor.

Quem, ao receber o mate, estando meio apertado ou entupido e sendo enchido por outro, não deve procurar corrigi-lo. Isso seria uma falta de atenção para com o enchedor. Neste caso, o direito é devolvê-lo a quem estiver enchendo e desculpando-se, pedir que o arrume.

O mate bem cevado sempre conserva um morrão de erva seca na boca da cuia. Essa erva deve ser depositada ao lado esquerdo de quem toma o mate. Se estiver à direita, o mate é canhoto, pois para enchê-lo, é forçoso despejar-se a água da chaleira por cima do morrão e isso não fica bem.

Ao entregar a cuia, depois de haver tomado o mate, não se deve levantar do banco ou do assento para tal, mesmo tratando-se de pessoas de cerimônia ou desconhecida. Basta fazer um simples gesto, estirando o braço, fazendo ver ao enchedor seu desejo de lhe entregar a cuia. A pessoa que estiver enchendo o mate é que atravessa a sala para entregar ou receber a cuia.

É também de bom costume, ao terminar o mate, fazer roncar a cuia, discretamente. Isto serve para advertir a quem estiver enchendo o mate, que este está tomado. Nunca se deve entregar o mate sem tê-lo tomado totalmente.

A cuia nunca deve passar de um dia para outro com erva. Isto faz com que o porongo fique com cheiro e gosto de azedo. Para tirar-se o azedo de uma cuia basta, antes de iniciar um novo mate, colocar dentro do porongo algumas brasas, despejando logo água fria em cima.

O mate sempre foi uma aproximação e oportunidade para os namorados, pois, ao receber ou devolver a cuia, sempre havia facilidade de se tocarem os dedos, sem serem percebidos por terceiros que estivessem na sala.

No galpão, quando se colocava a chaleira sobre tições em vez de pôr no gancho ou na trempe, alguém logo lembra este adágio: “Chaleira em cima do tição, tomaremos mate ou não.”


(Em Almanaque do Correio do Povo – 1975)