segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pode ser sorte ou pode ser azar...


“Azar é quase sempre favorável ao homem prudente”
Joseph Joubert.

Conta-se que há muito tempo existia um jovem camponês que tinha um sonho. Seu sonho era o de ter um cavalo, mas sua família era muito pobre e ter um cavalo era símbolo de riqueza naquela época.
A vila em que vivia ficou sabendo do sonho do jovem camponês e algumas pessoas vieram ter com o pai do menino:
– Nossa, mas que azar tem seu filho, sonhar logo com um cavalo!
E o pai apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...
Depois de um tempo, passou pela vila uma tropa de cavalos, que estavam em viagem para serem vendidos em uma grande cidade a alguns dias dali. O dono dos cavalos ficou sabendo do sonho do menino e resolveu dar a ele um filhote, que acabara de nascer e estava atrasando a viagem. A vila em que vivia ficou sabendo do acontecido e novamente vieram ter com o pai do menino:
– Nossa, mas que sorte tem seu filho, ganhar um cavalo!
E o pai, sempre tranqüilo, apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...
O jovem alimentou o cavalo, cuidou de todas as formas e o cavalo cresceu forte. Certa manhã o jovem resolveu domar o cavalo e no seu primeiro treino este o derrubou, quebrando-lhe a perna. A vila em que vivia ficou sabendo do acontecido e em coro disseram ao pai do menino:
– Nossa, mas que azar tem seu filho...
E o pai, como sempre, apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...
Aconteceu que, na semana seguinte, o reino entrou em guerra e todos os jovens foram convocados, morrendo todos, no entanto, o rapaz estava de perna quebrada e não precisou ir.
Novamente questionado por pessoas da vila, o pai do menino simplesmente disse:
Nossa, mas que sorte tem seu filho...
E o pai apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...
Certo dia, o cavalo fugiu ao ver uma fêmea selvagem passar. A vila ficou sabendo do acontecido e disseram ao pai do menino:
– Nossa, mas que azar tem seu filho...
E o pai, mais uma vez, apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...
Meses depois, acordando pela manhã, o jovem viu dentro do cercado da sua casa que o cavalo havia voltado, mas estava com uma fêmea e um filhote. E reza a lei da época que: o que está dentro da sua propriedade é seu! Na vila, ao saberem do acontecido, rapidamente vieram falar com o pai do menino:
– Nossa, mas que sorte tem seu filho...
E o pai apenas respondeu:
– Pode ser sorte ou pode ser azar...


Eu poderia ficar aqui escrevendo vários capítulos ainda dessa história, mas a verdade é que não existe sorte nem azar! Os acontecimentos em nossa vida dependem do significado que damos a eles!


Talvez, algumas vezes, você se sentiu como se tivesse chegado ao fim da linha, desanimado e tenha perdido toda a esperança. Você já tentou e tentou, porém fracassou frequentemente. Seus sonhos e seu futuro são apenas uma imagem pequena e desfocada, sem cor, nem brilho, tão longe de você, que quase não pode vê-la. Isso nunca fez parte dos seus planos, então, como um general no campo de batalha, quando o inesperado acontece e o risco é iminente, você tem de realinhar as tropas e recomeçar!

Dois poemas de Fernando Pessoa



Nascimento: 13 de junho de 1888, Distrito de Lisboa, Portugal
Falecimento: 30 de novembro de 1935, Lisboa, Portugal

Presságio

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Como surgiu o samba?



Desenho de Seth

O samba nasceu na Bahia, no século 19, da mistura de ritmos africanos. Mas foi no Rio de Janeiro que ele criou raízes e se desenvolveu, mesmo sendo perseguido. Durante a década de 1920, por exemplo, quem fosse pego dançando ou cantando samba corria um grande risco de ir batucar atrás das grades. Isso porque o samba era ligado à cultura negra, que era malvista na época. Só mais tarde é que ele passou a ser encarado como um símbolo nacional, principalmente no início dos anos 40, durante o governo de Getúlio Vargas. Nessa música brasileiríssima, a harmonia é feita pelos instrumentos de corda, como o cavaquinho e o violão. Já o ritmo é dado, por exemplo, pelo surdo ou pelo pandeiro. Com o passar do tempo, outros instrumentos, como flauta, piano e saxofone, também foram incorporados, dando origem a novos estilos de samba. "À medida que o samba evoluiu, ele ganhou novos sotaques, novos modos de ser tocado e cantado. É isso que faz dele um dos ritmos mais ricos do mundo", afirma o músico Eduardo Gudin. 

DA RODA AO PAGODE


SAMBA-DE-RODA

Muito parecido com a roda de capoeira, é a raiz do samba brasileiro e está registrado na Unesco como patrimônio da humanidade. Surgiu entre os escravos na Bahia por volta de 1860 e logo desembarcou também no Rio de Janeiro. O samba-de-roda, como a dança, começa devagar e se torna cada vez mais forte e cadenciado - sempre acompanhado por um coro para repetir o refrão. Várias canções do estilo têm versos sobre o mar e as tradições africanas.

AVÔ DO RECO-RECO


Além de batuques na palma das mãos, os escravos batiam um garfo num prato (desenho abaixo), obtendo um som semelhante ao do reco-reco  (desenho acima) - instrumento que dá força ao samba.


SAMBA DE BREQUE

Um dos primeiros estilos nascidos no Rio, foi criado no final dos anos 20 em botecos da cidade. No meio do samba rolavam "paradinhas" onde o cantor falava uma frase ou contava uma história. Um dos mestres foi Moreira da Silva. O ritmo é mais picadinho - ou "sincopado", como dizem os músicos -, mas a marca registrada é mesmo a parada repentina. Daí o nome "samba de breque". Quase sempre conta uma história engraçada, de um tiroteio entre malandros à história de um gago que se apaixonou...

FLAUTA


O samba de breque foi o primeiro estilo a incorporar a flauta como instrumento de samba. Ela ajuda a deixar o ritmo mais orquestrado.

PARTIDO-ALTO

Na década de 1930, o partido-alto se popularizou nos morros cariocas. Entre um refrão e outro, os músicos criavam versos na hora, quase como repentistas. As antigas festas de partido-alto chegavam a durar dias! A partir dos anos 70, Martinho da Vila virou um músico marcante do estilo. A principal característica é a improvisação. O partido-alto se mantém, principalmente, pelo jogo de palavras encaixadas no momento certo. O estilo trata de temas do cotidiano, e sempre com o maior bom humor.

SURDO


O surdo entrou de vez na roda com o partido-alto. Tocado com a mão ou com a baqueta, ele define a pulsação da música. É o "coração do samba".

SAMBA-ENREDO

Na década de 1930, quando surgiram os primeiros desfiles de escolas de samba no Carnaval do Rio, nasceu o samba-enredo. No início, os músicos improvisavam dois sambas diferentes: um para a ida e outro para a volta na avenida onde as escolas desfilavam. Com o passar dos anos, o samba-enredo ganhou uma batida mais acelerada que outros sambas - o que ajuda as escolas a desfilarem no tempo previsto. A partir dos anos 80 a coisa mudou, mas, até então, samba-enredo só abordava a história oficial do Brasil.

CUÍCA


Com o som de uma "voz grunhindo", foi uma das novidades das baterias das escolas. A função da cuíca é mais complementar, dando um tempero extra ao samba.

SAMBA-CANÇÃO


Outra cria dos botecos cariocas, o samba-canção apareceu na virada dos anos 30 para os 40. Logo ficou famoso como "samba de fossa", perfeito para ouvir após um pé na bunda... Cartola e Noel Rosa fizeram grandes músicas do estilo. A batida mais lenta e cadenciada do samba-canção lembra bastante o bolero, outro ritmo musical que fazia sucesso nos anos 40. Em geral, as canções falam de desilusão amorosa - de amores não correspondidos às piores traições!

PANDEIRO


Desde a origem do samba o pandeiro estava presente, mas no samba-canção ele ganhou mais importância, marcando o ritmo da música no lugar do surdo.

BOSSA NOVA

Cansados da fossa do samba-canção, alguns compositores decidiram fazer músicas sobre temas mais leves no final dos anos 50. Nascia a bossa nova. Mestres como Tom Jobim e João Gilberto faziam um samba bem diferente, com grande influência do jazz. Com construções musicais mais "complexas", a bossa nova tem o chamado "violão gago", tocado num ritmo diferente do da voz e dos outros instrumentos. O assunto preferido eram as belezas da vida, da praia às mulheres, é claro!

VIOLÃO


O símbolo da bossa nova foi mesmo o violão -além do banquinho... Usado em quase todos os estilos de samba, é um dos responsáveis pela melodia e harmonia da música.

PAGODE


O pagode que hoje faz sucesso pintou como estilo de samba na década de 1980, no Rio, com cantores como Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. Nos anos 90, em São Paulo, ficou mais "comercial" - com direito até a coreografia dos músicos - e explodiu nas rádios. O pagode dos anos 80 era muito influenciado pelo partido-alto. Já na década seguinte passou a ter uma pegada mais lenta e romântica. Nos anos 80, o principal era a vida na comunidade; nos 90, as letras românticas.

TECLADO

Nos hits mais modernos, entraram na dança instrumentos eletrônicos, como teclados e sintetizadores - para desgosto dos sambistas mais tradicionais...

COMPLETANDO A BATERIA

Conheça outros instrumentos importantes para um bom batuque

TANTÃ


Mais fino que o surdo, também marca o ritmo. Em geral, é tocado com a palma das mãos, sem que os dedos encostem na membrana.

TAMBORIM


Tocado com uma vareta de bambu, não marca necessariamente o ritmo do samba, mas traz um som agudo para o batuque.

CAVAQUINHO


Tem papel semelhante ao do tamborim: deixa o som mais agudo. Mas faz isso na melodia do samba, e não na batida rítmica.

(Do Blog Mundo Estranho)



Quem manda aqui?



Rafael trancava o próprio carro no estacionamento de um shopping chique do Leblon, quando foi abordado por um guarda do estacionamento.
– Bom dia, senhor.
– Bom dia.
– O senhor pode, por gentileza, estacionar em outro lugar?
– Por quê? Não pode parar aqui?
– Vaga para obesos? Nunca vi falar disso.
– Lei municipal 78.913/15, senhor. Tá, aí, o hambúrguer pintado no chão da vaga e tudo.
– Ah! Então é por isso que tem um hambúrguer pintado?
– É. Pintaram um barrigudo, mas tava dando problema, porque estavam confundindo com a vaga de grávida, que fica ali na frente.
– Pois é. Eu não achei vaga; ali é de grávida; do outro lado, é de idoso, tem de deficiente...
– E aqui é de obeso.
– Onde posso parar meu carro, então?
– O senhor é pracinha:
– Não sou pracinha
– O senhor é da Polícia Federal?
– Não sou da Polícia Federal.
– Exército? Marinha? Aeronáutica?
– Não.
– Trabalha na Prefeitura?
– Não.
– Juiz?
– Administrador.
– Escoteiro.
– Não
– Ex-escoteiro.
– Não.
– Anão não é.
– Não também.
– Diabético? Uma psoríase?
– Nada
– Botafoguense?
– Sou Tricolor.
– Afroreggae?
– “Afrorregae"?
– Afrorregae.
– Não
– Menor de 16 anos?
– Menor de 16 pode dirigir?
– Não. Por isso ia falar pro senhor vir de táxi. Aliás, se fosse taxista... Tem umas vagas boas pra táxi no G2.
– Não sou nada disso, sou só um cara.
– Um cara branco.
– Branco.
– Saudável.
– Saudável.
– Zona Sul?
– Zona Sul.
– Sabe então onde tem vaga para branco, saudável e da zona sul?
– Não. Onde?
– No mercado de trabalho! Tu queres o quê? Branco, saudável, da zona sul e quer molezinha de vaga? Acorda pra vida! Já não basta o que Deus te deu com esse sucessinho no Linkedin?
– Eu só queria parar o carro.
– E eu só queria entrar numa loja sem ninguém desconfiar que vou roubar! Toma vergonha na cara! Essa tua gente está acabando com o planeta. Volta pra casa e pega uma bicicleta.
– Se eu vier de bicicleta, paro onde?
– Não para, porque tiraram o bicicletário para aumentar as vagas de deficientes para a paralimpíada.
– E depois da paralimpíada?
– Aí sai a leia de vaga pra quem vem só ‘dar uma olhadinha” e entra no lugar. Aliás... tu veio só dar uma olhadinha ou veio comprar alguma coisa?
– Vim comprar.
– Comprar? Tu reclama de barriga cheia mesmo, hein? Folgado!
Rafael entrou no carro e foi embora. Pegou gosto pela bicicleta e, hoje, está 12 quilos mais magro.


*Antonio Tebet é humorista e criador do Porta dos Fundos. 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

As muitas formas de dizer adeus





“A hora do encontro é também despedida.” Belo verso do grande poeta e letrista mineiro Fernando Brant, morto recentemente. Toda despedida tem algo de doloroso, mesmo quando se sabe que o retorno será breve, pois despedir-se significa ficar longe de quem se ama, não importa se por algumas horas, por dias, anos ou para sempre.

Por isso, as fórmulas de despedida sempre contêm algo de esperançoso: o desejo do reencontro, o de que quem parte o faça em paz e o de que Deus guie os passos do viajante.

Na primeira categoria, temos expressões como "até logo", "até breve", "até a vista" e "até mais". Fórmulas idênticas são as francesas au revoir e à bientôt, as italianas arrivederci e arrivederLa, a alemã auf Wiedersehen, as espanholas hasta luego e hasta la vista, a inglesa see you again, a sueca vi ses, a russa doh svidania, a africâner tot siens e a chinesa ts'ai chien.

Na segunda categoria, em que se fazem recomendações aos cuidados de Deus, estão os nossos "vá com Deus" e "adeus" (este último redução da expressão "eu te recomendo a Deus"), e suas equivalentes em francês (adieu), italiano (addio) e espanhol (adiós). O inglês good bye é, na verdade, uma redução e deformação de God be with you ("Deus esteja contigo"). Os turcos também pedem a proteção divina a quem parte: Alaha ismarladik.

Dentre as saudações que fazem votos de felicidade a quem está de partida estão o português "passe bem" e o inglês farewell, de mesmo significado. Equivalentes ao inglês são o holandês vaarwell e o dinamarquês farvel. Em grego, se diz khaire, "seja feliz", em árabe mae es-salaam, "vá em paz", em indonésio selamat tingal, "fique em paz", em hebraico shalom, "paz", e em havaiano aloha, "amor".

 Mas há também formas diferentes de despedida: o japonês sayonara quer dizer "se tem de ser assim", o que demonstra a resignação diante da separação; o inglês so long indica que muito tempo se passará antes que as pessoas se revejam; o chinês ch'ang chih mei kan-chien significa "muito tempo sem se ver".

Mas o adeus também pode ser expresso na forma de um simples "tchau". Essa expressão quase universal, já que presente em muitas línguas, se originou no italiano de Veneza ciao, equivalente ao italiano padrão schiavo, "escravo", modo respeitoso e humilde como as pessoas se colocavam perante as outras. Em italiano, ciao é até hoje saudação tanto de chegada quanto de partida, equivalendo a "olá" e a "adeus".

E já que estamos falando em despedida, aqui nos despedimos dos leitores que tão fielmente nos acompanharam nesta coluna ao longo dos três últimos anos, não com um adeus, mas quem sabe com um até breve.


Do Blog do Aldo Bizzocchi




terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Delícias Continentais

Descubra o sabor dos drinques que fazem a cabeça
de nuestros hermanos de latinoamérica...

Piña colada

(Caribe)


Ingredientes

1 dose de rum
1 dose de suco de abacaxi
1 dose leite de coco
1 colher (sobremesa) de açúcar
Gelo
Copo longo
Modo de fazer:

Misture todos os ingredientes na coqueteleira e está pronto.

Tequila sunrise

(Caribe)


Ingredientes:

1 dose de tequila
2 doses de suco de laranja
Xarope de grenadine (substituível por groselha)
Gelo
Copo longo

Modo de fazer:

Bata a tequila e o suco de laranja com o gelo na coqueteleira. Coe o gelo e coloque no copo. Despeje o xarope no centro do copo, bem devagar, por cima do drinque. Ele vai descer até o fundo e dar a sensação de pôr-do-sol.

Margarita

(México)


Ingredientes:

1 dose de tequila
½ dose de cointreau
Suco de ½ limão
1 colher (chá) de açúcar
Gelo
Taça coquetel com sal nas bordas

Modo de fazer:

Bata todos os ingredientes na coqueteleira, coe o gelo e sirva. Para fazer margarita frozen, use o liquidificador no lugar da coqueteleira e coloque bastante gelo.

Daiquiri

(Cuba)


Ingredientes:

1 dose de rum
Suco de ½ limão
½ colher (sobremesa) de açúcar
Gelo
Taça coquetel com açúcar na borda

Modo de fazer:

Bata todos os ingredientes na coqueteleira, coe o gelo e sirva.


Mojito

(Cuba)


Ingredientes:

100 ml de rum sabor limão
½ limão cortado em gomos
1 colher (sobremesa) de açúcar
3 folhas de hortelã
Gelo
Club soda
Copo on the rocks

Modo de fazer:

Amasse o limão, a hortelã e o açúcar no copo e complete com o gelo, o rum e o club soda. A dica é não exagerar na hortelã – nem folhas demais, nem amassadas demais: o excesso delas deixa o drinque pesado e enjoativo.

Pisco sour

(Peru e Chile)


Ingredientes:

1 dose de pisco
Suco de ½ limão
½ colher (sobremesa) de açúcar
Gelo
Taça coquetel ou copo baixo

Modo de fazer:

Bata todos os ingredientes na coqueteleira, coe o gelo e sirva. Originalmente, o drinque leva 1 colher (café) de clara de ovo, para formar uma espuminha em cima.



(Do texto “Alca, no! Álcool, si!”, por Nana Caetano,
na revista VIP, fevereiro de 2004)



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Pequeno Guia VIP de Elegância

28 dicas de estilo para você fazer bonito em todas as ocasiões.

Por Virna Wulkan



01. Qualidade: muitas vezes significa coisa que você não pode ver, como um tecido superior em um terno, uma costura reforçada em um sapato, uma lente com proteção nos óculos. Um produto deve ser medido não pelo seu preço, mas pelo seu custo-benefício.

02. Quatro clássicos que todo homem deve ter: um terno com caimento perfeito, uma jaqueta jeans, camisa branca, blazer azul-marinho.

03. Quatro clássicos que todo homem pode sobreviver sem, mas seria legal ter: um cinto de lona com listras, uma bota estilo urbano, uma jaqueta de couro transada, um jeans de grife.

04. Tenha pelo menos um bom modelo de relógio: Ele sempre vai valorizar seu visual como um todo. Só para você saber: os relógios suíços são os mais nobres, enquanto os japoneses, geralmente, são os mais populares.

05. “Uma gravata com o nó bem feito é o primeiro passo sério na vida.” Oscar Wilde, escritor.

06. Jogue fora ou guarde para limpar oi xixi do seu cachorro todas aquelas camisetas que você ganhou de brinde com logotipo de empresas. A não ser a da sua, é claro!

07. “As roupas fazem um homem, mas os acessórios fazem um homem marcante.” Carson Kresley, consultor de moda.

08. Meias brancas só para a prática de esporte, para os médicos, pais-de-santo e outros profissionais.

09. Modelos e famosos estão sempre impecavelmente vestidos porque:
      1, são modelos e famosos;
      2. têm sempre alguém sendo pago especialmente para vesti-los.
      Se não é o seu caso, não insista em se comparar a eles. Simplesmente assuma seu próprio estilo.

10. Quando se trata de estampa, menos é mais. Evite colocar duas estampas de uma vez só, mas se você resolver usar, cuide para que elas tenham tons que combinem entre si e que o resto da roupa seja liso.

11. Não compre muitas roupas, e, sim, boas roupas.

12. Sempre verifique as cores à luz do dia: um azul-petróleo pode se transformar em um verde-meleca se visto sob outra luminosidade.

13. Não coloque nada nos bolsos de um terno; eles podem perder a forma. Por isso os bolsos costumam vir costurados das lojas.

14. O lugar certo para guardar canetas é no bolso interno do paletó, mesmo que seja uma Mont Blanc.

15 “Você nunca vai ter uma segunda chance de causar uma boa primeira impressão.” Ditado popular.

16. Invista em um bom par de óculos escuros, afinal eles estão no seu rosto, área onde os olhos do interlocutor estarão a maior parte do tempo. Prove todos os últimos modelos da loja e veja se algum se encaixa com seu estilo. Senão opte por um clássico, como modelo “aviador” (aquele da Ray Ban). Fuja dos modelos Stevie Wonder (armação e lentes pretas deixam com cara de ceguinho) e John Lennon (redondinhos).

17. Tenha sempre ao alcance uma nécessaire com alguns itens básicos, como escova de dentes, pasta, fio dental, desodorante, lâmina de barbear e tesourinha. Afinal, você nunca sabe quando pode precisar deles.

18. Sobre nós de gravata: eles sempre devem estar centralizados e ser proporcionais ao colarinho da camisa.

19. Ainda sobre gravatas: elas devem terminar bem em cima da fivela do cinto, com as duas pontas no máximo possível juntinhas.

20. Meias curtas, somente aqueles modelos especiais para esporte. Não é bonito quando um homem se senta e aparece uma parte de perna peluda entre a barra da calça e o sapato.

21. “Se você não é tão bonito, use um relógio fabuloso, carregue uma bagagem cara e use óculos de sol com grife. Deu certo com Onassis; pode dar certo com você também.” Michael Kors, estilista.

22. Edite seu guarda-roupa: não amontoe roupas que você não usa mais, elas só ocupam espaço e confundem na hora de montar a produção. Selecione as peças que você mais gosta de usar e as clássicas e doe o resto. Na dúvida use o seguinte critério: se você não usa a peça há mais de um ano, é hora de dar um tchau.

23. Mais sobre guarda-roupa: arrume-o fazendo um dégradé de cores, indo da mais escura a mais clara. Fica chiquérrimo e mais organizado.

24. Aumente o seu leque de cores, ouse com uma peça rosa-claro, turquesa ou coral, pode dar toque diferente à produção. Mas evite aqueles tons berrantes com amarelo-ouro, a não ser que você esteja comprando um Lamborghini, para compor o visual.

25. É melhor estar com uma roupa mais importante do que a ocasião pede que mais mal vestido do que a situação exige. Ou seja, melhor usar terno no estádio de futebol que jeans com camiseta em um casamento.

26. “A moda tem um caráter passageiro e a elegância é algo perene.” Costanza Pascolato, empresária de moda.

27. Cuidado com as liquidações. Elas podem ser uma verdadeira cilada, pois você acaba comprando peças que à primeira vista parecem pechinchas, mas que servem apenas para fazer volume no armário.

28. Para finalizar, tire um dia para esquecer todas as dicas de estilo que você já aprendeu, inclusive estas. Relaxe e seja você mesmo.


(Revista VIP – maio de 2005)


sábado, 20 de fevereiro de 2016

O mito da hospitalidade

Leonardo Boff

          
Júpiter, o deus criador e seu filho Hermes, quiseram saber como andava o espírito de hospitalidade entre os humanos. Travestiram-se de pobres e começaram a peregrinar pelo mundo afora. Foram maltratados por uns, expulsos por outros.

Depois de muito peregrinar tiveram de cruzar por uma terra cujos habitantes eram conhecidos por sua rudeza. As divindades sequer pensavam em pedir hospitalidade. Mas, à noitinha, passaram por uma choupana onde morava um casal de velhinhos, Báucis e Filêmon. Qual não foi a surpresa, quando Filêmon saiu à porta e sorridente foi logo dizendo: Forasteiros, vocês devem estar exaustos e com fome. Entrem. A casa é pobre, mas aberta para acolhê-los.

Báucis ofereceu-lhes logo um assento enquanto Filêmon acendeu o fogo. Báucis esquentou água e começou a lavar os pés dos andarilhos. Com os legumes e um pouco de toucinho fizeram uma sopa suculenta. Por fim, ofereceram a própria cama para que os forasteiros pudessem descansar.

Nisso sobreveio grande tempestade. As águas subiram rapidamente e ameaçavam a região. Quando Báucis e Filêmon quiseram socorrer os vizinhos, ocorreu grande transformação: a tempestade parou e de repente a pequena choupana foi transformada num luzidio templo dourado. Báucis e Filêmon ficaram estarrecidos. Júpiter foi logo dizendo: por causa da hospitalidade quero atender um pedido que fizerem. Báucis e Filêmon disseram unissonamente: o nosso desejo é servir-vos nesse templo por toda a vida. Hermes não ficou atrás: quero que façam também um pedido. E eles, como se tivessem combinado responderam: depois de tanto amor gostaríamos de morrer juntos.

Seus pedidos foram atendidos. Um dia, quando estavam sentados no átrio, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes. Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa Tília. As copas e os galhos se entrelaçaram no alto. E assim, abraçados, ficaram unidos para sempre. Os velhos, até hoje, repetem a lição: quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A letra e a paródia de Nervos de Aço



Gênero de larga aceitação popular desde os primórdios da música brasileira, a paródia não poupou o samba-canção Nervos de Aço. O humorista Carlos Nobre* chegou a publicar, em um dos jornais do final da década de 1950, uma gozadíssima versão, para deleite da gurizada marota.

Nervos de aço

Lupicínio Rodrigues

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Ao lado de um tipo qualquer?

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço,
Que nem um pedaço do seu pode ser?

Há pessoas de nervos de aço,
Sem sangue nas veias e sem coração,
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação.

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror.
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.

O grande embaraço**

Carlos Nobre

Você sabe o que é ter uma dor, meu senhor,
Dessas tais, que nos fazem correr.
E entrar por qualquer corredor, meu senhor,
Sem saber o que se há de fazer?

Você sabe o que é ter uma dor, meu senhor,
Dessas tais que nos dão de repente.
E no fundo do tal corredor, meu senhor,
Ouvir uma voz dizendo “Tem gente”?

Há pessoa com nervos de aço,
Que enfrentam sorrindo qualquer confusão.
Mas duvido que nesse embaraço
Não fique apertado com a situação!

Eu um dia já tive uma dor, meu senhor,
E não queiram saber que horror!
E não gosto nem de lembrar como foi
Que cheguei ao fim do corredor...


(Do Almanaque do Lupi 100 anos, de Marcello Campos
 – Editora da Cidade)



*Carlos Nobre, foto acima, (José Evaristo Villalobos Júnior, 07 de abril de 1929 – 16 de dezembro de 1985, foi um humorista e cronista gaúcho.

**Na verdade, essa paródia não tinha título, o posto acima seria, na minha opinião, o mais apropriado.

Há uma outra paródia de "Nervos de aço", de Lupicínio Rodrigues, satirizando a queda de Getúlio Margas, em 1945.

Você sabe o que é ser ditador,
Meu senhor,
Quinze anos detendo o poder
E depois um golpe traidor,
Meu senhor,
Pôr o belo prazer a perder.


Alvarenga

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Os últimos dias de Lupicínio Rodrigues


(16 de setembro de 1914 - 27 de agosto de 1974)


Lupi e Hamilton Chaves, diante da casa onde nasceu o
compositor, na Ilhota,  Travessa Batista.
Foto de 1952

O derradeiro gole

Demosthenes Gonzáles dera um pulo até a casa dos Rodrigues, em julho de 1974, para saber de Lupicínio, cuja saúde já não andava na sua melhor forma. Cerenita trouxe um copo de uísque para o visitante e deixou os dois conversando na sala. Assim que ela saiu de vista, Lupi pediu ao “compadre” uma bicada, para matar a saudade. Foi certamente a sua última.

Um coração que amou demais


A Dona Divergência entre a vida e a morte é uma dama com nervos de aço, sem sangue nas veias e nem coração. A saúde de Lupicínio demonstrava sinais de cansaço, à medida em que se aproximava dos 60 anos. Justo em um período de retorno ao primeiro time da música popular brasileira, o boêmio convicto começava a enfrentar um traiçoeiro coquetel de sofrimento por conta de problemas como diabetes, infecção urinária, insuficiência renal e isquemia cardíaca. Primeiro havia sido uma pneumonia contraída durante temporada em São Paulo no final de 1972: coisa rara em sua biografia, Lupi já recusava convites e até enviara recado a Paulinho da Viola, desculpando-se por não lhe dar pessoalmente o seu abraço em show do sambista carioca em Porto Alegre. Na última semana de junho de 1974, ele enfrentaria dois dias de internação por conta de complicações diversas, que motivaram inclusive uma mudança do compositor para uma casa no Bairro Partenon, mais próximo do irmão e concunhado Chiquinho. Sem abandonar por completo a vida noturna, Lupi voltaria a ser internado em 21 de agosto, dessa vez na Unidade de Tratamento Coronariano. Foram seis derradeiros dias, alternando momentos de bom humor e conformidade com o agravamento de sua condição.

Um dos enfermeiros jamais esqueceria o comentário daquele paciente, ao constatar que não passava de um ilustre desconhecido para o outro jovem plantonista que o atendia no quarto: “Se eu fosse o Roberto Carlos, garanto que tu saberias”. Não lhe faltavam planos, marcados pela certeza mórbida, porém, de que ali se escrevia as últimas estrofes de sua vida. Ele teria inclusive manifestado à esposa um último pedido, de que o pessoal cantasse o samba Se Acaso Você Chegasse em seu enterro, em vez de chorar. “Quando a gente perde a ilusão, deve sepultar o coração”, já filosofava a letra de Nunca. Como ele sepultou. Pouco depois das duas da tarde (bem no horário em que Lupi costumava tirar a sua sesta) 27 de agosto de 1974, as rádios interromperam a sua programação para noticiar que o maior compositor popular gaúcho se despedia para sempre dos amigos, das musas e da boemia. Menos de vinte dias o separavam de seus 60 anos de idade, que seriam comemorados em 16 de setembro.

O adeus de Lupi, por si só, renderia assunto para um samba-canção denso como os seus principais sucessos. “Não nos deixe, velho!”, soluçava Dona Cerenita, amparada por Lupinho. Após o velório no Estádio Olímpico Monumental, casa de seu time do coração, o cortejo percorreu os poucos quilômetros até o Cemitério São Miguel e Almas, ao som do Hino do Grêmio tocado em câmera lenta no piston dourado de um músico da Ospa. Nas sacadas, lenços brancos acenavam para o cortejo de veículos e pedestres, em meio a um esquema especial de trânsito organizado pela Brigada Militar. Na lanchonete do cemitério, mesas e balcões lotados de boêmios e aperitivos, após uma fria madrugada de portas fechadas em alguns dos bares que serviam de segundo lar para Lupi, um homem que não curtia ficar sozinho. O resto era um silêncio que só voltaria ser quebrado pela mais triste serenata já ouvida em Porto Alegre. Sob holofotes, câmeras e microfones, um regional se formou em frente ao jazigo 21685, com o violão de Darcy Alves, a flauta de Plauto Cruz, o cavaquinho de Preto, saxofone de Alcebíades, o pandeiro de Valtinho, o surdo de Mário e a voz de Ademar Silva a puxar o coro de centenas de familiares, amigos, colegas e fâs nos versos sentimentais de Nervos de Aço, Felicidade e Se Acaso Você Chegasse. Nem mesmo o empregado da funerária conteve o pranto. Às onze da manhã, após um inflamado discurso do jornalista Paulo Sant´Ana, a saudade já morava para sempre no peito. O público já se dispersava quando um senhor alto, magro e embriagado subiu com dificuldades as escadas até o túmulo recém-lacrado, diante do qual tirou um chapéu imaginário: “Té logo, velho...”

A última composição

Lupicínio tinha lá suas superstições. Dentre elas estava a de evitar o adjetivo “último”. Último trago, última música, última vez... Na dúvida, melhor não brincar com fogo. Na biografia romanceada Roteiro de Um Boêmio, o amigo Demosthenes Gonzalez relembra que, poucos meses antes de falecer, o compositor seguia desafiando as recomendações médicas, levando a sua saúde debilitada para passear na boemia. E foi madrugando no Adelaide´s Bar com os amigos Johnson e Maneco Spina, numa fria noite de julho de 1974 que Lupi rabiscou no guardanapo o seu derradeiro samba-canção: Coquetel de Sofrimento, que mais tarde ganharia voz pelo carioca Jamelão. O mesmo Demosthenes relembrou a derradeira composição de Lupi, sem título e cuja melodia se perdeu no esquecimento.

Abaixo, a letra sem título e sem melodia...


Hoje saí de casa
Com vontade de viver.
Calcei meu sapato novo
E pus meu terno de morrer.

Fui visitar o bar
Em que eu costumava beber.
Seu Manoel não estava,
Veio outro me atender.

Perguntei por meus amigos
E deles ninguém sabia.
A garçonete era outra
Nem era mais a Maria.

Me olhei com desgosto
No espelho que estava ao lado,
E vi no meu próprio rosto
Que eu também havia mudado.

Eu fui tão feliz contigo,
Desde quando te encontrei,
Que o tempo foi se passando
E eu nem sequer notei,
Por isso voltei par casa
Doidinho pra te abraçar.

(Do livro Almanaque do Lupi 100 Anos,
de Marcello Campos - Editora Cidade)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Um conto de Clarice Lispector

Ruído de Passos

Clarice Lispector


Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das árvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. E tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi quando dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava.
Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, de cabeça baixa:
– Quando é que passa?
– Passa o quê, minha senhora?
– A coisa.
– Que coisa?
– A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
– Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-o espantada.
– Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
– Não importa, minha senhora. É até morrer.
– Mas isso é o inferno!
– É a vida, senhora Raposo.
A vida era isso, então? Essa falta de vergonha?
– E o que eu faço? Ninguém me quer mais...
O médico olhou-a com piedade.
– Não há remédio, minha senhora.
– E se eu pagasse?
– Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
– E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer?
– É, disse o médico.  Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser adorado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a benção da Morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.



*****


Conto de: Clarice Lispector
Em 1995 “Ruído de passos” ganhou uma versão para cinema, o curta-metragem teve a direção de Denise Gonçalves, interpretação de Renée Gumiel e produção de Moema Filmes.

Fatos biográficos de Clarice Lispector


→ Quando seus pais viajavam para o Brasil, como imigrantes vindos da Ucrânia, Clarice Lispector nasceu, num navio. Chegou a Maceió com dois meses de idade, com seus pais e duas irmãs. Em 1924, a família mudou-se para o Recife, e Clarice passou a frequentar o grupo escolar João Barbalho. Aos oito anos, perdeu a mãe. Três anos depois, transferiu-se com seu pai e suas irmãs para o Rio de Janeiro.

→ Em 1939 Clarice Lispector ingressou na faculdade de direito, formando-se em 1943. Trabalhou como redatora para a Agência Nacional e como jornalista no jornal "A Noite". Casou-se, em 1943, com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem viveria muitos anos fora do Brasil. O casal teve dois filhos, Pedro e Paulo, este último afilhado do escritor Érico Veríssimo.

→ Seu primeiro romance foi publicado em 1944, "Perto do Coração Selvagem". No ano seguinte, a escritora ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. Dois anos depois publicou "O Lustre".

→ Em 1954 saiu a primeira edição francesa de "Perto do Coração Selvagem", com capa ilustrada por Henri Matisse. Em 1956, Clarice Lispector escreveu o romance "A Maçã no Escuro" e começou a colaborar com a Revista Senhor, publicando contos.

→ Separada de seu marido, radicou-se no Rio de Janeiro. Em 1960 publicou seu primeiro livro de contos, "Laços de Família", seguido de "A Legião Estrangeira" e de "A Paixão Segundo G. H.", considerado um marco na literatura brasileira.

→ Em 1967, Clarice Lispector feriu-se gravemente num incêndio em sua casa, provocado por um cigarro. Sua carreira literária prosseguiu com os contos infantis de "A Mulher que matou os Peixes", "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" e "Felicidade Clandestina".

→ Nos anos 1970 Clarice Lispector ainda publicou "Água Viva", "A Imitação da Rosa", "Via Crucis do Corpo" e "Onde Estivestes de Noite?". Reconhecida pelo público e pela crítica, em 1976 recebeu o prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra.

→ No ano seguinte publicou "A Hora da Estrela", seu ultimo romance, que foi adaptado para o cinema, em 1985.

→ Clarice Lispector morreu de câncer, na véspera de seu aniversário de 57 anos.

(Do Blog Meu Caderno de Poesias)


Clarice Lispector por Loredano



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O carioca na visão de uma estrangeira



Cristo Redentor - Foto Veja Rio

Olhar estrangeiro

Priscilla Ann Goslin*

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Àqueles com que jamais vou me encontrar de novo cabe um “a gente se vê” ou um “te ligo”. Assim é o Rio, mermão. Valeu, beleza!

Vinte anos atrás, eu me aventurei a escrever um livro que ensinasse aos recém-chegados à Cidade Maravilhosa o jeito de ser dos cariocas. Para uma americana de ascendência finlandesa e nenhum samba no pé, era como traduzir o intraduzível – decodificar espírito dos habitantes da cidade mais incoerente da Via Láctea.

Na ocasião, ainda estagiária em carioquice, sofria de uma boa dose de ingenuidade. Pensava: “Será que serei banida?”. Não fui. Além do privilégio de morar na cidade de encantos mil, acabei sendo abraçada pelos mais roxos dos cariocas da gema nesta minha aventura insólita. Fiz o livro para os turistas, mas aí os cariocas começaram a rir.

– Cara, nunca reparei que balanço meu cabelo quando saio do mar... Pô, achava que todo mundo puxava conversa com estranhos na rua... Qual é, não são todos que saem pra night de chinelo de dedo?

É preciso um olhar estrangeiro para ver o que é vedado aos nativos.

Mas o que é ser carioca? Falou bem o nosso saudoso Vinicius de Moraes: “Ser carioca é, antes de mais nada, um estado de espírito”.

O espírito carioca é indomável e contagioso. Ninguém passa imune. Até os quadris mais desajeitados vão se soltando, sem falar da alma. Para o estrangeiro, ser carioca é retornar ao seu id primordial. É descartar as camadas de restrições autoimpostas pela moralidade anglo-saxã. Leveza pura. Sim, foram os franceses que criaram o termo joie de vivre, mas os cariocas aperfeiçoaram a arte.

Carioca vive com entusiasmo e uma espécie de otimismo ensolarado, capaz de apreciar a beleza nas pequenas coisas, convencido de que o universo é essencialmente uma entidade benigna. Enfim, a maior carioquice é achar natural deparar todos os dias com a beleza das paisagens. Ser carioca é amar a cidade incondicionalmente. E, quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio.

Pelo olhar de fora, o Rio de Janeiro transcende as cidades normais. Existe uma sinergia perfeita entre o habitante e seu meio. Todos os sentidos são alimentados pelo clima, pela música, pelo samba, pela comida, pelo futebol, pela praia, pelos sorrisos à toa, pela constante onda de bom humor que envolve a cidade. Ela te acolhe, te faz sentir bem com a vida. Para o estrangeiro, é uma atração visceral. Essa é a essência que faz da carioquice uma cultura divertida, diferente de tudo o mais.

Vim para o Rio pela primeira vez com 6 semanas de idade e, mesmo tendo passado muitos anos nos Estados Unidos, nunca mais me curei. Como a minha visão é suspeita, perguntei a um amigo britânico, Chistopher Pillitz, portenho de criação e fotógrafo com mais de oitenta países na mira de sua lente, qual era a sua cidade predileta. Resposta? Rio de Janeiro. Ele diz: “A vida do carioca é boa, mesmo que não seja”.

Infelizmente, nem um Maraca repleto de velas acesas para São Jorge é suficientemente poderoso para proteger o carioca, no seu dia a dia, do crescimento desordenado que vem transformando o sonho de Vinicius num inferno de Dante. Mas, olha só, cidade perfeita não existe. Carioca, eternamente otimista que é, prefere encarar os obstáculos à sua felicidade como um porém. O Baixo Gávea tá inundado? Duas horas parado num engarrafamento? Alvo de assalto naquela saidinha de banco? Calma, vai melhorar.

No decorrer destas duas décadas desde que escrevi meu livro, a cidade mudou bastante, mas o delicioso encanto e a eterna informalidade continuam intocadas. Como qualquer carioca, arrasto o chiado com orgulho. Já aprendi a chamar o garçom pelo nome e meus amigos de mermão. Encaro o “código secreto” do carioca numa boa. Sei que hora marcada no Rio é “por volta de”, e “tô chegando” significa que fulano está começando a pensar em se levantar do sofá. As frases “te ligo” e “a gente se vê” correm soltas para aqueles com quem jamais vou me encontra de novo.

Hoje, atribuo o que defino como minha esquizofrenia cultural à dicotomia criada pelo meu inerente sentido de ordem e minha fascinação pelo caos que só uma cidade trepidante como o Rio de Janeiro pode oferecer.

– Valeu, mermão, Beleza! Aparece lá em casa.

 *****


*Pricilla Ann Goslin, americana de Minnesota, em quatro décadas de Rio se tornou Ph.D. em carioquice e escreveu o best-seller How to Be a Carioca.