quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Textos literários



O susto

Mário Quintana

Isso foi há muito tempo, na infância provinciana do autor, quando havia serões em família.
Juquinha está lendo em voz alta, A Confederação dos Tamoios.
Tarararararara, tarararararara
Tarararararara, tarararararara
Lá pelas tantas, Gabriela deu o estrilo:
– Mas não tem rima!
Sensação. Ninguém parava de não acreditar. Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos últimos versos... quérulo... branco... tuba... inane... vaga... Infinitamente...
Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!
A rima deve estar no meio – diz, sentencioso, o major Pitaluga.
E todos suspiraram, agradecidos.

Mário Quintana (Sapato florido, Ed. Globo, 1948, p 116)



O repórter policial

Stanislaw Ponte Preta

O repórter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que fala uma língua especial, imposta pela contingência: quanto mais cororoca melhor. Assim como o locutor esportivo jamais chamou nada pelo nome comum, assim também o repórter policial é um entortado literário. Nessa classe, os que se prezam nunca chamariam um hospital de hospital. De jeito nenhum. É nosocômio. Nunca, em tempo algum, qualquer vítima de atropelamento, tentativa de morte, conflito, briga ou simples indisposição intestinal foi parar num hospital. Só vai para o nosocômio.

E assim sucessivamente. Qualquer cidadão que vai à Polícia prestar declarações que possam ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar), é logo apelidado de testemunha-chave. Suspeito é Míster X, advogado é causídico, soldado é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada, a vítima de um crime – de costas ou de barriga pra baixo – fica numa destas duas incômodas posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral.

Num crime descrito pela imprensa sangrenta a vítima nunca se vestiu. A vítima trajava. Todo mundo se veste,... mas basta virar vítima de crime, que a rapaziada sadia ignora o verbo comum e mete lá: “A vítima trajava terno azul e gravata do mesmo tom”. Eis, portanto, que é preciso estar acostumado ao “métier” para morar no noticiário policial. Como os locutores esportivos, a Delegacia do Imposto de Renda, os guardas de trânsito, as mulheres dos outros, os repórteres policiais nasceram para complicar a vida da gente. Se um porco morde a perna de um caixeiro de uma dessas casas da banha, por exemplo, é batata... a manchete no dia seguinte tá lá: “Suíno atacou comerciário”.


Um mundo de papel

Rubem Braga

Foi em Minas, creio, que um secretário de Estado mandou afixar em sua repartição esta frase com um conselho aos funcionários: “Não basta despachar o papel, é preciso resolver o caso”.

Quem fez isso devia ser um empírico, sem uma verdadeira e fina vocação burocrática. O exemplo mais brilhante dessa vocação deu-o anos atrás um cavalheiro cujo nome não sei; era presidente da Câmara Municipal de S. João do Meriti.

Foi o caso que morreu um vereador, e seu suplente quis tomar posse. O presidente exigiu dele a certidão de óbito do vereador. O suplente disse que não a trouxera, mas podia providenciar depois; achava, entretanto, que não havia inconveniente em tomar posse naquela mesma sessão…

O presidente respondeu:

– Não é questão de conveniência ou inconveniência. O que há é impossibilidade. O suplente não pode se empossar sem estar provada a morte do vereador.

– Mas V. Ex.ª não ignora que o vereador morreu…

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas V. Exª. tomou conhecimento oficial da morte; V.Ex.ª, como presidente da Mesa, praticou vários atos oficiais motivados por essa morte!

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas o morto foi velado neste recinto. O enterro saiu desta sala, desta Câmara.

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas V. Ex.ª segurou uma das alças do caixão!

– A prova do falecimento é a certidão de óbito.

E não se foi adiante, enquanto o suplente não apresentou a certidão de óbito. Todos os argumentos esbarravam naquela frase irretorquível, perfeita, quase genial, que merecia ser gravada em mármore no frontispício do DASP: “a prova do falecimento é a certidão de óbito”. Só os medíocres, os anarquistas e os pobres-diabos, condenados a vida inteira a ser suplicantes ou requerentes e que jamais serão Autoridade, não percebem a profunda beleza dessa frase. Eles jamais compreenderão que uma pessoa não pode existir sem certidão de nascimento nem pode deixar de existir sem certidão de óbito. Que acima da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça está esta coisa sacrossanta: o papel.

Eu também quero fazer uma frase. Proponho que o DASP investigue o nome daquele antigo presidente da Câmara Municipal de São João do Meriti e, no dia em que ele morrer, mande gravar em seu túmulo (depois, naturalmente, de apresentada a certidão de óbito) esta frase de suprema consagração burocrática: “Ele amou o papel”.

Rio, maio, 1968.


Conversinha Mineira

Fernando Sabino

– É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
– Sei dizer não senhor: não tomo café.
– Você é dono do café, não sabe dizer?
– Ninguém tem reclamado dele, não senhor.
– Então me dá café com leite, pão e manteiga.
– Café com leite só se for sem leite.
– Não tem leite?
– Hoje, não, senhor.
– Por que hoje não?
– Porque hoje o leiteiro não veio.
– Ontem ele veio?
– Ontem não.
– Quando é que ele vem?
– Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
– Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
– Ah, isso está, sim senhor.
– Quando é que tem leite?
– Quando o leiteiro vem.
– Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
– O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
– Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
– Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
– E há quanto tempo o senhor mora aqui?
– Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
– Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
– Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
– Para que Partido?
– Para todos os Partidos, parece.
– Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
– Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
– E o Prefeito?
– Que é que tem o Prefeito?
– Que tal o Prefeito daqui?
– O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
– Que é que falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
– Você, certamente, já tem candidato.
– Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
– Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
– Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...


(Texto extraído do livro "A Mulher do Vizinho", 
Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1962, pág. 144.)


Libório

Graciliano Ramos

Esta façanha pode ser atribuída a Libório, personagem curiosa que provavelmente nunca existiu. E que, sem ter existido, viajou muitos anos pelo Nordeste, realizando falcatruas com engenho, de sorte que as vítimas ficavam sempre em situação ridícula.

No sertão bárbaro, onde se perdoa facilmente o assassino, as ofensas à propriedade são punidas com rigor excessivo, pois a fazenda é escassa e a população cresce demais. Contudo as malandragens desse herói, produto de ficção popular e cabocla, provocam simpatia e riso. Porque revelam inteligência e malícia, a reduzida inteligência e a malícia grossa existentes no roceiro. E mostram que a pecúnia subtraída se achava nas mãos de indivíduos incapazes, dignos de ser depenados.

Admitamos que o caso se tenha dado com essa figura de sonho. Libório chegou a certo lugarejo onde ninguém o conhecia. Ou, antes, onde o conheciam como sujeito morigerado, trabalhador e de espírito curto. Cigano por natureza, adotava caracteres diferentes e acomodava-se a vários ofícios. Dessa vez era agricultor - e honesto.

De saco no ombro e chiqueirador, tangendo o comboio, parou diante dos armazéns, propondo um negócio mastigado, cheio de curvas e mal-entendidos. Ao concluir a transação, depois de regateios e embelecos infinitos, havia percorrido todas as ruas, estacionado em todos os balcões, feito confidências a todos os caixeiros. Cercado por um rancho de basbaques, descarregou os animais, questionou sobre o peso e o preço da mercadoria, recebeu a paga, que foi contar vagarosamente na calçada. Sentou-se, dividiu as cédulas, as pratas e os níqueis em lotes, resmungou, mexeu os dedos. Amarrou tudo num lenço vermelho e meteu o lenço na capanga.

Em seguida pediu um conselho. Não levava pelos caminhos aquela fortuna, que os arredores fervilhavam de malfeitores. Queria que lhe apontassem um cristão decente para guardá-la. Ouviu diversas opiniões e escolheu o vigário.

– Boa ideia. Vou conversar com ele que é pessoa de Deus. Retirou-se, entrou na igreja, passou meia hora no confessionário, narrando pecados.

Dois meses depois a casa do reverendo se encheu de curiosos atraídos por gritos medonhos. Parecia que estavam matando gente ali.

– Canalha! Bandido! Vociferava num desespero a santa criatura.

– Vossemecê fala desse modo porque tem poderes, governa a freguesia, replicava Libório calmo. E eu baixo a cabeça, que sou pequeno. Mas desaforo não adianta. Escondeu o dinheiro no bolso da batina e me ofereceu papel selado. Não aceitei. Havia de aceitar letra dum homem que tem parte com Deus?

O eclesiástico soprava, inchava, batia os queixos. Entonteceu, embatucou, foi-se avermelhando e acabou roxo de indignação. Aquele descaramento assombrava-o. Quando se desengasgou, explodiu:

– O senhor está doido.

– Estou no meu juízo perfeito, murmurou o sem-vergonha. Vossemecê é que não tem memória. Estava rezando na sacristia. Não se lembra? Escutou a minha história, combinou tudo muito certinho e me abençoou. Foi ou não foi?

Os olhos do padre arregalavam-se, corriam os circunstantes, procurando o cabo:

– Para que serve a polícia? Só me faltava essa infelicidade, suspirou Libório com desalento. Bonita justiça. Tiram-me o cobre e mandam-me para a cadeia. Além de queda, coice. Vida ruim.

Formaram-se dois grupos: um cobria o matuto de injúrias; o outro, favorável a ele, não se animava a apoiá-lo abertamente. No meio da balbúrdia choviam perguntas. E Libório se desembaraçava, sem se exaltar:

– Ora testemunha! Ia lá procurar testemunha para um trato desse, com um vivente que anda perto do céu? Testemunha não tenho. Mas é como se tivesse. Todo mundo sabe que estou em cima da verdade. Tive medo de ladrões e fiz tolice. Pensei que me benzia e quebrei as ventas.

Esta segurança e o modo lorpa do safado abalavam os intrusos. Não se capacitavam de que semelhante palerma tivesse fabricado a enorme patifaria. As caras revelavam confusão, havia dúvida e constrangimento na sala.

Nesse ponto um sujeito sabido teve a idéia de engabelar o malandro. Oferecendo-lhe uma vantagem repentina, era possível que ele, na surpresa, metesse o rabo na ratoeira, caísse em contradição. E atirou-lhe de chofre:

– Seu Libório, o senhor está enganado. Quem recebeu o dinheiro fui eu. Pode ir buscá-lo quando quiser.

– Sem dúvida, respondeu Libório. Eu vou. Estando na sua mão, está bem guardado. Nunca desconfiei de você não. Agora quero receber o que entreguei a seu vigário. Dê cá o meu conto de réis, seu vigário, tenha paciência. Faça como o seu amigo, que deve e confessa diante do povo, não esfola os pobres.

*****

(Viventes das Alagoas, São Paulo, Martins, 1961)

Viventes das Alagoas (1962) – Reunião de textos que misturam crônica, ensaio e ficção. Os textos híbridos que compõem este livro fazem parte das colaborações de Graciliano para a imprensa a partir de 1937. Considerado um subversivo pela ditadura do Estado Novo, o velho Graça é preso em 1936 em Maceió, e transportado para o Rio de Janeiro, onde é libertado apenas em 1937. Fixado na cidade desde então, o autor de Caetés e Angústia passa a escrever artigos para revistas como O Cruzeiro, Cultura Política e jornais como Diário de Notícias e A Tarde.

O livro traz ainda em suas páginas finais, os Relatórios redigidos por Graciliano quando prefeito de Palmeira dos Índios – AL. A linguagem burocrática e formal, característica desses documentos, é substituída por notas irônicas e sarcásticas, além de rasgos literários que simbolizam o ingresso de Graciliano na literatura.

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