domingo, 15 de novembro de 2015

Pequenas histórias brasileiras I

Uma história do Moacyr Scliar


No livro “Mês de Cães Danados”*, há anedotas sobre aqueles agitados e deliciosos dias de agosto de 1961 (Época da Legalidade). Numa manifestação em apoio a Brizola e pela posse de Jango, Moacyr viu-se ao lado de um colega da faculdade de Medicina. Caiu um toró. O cara continuou com seu guarda-chuva fechado. “Por que não abre esse guarda-chuva?”, perguntou, enfim, Scliar, “meio irritado”. A resposta foi de trovejar: “Contra balas não adiantam guarda-chuvas”.

Scliar, muitos anos depois: “Eu poderia ter ponderado que contra a chuva, sim, o guarda-chuva adiantaria, mas a grandiloquência dava o tom, sob o temporal”.

Em outro momento, quando se erguiam barricadas com bancos virados, ele encontrou um “gurizinho”, que, chorando, pediu-lhe para dizer aos seus pais, “caso ele tombasse em combate”, esse era o tom teatralmente revolucionário, “que tinha lutado por uma causa nobre”. Era Marcos Faerman, que se tornaria um combativo jornalista. O fecho de Scliar é um riso doce e nostálgico: “Afora os bancos, ninguém tombou. Os tanques não apareceram, ou porque não tinham saído do quartel, ou porque não conseguiram chegar ao Centro. E aquele dia terminou, como os outros, com chope no bar”.



* “Mês de cães danados” é um romance de Moacyr Scliar publicado originalmente em 1977 e vencedor do Prêmio Brasília de Literatura daquele ano.


Capa do livro: Brigadianos defendendo o Palácio Piratini,
em Porto Alegre.


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