terça-feira, 10 de novembro de 2015

Nega Lu

Um personagem da vida boêmia de Porto Alegre


A foto de Benjamin Junge pertence ao arquivo do Grupo Nuances.

Nega Lu e sua autodefinição:

"Sou preto, pobre e puto.”

Nega Lu, personagem símbolo da Esquina Maldita, que abrigou um gueto boêmio com vida intelectual inquieta e independente, em Porto Alegre, nas décadas de 1960 e 1970.

Luiz Bastos era seu nome, mas todo mundo só conhecia por Nega Lu, figura tradicional da esquina maldita. Sua presença era o equilíbrio entre o medo da repressão “di cair”, do DOPS, e a alegria louca da Nega Lu.  Circulava com desenvoltura em toda esquina maldita e toda Osvaldo Aranha, mas seu ponto predileto era no Copa 70, bar da esquina da Sarmento com Osvaldo, que tinha esse nome em homenagem ao tri campeonato brasileiro no México, enquanto no Alaska as discussões eram sempre sobre política, no Copa 70 a coisa era mais liberal, circulavam os mais “modernos” o território era livre, mas era comum grupos de estudantes saírem do Alaska para “rachar” um carreteiro no Copa.

Pois nesse território Nega Lu fazia seus shows particulares, suas performances sem programação prévia. Nunca teve problema com sua sexualidade, homossexual, era respeitado em todos os grupos que frequentavam a esquina, nem podia ser diferente, a esquina era vanguarda.

Inovador, extremamente ousada, desafiava os padrões e, provavelmente, a figura mais conhecida da esquina maldita, mesmo como toda a agitação política, a Nega Lu, sem dúvida, fora a figura mais marcante da esquina.

Professora de dança, carnavalesca, era também a rainha da Banda Saldanha Marinho que saia pelas ruas do Menino Deus. A Saldanha Marinho é o típico exemplo de manifestação cultural e popular de Porto Alegre.

Com a morte de Nega Lu, foi-se também um pouco da alegria da espontaneidade de uma cidade mais alegre. Segundo Mery Mezzari, quando da sua morte disse “A Nega deixa saudade nos corações de seus amigos, amigas, parentes, vizinhos. Com ela, vai-se um pouco da alegria e da ousadia deste Porto Alegre. Vai, Nega, que a tua trajetória seja iluminada por um globo de boate, que muitos “bofes” maravilhosos te esperem no Paraíso. Porque a gente sabe que tu não estás morta. Tu viraste purpurina”.

Com a morte de Nega Lu, foi-se também um pouco da alegria da espontaneidade de uma cidade mais alegre.

Uma estrangeira em Porto Alegre

Não precisava ser frequentador da Esquina Maldita para ter visto Nega Lu cantar Summertime nos bares da Capital. Mas foi na Sarmento com a Osvaldo que a bailarina e garçonete fez suas mais inusitadas e lendárias performances.

Ela, na verdade ele, batizado Luiz Aírton Bastos (1950 – 2005), é desses personagens que brilhariam mesmo numa galeria dos mais reluzentes nomes da noite porto-alegrense. O relato de Esquina Maldita lembra suas frases de efeito (“Sou uma mulher de pouca maquiagem, mas que sabe usar os talheres”) e ressalta seu pioneirismo ao chamar a atenção para a condição homossexual e ao cavoucar espaço nas companhias de dança (até então bastante restritas).

O diretor teatral Júlio Conte escreveu um conto sobre um encontro (fictício!) de Nega Lu com o escritor Albert Camus. Foto abaixo. Após se encharcar de absinto no Alaska e esticar a noite nos inferninhos da Voluntários da Pátria, Camus, que era francês nascido na Argélia, teria revelado se sentir um “estrangeiro” em sua própria pátria. Ao que Nega Lu respondeu: “Imagina eu, negro, pobre e veado, que canta jazz e mora em Porto Alegre”.


Encontro inusitado

Rodrigo Lopes, grande cenógrafo brasileiro, postou um comentário sobre o fato do escritor existencialista Albert Camus também ter estado em Porto Alegre. Andei pesquisando a vida do filosofo francês nascido na Argélia e descobri um fato que pouca gente sabe. Camus, já famoso, passou efetivamente por Porto Alegre, porém teve um encontro bastante tumultuado com uma figura famosa da cena noturna da capital de nome Airton. Este nasceu um negão de voz grossa e pernas firmes, porém, apesar de carregar o nome do maior zagueiro gaúcho de todos os tempos, o central Airton Ferreira dos Santos, o nosso Airton enveredou pela vida artística.

Cantava jazz como ninguém. Certo é que nestes tempos aos que me refiro quase ninguém cantava no Paralelo 30, mas isso não tira o seu mérito, pelo contrário, o exalta. Ele era especial. Ou ela, por que entre outras virtudes estava sua capacidade de doação e de fazer os outros felizes. Odiava quando o chamavam de Airton e isso só acontecia quando era obrigado a mostrar a carteira de identidade para trocar um cheque no banco ou quando levava um atraque da polícia durante suas incursões noturnas na Redenção

Seu nome de guerra, regionalmente conhecido, era Nega Lu. Figura querida tanto quanto folclórica, Nega Lu, frequentava a Esquina Maldita como era conhecido a interseção da Sarmento Leite com Oswaldo Aranha onde se abrigavam os lendários bares Alaska, Copa 70 e Marius e reunia toda intelectualidade universitária quando existia intelectualidade na universidade. Apenas o Marius ainda mantém as portas abertas, mas nada tem a ver com o exuberante clima de sensualidade de debate político que marcos os anos 60. Pois Nega Lu, habitué do Bar Alaska teve um tórrido encontro com Camus. Beberam cachaça com absinto toda a madrugada até que o Isack, garçom não menos lendário e simpático, começou e empilhar as cadeiras e o dia amanhecia a revelia dos desejos conjuntos dos boêmios engajados. Nega Lu resolveu levar Camus para a Voluntários da Pátria, último reduto da alegria boêmia que teimava em não alvorecer. Nega Lu era fluente no francês e entre uma canção e outra despejou todo seu charme sobre o francês. Albert Camus suava bicas sob a elegante gabardine. Fumava um Galouises atrás do outro e desenhava um manto azulado de fumaça como uma capa de rainha. Olhava nos olhos de Nega Lu enquanto ela falava e Camus dava mostras de estar prestes a cair de quatro, tal estado de sítio se encontrava. Nega Lu jura em seus diários secretos que ele confessou depois de um longo silêncio para atravessar a Farrapos que Camus sentir-se um estrangeiro em sua pátria, ao que Nega Lu respondeu com uma gargalhada:

− Se você que é argeliano e francês se acha estrangeiro, imagina eu, um nego, pobre, veado que canta jazz e que mora em Porto Alegre. Está bom pra ti ou que mais?

Camus parece não ter entendido, pois se afastou assustado frente à aproximação de um pivete travestido no final da Rua Garibaldi. Nega Lu jurava, enquanto estava viva, que Camus fugiu de seus lábios, mas há que diga com desdém que ele era muito valente para encontrar árabes assustadores em praias e ruas desertas, mas não tinha peito de olhar na cara de um pivete na Garibaldi. Como somente parte dos diários secretos de Nega Lu chegou aos nossos dias, está história não pode ainda se comprovada. A não ser pelo testemunho do pivete travesti que anos depois é um conhecido Deputado Federal de legenda incerta.

Texto de Júlio Conte


Capa do livro sobre Nega Lu



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