quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Encontro na Madrugada*

Francisco Riopardense de Macedo


Era uma noite porto-alegrense daquelas que a gente, ao deitar, cobrindo-se sente calor, mas não pode deixar de fazê-lo porque sentiria frio. Destas coisas que talvez não serão compreendidas em outra parte. E como são as sensações físicas do meio sono que provocam os sonhos ou pesadelos, aquela dormida foi começando devagarinho em meia penumbra, méis-tintas, que logo se transformaram numa neblina de madrugada silenciosa, em que andávamos na Praça Montevidéu. Nossa atenção foi despertada por um vulto masculino, que se destacava daquela atmosfera pesada e sem cor.

- Fogo, por favor.

Felizmente, nosso isqueiro de duas rosetas grandes funcionou logo, por sorte, desde a primeira raspada numa delas. Como de hábito, nas madrugadas vazias, puxamos um “papo” com o estranho, curiosos por saber o que fazia àquela hora da madrugada, sozinho, encostado na porta do Banco de São Paulo.

- Olhando o prédio, a Intendência.

- Intendência? – perguntei meio admirado daquele nome. O amigo que se referir à Prefeitura, que está sendo pintada.

- Para mim é Intendência. Em 1898, era o nome escrito em todas as plantas, e também na ata que colocamos na pedra fundamental. Você não imagina a trabalheira que deu. Em certos lugares tivemos de ir com as fundações até quatro metros e meio. O mínimo foi de dois e vinte.

Comecei a desconfiar daquele cidadão, que falava manso como se o tempo não existisse para ele. Notei que a manhã não se alterava em nada, tudo envolto naquele cinza pesado no qual se divisava apenas os contornos da figura, que falava sem pressa, com os olhos fixos no prédio.

Um táxi de luz alta cortou a neblina, vindo do mercado e subiu a rua com a descarga aberta, quebrando o silêncio que aquecia nossa prosa.

- Que barulheira! Não era assim naquele tempo, nem havia a rua por onde subiu essa carruagem maluca. Como é o nome dela?

- Avenida Borges de Medeiros.

- Imagine, uma avenida! Aqui era só uma fiada de casas que ia até o outro lado, até aquelas árvores. Terminava com o edifício Malakoff, que era o maior da cidade. Tudo isto era chamado Praça 15, não sei se  ainda é, mas ali naquele lado – e apontou para o prédio do Banco do Brasil – também eram casas baixas de um só andar, e tudo terminava na doca, na beira d´água.

- Que beira d´água?

- O rio, seu moço. Não estou lhe dizendo que nós tivemos de levar as fundações da Intendência para mais de quatro metros? E sabe o que é isto, de se fazer buraco dentro d´água e puxar o lodo com carroça? O rio ficou ali mesmo, logo atas, onde está aquele prédio grande, com cara de mais velho do que este.

Percebi que estava se referindo à Prefeitura nova e que esta não o agradava. O cigarro do meu amigo ia se acabando e ele insistia num toco apagado. Esgrimo de novo meu isqueiro e o ajudo a continuar, fazendo uma pergunta para me aliviar:

- E a pintura?

- Já reparei, está ficando boa. Não se pôde fazer coisa melhor naquela época. Você que ver? Tenho ainda aqui no bolso o que custou tudo isto. Está aqui, quatrocentos e quarenta e um contos, cento e vinte e um mil, novecentos e setenta e dois réis...

- Tudo?

- Sim, menos a pintura e instalações que foram a... deixa eu ver... está aqui na outra página: cinquenta e oito contos, novecentos e doze mil trezentos e trinta e sete réis. Eles quiseram separar isto da construção do prédio. A maldita mania de economizar até com obras como esta. O Montaury, depois, no relatório, se orgulhava porque o metro quadrado tinha sido mais barato que o de outra obra pública do Estado. Mas agora estou contente. Finalmente a Intendência vai ser pintada como deve ser o neoclássico. Você sabe o que é neoclássico?

- Tenho uma vaga ideias – respondi meio com medo. Continuei numa pergunta:

- Aquelas estátuas que estão lá em cima?

Não lembro bem se cheguei mesmo a formular a pergunta inteira, nem sei se peguei no braço do homem. Mas senti que aquele vulto, impreciso mas muito falante, foi comigo até a beira da calçada, e, o que é curioso, no meio daquela neblina pesada, onde tudo tinha a mesma cor, se destacavam as esculturas lá em cima, num tom de cobre velho. Entendei muito bem suas palavras, cada vez mais lentas:

- Ótimo, é isto mesmo. Você sabe que apesar de feitas de cimento, cal e areia, elas deveriam aparentar um metal que significasse resistência e perpetuidade. A simbologia positivista, você pode reparar...

Não entendi mais nada daí em diante, mas aprontava-me, a perguntar sobre o relógio quando, não sei como nem de onde veio, senti forte batida no braço esquerdo e uma voz mais enérgica falar:

- Acorda, homem, está na hora.

A luz, coada pelas frestas da veneziana, entrava devagar no quarto ainda em penumbra. E vi os móveis, a cama e o cobertor com que lutara a noite inteira, sem saber. Ainda sonolento, abri mais os olhos e vi tudo, sem compreender muito bem.

- O que há? Espera, deixa eu acordar. Não, não deixa, espera que eu termine de perguntar...

- Perguntar o quê? Estás sonhando?

- Estava e te garanto que vi o Colfosco.

- ???

- João Antônio Luiz Carrara Colfosco, engenheiro arquiteto que projetou a Intendência, isto é, Palácio, ou melhor, a Prefeitura que agora foi pintada. Faz muito tempo, morreu em 1910.


Prefeitura - 1925

João Antônio Luís Carrara Colfosco ou Giovanni Antonio Luigi Carrara Colfosco (Veneza, Itália (?) -  Rosário do Sul, RS, 8 de outubro de 1910) foi um engenheiro italiano estabelecido no Rio Grande do Sul.

* Este conto é de 1982 e está no livro “Porto Alegre: Aspectos Culturais”.

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