sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Dois times sem jogo



Certa vez, o União da Barra do Catimbó recebeu o seguinte oficio:

Ilmos. Srs.
Do União da Barra do Catimbó
Nós vem por essa mal traçada linha chamar vocês aí pra jogar no campo da gente uma partida de futebol no Domingo, que a gente só joga nesse dia, que nos outro a gente trabalha. Se vocês quiser vim, pode responder o oficio dizendo que vem, que é pra gente pendurar ele na tabuleta do boteco do Almeida pros sócio do time da gente poder ver que vocês aceitou e se na hora vocês ficar com medo e não vim, eles não ficam pegando no pé da gente e dizendo que essa diretoria não tem ninguém que sabe tratar jogo. Agora, se vocês não tão a fim de encarar a gente, então é problema de vocês. O Flor do Ó não tem medo de ninguém.

(Assinado: Olavo Silva, Diretor Esportivo do Flor do Ó)

Assim que leu o ofício, o seu Azulão, presidente do União da Barra do Catimbó, se picou de raiva. Convocou a diretoria do seu time, leu o oficio do adversário e, de imediato, todos toparam o jogo com o Flor do Ó. E, como era solicitado pelo desafiante, mandaram a resposta num oficio caprichado:

Ilmos. Srs.
Diretores do Flor do Ó
Nós recebeu o oficio marcando jogo e responde por essa mal traçada linha que aceita. Nós não é de enjeitar parada. Se a gente tivesse medo de homem, não saia na rua vestindo calça. A gente vai, pode anunciar. Mas tem um negócio que é o seguinte: nós dá o juiz e vocês que é o dono do campo dá a bola. Domingo tamos aí na Freguesia do ò pro que der e vier. Responde logo se aceita dar a bola. Se tiver medo de nós, é só dizer que não quer, que a gente não vai.

(Assinado: Eldócio Pereira, o Azulão, 
Presidente do União da Barra do Catimbó).

De posse do ofício do União da Barra do Catimbó, o pessoal da diretoria do Flor do Ó se atucanou e, rápido e rasteiro, mandou um pivete levar outro oficio, com novas bases:

Ilmos. Srs.
Diretores do União da Barra do Catimbó
Nós recebeu seu oficio que veio cheio de mumunha. E passamo a responder nessa mal traçada linha. Vocês quer moleza, já vi tudo. Mas a gente não tá a fim de criar caso. Só queremos jogar. Vocês pode trazer juiz, que com nós ele não vai ter vida mansa. Se tiver afanando a gente, nosso capitão do time toma o apito dele e dá pra outro. Nós sabe que na Barra do Catimbó só tem juiz ladrão. Nós não é otário. Mas aceitamo nessa base que botamo aqui. Agora, no negócio da bola, vocês traz a bola, nós dá o campo e vocês a bola, cada um dá uma coisa. Se quiser assim, tá combinado.

(Assinado: Olavo Silva, Diretor do Flor do Ó)

Mal o Azulão meteu as botucas no oficio do adversário, segurou o pivete mensageiro e fez com que ele esperasse às pamparras pra levar outro oficio de volta:

Ilmos. Srs.
Diretores do Flor do Ó
Juiz ladrão tem é no bairro de vocês. Tudo abafador. Nós manja a negada daí. E não adianta vim com grupo pra cima da gente, que a gente não é trouxa e não vai entrar em truque de papagaio enfeitado da Freguesia do Ó. Juiz que a gente leva pra apitar o jogo apita até o fim e não adianta estrilo de capitão fajuto. Se nós leva o homem nós garante ele, nisso vocês pode botar fé. E no negócio da bola não tem arrego: vocês dá a bola. Agora, se vocês quer arranjar desculpa pra não jogar é problema de vocês. Nós foi convidado. Aceitamo porque nós não tem medo de ninguém. Na bola e no pau nós somo mais nós.

(Assinado: Eldócio Pereira, o Azulão, 
Presidente do União da Barra do Catimbó)

Ao tomar conhecimento do novo ofício do União, a corriola do Flor do Ó se entralhou e, sem demora, mandaram mais um ofício:

 Ilmos. Srs.
Diretores do União da Barra do Catimbó
Nós vem por meio dessa mal traçada linha avisar que não aceita esculacho de ninguém. Ladrão é vocês desse pedaço fedorento. Nós aqui é trabalhador. E dentro do campo quem fala mais alto, o único que chia, é o capitão do time e se ele resolver tirar o pilantra que vocês botaram pra apitar pode contar que ele tira, porque a gente dá a maior moral pra ele. No negócio da bola, vocês tem que trazer a de vocês, que a bola da gente tá com bexiga e pode estourar.

(Assinado: Olavo Silva, Diretor do Flor do Ó)

A diretoria do União, presidida pelo Azulão, não era de engolir desaforo. Por isso, mal acabaram de ler o oficio, se bronquearam e azedaram mais na resposta:

Ilmos. Srs.
Diretores do Flor do Ó
A Barra do Catimbó não é bairro de ladrão, a mãe de vocês não mora aqui. Gaturama é a patota daí. E a gente não quer levar a bola nossa porque sabe que vocês vai querer roubar ela. A negada do Democrata contou pra gente que quando foi jogar aí a bola deles caiu na vala e vocês enrustiram e eles voltaram sem bola. Nós não entra nessa. Deixa de ser fominha e bota a bola que vocês afanaram do Democrata em campo.

(Assinado: Eldócio Pereira, o Azulão, 
Presidente do União da Barra do Catimbó)

Esse ofício do Azulão revoltou bastante a turma do Flor do Ó e eles, naturalmente enviaram um pra acabar com a graça:

Ilmos. Srs.
Diretores do União da Barra do Catimbó
Nós não afanou bola de ninguém. Nós não ia se sujar por tão pouco. O Democrata aqui apanhou na bola e no tapa e por isso tá fazendo fuchico. Agora, vocês fizeram mal de meter a mãe no meio disso. Quando derem as fuças aqui, vão ter que engolir isso. Porque jogo só vai ter se vocês trusser bola. Ladrão pensa que os outro é ladrão, mas nós não é. Pode trazer a bola sossegado.

(Assinado: Olavo Silva, Diretor do Flor do ó)

Por fim, o Azulão mandou um ofício definitivo:

Ilmos. Srs.
Diretores do Flor do Ó
Nós não vai porque não vai deixar os ladrão daí roubar nossa bola. Mas quando vocês quiser dar a bola, e gente vai. Quanto esse negócio de engolir o oficio da mãe de vocês, nós duvida e faz pouco. Tamos aqui pra qualquer coisa. Se vocês tem medo de vim aqui, pode esperar que a gente se encontra nas quebradas.

(Assinado: Eldócio Pereira, o Azulão, 
Presidente do União da Barra do Catimbó)

Por essas e outras, o União da Barra do Catimbó e o Flor do Ó ficaram sem jogo.




Texto de Plínio Marcos
Santos, 29 de setembro de 1935
São Paulo, 29 de novembro de 1999.






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