domingo, 8 de novembro de 2015

Bento Gonçalves versus Onofre Pires

(Outra versão)



Nas guerras, nem sempre as amas convencionais foram as mais decisivas. A calúnia, a intriga e a difamação produziram, muitas vezes, efeitos mais danosos do que o fuzil, a espada e a lança.

A Revolução Farroupilha, pela sua duração e através dos “Bentos Manoeis Ribeiros”, fornecia aos imperialistas um cadastro moral das principais lideranças republicanas. O conhecimento dos interesses, das fraquezas, dos melindres e das mágoas dessas personalidades farrapas constituía precioso acervo para o Governo de São Cristóvão.

O Coronel Onofre Pires, homem de estatura gigantesca, conhecido por sua valentia, orgulhoso, de restritas luzes, poderia constituir o elemento ideal para atingir Bento Gonçalves. Embora primos, já se haviam desentendido quando foram presos no Combate da Ilha de Fanfa. Bento Gonçalves, homem de estatura mediana, mas singular manejador de armas, não era menos valente e destemido do que aquele coronel.

Um ano antes da pacificação, em Alegrete, então capital farroupilha, os instigadores de Onofre levaram a extremos suas diatribes. Constituíam a oposição na Assembleia Constituinte que deveria dar os rumos institucionais da República.

Na época, Antônio Paulino da Fontoura, vice-presidente e oposicionista de Bento Gonçalves, vítima de crime passional, foi assassinado.

Como a urdidura dos homens se serve, por vezes, despudoradamente, até de desígnios transcendentais, Bento Gonçalves passou a ser citado, por seus adversários, como mentor do assassinato. Onofre tornou-se o principal porta-voz e testa-de-ferro dos detratores, acusando o General de assassino e ladrão.

Bento Gonçalves, que se mantinha até então em posição altiva e discreta diante das aleivosias, entendeu que não mais era recomendável continuar em magnânima transigência. Escreveu a Onofre, iniciando assim: “Havendo chegado a meu conhecimento, em princípios do corrente mês, que, em presença de vários indivíduos do exército, quando vinha em marcha, V.S.ª avançara posições ofensivas a minha honra, ...

Mais adiante, Bento Gonçalves pedia que Onofre confirmasse, por escrito, as acusações que fizera.

Onofre respondeu a carta, com redação que, segundo historiadores, não é de sua autoria. Nela se pode ler: “Ladrão da fortuna, ladrão da vida, ladrão da honra e ladrão da liberdade, é o brado ingente que contra vós levanta a nação rio-grandense...”. Seguiu, nessa linha, concluindo: “Fica assim contestada vossa carta de ontem.”      

Ao receber a carta, Bento Gonçalves não conseguiu esconder sua estupefação. Guardou-a no bolso e montou a cavalo, tendo antes proibido seu filho e outros presentes que o seguissem.

Dirigiu-se à barraca de Onofre, onde também estavam estabelecidos Lucas de Oliveira e Vicente da Fontoura. Perguntou por Onofre, que logo apareceu.   

– Já sabeis para que lhe procuro, disse Bento Gonçalves.

Sim, senhor. Há muito esperava por isso, retrucou Onofre.

Silenciosos, dirigiram-se à orla de um mato na margem do Sarandi.

Nesse mato, outros testemunhavam o acontecimento, o que é contestado por alguns historiadores.

Ao apear-se, Bento Gonçalves, com calculada altivez, dirigiu-se a Onofre: “Coronel, pelo fato de havê-lo desafiado, Vosmecê deve hoje se convencer de que o mesmo teria feito com Paulinho da Fontoura se me tivesse ofendido. Mas nunca o teria assassinado como Vosmecê e outros espalharam, afirmando ter eu mandado matá-lo”.

Onofre replicou: “Nunca lhe fiz tal injustiça”.

Iniciaram o confronto, mantendo-se Onofre em defensiva.

Bento Gonçalves, experimentado dominador de situações, sabedor de que a palavra aliada à espada era mais poderosa que somente esta, não descuidava: “Sois um covarde, coronel! Somente foges!”

Onofre, estrategicamente provocado, conduzido à impetuosidade que empana a eficiência, como uma fera incontrolável, contra-atacou e foi ferido.

Bento Gonçalves, ao vê-lo sangrar, deu-se por satisfeito.

Onofre, enraivecido, contrapôs que dali só um sairia vivo e, novamente, atacou com afoiteza.

Foi ferido no antebraço. Caiu-lhe a espada, de forma a não mais conseguir empunhá-la, vitimado por forte hemorragia.

Bento Gonçalves, pondo-se a cavalo, voltou à barraca de Onofre, onde a angústia e a aflição ansiavam por desfecho diferente. Sofrenou e disse para os companheiros de Onofre: “Eis o que os senhores queriam. Mas para os senhores não usarei a espada, usarei este rebenque se tiverem a audácia de insultar-me”.

Três dias depois, morria Onofre em sua barraca, envergonhado e desgostoso por ainda ter sobrevivido.

Morrera um bravo, uma legenda farrapa, vítima da ardilosa insídia adversária.

O verdadeiro alvo era Bento Gonçalves, mas este era maior do que a insídia.


História e Curiosidades – César Pires Machado



Bento Gonçalves


Notas:

O duelo à espada foi realizado em 27 de fevereiro de 1844, atingido no braço, Onofre morre dias depois, 3 de março de 1844, de infecção, aos 43 anos de idade.

Guerreiro durante a maior parte de sua vida, Bento Gonçalves da Silva morreu na cama. Maçom e defensor de ideias liberais, pelas quais lutou durante os quase dez anos da Revolução Farroupilha, viu, ao final de seu esforço, a vitória do poder central. Presidente da uma república, viveu a maior parte de sua vida em um Império.

Embora tenha iniciado as negociações de paz com Caxias, em agosto de 1844, Bento não iria concluí-las. O clima de divisão entre os farrapos continuava, e ele foi afastado das negociações pelo grupo que se lhe opunha. Desligou-se, então, definitivamente da vida pública. Passou os dois anos seguintes em sua estância, no Cristal e, já doente, foi em 1847 para a casa de José Gomes de Vasconcelos Jardim, onde morreu, de pleurisia, em julho daquele ano, aos 55 anos de idade.

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