sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A troça ao Modernismo

Foi a 19 de junho de 1924 que Graça Aranha proferiu na Academia Brasileira a famosa conferência sobre o Espírito Moderno, de que resultaria o seu rompimento público com a instituição.

Na ânsia de renovar-se, o romancista de Canaã não hesitaria em tentar alterar as matrizes de seu próprio estilo, substituindo-lhe o ritmo largo por um ritmo sincopado, de que é exemplo este excerto de uma de suas páginas modernistas: “Desejo da Terra: árvore! Espiritualidade da Terra: árvore! Elegância, força, doçura, fragilidade, eternidade. Folhas: adorno e sentimento. Galhos: defesa, amparo, agasalho, aspiração, elevação para o Infinito. Postura da árvore: adoração perpétua, trágica imobilidade. Silêncio. Campo deserto, árvore solitária. Montanha espectral, árvore, fantasma alucinado”.

Seis dias depois da conferência de Graça Aranha, Carlos de Laet*, na sua coluna de A Notícia, pôs a ridículo o companheiro e o seu novo estilo, em três Sonetos Futuristas que valiam, em verdade, pela melhor troça ao novo movimento literário:


Manhã. Frio. Carroças. Quitandeiros.
Futuristas. Ideias. Maluquice.
Bondes tardos. Garis. Parlapatice.

Olho grande. Ambição. Vaia. Ratice.
O Futuro! O Passado! Os açougueiros.
Caminhões de capim. Cubos. Tinteiros.
Pincéis. Palhetas. Tintas. Macaquice.

Olhos em alvo. Camundongos. Gias.
Gênios. Botas. Botinas e tripeça.
Sapateiros. Amor. Filosofias.

Batatas e cebolas. Nova peça.
A aranha. O Graça. Novas energias.
Café com leite. Futurismo à Beça!

Tarde, Avenida. Gente. Braços nus,
Pequenotas. Decotes. Almofada.
Futuristas. Alvear. Doces. Coalhada.
Deputados. Carniças. Urubus.

O Graça. A claque. O Futurismo. Nada.
Táxi. Bonde. Encontro. Catapruz!
Assistência. Meninos. Pouca luz.
Muita prosa. O Futuro. Pataquada.

Céu verde. Mar de leite. Estela preta.
Mais graça. Mais topete. Lábios azul.
Osório. O velho Alves. A chupeta.

Aranha. Avô. Avó. Ave! Taful!
Ligação. Beira mar. Potoca. Peta.
Telefone. Afinal. Setenta sul!...

Noite. Calor. Concerto nos telhados.
Cubos esferoidais. Gatas e gatos.
Vênus. Graças. Aranhas. Carrapatos.
Melindrosas. Poetas assanhados.

Rabanetes azuis. Sóis encarnados.
Comida no alguidar. Cuspo nos pratos.
Três rondas a cavalo. Mil boatos.
Prosa sesquipedal. Tropos safados.

Avenida deserta. Bondes. Brama.
Chopes Fidalga. Leite. Pão de ló.
Carros de irrigação. Salpicos. Lama.

Vacas magras. Esfinge. Triste. Só.
Tumor mole. São Paulo. Telegrama.
Dois secretas. Cubismo. Xilindró.






* Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (Rio de Janeiro, 3 de outubro de 1847 - Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1927) foi um jornalista, professor e poeta brasileiro.


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