quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O segredo do Pajé



Um dia o pajé me chamou a sua oca. Entrei. Fui recebido com esta pergunta:

– Tibicuera, qual é o maior bem da vida?

A coragem – respondi sem esperar um segundo.

– Só a coragem?

Embatuquei. O pajé ficou sorrindo por trás da fumaça do cachimbo. Gaguejei!

– A... a...

O feiticeiro me interrompeu:

– O pajé é corajoso. Mas que vale isso? Seu braço não pode levantar o tacape, seus pés não mais força para correr.

– Oh! – exclamei – Mas tu és poderoso, sabes de remédios para todas as dores, consegues com tuas mágicas.

O pajé continuou a sorrir. Sacudiu a cabeça:

–Ilusão  –disse.

Depois de fazer um silêncio curto tornou a falar:

– O maior bem da vida é a mocidade. Um dia Tibicuera fica velho. Atirado na oca, fazendo rede. Não pode mais ir para a guerra. O jaguar urra no mato e Tibicuera não tem força para manejar o arco. Tibicuera é mais fraco que mulher.

Escancarou a boca desdentada. Eu escondi o rosto nas mãos para não enxergar o fantasma da minha velhice.

– Pajé... Tibicuera não quer ficar velho. Ensina-me um remédio para vencer o tempo, para vencer a morte. Tu que sabes tudo, que viste tudo, que falaste com o grande Sumé.

O pajé continuava a me olhar com os olhos espremidos. Bateu na testa com o dedo indicador da mão direita...

– O remédio está aqui dentro, Tibicuera. Não há feitiçaria. O pajé gosta de ti. Ele te ensina. O tempo passa, mas a gente finge que não vê. A velhice vem, mas gente luta contra ela, como se ela fosse um guerreiro inimigo. Os homens envelhecem porque querem. Só muito tarde é que compreendi isso. Tibicuera pode vencer o tempo. Tibicuera pode iludir a morte. O remédio está aqui. – Tornou a bater com a vara na testa – Está no espírito. Um espírito alegre e são vence o tempo, vence a morte. Tibicuera morre? Os filhos de Tibicuera continuam. O espírito continua: a coragem de Tibicuera, o nome de Tibicuera, a alma de Tibicuera, o filho é a continuação do pai. E teu filho terá outro filho e teu neto também terá descendentes e o teu bisneto será bisavô dum homem que continuará o espírito de Tibicuera e que portanto ainda será Tibicuera. O corpo pode ser outro, mas o espírito é o mesmo. Eu te digo, rapaz, que isso só será possível se entre pai e filho existir uma amizade, um amor tão grande, tão fundo, tão cheio de compreensão, que no fim Tibicuera não sabe se ele e o filho são duas pessoas ou uma só.

Eu olhava para o pajé, mal compreendendo o que ele me ensinava. O feiticeiro falou até madrugada alta. Quando voltei para minha oca fiquei longo tempo olhando meu filho que dormia na rede.

E eu me enxerguei nele, como se a rede fosse um grande espelho ou a superfície dum lago sereno.

(“As Aventuras de Tibicuera”, de Érico Veríssimo)


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

As orfandades do amor


Paulo Mendes

Relatos de viajantes que percorreram o Rio Grande dão conta de que o Pampa era aterrorizante. O medo vinha pela sensação de infinito dos campos abertos, com muita luz, que abarcava e embaçava a visão. Diziam que o pampa era um mar de terra, plano e sem atrativos. Para Miguelito, nascido nas pradarias, aquilo era o seu lar. A terra deu-lhe a vida e se sentia muito bem quando estava montado, com o laço atado nos tentos, esparramando as melenas contra os ventos de abril.

Morava num rancho de barro num fundão de corredor. Dormia escutando o barulho da água batendo nas pedras da sanga, que corria perto, onde lavava sua própria roupa e tomava banho no verão. Acordava com o passarinhada em cantoria, com o canto de um galo carijó e com os latidos de seu cachorro Jundiá. Vivia de pequenas changas, criava uma vaca de leite, umas ovelhas, galinhas, dois porcos e, na lavourinha, sempre plantava mandioca e milho. Ao lado da casa, tinha uma parreira, uma pequena horta e um pomar. Dentro, só a cama rústica, uma mesa de madeira, um armário onde guardava camisas e bombachas, um cavalete com os arreios, outro armário suspenso para os mantimentos e um fogão de barro com chapa de ferro. Pendurada numa parede, a foto de sua mãe, ainda jovem, ao lado de um antigo rádio de pilha.

Ganhava pouco, é verdade, mas aquilo lhe bastava. A única coisa que sentia falta era de amor. Por isso, cada vez que botava umas platas no bolso, encilhava a rosilha, presente de um padrinho, e ia matar a sua sede de prazer nos braços da Candinha, a china mais moça da tia Anita, na beira da via férrea da vila. Precisava andar duas, três horas até chegar lá, mas valia a pena. Escutava uns tangos de vitrola, bebia vinho, às vezes um trago de aguardente com limão, por outras cachaça com gasosa. A velha Anita contava com cinco mulheres, bonitas e candongueiras, mas Miguelito se afeiçoara à Candinha.

Então, naquele domingo, foi difícil para Miguelito saber que a Candinha estava com um “cliente”. Não aceitou outras “ofertas” e se tocou de volta pra casa. Sabia que não tinha direitos sobre ela, mas vinha com uns ciscos nos olhos e uma coxilha no coração. Passou a noite insone. No outro dia, não foi trabalhar na fazenda do seu Antunes. Troteou direto pra vila, bateu na janela da Candinha, que abriu. Conversaram por uns instantes. O que disseram ninguém soube. Mas, dez minutos depois, a Candinha saiu com uma maleta e montou na garupa da rosilha. Chegaram ao rancho no meio da tarde e matearam embaixo da parreira até o anoitecer.

E viveram juntos, naquele pequeno mundo pampeano, sem medo nenhum, porque o campo só é triste quando o coração pena.


O enxoval de Dorinha

Edson Ubaldo*


Tempos brabos aqueles, de preconceito, intolerância e hipocrisia. De um lado, os coronéis devassos impondo condutas puritanas a seus dependentes, como forma de dominação. De outro lado, os frades italianos e alemães, que a cada seis meses apareciam para dizer missa, batizar e ameaçar com o fogo do inferno os camponeses crédulos e analfabetos. Nenhum deslize era perdoado no âmbito daquela rígida moral. Mulher adúltera o marido obrigava-se a matar. Filha solteira deflorada tinha de suicidar-se ou ir para a zona de meretrício, caso o cúmplice não reparasse o mal pelo casamento. Dorinha optou por esta última alternativa. Pegou carona num caminhão de serraria e desembarcou na entrada sul de Lages, com sua trouxinha de poucos teres.

Do Cemitério Cruz das Almas até a Curva da Morte, quase todas as casas eram bordéis. Havia para todos os gostos e orçamentos. Do mais humilde peão ao mais abastado fazendeiro, todos saíam bem servidos e faceiros. Nos salões mais finos e nos desvãos das chinas mais bonitas, muitos pinhais, fazendas e tropas de boi foram enterrados.

Insegura, aflita, morta de medo, Dorinha iniciou sua caminhada para o desconhecido.

Com seus cento e trinta quilos refestelados sobre uma cadeira de balanço, Nega Tonha tomava mate com suas “meninas” no varandão. Ao ver aquela caboclinha agarrada à trouxa, com olhar de ovelhinha medrosa, o olho clínico da veneranda cabaretière não se enganou.

— Vem cá, minha filha, conte pra nós o que te aconteceu.

Dorinha hesitou diante das desconhecidas, mas Nega Tonha, com sorriso maternal e contagiante simpatia, infundiu-lhe confiança. Entrou, tomou chimarrão, ganhou café com bolo frito e contou seu drama aos prantos. O filho do fazendeiro para o qual seu pai trabalhava tinha-lhe arrebentado as tramelas algumas semanas antes. Ela não queria dar, mas ele era bonito e prometeu-lhe casamento.

Fiada na promessa do moço, contou o sucedido à mãe, que contou ao pai, que foi falar com o patrão. Este mandou o filho pra cidade e passou uma descompostura no agregado. Que cuidasse melhor de suas filhas, ou será que achava pouco aquela galinhazinha sem-vergonha haver seduzido o piá? Ponha-se no seu lugar, homem!

Morto de vergonha, o pobre agregado voltou para casa e aos gritos de “cadela”, “puta rampeira”, “vagabunda”, baixou a soiteira nas costas morenas de Dorinha, até fazer sangue. Por isso ela fugira, e ali estava necessitada de socorro e proteção. Nega Tonha já ouvira essa história dezenas de vezes ao longo de sua bem sucedida carreira. Sabia como lidar com essas situações. Primeiro fez a menina acalmar-se e tomar confiança. Depois lhe explicou as vantagens e inconveniências da profissão. Apesar de seus dezessete anos e dos poucos meses de escola, que mal lhe permitiam assinar o nome, Dorinha mostrava interesse e capacidade de absorver as lições. Humilhada pela violenta surra, não pretendia voltar para casa. Estava decidida a ser puta, e das boas. Um dia ainda haveria de vingar-se daquele safado que a enganara de maneira tão miserável. Nega Tonha mandou recado para seus fregueses mais importantes, como sempre fazia quando chegava mercadoria nova. Estabeleceu a ordem das visitas segundo a posição econômica, política e social da clientela. O preço seria alto, pois a menina ainda nem tinha cicatrizado as sobras dos tampos. Para Dorinha, detalhou que ela precisava de roupas boas, sapatos de salto, maquiagem, trens de cama e outros apetrechos próprios do ofício. Mas isso custava dinheiro e tinha de ser adquirido aos poucos, com o produto do trabalho.

Uma semana depois, Nega Tonha marcou a “inauguração” de Dorinha, a ser procedida por um velho e generoso freguês. Duas cubas-libres, algumas apalpações e foram para o quarto. Muito acanhada e inexperiente, mas decidida a vencer na profissão, Dorinha fez seu primeiro michê. O velhote não incomodou muito, pois tinha ejaculação precoce. Logo caiu para o lado e perguntou:

— Minha filha, você tem aí um faxineiro pra enxugar as partes?

Ao que Dorinha respondeu:

— O senhor me desculpe, mas faz pouco tempo qu’eu emputeci e ainda não tenho todo o enxoval de metelança.


* Desembargador aposentado, cadeira n 12 da Academia Catarinense de Letras


Poemas de Lêdo Ivo



A Queimada

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Soneto da porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.



O escritor Alagoano Lêdo Ivo morreu aos 88 anos neste domingo (23 de dezembro de 2012), na cidade de Sevilha, na Espanha, vítima de um infarto durante o almoço. O jornalista recebeu atendimento médico, mas não resistiu até chegar ao hospital.

De acordo com a assessoria da Academia Brasileira de Letras (ABL), o corpo do autor será cremado na Espanha e posteriormente suas cinzas serão trazidas ao Brasil, onde ficarão no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, ao lado de sua mulher, Maria Leda Sarmento de Medeiros Ivo, falecida em 2004.

A Presidente da ABL, Acadêmica Ana Maria Machado, determinou luto oficial por três dias e que a bandeira da ABL fosse hasteada a meio mastro. A escritora também convocou uma sessão acadêmica extraordinária para o dia 10 de janeiro.

Nascido em Maceió, no dia 18 de fevereiro de 1924, Lêdo Ivo formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1945 - mas nunca exerceu a advocacia. Durante o período de estudo, colaborou com publicações literárias e trabalhou na imprensa carioca como jornalista profissional.

Estreou na literatura em 1944 com o livro de poesias "As Imaginações". Por seu primeiro trabalho como romancista, "As Alianças", de 1947, recebeu o Prêmio de Romance da Fundação Graça Aranha.

Como tradutor, Lêdo Ivo foi responsável por adaptações das obras "A Abadia de Northanger", de Jane Austin, "Uma Temporada no Inferno", de Jean-Artur Rimbaud, e "O Adolescente", de Fiodor M. Dostoievski.

Entre seus principais trabalhos destacam-se "Ode e Elegia" (1945), "A Cidade e os Dias" (1957), "Ninho de Cobras" (1973), "O Canário Azul" (1990) e "Plenilúnio" (2004). Sua última publicação foi a antologia "O Vento do Mar", de 2010.

  Quinto ocupante da cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, Lêdo Ivo também atuou como jornalista e tradutor. Em seu discurso de posse, de 7 de abril de 1987, o autor disse que a imagem que fazia do fundador da cadeira, o escritor Rui Barbosa, era a do exilado.

O escritor deixa os três filhos: Patrícia, Maria da Graça e Gonçalo.

O Epitáfio de Ledo Ivo

Ledo Ivo: “Devo ter ido me despedir de um amigo. Não fui para visitar o cemitério. O engraçado é que João Cabral escreveu o meu epitáfio em versos que ele nunca incluiu em livro. O que João queria era fazer um livro só de epitáfios de amigos. Terminou não fazendo.

João foi um grande amigo meu, mas tínhamos temperamentos diferentes. Enquanto ele ia para um lugar, eu ia para outro. Nunca nos encontramos - nem esteticamente. Dizia que eu falava muito; achava que só a morte é que me reduziria ao silêncio.

O epitáfio que João Cabral criou para mim é este:

“Aqui repousa
Livre de todas as palavras
Lêdo Ivo,
Poeta,
Na paz reencontrada
de antes de falar
E em silêncio, o silêncio
de quando as hélices
param no ar”

domingo, 27 de setembro de 2015

Os nomes dos meses



(Mônica - criação de Mauricio de Souza)



Mês – é derivado de “metior’, que quer dizer medida, medir. É o mês realmente, uma das 12 medidas do ano. O mês pode ser usual – o que se põe nos calendários – solar ou lunar.

Semana – vem de “setem e mane”, que significam sete manhãs, ou sete luzes, porque no dito espaço de tempo sete vezes nasce o sol.

Dia – quer dizer claridade. Os caldeus, persa e babilônios começavam a contar a duração do dia, logo que o sol se punha, até se pôr novamente.

Janeiro – do latim “januarius” mês consagrado a Jano, o deus de duas faces, que olhava para o passado e para o futuro.

Fevereiro – do latim “februarius” de februaro, purificar. Os romanos consagravam este mês, o mais curto do ano, a Netuno.

Março – do latim “martius”, em honra a Marte, deus da guerra. Este era o primeiro mês do ano do antigo calendário romano.,

Abril – do latim “apriliis”, abrir, por ser a época em que, na zona temperada do norte, começa a nascer a vegetação, brotam os rebentos e desabrocham as flores.

Maio – este nome foi dado ao mês, em honra de Maya, filha de Atlas.

Junho – do latim “junius” em homenagem à deusa Juno.

Julho – do latim “julius”, em honra a Júlio César, imperador romano.

Agosto – do latim “augustus” por Augusto, sobrenome do imperador Otaviano.

Setembro – do latim “september” por ser o sétimo mês do antigo calendário romano.

Outubro – “october” por ser o oitavo mês dos romanos.

Novembro – do latim “november” nono mês dos antigos romanos.

Dezembro – do latim “december” décimo do antigo calendário dos romanos.


(Do Almanaque do Correio do Povo de 1967)



sábado, 26 de setembro de 2015

40 frases venenosas



Uma seleção de 40 frases célebres de personalidades de díspares perfis, nacionalidades e épocas – venenosas, mal humoradas, engraçadas ou cruéis –, as frases revelam o olhar preciso e ferino de seus autores sobre os temas abordados. A autenticidade de cada frase foi checada para não incorrer nos risco das falsas atribuições em meio a profusão de textos apócrifos e equívocos relativos à autoria. A seleção traz nomes como H. L. Mencken, Ambrose Pierce, Ernest He­mingway, Nelson Ro­drigues, Voltaire, Paulo Francis, Otto Von Bismarck, Woody Allen, Robert Benchley, J. Pierpont Mor­gan, Simone de Beauvoir, além provérbios e frases autorais, que foram emprestadas às personagens e obras por intermédio de seus criadores.

Eis, as 40 frases escolhidas.

— O adultério é a democracia aplicada ao amor. H. L. Mencken

— Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. H. L. Mencken

— A guerra é a forma de Deus ensinar geografia aos americanos. Ambrose Pierce

— Se as duas pessoas se amam, não pode haver final feliz. Ernest Hemingway

— Qualquer idiota consegue ganhar a vida representando. Ora, Shirley Temple já fazia isso aos 4 anos! Katharine Hepburn

— A cama é a ópera dos pobres. Provérbio italiano

— Todo canalha é magro. Nelson Rodrigues

— O casamento é a única aventura ao alcance dos covardes. Voltaire

— Todos os casamentos são felizes. Tentar viver juntos depois é que causa os problemas. Shelley Winters

— Os baianos invadiram o Rio para cantar “Ó, que saudades eu tenho da Bahia…” Bem, se é por falta de adeus, PT saudações. Paulo Francis

— O filme é uma merda, mas o diretor é genial. Paulo Francis

— Ser da classe média é achar Godard o máximo. Paulo Francis

— Quando ouço falar em ecologia, saco logo meu talão de cheques. Paulo Francis

— A ignorância é a maior multinacional do mundo. Paulo Francis

— O balé é o beisebol das bichas. Oscar Levant

— Todo homem se torna a coisa que mais despreza. Robert Benchley

— Deus não existe e, se existe, não é muito confiável. Woody Allen

— O que importa não é o fato, mas a versão. José Maria Alkmin

— Se você tem de perguntar quanto custa, é porque não pode comprar. J. P. Morgan

— A velhice é a paródia da vida. Simone de Beauvoir

— Só há uma coisa mais rara do que uma primeira edição de certos autores: uma segunda edição. Franklin P. Adams

— As pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição. Otto Von Bismarck

— A mulher ideal é sempre a dos outros. Stanislaw Ponte Preta

— Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto. Otto Lara Resende

— Todas as coisas de que gosto ou são imorais e ilegais ou engordam. Alexander Woollcott

— De vez em quando um homem inocente é escolhido para a legislatura. Kin Hubbard

— A filosofia é composta de respostas incompreensíveis para questões insolúveis. Henry Brooks Adams

— Na política é difícil distinguir os homens capazes, dos homens capazes de tudo. Henri Béraud

— A maneira mais fácil de ficar livre da tentação é ceder a ela. Tristan Bernard

— Fez o melhor que podia — é porque não foi bom o bastante. Arthur Koestler

— Aquele que se casa por dinheiro, tem pelo menos um motivo razoável. Gabriel Laub

— Um conservador é um homem muito covarde para lutar e muito gordo para correr. Elbert Hubbard

— O homem se desenvolve, melhora ou corrompe, mas não cria nada. Antoine Fabre d’Olivet

— Aplique o marxismo em qualquer país e você sempre encontrará um gulag no final. Bernard-Henri Lévy

— O segredo do sucesso, nos negócios como no amor, é a dissimulação. René Girard

— Nasce um otário a cada minuto. P.T Barnum

— O patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Samuel Johnson

— Ao contrário do que se diz, pode-se enganar a muitos durante muito tempo. James Thurber

— O objetivo do socialismo é elevar o nível de sofrimento. Norman Mailer

— Perdoar, sim; esquecer, nunca. John Kennedy



Tirar estrelas do chão



Quero compartilhar com você um texto que me encanta. Ainda não descobri o motivo desse meu fascínio. Talvez sejam as palavras carregadas de significados, ou talvez porque retrate momentos e conflitos que a gente enfrenta pelo simples ato de viver. É um texto poético, belíssimo, sensível e real. Você vai ver. Leio e ganho forças. É como se fosse um combustível.

Venho me deixando tocar por essas palavras desde a época da faculdade, e de lá para cá, tem acontecido bem assim: trabalho, trabalho, trabalho; fico cansada, encho o saco de trabalhar, prometo que vou mudar de vida, ficar na vagabundagem, sei lá, até mudar de profissão. Fico pra lá de indignada. Aí, lembro do texto, leio, e na sequência me energizo e me renovo. E afloram novas motivações! E continuo caminhando e cantando...

Veja agora o texto que me encanta. Escrito por Fernando de Azevedo*, há mais de meio século.

“Moço, eu estou nesse negócio de catar pedras faz bem uns cinquenta anos. Muita gente me dizia para largar disso – cadê coragem? Cada um tem que viver procurando alguma coisa. Tem quem procure paz, tem quem procure briga. Eu procuro pedras. Mas foi numa dessas noites da minha velhice que entendi porque eu nunca larguei disso: só a gente que garimpa pode tirar estrelas do chão.”

Fernando de Azevedo - Professor, educador, crítico, ensaísta e sociólogo
1894-1974


Agora pense comigo: nossa vida não é um constante garimpar? Por acaso não vivemos garimpando o chão de nossa realidade? E não é que tiramos estrelas dali? Então, está combinado, se a gente encher o saco, vamos ler o texto e continuar garimpando, pois sem garimpo, sem estrelas.

(Do Blog da Marli)

Não há garimpo na educação escolar sem o conhecimento do veio,
do aluvião, do leito do rio da sociedade.

*Fernando de Azevedo

(São Gonçalo do Sapucaí, 2 de abril de 1894 – São Paulo, 
18 de setembro de 1974)
foi um professor, educador, crítico, ensaísta e sociólogo brasileiro.


O Idoso




Eu nunca trocaria os meus amigos surpreendentes, a minha vida maravilhosa, a minha amada família por menos cabelo branco ou uma barriga mais lisa. Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais amável para mim, e menos crítico de mim mesmo. Eu tornei-me o meu próprio amigo... Eu não me censuro por comer um cozido à portuguesa ou uns biscoitos extra, ou por não fazer a minha cama, ou para compra de algo supérfluo que não precisava. Eu tenho direito de ser desarrumado, de ser extravagante e... livre.

Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar no computador até as quatro horas e dormir até meio-dia?

Eu dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos dos anos 60 & 70, e se eu, ao mesmo tempo, desejar chorar por um amor perdido, eu vou...

Vou andar na praia com um calção esticado sobre um corpo decadente e mergulhar nas ondas com abandono, se eu quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros, eu vou fazer mesmo assim. Eles, também, vão envelhecer.

Eu sei que, às vezes, esqueço algumas coisas. Mas há mais algumas coisas na vida que devem ser esquecidas. Eu só me recordo das coisas importantes.

Claro, ao longo dos anos meu coração foi quebrado muitas vezes. Como não pode quebrar seu coração quando você perde um ente querido ou um amor que não chegou a acontecer, ou quando uma criança sofre, ou mesmo quando algum amado animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão força, compreensão e compaixão. Um coração que nunca sofreu é estéril e nunca conhecerá a alegria de ser imperfeito.

Eu sou tão abençoado por ter vivido o suficiente para ter meus cabelos grisalhos, e ter os risos da juventude gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto.

Muitos nunca riram, muitos morreram antes de seus cabelos virarem prata.

Conforme você envelhece, é mais fácil ser positivo. Você se preocupa menos com o que os outros pensam. Eu não me questiono mais.

Eu ganhei o direito de estar errado. De ter amores proibidos, sempre segui os ditames do meu coração. Ninguém sabe o momento que algo maravilho vai acontecer na sua vida, e ele acontece da maneira mais improvável possível, pois, assim, para responder sua pergunta, eu gosto de ser idoso e imprevisível. A idade me libertou. A minha vida é única e meus atos vêm direto do meu coração. Eu gosto da pessoa que me tornei: louco, amoroso, amigo dos meus amigos, leal e com alma de poeta. Eu não vou viver para sempre, mas enquanto eu ainda estiver aqui, eu não vou perder tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupando com o que será. Sei que não vou para o céu nem para o inferno porque eles não existem e eu vou comer sobremesa (e beber) todos os dias (se me apetecer).

Que nossa amizade nunca se separe porque é direto do meu coração!




(Autor desconhecido)





Depende da posição






Segundo estudos recentes, parado, fortalece a coluna;
de cabeça baixa,estimula a circulação do sangue;
de barriga para cima é mais prazeroso;
sozinho, é estimulante, mas egoísta;
em grupo, pode até ser divertido;
no banho pode ser arriscado;
no automóvel, é muito perigoso...
com frequência, desenvolve a imaginação;
entre duas pessoas, enriquece o conhecimento;
de joelhos, o resultado pode ser doloroso...

Enfim, sobre a mesa ou no escritório,
antes de comer ou depois da sobremesa,
sobre a cama ou na rede,
nus ou vestidos,
sobre o sofá ou no tapete,
com música ou em silêncio,
entre lençóis ou no closet:
Sempre é um ato de amor e de enriquecimento.
Não importa a idade, nem a raça, nem a crença,
nem a posição socioeconômica..
Ler é sempre um prazer!




Definitivamente, o ato de ler leva você a desfrutar
 e desenvolver a imaginação...
...E você acabou de experimentar esse fato!
Você estava pensando que era o quê?
Francamente!

O Último Baile do Império



A Ilha Fiscal

A Ilha Fiscal estava logo ali, com seu belo palácio recém-construído, com seu estilo mourisco aos moldes de outros majestosos que existem na região do Alverne, na França.

Foi escolhido o posto de vigilância aduaneira, inaugurada depois de 7,5 anos de obras em abril de 1889, à entrada da Baía de Guanabara, 200 metros do centro do Rio de Janeiro - que ficava numa ilha, pelo povo conhecida como "Ilha dos Ratos".

Aquele sábado, 09 de novembro de 1889 (em 2015, 126 anos), marcaria para sempre nossa história.

Na parte superior do castelo, após subir uma escada em caracol com 38 degraus e revestida em cantaria podemos vislumbrar a sala onde foi realizada a troca de bandeiras entre Chile e Brasil.

A sala é ricamente ornada com vitrais ingleses, que retratam de um lado D. Pedro II e, do outro a Princesa Isabel, ladeados por brasões, além do belíssimo piso confeccionado em parquet.

Banquete

À Mesa:

1.300 frangos, 500 perus, 300 pernis de presunto, 64 faisões, 18 pavões, 800 kg de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 20.000 sanduíches, tudo decorado com legumes, flores e frutas.

Sobremesa:

14.000 sorvetes, 2.900 bandejas de doces sortidos.

O cardápio servido nessa única noite, destacando a exuberância dos pratos, ornados com flores e frutas exóticsa, que em tudo combinavam com o estilo mourisco da Ilha Fiscal.

Por essas mesas, passou um desfile monumental de iguarias que daria para alimentar um exército. Republicano, naturalmente.

À meia-noite, os arautos soaram as trombetas anunciando que a mesa estava posta. Foi a correria. Comilança desenfreada. O comportamento dos convidados deixava a desejar. A Família Imperial viu-se obrigada a deixar a Ilha pouco depois da sobremesa.

Cartas de Vinhos e Bebidas

Foram cometidos alguns excessos nas bebidas.

As notícias dizem que foram consumidas milhares de garrafas de vinhos de diversas procedências, prevalecendo os do Porto e Algarve (Portugal).

Isso significa de duas a três garrafas para cada convidado, fora o champagne. 300 caixas de champanhe francesa.

As Bebidas oferecidas:

258 caixas de vinho (Château d'Yquem, Château Lafitte, Château Duplessis, Chablis, Liebfraumilch, Madère Rouge, Marsala, Lacrima Christi), 300 de champanhe (Veuve Clicquot, Luis Röederer), 10.000 litros de cerveja e licores a fartar.

Música

Seis bandas foram contratadas para o baile, uma foi colocada no convés do cruzador Cochrane que estava ancorado na ilha.

Na época, a execução das canções ficava por conta das bandas imperiais, em sua maioria militares.

As partituras eram editadas com requinte pela Casa Buschman e Guimarães, responsável pela publicação do Hino Chile-Brasil, composto por Francisco Braga, para saudar a tripulação do navio Almirante Cochrane.

O som de fundo era feito com trechos de óperas de Verdi, Boccherini, Waldteufel, Metra e Auber.

O Baile



Baile da Ilha Fiscal - Francisco Figueiredo
(Museu Histórico Nacional)

O Imperador e a Imperatriz chegaram ao salão principal, perto das 22h.

Quando a princesa Isabel e o conde D'Eu chegaram, às 23h, começaram as danças (dizem que a Princesa era um pé-de-valsa, e muito se divertiram), que foram interrompidas à meia noite para a ceia, a qual foi farta.

Abatido, o Imperador permaneceu afastado, quase anônimo, enquanto o presidente do Conselho de Ministros, Affonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, fazia as honras.

O Imperador só se levantou para dançar uma única vez, com a filha do Barão Sampaio Vianna, que completava 15 anos.

O ministro chileno, Manoel Villamil Blanco e o comandante Banem, do navio Almirante Cochrane, levantaram vivas e moções de solidariedade ao governo brasileiro e ao imperador.

A maioria dos convidados preferiu ficar do lado de fora, já que o palácio era pequeno para tanta gente.

Depois da 01h da manhã recomeçaram as danças, sendo que a Família Imperial logo se retirou, prosseguindo a festa até as 06h de domingo.

A valsa e a polca foram as músicas predominantes no Baile da Ilha Fiscal, segundo o pesquisador Carlos Sandroni.

Os cartões de dança das mulheres, que foram encontrados na Ilha Fiscal após o baile, junto com ligas e espartilhos, revelam que a "pièce de résistance" foi uma sequência alternante em três tempos:

Fantasia, valsa, minuano, valsa, fantasia, valsa. (Os cartões são uma das curiosidades guardadas no Arquivo Nacional. Neles, as damas anotavam os nomes dos cavalheiros com quem haviam se comprometido a dançar).

Dançavam-se em seis salões. A maior parte das danças ocorreu fora do palácio, pois não cabiam nele mais do que setenta casais dançando. Pelos salões desfilou a fina flor da aristocracia, da oficialidade e da sociedade cariocas.

O Fim do Baile

Em 10 de novembro de 1889, no amanhecer, os convidados deixam a Ilha Fiscal, terminado o último Baile do Império.

A Conta

O imperador D. Pedro II não gostou do que viu e ouviu. Menos ainda quando teve que pagar a conta de 250 contos de réis - equivalente a 10% do orçamento anual do Rio de Janeiro.

Recursos Financeiros

A festa custou em torno de 250 contos de réis, quase 10% do orçamento previsto para a província do Rio de Janeiro naquele ano.

Dizem as “más línguas” que este dinheiro estava destinado ao auxílio de vítimas da seca no Ceará. “Cem contos de réis estavam guardados nos cofres do Ministério da Viação e Obras Públicas jamais chegariam ao Ceará. Os flagelados da seca que assolava o sertão tiveram que esperar”.

E quanto valeria esta quantia nos dias de hoje?

Adotando duas metodologias diferentes obtivemos um valor estimado entre 650 mil e 1,2 milhões de Reais.

- Método 1 : Projeções da inflação entre 1902 e 2008.
- Método 2: Conversão da moeda vigente para ouro.

É bem verdade que, na corrida aos cofres públicos para organizar festas suntuosas para os oficiais chilenos, Ouro Preto e as hostes monárquicas não estiveram sozinhos.

Sabe-se de pelo menos um caso de corporação do Exército – a da Fortaleza de São João – que, não desejando ficar atrás da Marinha nas homenagens aos oficiais do Almirante Cochrane, pediu e obteve verbas do governo imperial para organizar seu ágape. “O tenente-coronel Leite de Castro me escreveu pedindo 1 conto de réis e eu o atendi prontamente”, diz o Visconde de Ouro Preto.

         A Conta: 

O dinheiro reservado para a Seca no Nordeste pagou as primeiras contas: 50 contos, foi parar na conta bancária da Confeitaria Paschoal, a preferida da Casa Imperial; 24 contos de réis serviram para pagar o pessoal que trabalhou naquela noite: três chefs, 150 garçons e um exército de cozinheiros, ajudantes e serviçais da limpeza; 26 contos de réis foram empregados na decoração, incluindo dois gigantescos candelabros de prata e 24 pavões empalhados, que adornavam os cantos das mesas.

O Escândalo

A imprensa dividiu-se em seus relatos, preocupou-se em divulgar o Baile e não o Golpe de Estado seis dias após, mas foi um grande acontecimento.

As peças íntimas que foram encontradas na ilha após a festa, foram motivo de escândalo quando noticiados pelos colunistas das revistas femininas do século XIX, entre essas revistas, a “Eu Sei Tudo” revelava que: “A Coroa não era tão casta como pressupunham os seus súditos”.

O jornal Tribuna Liberal, na sua edição de 10 de novembro de 1889, falou do: “Brilho e o ruge-ruge das sedas, os colos salpicados de brilhantes, safiras, esmeraldas e os diademas rutilantes dos penteados”.

O colunista Desmoulins, do Correio do Povo, por sua vez, citou o mau gosto a que se entregaram muitos dos convidados. Criticou ainda os homens que, no salão, mantinham seus chapéus ingleses do Wellicamp e do Palais Royal enfiados na cabeça.

O cronista social da Gazeta de Notícias descreveu com detalhes 74 trajes das damas presentes, numa edição que bateu recordes de espaço e de tiragem.

O jornal publicou também uma descrição detalhada da ceia, anunciada em um menu de 12 páginas, guarnecido com as cores das bandeiras brasileira e do Chile: “Nada menos que 11 pratos quentes, 15 pratos frios, 12 tipos de sobremesas, 4 qualidades de champagne, 23 espécies de vinhos e 6 de licores, num total de 304 caixas destas bebidas e mais dez mil litros de cerveja. Os números da maior comilança de que o país tem notícia relacionam para o preparo de todas essas receitas, o consumo de nada menos que 18 pavões, 25 cabeças de porco, 64 faisões, 300 peças de presunto, 500 perus, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1200 latas de aspargos, 1300 galinhas, além de 50 tipos de saladas com maionese, 2900 pratos de doces variados, 12 mil taças de sorvete, 18 mil frutas e 20 mil sanduíches”.

E o cronista dedicou um espaço especial para as bebidas: “Das 304 caixas de bebidas, 258 eram de vinhos e champagnes”. Ou seja: “Naquela noite, foram consumidas 3.096 garrafas desses maravilhosos fermentados, que compunham uma bateria de 39 rótulos diferentes, com destaque para Porto de 1834 - uma safra preciosíssima - Madeira, Tokay, Château D’Yquem, Château Lafite, Château Leoville, Château Beycheville, Château Pontet-Canet e Margaux”.

A presença marcante do italiano Falerno, nas versões branco e tinto, era uma deferência à imperatriz. Os champagnes não podiam ser melhores: “Cristal de Louis Roederer, Veuve Cliquot Ponsardin e Heidsieck”. Dentre os vinhos alemães, destacavam-se o “Liebfraumilch e o famoso Johannisberg do Reno”.

Um republicano infiltrado no baile, que dias depois publicou suas impressões na Revista Ilustrada, comenta que a certa altura os salões tornaram-se pequenos para o número de convidados: “Para conseguir o espaço necessário às danças, o senhor Hasselmann, guarda-mor da alfândega, teve de suar, não só o topete, mas também o colarinho, de tal modo que este perdeu toda a compostura e tomou o aspecto de uma simples tripa enrolada no pescoço”. No meio do Baile, o Ministro das Relações Exteriores, o Visconde de Cabo Frio, resolveu fazer diplomacia. Ao saber que havia perus no cardápio, ficou preocupado com o que poderia pensar a comitiva do governo peruano. Mandou poupar as aves e escondê-las no porão. A notícia vazou. Um grupo de nobres decidiu aprontar e subornou o dono de uma embarcação, na tentativa de sequestrar os animais.

A polícia deteve os fanfarrões. A imprensa gozou: “A polícia não encontrou os perus no barco, mas descobriu 604 peruas no baile”.

O único negro convidado, o engenheiro André Rebouças, sintetizou em seu diário: “Foi uma bacanal!”.

Republicanos criticaram extravagância

Os Republicanos reclamaram da extravagância, mas estavam lá, aproveitando e tramando, hoje em dia seria considerado “Alta Traição”.

Rio de Janeiro

O luxo e a extravagância dos trajes e cabelos das convidadas do baile da Ilha Fiscal receberam, alfinetadas de republicanos que não faltaram ao baile e aplausos de monarquistas.

O luxo e as extravagâncias que cercaram o desembarque do couraçado Almirante Cochrane, dando lugar a um período denominado “Festas Chilenas”, incentivou a propagação dos ideais republicanos.

A Trama Republicana

Enquanto o baile transcorria, o que os convidados não imaginavam, nem o imperador D. Pedro II, é que tramavam em suas costas.

À mesma hora em que se acendiam as luzes do palacete para receber os milhares de convidados engalanados, os republicanos reuniam-se no Clube Militar, presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para maquinar a queda do Império. “Mais do que nunca, preciso sejam-me dados plenos poderes para tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e sua dignidade”, discursou Constant na ocasião, tendo como alvo justamente o Visconde de Ouro Preto.

Longe dali, ao lado da Família Imperial, o visconde desmanchava-se em sorrisos ao comandar seu suntuoso festim.

Seis dias depois, o Marechal Deodoro proclamava a República na Praça da Aclamação (hoje, da República) – perto do cais Pharoux, de onde partiram os convidados para o Baile.
Perplexo o povo, nas ruas, comemorou o fim do Império.

No meio dele, estavam também os mesmos oficiais do navio chileno (ainda ancorado na Baía de Guanabara) que teriam sido homenageados pela última grande farra do Império.


Fatos Pitorescos do Baile da Ilha Fiscal

→ Só havia um banheiro para atender as necessidades dos convidados. Os cavalheiros se ajeitavam com facilidade, à beira-mar. Para socorrer as mulheres, apertadas com a cerveja que era servida à farta, a criadagem teve que retornar ao continente para pegar... baldes. Sim, as damas iam para o cantinho, colocavam o balde embaixo do vestido e se aliviavam.

→ Uma lista divulgada, dos despojos encontrados nos salões, na manhã daquele domingo incluía, por exemplo: O baile passou das 6 horas, quando a criadagem recolhia objetos deixados pelos cantos. Entre eles 17 pufes (almofadinhas que realçavam os contornos das madames), nove dragonas de militares, oito raminhos de corpete (usados para esconder o decote dos seios), dois coletes de senhoras e dezessete ligas, dezesseis chapéus, treze lenços de seda, nove de linho e quinze de cambraia

→ Após a saída dos convidados, os trabalhos de limpeza revelaram artigos inusitados espalhados pelo chão: além de copos quebrados e garrafas espalhadas, foram recolhidas condecorações perdidas e até peças de roupas íntimas femininas.

→ “O Paiz” era o principal periódico republicano do Brasil, chegou a vender, em 1890 , 32 mil exemplares. Apesar de atuar como um órgão oficioso do governo, considerava-se independente. Escreveram em suas páginas, entre outros, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, O fato pode, entretanto, ser fictício, uma vez que foi relatado na coluna humorística Foguetes , do periódico carioca no dia 12 de novembro de 1888.

→ Um fato irônico, até hoje não confirmado, ocorreu logo após a chegada da Família Imperial, conta-se que D. Pedro II, ao entrar no salão do baile, desequilibrou-se. Ao recompor-se, exclamou: – O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu!


D. Pedro II em traje de almirante

(Do Blog Império Brasil)

O Zé Pereira



E viva o Zé Pereira!
Pois que a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de carnaval!
Zim, balala! Zim, balala!
E viva o carnaval!

Quem não conhece esse bordão carnavalesco? Pois ele foi a senha para o nascimento do Carnaval de rua no Brasil, há quase 150 anos! Inspirado em uma canção francesa (Les Pompiers de Nanterre), o refrão do Zé Pereira fez história.

“Zé Pereira” era o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes, que em um Carnaval, por volta de 1850, reuniu amigos e agitou as ruas do Rio de Janeiro ao som de bumbos, zabumbas e tambores. Era o que faltava para a popularização definitiva dos festejos na cidade, e o início de uma metamorfose que transformaria não apenas o carnaval, mas toda a música brasileira.

No ano seguinte já havia vários imitadores do Zé Pereira. As primeiras sociedades carnavalescas também abriram as portas para o novo costume. O Zé Pereira viraria até espetáculo teatral (“Zé Pereira Carnavalesco”), encenado em 1869 pelo ator cômico Francisco Correia Vasques (1839-1892).

Eis o trecho do livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Segunda Edição - Lumiar - 1996) do jornalista e pesquisador Sérgio Cabral em que ele fala dos zé-pereira:

“Brincava-se o carnaval, no século XIX, também como zé-pereira, o nome adotado para os foliões que percorriam as ruas da cidade dando pancadas em enormes tambores e produzindo decibéis em níveis extremamente elevados para os padrões da época. O zé-pereira poderia ser representado por um folião solitário e também por grupos de carnavalescos, todos com os seus tambores, desfilando pelas ruas e visitando as redações dos jornais, como era o hábito dos foliões que se julgavam merecedores de aparecer na imprensa. O historiador Vieira da Fazenda, autor de Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, foi o único a mencionar as origens do zé-pereira. Para ele, o primeiro deles foi um cidadão português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes, sobre o qual traça um perfil minucioso. Só não informou a razão pela qual a folia criada por ele ganhou o nome de zé-pereira e não de zé-nogueira.”



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Histórias de Paraquedistas XIII

Pagando pelo ar


No dia do pagamento um soldado reclamou com o Furriel (espécie de agente financeiro), o então Sargento Ferraz, que lhe fora cobrado pelo consumo do ar.

Nas sessões de Educação Física, após a atividade, durante a caminhada de “volta à calma”, os instrutores sempre alertam em voz alta:

− Não conversa, cessa o papo! Balancem os braços! Respira que o ar é de graça. Não conversa. Não atrasa. Respira!

Ao receber o envelope com o primeiro pagamento, dentre os itens descontados, notou um deles intitulado AR do Núcleo.

Não se contendo, aguardou sua vez e solicitou esclarecimentos sobre tal item, alegando não estar de acordo com a cobrança do ar que se respira, haja vista que o instrutor, ao dar tal ordem, em altos brados, foi muito claro ao mencionar que o ar era de graça. O Sargento Ferraz, diante de seus auxiliares: Cabo Ivanildo e Cabo Besler, cobrou uma “completa” de tributos físicos ao “gastador”, pois aquele item (AR) se referia a Armazém Reembolsável, que existiu, na época, no QG do Núcleo. Assim, diante da reclamação devidamente esclarecida, ciente que realmente havia contraído despesa naquele setor reembolsável, se foi.

Do livro:

“Ninho das Águias – Histórias que a História não conta... só nós paraquedistas”, de Jorge Barcellos Pereira – Pqdt 12.972 do 1965/4 MS 1556 – Dompsa 176 – SL 281 − MSSL 118



domingo, 20 de setembro de 2015

A História do Profeta Gentileza




Decidi reservar este espaço para relatar a vida de José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza.

Gentileza nasceu em 11/04/1917 no bairro de Cafelândia (São Paulo) onde vivia com seus pais e onze irmãos. Durante sua infância era “obrigado” a trabalhas nas terras locais cuidando dos animais e em determinados momentos havia a necessidade de trabalhar puxando carroças vendendo lenha para ajudar sua família. O campo ensinou a José Datrino a amansar burros para o transporte de carga. Tempos depois, como profeta Gentileza, se dizia “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”.

Quando José completou 13 anos começou a ter algumas premonições sobre suas missões na Terra e isso acabou gerando certo desconforto em sua família que começou a desconfiar que ele estava tendo algum problema mental.

Em 1961, exatamente no dia 17 de Dezembro, ocorreu uma verdadeira tragédia em Niterói no Circo “Gran Circus Norte-Americano” que infelizmente gerou a morte de 500 pessoas causada por um incêndio. Essa foi uma das maiores fatalidades no Brasil e teve repercussão em todo o mundo.

Dois dias antes do Natal de 1961 (6 dias após o incêndio) José Datrino acordou durante a madrugada alegando ter ouvido “vozes astrais” que pediam para que ele abandonasse o mundo material e se dedicasse exclusivamente ao mundo espiritual. A partir desse dia o Profeta pegou seu caminhão e se dirigiu ao local do incêndio, plantou jardim e horta  sobre as cinzas do circo que um dia levou tantas alegrias as pessoas. Lá permaneceu durante 4 anos de sua vida. José durante esse período levou conforto e carinho a muitas famílias das vítimas do incêndio. Daquele dia em diante passou a ser chamado de “Profeta Gentileza”.

Depois de deixar o local, “Gentileza” começou sua jornada pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro na década de 1970. Fazia suas pregações em trens, ônibus e praças públicas, sempre levando palavras de conforto e bondade as pessoas. Gentileza pregava também o respeito ao próximo e pela natureza. Alguns o chamavam de louco e ele sempre respondia: – “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”.

A partir da década de 1980 começou a escrever diversas frases e poemas em 56 pilastras do viaduto do Caju, que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio. Ali deixou sua marca eterna para que todos pudessem ler.

Gentileza faleceu em 28 de maio de 1996 deixando seu legado de bondade e amor, dedicando sua vida ao próximo e a Deus.


(Do blog Mente Aberta)




 Mestre Nilo, sempre, nas paradas de Sete de Setembro, lá estava o Profeta Gentileza com suas flores, cata ventos e Bandeira Nacional. 

(Ly Adorno).

Caro Nilo, mais uma vez venho contar mais uma historinha. Em 1993, estava eu na Parada de 7 de Setembro, à altura da Cinelândia, em frente à Biblioteca Nacional, aguardando, à vontade em forma, quando essa figura passou do outro lado da calçada. Todos mexeram com ele, chamando-o de maluco, rindo da cara dele. Eu, por não conhecê-lo, também achava que ele era doido. Depois de algum tempo, é que tomei conhecimento de sua história. Ele era empresário do ramo de transportes e, realmente, largou tudo após o incêndio do Circo. Hoje, o local é ocupado pela Policlínica Militar de Niterói. 

(Um abraço, Sérgio de Oliveira Mattos).


Gentileza

Marisa Monte

Já dizia o Profeta:
Apagaram tudo,

Pintaram tudo de cinza.
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta.
Apagaram tudo,

Pintaram tudo de cinza.
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca.
Nós, que passamos apressados

Pelas ruas da cidade,
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza.
Por isso eu pergunto

A você no mundo:
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria?
O mundo é uma escola,
A vida é o circo,
                               Amor palavra que liberta.


Abaixo, seus textos num viaduto da cidade.