segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Regras simples



01. Na escada rolante, deixe a esquerda livre para quem está apressado.

02. Coma de boca fechada, ninguém quer ouvir o barulho da mastigação, nem ver o interior da sua boca cheia de comida.

03. Se você é o próximo da fila, espere a sua vez para ser atendido!

04. Usar headphones em público significa "Não fale comigo!".

05. Jamais reclame e nem seja deselegante com quem faz sua comida.

06. Jamais pare no meio de uma calçada movimentada.

07. Baixe o som alto, se você não for o único na rua, no ônibus ou em qualquer lugar público.

08. Espere as pessoas saírem antes de entrar.

09. Principalmente se estiver entrando em um elevador

10. Jamais espie a tela dos outros por detrás dos ombros. É extremamente desconfortável.

11. Para homens: Sempre respeite a zona de tolerância nos mictórios, dê no mínimo, um mictório entre cada pessoa.

12. Nunca jogue lixo no chão. Seja em trem, metrô, ônibus ou em qualquer tipo de transporte público.

13. Não use 'K'! Abreviar 'OK' é o cúmulo da preguiça e em alguns casos, uma demonstração de desprezo.

14. Não faça barulho quando outros estiverem dormindo. Isso não significa apenas 'não falar'. Significa não bater portas, barulho de passos, etc.

15. Não invada o espaço de outras pessoas.

16. Coloque as coisas no lugar onde as achou.

17. Não pense que você é esperto por comprar artigos piratas, na verdade, está sendo um sonegador de impostos.

18. Se o papel acabar na sua vez, reponha um novo rolo.

19. Cuspa seu chiclete no lixo.

20. Segure a porta se perceber alguém vindo atrás de você.

21. E, quando alguém segurar a porta para você, agradeça.

22. Nunca aperte um tubo de pasta de dentes no meio.

23. Abra logo o saco de batatas fritas, vai fazer barulho do mesmo jeito.

24. Não seja aquela pessoa com o carrinho cheio de coisas no caixa rápido.

25. Não seja o dono do carregador gigante.

26. O último chiclete da embalagem sempre vai para pessoa que o comprou.

27. Pare de teclar quando você deveria estar fazendo outra coisa.

28. Não seja o preguiçoso que deixa os carrinhos de compra no meio do estacionamento.

29. Nunca termine de comer a comida dos seus colegas, ou simplesmente não coma.

30. Você não precisa gritar em conversas telefônicas e, se não estiver ouvindo bem, é a pessoa do outro lado que precisa falar um pouco mais alto.

31. Cubra sua boca ao espirrar.

32. Não seja avarento, não pechinche, se não achou o preço justo, não compre.

33. Não ouça música pelo speaker do celular em locais públicos! Você incomoda as outras pessoas.

34. A menos que seja você quem limpa, lave o prato quando for comer na sala.

35. Ao deixar um amigo em casa, tarde da noite, espere um pouco até ele entrar. Ele pode ter esquecido a chave ou sua presença desmotivará alguma ação contra ele.

36. Pare de mexer no seu smartphone enquanto falam com você.

37. Se você está assistindo a algo com outras pessoas e atende uma ligação que vai ser longa, saia do recinto.

38. Não apareça na casa de alguém de surpresa.

39. Principalmente na hora do almoço ou jantar. Ligue antes!

40. Não leve bebidas alcoólicas para casa de alguém sem antes pedir permissão.

41. Nunca tente parecer entender mais sobre a doença de uma pessoa do que ela mesma, a menos que você seja um médico.

42. Não use passagens bíblicas como argumentos fatídicos. A menos que esteja conversando com alguém da sua igreja.

43. Não finja estar dormindo pra não dar o lugar pra alguém mais necessitado no transporte público.

44. Se você quer ir devagar, mova seu carro para a direita.

45. Se você vai à mercearia faltando 5 minutos pra fechar, ao menos seja rápido!

46. Jamais puxe conversa no banheiro masculino.

47. Numa conversa espere as outras pessoas terminarem suas sentenças. Dificilmente o que você tem a dizer é tão importante que precise interromper o outro.

48. Não monopolize a conversa ou mude de assunto de repente para algo que te interessa mais.

49. Não coma alimentos barulhentos em locais silenciosos como livrarias e recepções.

50. Quando usar o videogame de alguém, tome cuidado para não apagar nenhum save.

51. Quando usar o tablet ou smartphone de um amigo, não saia comprando aplicativos e jogos.

52. Não coma só o meinho mais doce da melancia e deixe o resto para os outros na geladeira.

53. Evite ir ao supermercado pra pagar contas. O processo é lento e ao contrário das contas as compras só podem ser feitas ali.

54. No estacionamento, ocupe apenas a sua vaga. Não estacione feito um imbecil.

55. Leve a mochila nas mãos em um ônibus ou metrô lotado.

56. Encontrar um amigo na fila do banco não lhe dá o direito de furar a fila naquele ponto.

57. Não leve alimentos de cheiro forte para o cinema

58. Se você está de guarda-chuva, procure livrar as marquises para quem esqueceu o acessório.

59. Não escreva mensagens em Caps Lock. Parece que você está gritando.

60. Tente decidir o seu pedido enquanto estiver na fila para não demorar mais tempo que o necessário.

61. Trate a porta do carro dos outros com carinho.

62. Limite-se ao seu espaço!

63. No cinema, abra as malditas embalagens antes do filme começar.

64. Não jogue lixo na rua achando que está fazendo um favor para os lixeiros. Ninguém vai perder o emprego por conta do seu 'ato de cidadania'.

65. Não jogue lixo na rua pela janela do seu carro.

66. Não fale alto no cinema, deixe para fazer comentários após a sessão terminar.

67. Pare o seu carro, quando fechar o sinal, antes da faixa de segurança dos pedestres.

68. Se for bem atendido, dê gorjetas com prazer.

69. Diga sempre: por favor, com licença, muito obrigado.

70. Recebendo e-mails, retribua-os. É sinal que a pessoa que o enviou pensou em você.




domingo, 30 de agosto de 2015

Olha, pai!

Marcos Piangers:




Meu filho não sai do iPad. Meu filho não sai do videogame. Meu filho não sai do celular.

Meu filho não sai da frente da televisão. Nossos filhos não saem de dentro dos aparelhos eletrônicos que compramos com dinheiro suado em 10 vezes na loja de departamentos.

Nossos filhos lembram alguém?

Lembram nós mesmos. Nós também não saímos da frente do celular. Não desgrudamos os olhos da TV. Estamos sempre no computador. Esses dias, aconteceu a cena mais triste e engraçada: minha filha dizia “olha, pai!” pela décima vez, enquanto eu lia e-mails do trabalho no celular. Ela, então, veio até a minha frente e se abaixou até ficar atrás do celular, de forma a entrar no meu campo de visão. “Só ficando aqui atrás do celular pra você olhar pra mim.”

Foi só mais um tapa na cara do papai, entre tantos que minha filha me dá. Cada tapa desses me faz um pai melhor. Passei a notar em casa, no restaurante, nos almoços de família: as crianças dizem “olha, pai!” o tempo todo. Estão pulando em um pé só, olha, pai! Estão descendo uma rampa correndo, olha, pai! Estão fazendo caretas engraçadas, olha, pai!

Nossos filhos não saem da frente dos eletrônicos porque olhamos pouco pra eles. E, quando pedimos pra que larguem o celular, o iPad e o joystick, é pra que eles comam, ou tomem banho, ou façam a tarefa escolar. Todas, atividades chatíssimas para uma criança. Sair do celular pra jantar, faça-me o favor! Nem você faz isso.

Experimente pedir pro seu filho sair do celular para fazer algo com você. Não uma obrigação, mas alguma coisa divertida. Algo que te faça realmente olhar pra ele, prestar atenção no que ele diz e faz. Experimente estar ali de verdade, sem o celular. De forma que ele não vai mais precisar gritar “olha, pai!”. Porque você já vai estar olhando.





terça-feira, 25 de agosto de 2015

Histórias de Paraquedistas XII

Orações de paraquedistas brasileiros

Oração do Combatente Paraquedista Brasileiro


Dai-nos, Senhor, a coragem de fazer a guerra,
Mas fazê-la somente em defesa da Pátria
E em busca suprema da paz.

Que a fibra paraquedista não nos deixe esmorecer
Ante as vicissitudes do combate.
Que o nosso brevê de prata, o bute e a boina,
Conquistados com lágrimas, suor e sangue,
Dê-nos, nos momentos de desespero,
O ânimo, a perseverança e a força para prosseguir.

Que o medo da morte não nos faça recuar
Ao abrigo confortável dos covardes.
Que a confiança em nossos companheiros,
E em nós mesmos, leve-nos a alcançar a vitória.

Dai-nos, Senhor, a grandeza de lutar com destemor
E, se possível, vencer sem ódio.
E, finalmente, Senhor, que tenhamos, para sempre,
A convicção e a glória do dever cumprido!


Austrália, 27 de fevereiro de 2011.

Cap José Álvaro Diniz Nogueira,
Pqdt 108, MS 109, Prec 15.


O capitão Nogueira deixou bem claro ao grupo do Grafonsos que fez esta oração unicamente para acrescentar mais uma ao acervo literário da Brigada de Infantaria Paraquedista. Seu propósito nunca foi de desbancar a oração que já esta oficializada na nossa Grande Unidade.


Oração de um paraquedista brasileiro

Por Nilo da Silva Moraes, Pqdt 11779.


Em homenagem a dois paraquedistas que sempre fizeram,
dentro das aeronaves, que nós não sentíssemos medo:

Cap José Álvaro Diniz Nogueira, Pqdt 108
e Cap Ly Adorno de Carvalho, Pqdt 503.

Senhor, eu vou saltar mais uma vez...
E mais uma vez vou sentir medo.
Medo natural de todo ser humano,
Mas sei que Tu estarás comigo,
Amparando-me e não deixando
Que eu transpareça senti-lo.

Senhor, eu vou saltar mais uma vez...
E mais uma vez vou pedir que me ampares
Em teus braços se o meu paraquedas não abrir.
Sou um homem de fé e pela minha fé vivo
E pela minha fé sei que um dia vou morrer.

Senhor, eu vou saltar mais uma vez...
Em um salto real de combate.
Não peço que as balas do inimigo não me acertem,
Pois vou também tentar acertar o inimigo,
Mas, se for acertado, que a minha morte seja rápida,
E que o meu paraquedas seja a minha última mortalha.

Senhor, eu vou saltar pela última vez...
Em um salto de despedida da minha amada Brigada
E que o meu salto seja o mais suave e demorado,
E que o paraquedas desça o mais lento possível,
Para que se eternize esse momento inebriante,
Como o momento mais feliz de toda a minha vida!





segunda-feira, 24 de agosto de 2015

José de Araújo Viana



Nasceu em Porto Alegre em 10/2/1872 e faleceu no Rio de Janeiro a 2/11/1916. Músico ilustre e professor do Instituto de Belas Artes. Nascido numa família em que se cultivava a música, dado que seu irmão Pedro era organista da Capela do Espírito Santo, desde cedo se dedicou ao aprendizado musical, tendo sido aluno dos professores Grünwald e Tomaz Légori. Em 1893 partiu para a Itália, onde cursou o Conservatório de Milão. Ao retornar ao Brasil, executou na igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio, a “Ave Maria” de sua composição. Em Porto Alegre, participou do primeiro concerto do Clube Haydn, em 2/4/1897, executando composições ao piano. Para a Exposição Estadual de 1901, a pedido do Presidente do Estado, Borges de Medeiros, compôs a “Marcha da Exposição”. Foi encenada com êxito no Teatro São Pedro, em 17/4/1902, a ópera “Carmela”, de sua autoria, com libreto do cearense Leopoldo Vóssio Brígido. Em 20 de março 1906, a mesma ópera foi encenada no Rio de Janeiro, no Teatro São Pedro de Alcântara, com o mesmo sucesso de Porto Alegre.

Em 1908, colaborou na fundação do Instituto de Belas Artes, do qual foi um dos primeiros professores. E nesse ano começou a trabalhar na ópera “O Rei Galaor”, que considerava sua obra-prima, mas só foi levada à cena depois de sua morte.

Acometido de uma grave doença de fundo neurológico, foram vãs suas tentativas de cura, quer em Porto Alegre, quer no Rio, quer na Europa. Faleceu numa de suas estadas no Rio, em busca de alívio para o mal.

Durante a administração do Intendente Otávio Rocha, foi homenageado com a construção de uma concha acústica e auditório a céu aberto, na Praça Marechal Deodoro, onde se exibia regularmente a Banda Municipal. O conjunto recebeu o nome de Auditório Araújo Viana. A posterior construção do Palácio Farroupilha, para servir de sede do Poder Legislativo do Estado, obrigou à demolição do belo auditório e à construção de outro, também a céu aberto e com a mesma denominação, localizado no Parque Farroupilha.

(Fonte: Antônio da Rocha Almeida, Vultos da Pátria, v. II, p. 188)

(Do livro “Porto Alegre – Guia Histórico”, de Sérgio da Costa Franco)


Antigo Auditório Araújo Viana por Sioma Breitman


Auditório Araújo Viana sem cobertura


Auditório Araújo Viana com cobertura




sábado, 22 de agosto de 2015

Fotografias

Lena Gino



Família Brugnara



Há quanto tempo você não vê um álbum de fotos de papel?
É... fotos impressas, do tempo em que ainda não havia câmera digital?
Outro dia eu estava procurando um documento em casa e achei, sem querer, uma caixa cheia de fotos de papel.
Estranho, né?
Hoje a gente tem a chance de planejar a foto.
Depois da câmera digital, todo mundo sai bem na foto.
Saiu ruim?
Apaga.
Os olhos ficaram vermelhos?
Faz outra.
O beicinho ficou esquisito?
Hummm, tira de novo?
Aí eu fiquei pensando como era diferente quando a gente não podia decidir se ficava ou não ficava bem na foto.
A gente levava o rolo pra revelar e aí... a surpresa!
Tudo ficava mais divertido.
Os flagrantes eram reais.
A tecnologia embelezou as nossas lembranças.
Retocou as nossas imperfeições, não é mesmo?
As fotos, hoje, são guardadas em arquivos virtuais...
As caixas e os álbuns desapareceram.
Doido isso, né?
Aí eu peguei uma das fotos e me vi, na juventude, rindo com amigos.
O cabelo tava despenteado, a roupa amassada, a meia furada, mas o meu sorriso estava ali... Autêntico e intacto.
Por alguns segundos, imaginei se eu não deveria ter dado uma ajeitada no cabelo, mudado de roupa, escolhido um fundo melhor para aquela foto...
Depois eu pensei:
Caramba! Se eu tivesse planejado qualquer pose para aquele momento, eu teria perdido o melhor daquela lembrança:
O meu riso, flagrado na hora da alegria, sem retoques, sem truques.
Mas vocês não acham que a vida é meio parecida com foto de papel?
 Porque os momentos são únicos.
Não têm volta.
O que foi torto, ficou torto. O que foi ruim, ficou ruim...
E o que foi bonito...
Ficou bonito pra sempre.
Tem coisa que não dá pra mudar, mesmo.
Sendo assim, eu acho que é melhor a gente estar sempre de bem com a vida.
Porque quando o riso sair na foto, com certeza, vai guardar pra sempre um momento bom...
Sem arrependimentos...
Sem nenhum remendo.





terça-feira, 18 de agosto de 2015

Torres malditas



Igreja Nossa Senhoras das Dores - 1908


A igreja de Nossa Senhora das Dores, a mais antiga da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional desde 1958. O lançamento de sua pedra fundamental ocorreu há cerca de duzentos anos, em 02 de dezembro de 1807, no alto da então praia do Arsenal, na Rua da Praia, mas sua construção demandou quase um século, ou cerca de 100 anos, pois somente em 1906 foi erguida a última torre do templo, ficando para o ano seguinte a conclusão da longa escadaria que dá acesso a ele.

Essa demora deu origem a uma lenda, e foi inspirado nela que Afonso Morais escreveu e publicou o livro denominado “Torres Malditas”, romance onde no início do texto o autor afirma que ninguém melhor que ele para discorrer sobre o acontecido, já que participara indiretamente do mesmo. Na obra mencionada, Afonso relata que um amigo seu, de nome Rafael, apaixonou-se por certa jovem chamada Corina, que lhe pediu, como prova de amor, o belo colar de brilhantes que adornava a imagem de Nossa Senhora das Dores, na igreja a ela consagrada. A princípio Rafael recusou-se, mas depois, convencido e empurrado pelas promessas que a amada lhe fazia, ele entrou furtivamente na igreja, apossou-se da jóia e a entregou à namorada.

Descoberto o roubo, a culpa foi imediatamente atribuída a um pedreiro negro de nome José, escravo cedido por seu patrão para ajudar nas obras de construção da igreja, e depois disso, diante da incriminação que se tornou generalizada, o pobre acusado foi preso e condenado a morrer na forca pelo grave delito que supostamente cometera. Nesse meio tempo, Rafael, o verdadeiro ladrão, decidiu que deveria confessar sua culpa a fim de evitar que se consumasse a tremenda injustiça já com data marcada para acontecer, mas Afonso Moraes garante em seu livro que foi dele o empenho para evitar que isso acontecesse. Dessa forma, na data marcada, o escravo José e outro condenado foram levados por uma escolta ao pé de uma árvore existente na Praça da Harmonia, escolhida pelas autoridades como local do patíbulo.  

Segundo a lenda, no momento em que ia colocar a corda no pescoço do escravo José, o carrasco lhe perguntou se ele sabia que o seu enforcamento era devido ao roubo do colar, e o sentenciado respondeu: – “Vou morrer porque sou escravo, mas sou inocente, e a prova disso é que as torres da igreja de Nossa Senhora das Dores hão de cair três vezes, e nunca ficarão completamente prontas”.

Mas acabou sendo executado, conforme mandava a lei local, e cinco meses depois desse fato, de acordo com registros da época, as duas torres da igreja, já quase concluídas, tombaram praticamente ao mesmo tempo, sem que ninguém esperasse por isso, o que de imediato trouxe à lembrança do povo as últimas palavras do escravo. A partir daí a crença popular provocou uma reação de temeridade tão grande que chegou a acarretar, segundo os comentários, a extinção da pena de morte em todo o Brasil, decretada por D. Pedro II para evitar que outras pessoas corressem o risco de perder a vida injustamente.

Outra versão sobre esse episódio conta que Domingos José, um senhor de muitos escravos, decidiu certo dia que um deles, chamado Josino, trabalharia nas obras de construção da igreja. Certo dia, porém, descobriu-se que tijolos e outros materiais de construção haviam desaparecido misteriosamente, e o referido escravo foi acusado por seu senhor da autoria desse sumiço. O pobre coitado jurava de pés juntos que era inocente, mas como naquele tempo a palavra dos cativos não tinha valor algum quando confrontada com a dos seus donos, a proclamação de inocência não foi sequer ouvida e o infeliz acabou sendo condenado a morrer na forca. Inconformado, ele rogou uma praga que provaria ser verdadeira a sua afirmação, pois o castigo do céu pela crueldade que o fariam passar seria a de que o seu senhor não conseguiria ver a conclusão das obras de levantamento das torres da igreja. Quando em 1904 o último andaime da obra finalmente foi retirado, Domingos José já não mais vivia.

Na verdade, as interrupções no andamento dos trabalhos de construção, motivadas por falta de dinheiro e alguns acidentes, levaram os supersticiosos a acreditar nessa lenda. O que realmente aconteceu foi que em determinado período a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores enfrentou dificuldades financeiras por motivos diversos, entre eles o início e desdobramento da Revolução Farroupilha. Quando em 1898 o padre Fernando Gigante assumiu a paróquia e suspendeu os serviços religiosos, seus membros reagiram reativando a irmandade.


O padre C. J. Papen, em seu resumo histórico sobre a igreja, publicado em 1979, afirma que “Enquanto, no século passado, a conclusão do templo dependia dos esforços dos escravos, subjugados e explorados por seus senhores, não se chegou a um êxito feliz. Mas, uma vez abolida a escravidão no fim do século 19, e todos unidos num trabalho espontâneo e livre, conseguiu-se acabar a obra. Parece ser essa a lição da lenda do escravo”.


Igreja Nossa Senhora das Dores por João Faria Viana



Problema matemático


Eis aqui um problema de lógica que apenas 2 % das pessoas
consegue resolver.


Perspicácia, muita perspicácia!


          5+3+2 = 151022
          9+2+4 = 183652
          8+6+3 = 482466
          5+4+5 = 202541

          Logo:

          7+2+5 = ??????

          O número a ser achado é: 143547

          E como se acha esse número?

          a) 5+3+2 = 151022 que é: (5x3 = 15), (5x2 = 10) e (15+10-3 = 22)
          b) 9+2+4 = 183652 que é: (9x2 = 18), (9x4 = 36) e (18+36-2 = 52)
          c) 8+6+3 = 482466 que é: (8x6 = 48), (8x3 = 24) e (48+24-6 = 66)
          d) 5+4+5 = 202541 que é: (5x4 = 20), (5x5 = 25) e (20+25-4 = 41)
         
         Logo:

         7+2+5 = 143547 que é: (7x2=14) (7x5=35) (14+25-2 = 47)


Cartilhas

Luis Fernando Veríssimo


À ANTIGA: Eva viu a uva. O vovô viu a Eva.

MODERNA: O vovô viu Eva vendo a uva.

PÓS-MODERNA: Eva viu a uva vendo o vovô.

CAPITALISTA: Eva vendeu a uva ao vovô.

SOCIALISTA: Eva e o vovô dividiram a uva.

COMPETITIVA: Eva viu a uva primeiro; o vovô ficou sem uva.

SOCIAL-DEMOCRATA: Eva e o vovô acabariam dividindo a uva, mas só depois de um longo processo de conscientização, sem recorrer à violência.

TRÁGICA: Eva tirou a uva da boca do vovô à força e depois se engasgou com ela, enquanto o vovô tinha um ataque cardíaco.

ERÓTICA: Eva chupou a uva fazendo “mmmm” enquanto o vovô fingia que não via.

AMERICANIZADA: Eva viu the book on the table enquanto o vovô recebia o delivery da uva.

FILOSÓFICA: Eva viu a uva, logo existe. O vovô viu Eva vendo a uva, mas não pode dizer com certeza que viu mesmo Eva vendo a uva ou apenas uma projeção conceitualizada da sua imagem no seu sistema neurológico, o que não comprovaria sua existência.

NOIR: Eva pressentiu a presença da uva na escuridão, mas antes que pudesse virar-se e vê-la sentiu a ponta de uma arma nas suas costas e ouviu a voz do vovô dizendo: “Esta é minha, baby”.

SURREALISTA: Eva ouviu a vulva do vovô.

CULINÁRIA: Eva viu a uva, cortou a uva em pedaços, botou no molho do peixe junto com alcaparras e vinho branco – e o vovô só olhando.

SIMBÓLICA: Eva ver a uva significa a reiteração de um ato de conhecimento do mundo que está na origem da cultura humana. Eva, a primeira da sua espécie; uva, a coisa a ser entendida, a realidade extra espécie que, inaugurando a relação gente/mundo, é precondição para o desenvolvimento das artes fabris e da agricultura e, portanto, da civilização. Já o simbolismo do vovô não é tão claro.

TEATRAL:

Eva – Oba, uma uva.
Vovô – Cuidado.
Eva – Por quê?
Vovô – Você sabe, os agrotóxicos...
Eva – Ora, vovô, fazer um drama só por causa de...
Vovô – Não. Conheço gente que comeu uma uva e morreu na hora. Uma uva pode ser tão mortal quanto os punhais que abateram César, na peça de Shakespeare.
Eva – Não vou comer. Só vou olhar.
Vovô – Citando de novo o bardo: também nos envenenamos pelos olhos.
Eva – Shakespeare disse isso?
Vovô – Não sei, mas soa como dele.
Eva – De qualquer jeito, não vou comer.
Vovô – Vou ficar de olho em você, menina.

APOCALÍPTICA: Eva verá a uva, o vovô verá a Eva, e este será o último acontecimento na História do mundo antes de começar a chover enxofre.


O velho e o louco de Ray-Ban

Oscar Bessi Filho




Na Estrada do Mar, o homem grisalho dirigia calmo, apreciando a paisagem. Dentro da velocidade limite conseguia saborear o clima ameno e belas imagens da natureza ao seu redor. Gostava do Litoral pelo ar de fuga que respirava. Aquela aura de relaxamento que lhe parecia nem ter lógica, pois as casas da praia tinham as mesmas chaminés, os humanos produziam as mesmas sujeiras, os mesmos barulhos da Capital, e as ruas centrais sofriam com os mesmos congestionamentos. Em finais de semana e feriados, o simples ir à padaria se tornava uma estressante fila de espera, iguais às que tolerava com tão pouca paciência nos postos de saúde. E havia cada vez mais gentes e carros. Mesmo assim, todo ano ele viajava para o Litoral.

Viu pelo retrovisor uma caminhonete importada se aproximar em poucos instantes, veloz e ruidosa. O motorista era um jovem de Ray-Ban, fisionomia fechada, tatuagens no braço. Havia um movimento considerável na pista oposta e não havia como ultrapassá-lo. Então, o carro, bem maior que o seu, passou a pressionar para que ele saísse da frente. Acelerava como se pudesse empurrar, passar por cima, jogá-lo para fora da pista. Quase tocando o seu para-choque. O velho viajante ficou assustado. A impaciência do rapaz era visível e agressiva. Mas ele não tinha para onde escapar naquele trecho. O outro começou a dar sinais de luz insistentes e irritados e, naquele momento, o homem grisalho apenas rezou para que ele fosse embora o quanto antes.

Numa fração de instante, viu ao seu lado o jovem que finalmente o ultrapassou. A fisionomia de um motorista que deveria estar passeando, mas parecia uma máquina de guerra a mil em plena batalha. Ele lembrou-se de quando era jovem e impetuoso. De quando também gostava, como qualquer jovem, de alguma emoção e adrenalina. Mas não assim. Não ignorando vidas que estivessem ao seu lado. “Vá saber que circunstâncias são capazes de tornar as pessoas insensíveis?”, pensou o velho. “Que presenças ou ausências indesejadas quando criança? Que faltas? Que excessos? Torceu para que o tempo ofertasse àquele louco que escondia seu olhar sob o Ray-Ban, o aprendizado da calma. Do entendimento de que a vida é um existir coletivo. E a consideração pelos outros”.

Mas o congestionamento e a ambulância, alguns quilômetros depois, apenas confirmaram um triste pressentimento que teve ao ver aquele rapaz, ao seu lado, ensandecido. O jovem de Ray-Ban jamais teria chance de ter seus cabelos grisalhos e de apreciar a paisagem.


In Correio do Povo, 19.01.2014


Contos de Dalton Trevisan



Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

O Negócio

Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana:
- Como é o negócio?
De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa:
- Deus me livre, não! Hoje não...
Abílio interpelou a velha:
- Como é o negócio?
Ela concordou e, o que foi melhor, a filha também aceitou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou:
- Como é o negócio?
Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia a capa de viagem, estendida na grama orvalhada.
O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça surgiu à janela e o vizinho repetiu:
- Como é o negócio?
Diante da recusa, ele ameaçou:
- Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto!
- Espere um pouco - atalhou Julietinha. - Já volto.
Abriu a janela, despejou água quente na mão do negro, que fugiu aos pulos.
A moça foi ao boteco. Referiu tudo ao velho Abílio, mão na cabeça:
- Barbaridade, ô neguinho safado!
O vizinho não contou e o cometa nada descobriu. Mas o velho Abílio teve medo. Nunca mais se encontrou com Julietinha, cada dia mais bonita.


Textos extraídos do livro “Mistérios de Curitiba”,
Editora Record - Rio de Janeiro – 1979, págs. 73 e 103.

Em Busca da Curitiba Perdida

Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça - galiii-nha-óóó-vos - não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a estátua do Tiradentes.

Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal; do Jegue, que é o maior pidão e nada não ganha (a mãe aflita suplica pelo jornal: Não dê dinheiro ao Gigi); com as filas de ônibus, às seis da tarde, ao crepúsculo você e eu somos dois rufiões de François Villon. Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a dos bailes no 14, que é a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 De Janeiro; das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic; dos Chás de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios são as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja. Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões - com seu rei Candinho - e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo. Não a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitágoras, desde o Sócrates II até os Sócrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estação, último trenzinho da Revolução de 30, Curitiba que me viaja.

Dos bailes familiares de várzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se você dança aconchegado; do pavilhão Carlos Gomes onde será HOJE! só HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos - A Ré Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de pó que nem os vira-latas da lua.

Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braços do grande Ney Traple e das pensões familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma pensão é maior que a República de Platão, eu viajo.

Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iapó, do maestro Mossurunga, eu viajo.

Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio na Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber água.

Viajo Curitiba das conferências positivistas, eles são onze em Curitiba há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.

Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo.

Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é - província, cárcere, lar - esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.


O "Vampiro" fala de sua cidade. Texto extraído do livro 
"Mistérios de Curitiba", Editora Record, Rio de Janeiro, 
1979, pág. 84.

O pitoresco na justiça



Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha, "o Saudoso", prestou esta declaração:

“−Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma paraqueda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou, mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.”

Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor" que esclareceu o seguinte:

Tradução do depoimento

− Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminhava pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da nava¬lha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensangüentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.”

(Correio da Manhã - Rio de Janeiro – 5.4.1959)


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Mais nostalgia



Por Paulo santana


Mais que a todos, a passagem dos séculos me assombra.

Tem gente por aí convivendo comigo que já nasceu sob o signo da insegurança pública e do desemprego.

Eu não, sou do tempo das cadeiras preguiçosas ou de palha nas calçadas.

Do tempo em que o trem vinha até a Voluntários da Pátria e se ia até Santa Maria num vagão com restaurante.

Sou do tempo da Bandeira do Divino, ela era precedida nas ruas e nos becos por foguetes, entrava nas casas, punha-se um donativo numa caneca e cortava-se um pedacinho de fita da bandeira para abençoar a casa.

Sou do tempo do Armazém Rio-grandense, sou do tempo dos cubeiros, que vinham em caminhões com cubos limpos de madeira envernizada e os trocavam nas latrinas por cubos cheios de fezes humanas.

E as mães diziam para os filhos: “Se não te comportares e não estudares, vais ser cubeiro”.

Sou do tempo das Lojas Krahe, da Casa Coates e da carrrocinha dos cachorros, que recolhia os cães vadios, mas junto com eles arrastava por laços asfixiantes nos pescoços os cães das famílias, o que por vezes causava uma tal revolta no arrabalde que as carroças eram destroçadas, os cães soltos e os funcionários municipais espancados.

Sou do tempo da Casa das Sedas, da Xangrilá e da espiriteira de álcool e do fogareiro de bomba.

Sou do tempo da Sloper, da Tschiedel, do caminhão do gelo que trazia longas barras que eram carregadas nos ombros dos geleiros, protegidos por sacos de aniagem.

Não havia refrigeradores, eram geladeiras, nasceu neste processo a cerveja bem gelada.

Sou do tempo do Anil Reckitt, do Vinho Doce Sabiá e do emplastro poroso do mesmo nome para torcicolo.

Sou do tempo do Kirk e da Senador, da Ferragem Pimenta, do pião, do bilboquê, depois do ioiô, do jogo de bambá com cascas de laranja, do jogo de taco com casinha derrubada, do Mercado Livre das frutas e verduras na Mauá, da vela espermacete, do refresco Hidrolitrol, do cartaz no bonde:

          “Veja ilustre passageiro
          o belo tipo faceiro
          que o senhor tem a seu lado
          e no entretanto (sic) acredite
           quase morreu de bronquite
          salvou-o o Rhum Creosotado”.

Sou do tempo do bambolê, do sapato tressê, da bolinha de inhaque e da “aça” que arrastava todas pela frente.

Sou do tempo dos cines Coliseu e Central.

Sou do tempo do Brizola governando o Estado e atrasando o pagamento do funcionalismo por longos e tenebrosos cinco meses.

Por isso, ao mesmo tempo que nada me surpreende, tudo me arrasa e espanta.


*Texto publicado em 23/03/2007


Cine Central na Rua da Praia quase esquina com a Rua da Ladeira



Cine Coliseu - bico de pena de Vicente Correa


Mulher de vida fácil



Quenga, prostituta, meretriz, cafetina, 
gigolô, bordel, cabaré, casa da mãe Joana

*Por Ari Riboldi

Andorinha: Na gíria popular, mulher que pratica a prostituição ao longo das estradas, normalmente com caminhoneiros.

Bordel: Antro de devassidão; prostíbulo. Do francês antigo “bordel”, cabana, como forma diminutiva de “bord”, casa de tábuas, mais tarde com o sentido de prostíbulo, como no italiano “bordello”.

Cabaré: Estabelecimento comercial onde geralmente são apresentados números de músicas, danças e variedades e os clientes podem beber, dançar e consumir refeições. Termo vindo do francês “cabaret”, com o sentido de loja modesta de bebidas, na qual também se podem comprar refeições.

Cafetina: Cafetina e gigolô definem bem uma prática, mas são palavras politicamente inadequadas, dependendo, especialmente, da clientela envolvida e do local. Em alguns locais mais elitizados, por exemplo, cafetina da corte recebe o nome de promotora de eventos. A prostituta responde pelo nome de recepcionista. O resto que possa acontecer, durante ou depois do suposto evento, mesmo que seja num andar acima ou abaixo, é de responsabilidade exclusiva das partes. Até mesmo o turismo sexual, tão deplorável e tão condenado, em alguns lugares passa sob o disfarce de turismo ecológico, com lindas praias e atrativas ondas marítimas. Cafetina, o mesmo que caftina, vem do francês “caftan”, mulher que vive da exploração da prostituição. Aliás, a prostituta é a parte mais fraca nessa história e é, ironicamente, conhecida também como “mulher de vida fácil”.  Outros termos vinculados ao negócio: alcoviteira, cafetão, cafiola, chupa-caldo, rufina, rufião, rúfio.

Gigolô: Homem que vive às custas de meretriz ou que é sustentado por sua amante; pessoa que vive às expensas de outra. Do francês “”gigolo”, amante de “gigolette”. A palavra “gigolette” designa moça de rua.

Mariposa: Meretriz, prostituta. O nome deve-se ao fato de que esses insetos têm o hábito de voar no crepúsculo e durante a noite, período em que, normalmente, as prostitutas também exercem a sua atividade. Meretriz mulher que pratica o meretrício, ou seja, que vende o corpo como prostituta. Do latim “meretrix”, “mereticis”, cortesã, mulher pública.

Quenga: Vasilha feita com a metade do endocarpo de um coco; o conteúdo dela, também chamado quengo. Na linguagem chula, mulher que exerce a prostituição; meretriz. De “kienga”, tacho, termo oriundo do quimbundo, língua da família banta falada na Angola.

Prostituta: Mulher que exerce a prostituição. Prostituir-se é entregar-se à cópula sexual por dinheiro, ato que pode ser praticado por homem ou mulher. Do verbo latino “prostituere”, formado por “pro”, diante, na frente de, e “statuere”, pôr, colocar, ou seja, apresentar à vista de, colocar à venda, expor aos olhos.

Alguns sinônimos de prostituta


Alcoureira, andorinha, bagaço, bandida, barca, besta, bisca, biscaia, biscate, bofe, boi, bruaca, bucho, cadela, cantoneira, china, cocote, cortesã, couro, croia, croque, cuia, dadeira, dama, dama da noite, decaída, égua, fêmea, frete, frincha,  galdrapinha, jereba, loba, madama, madame, marafa, marafaia, mariposa, , messalina, mundana, pécora, perdida, perua, piranha, piranhuda, pistoleira, prostituta, puta, quenga, rameira,  rascoeira, reboque, transviada, vadia, vulgivaga, zabaneira, zorra.

Locuções adjetivas com o mesmo sentido

Mulher à-toa, mulher de comédia, mulher de rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher da má nota, mulher da ponta de rua,  mulher de vida fácil, mulher do fado, mulher do fandango, mulher do mundo, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública, mulher vadia.

Expressões populares

Casa da mãe Joana: Local onde todos mandam e cada um faz o que quer. A origem da expressão é controversa. Segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, trata-se de um antropônimo de Joana (1326-1382), rainha de Nápoles e condessa de Provença, que, tendo-se refugiado em Avignon, em 1346, regulamentou o funcionamento dos bordéis da cidade. Uma de suas resoluções foi a de estabelecer que os bordéis deveriam ter uma porta pela qual todos entrariam.  A partir daquele momento,  cada bordel passou a ser conhecido com o nome de “paço da mãe Joana”, no sentido de que era uma casa que estava com a porta aberta para qualquer um.  Ainda de acordo com Câmara Cascudo, “no Brasil, paço não é um vocábulo popular, tornou-se casa e, às vezes, com nome mais repugnante e feio”. Esse nome, referido pelo folclorista como feio, possui somente uma sílaba e começa pela letra “c” de casa.

Casa de tolerância: Expressão eufemística para denominar estabelecimento onde se pratica a prostituição com o funcionamento regulamentado pelas autoridades.

Ditado popular

“A casa é das mulheres e a rua é dos homens.”

Como qualquer ditado, esse também traduz o senso comum. É o reflexo de um tempo já superado em que se verifica qual era o papel a exercido pela mulher: cuidar da casa, com todos os afazeres - lavar, cozinhar, cuidar dos filhos, etc.

O ditado reproduz os costumes e a cultura de determinado período, com a sabedoria e os preconceitos de cada época. Citei-o com o intuito de demonstrar como era vista a figura feminina, sempre sob a ótica do homem, como se a mulher fosse um objeto submisso aos caprichos do macho. Tempos que foram superados em grande parte, embora ainda haja etapas a ser vencidas para o estabelecimento, de direito e de fato, das condições de igualdade entre homem e mulher.



*O Professor Ari Riboldi atua na Prefeitura de Porto Alegre desde 1987. Pesquisador das origens de expressões, ditados populares e demais termos da Língua Portuguesa, o escritor serafinense, natural do Distrito de Silva Jardim, já lançou cinco livros, entre eles O Bode Expiatório, o qual acaba de ser lançado em seu terceiro volume. A obra traz a explicação do uso de nomes de animais, partes do corpo e vegetais em expressões do cotidiano.


Igreja de Santo Antônio do Partenon

         

A primeira capela construída nos altos do morro de Santo Antônio o foi por iniciativa da Sociedade do Partenon Literário, que ali pretendeu implantar um complexo cultural, com sua sede e um loteamento anexo. A provisão para a ereção da capela foi concedida pelo bispado em 9/6/1875, iniciando-se em seguida a construção, que foi concluída e inaugurada em 13/6/1877. A capela se tornou sede de curato em 30/8/1911, sendo seu primeiro cura o padre português Manoel da Costa Neves. A 28/6/1919, converteu-se em sede paroquial, quando a circunscrição já se achava entregue à administração dos frades capuchinhos e tinha como pároco Frei Germano de Sain Sixt. Vigário desde 1915 até 1939, foi Frei Germano quem deu início à construção da atual igreja, a partir de 1928, com base numa planta do arquiteto Victor Denarié, francês, ligado à arquidiocese de Chambéry, na França, segundo informa o Prof. Rovílio Costa (“Santo Antônio do Partenon, cem anos de fé e cultura”, em Correio do Povo, de 24/6/1977). O mesmo Frei Germano importou da França um carrilhão com 18 sinos, que foi montado na torre do novo templo. A construção da atual igreja foi morosa, tendo-se arrastado aproximadamente por 30 anos. A conclusão do interior – teto, abóbadas, paredes internas e piso – só ocorreu durante o vicariato do Frei Flávio de Bom Jesus, entre 1957 e 1962.

Em posição eminente, sobre o alto do Morro de Santo Antônio, descortina-se dessa igreja um belo panorama. Ela própria compõe-se com seu entorno uma paisagem harmônica e atraente.


Igreja Santo Antônio - anos 60

(Do livro “Porto Alegre – Guia Histórico”, de Sérgio da Costa Franco) 

*Quando eu tinha entre 5 e 6 anos, por iniciativa de uma tia, a Doralice, paguei uma promessa a Santo Antônio. Acompanhei uma procissão vestido de capuchinho. (Nilo Moraes)


domingo, 16 de agosto de 2015

Noel Rosa e a entrevista póstuma a Sérgio Cabral



Noel Rosa por William

Como seria uma entrevista com um dos maiores personagens do samba? O jornalista Sérgio Cabral pensou em como se desenrolaria um papo com Noel Rosa a partir das composições do músico. A entrevista foi publicada no Pasquim, em 1973.

Os diálogos são geniais, assim como o retrato de Noel pintado por Cabral:

O PASQUIM – Você um cara cheio de problemas de saúde, não saía dos bares, bebendo a noite inteira, batendo papo, etc.
NOEL ROSA – Saber sofrer é uma arte. E pondo a modéstia de parte, eu sei sofrer.

O PASQUIM – Então você sofreu pra burro.
NOEL ROSA – Mesmo assim não cansei de viver.

O PASQUIM – Mas as mulheres de vez em quando, te faziam sofrer mais ainda.
NOEL ROSA – Quem sofreu mais do que eu não nasceu.

O PASQUIM - Uma das suas mulheres foi até visitá-lo, quando você esteve doente. Mas você estava fora. Por que ela foi lá?
NOEL ROSA – Porque pretendia somente saber qual era o dia que eu deixaria de viver.

O PASQUIM – Você sofreu várias decepções, mas continuou amando.
NOEL ROSA – Nunca se deve jurar não mais amar a ninguém.

O PASQUIM – Quer dizer que você não tem nada contra o amor.
NOEL ROSA – Quem fala mal do amor não sabe a vida gozar.

O PASQUIM – Mas você, de vez em quando, fala mal da mulher.

NOEL ROSA – A mulher mente brincando e, às vezes, brinca mentindo.

O PASQUIM – Explica isso melhor.
NOEL ROSA – Quando ri está chorando e quando chora está sorrindo.

O PASQUIM – Você sabe se a Betty Friedman o conhecesse teria uma imensa bronca de você que é contra a mulher trabalhando.
NOEL ROSA – Todo cargo masculino, seja grande ou pequenino, hoje em dia é pra mulher.

O PASQUIM – Mas o que é que atrapalha isso, Noel?
NOEL ROSA – E por causa dos palhaços, ela esquece que tem braços. Nem cozinhar ela quer.

O PASQUIM – Mas os direitos são iguais.
NOEL ROSA – Os direitos são iguais, mas até nos tribunais a mulher faz o que quer.

O PASQUIM – Então não são tão iguais assim.
NOEL ROSA – Pois o homem já nasceu dando a costela à mulher.

O PASQUIM – Essa história não é bem assim, não. É preciso discutir.
NOEL ROSA – Mas não quero discussão.

O PASQUIM – Da discussão sai a razão.
NOEL ROSA – Mas às vezes sai pancada.

O PASQUIM – Você gosta mesmo é de samba, não é?
NOEL ROSA – O mundo é um samba em que eu danço sem nunca sair do meu trilho.

O PASQUIM – Você acha mesmo o samba um troço importante?
NOEL ROSA – Exprime dois terços do Rio de Janeiro.

O PASQUIM – Tenho vários amigos que não gostam de samba, querem voar mais alto.
NOEL ROSA – Mas quem voa em grande altura leva sempre grande queda.

O PASQUIM – Não fale assim, Noel, os caras podem se chatear.
NOEL ROSA – O que eu falo é bem pensado. Não receio escaramuça. E que aceite a carapuça quem se sente melindrado.

O PASQUIM – Assim como você está falando, o que é que quer que eles pensem de você?
NOEL ROSA – Que entre nós o páreo é duro.

O PASQUIM – Mas vão acabar seus inimigos.
NOEL ROSA – Meus inimigos, que hoje falam mal de mim, vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

O PASQUIM – Pelo que vejo, não se pode falar mal do samba perto de você.
NOEL ROSA – O samba é a corda e eu sou a caçamba.

O PASQUIM – Você não tem medo de ninguém?
NOEL ROSA – Sou independente como se vê.

O PASQUIM – Independente? Está rico?
NOEL ROSA – Não consigo ter nem pra gastar.

O PASQUIM – Ou seja: está durão.
NOEL ROSA – Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu. Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou.

O PASQUIM – Você não vai porque está com medo dos malandros do samba.
NOEL ROSA – Não tenho medo de bamba. Na roda do samba, eu sou bacharel.

O PASQUIM – Como é que é esse negócio de bacharel?
NOEL ROSA – Quando me formei no samba recebi uma medalha.

O PASQUIM – Você vive em tudo que é samba, não é?
NOEL ROSA – A polícia em todo canto proibiu a batucada. Eu vou pra Vila onde a polícia é camarada.

O PASQUIM – O samba em Vila Isabel é de noite ou de dia?
NOEL ROSA – O sol da Vila é triste. Samba não assiste porque a gente implora: “Sol, pelo amor de Deus, não venha agora que as morenas vão logo embora”.

O PASQUIM – Mas tem mais samba em outros lugares, Noel.
NOEL ROSA – Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz.

O PASQUIM – E a Vila, como é que fica nisso?
NOEL ROSA – A Vila não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também.

O PASQUIM – Conforme você disse, o samba exprime dois terços do Rio de Janeiro.
NOEL ROSA – Mas tenho que dizer: modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila.

O PASQUIM – Assim não pode, Noel. Com esta banca é melhor a gente acabar a entrevista.
NOEL ROSA – Ofereço meu auxílio. Passe bem, vá pela sombra.

O PASQUIM – Está me mandando embora, Noel?
NOEL ROSA – Não mandei você embora porque sou benevolente.

O PASQUIM – Sabe que se você dissesse isso para certos jornalistas, eles entenderiam como um desafio para briga?
NOEL ROSA – De lutas não entendo abacate.

O PASQUIM – Ué, eu soube que você já lutou profissionalmente.
NOEL ROSA – Cheguei até ser contratado para subir em um tablado para vencer um campeão.

O PASQUIM – E daí, venceu?
NOEL ROSA – Mas a empresa, pra evitar assassinato, rasgou logo o meu contrato, quando me viu sem roupão.

O PASQUIM – E como é que você se vira com esses valentões?
NOEL ROSA – No século do progresso, o revólver teve ingresso para acabar com a valentia.

O PASQUIM – Você sabe que o Josué Montello...
NOEL ROSA – Escreve sal com c cedilha.

O PASQUIM – Pois é. Ele agora é da Academia Brasileira de Letras, junto com a Pedro Calmon.
NOEL ROSA – Desta vez, juntou-se a fome com a vontade de comer.

O PASQUIM – Mas eles têm prestígio por aí, numa certa roda.
NOEL ROSA – Vassouras nos salões da sociedade.

O PASQUIM – Você não freqüenta essa roda, não é?
NOEL ROSA – Você pode crer que a palmeira do Mangue não vive em Copacabana.

O PASQUIM – Vamos falar mal das pessoas. E o Roberto Campos, hem?
NOEL ROSA – Que é também brasileiro. E em três lotes vendeu o Brasil inteiro.

O PASQUIM – Sabe que andaram pixando você sob o pretexto de que você é bom de letra, mas não de música?
NOEL ROSA – Sendo as notas sete apenas, mais eu não posso inventar.

O PASQUIM – Bem, Noel, vamos acabar a entrevista. Adeus.
NOEL ROSA – Adeus é pra quem deixa a vida. Três palavras vou gritar por despedida: até amanhã, até já, até logo.

Fontes:

Jornal O Pasquim – nº 201. Rio de Janeiro, 8 a 14 de maio de 1973, p. 15.
Discografia Completa “Noel pela Primeira Vez”. MEC/FUNARTE/2000.