sexta-feira, 31 de julho de 2015

Humor Literário

O sogra do poeta


Os últimos anos da vida de Bernardo Guimarães (acima) foram de recolhimento e de isolamento. Pobre e modesto, depois de haver tentado vários lances da fortuna, vivia em um dos arrabaldes de Ouro-Preto, quando ali o foi visitar Augusto de Lima. No correr da palestra, o romancista da Escrava Isaura falou de si, assinalando o modo por que a sorte paradoxalmente o protegia.
-  O meu destino é de tal ordem, meu amigo, - disse, - que a minha sogra tem o nome de Felicidade!...


O terno do historiador




Entre as figuras de relevo que serviam de alvo habitual à sátira impiedosa de Emílio de Menezes, estava Capistrano de Abreu (acima), historiador ilustre, sábio respeitadíssimo, em torno do qual se criara uma glosadíssima lenda de desleixo, de abandono próprio, e, mesmo, de falta de higiene.
Utilizando esta versão popular, contava o poeta:
- Uma vez o Capistrano mandou à tinturaria, para ser lavado, um terno com que andava há doze anos. Uma semana depois, aparece-lhe à porta um empregado da tinturaria, e entrega-lhe um embrulho pequenino, que lhe cabia na mão.
E como lhe perguntavam o que seria, Emílio concluía, invariável:
Eram os botões, menino!

Regalias militares


Laurindo Rabelo (acima), não obstante o descaso de si mesmo, era profundamente orgulhoso. Médico do Exército e íntimo na casa do coronel Tamarindo, havia o poeta chegado à residência deste, em dia festivo, na ocasião, exatamente, em que a mesa das pessoas gradas já se achava completamente cheia.
Não querendo fazê-lo esperar, a dona da casa indicou-lhe um lugar na mesa da gente moça.
Laurindo franziu o rosto.
- Adeus, coronel, - disse, despedindo-se.
E já da porta, ofendido:
- Os médicos do Exército jantam com o Estado-Maior!


 De “bode ler"


Frequentador da casa dos Marianos, de que descende Alberto de Oliveira, conheceu Fagundes Varela (acima) um mulato pernóstico, de nome Teodorico. Aliteratado, o pardavasco pediu ao poeta que lhe emprestasse as Flores do Mal.
- Não posso, - recusou Varela, piscando os olhos azuis.
E sem a menor consideração:
- É de Baudelaire; não para “bode ler!”.


Luto de boêmio


O grupo de boêmios de que faziam parte Bilac, Murat, Coelho Neto, Guimarães Passos, Pardal Mallet, Paula Ney e outros, atravessava a sua fase luminosa, quando, um dia, ao chegarem estes à pensão em que morava Aluísio Azevedo (acima), o encontraram com os olhos vermelhos de chorar. Tinha-lhe morrido a mãe no Maranhão, e o romancista, além de outras preocupações, estava a braços com a do luto, impossível na ocasião pela absoluta falta de dinheiro. A única roupa que possuía era um terno cinzento, absolutamente inútil naquela emergência.
Guimarães Passos havia chegado, porém, recentemente de Alagoas, e era dono de um terno preto, destinado a grandes cerimônias. Correu a casa, e trouxe-o, para emprestar ao amigo, enquanto este arranjava outro.
Passou-se, entretanto, o primeiro mês. Passou-se o segundo. Passou o terceiro, e Aluísio sem devolver ao dono o terno preto, em que se metia diariamente. Guimarães Passos não suportou mais a demora; plantou-se, uma tarde, à Rua do Ouvidor, ao lado de Coelho Neto e Alcindo Guanabara, e, à passagem do autor d' O Mulato, que vinha com a sua roupa emprestada, chamou-o:
- Aluísio!
E fazendo-o parar, intimativo:
- É preciso que alivies o luto!...



Entre sem bater

A vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé.

(1895-1971)




TRECHOS DO LIVRO


O Barão de Itararé perdia vida, mas não a piada. O interrogatório a que foi submetido no navio-prisão Pedro I é uma pérola de nonsense, e do humor brasileiro, e acabou sem que o inquisidor fizesse nenhuma acusação formal ao preso. Abaixo um trecho do inquérito do humorista, transcrito de Entre sem bater:

O escrivão abriu a máquina portátil. Colocou um papel com carbono. O juiz se mexeu e tirou do bolso da calça um pedaço de papel. Com certeza algo escrito que deveria ser o roteiro do inquérito. Começou dizendo que naquele momento declarava instalado o Tribunal de Segurança Nacional destinado a inquirir e processar os implicados e assim por diante e que ia dar início aos trabalhos fazendo a qualificação do interrogatório do acusado presente.
‒ Qual o seu nome?
‒ Ora, doutor, o senhor então atravessa o Atlântico numa lancha a motor, especialmente para me ouvir, e não sabe o meu nome?
‒ Bom, isso aqui é só uma formalidade.
‒ Mas eu estou completamente informal, nem procurei me vestir. Como é que o senhor vem com formalidades?
O juiz virou-se para o escrivão e disse: “Apparício Torelly”.
‒ Ah, o senhor está vendo como sabia o meu nome! E mesmo assim estava perguntando? Eu sou um homem sério, não faça isso comigo.
‒ Sua idade?
‒ Esse é outro problema... Não sou criança, nasci há muito tempo. Vou lhe dizer uma coisa: estou numa situação de tamanha pressão mental e nervosa que não me lembro das coisas que me aconteceram ontem. E o senhor que me lembre de quando nasci. Isso é uma coisa de que não tenho a menor noção no momento.
Ele se virou para o escrivão e disse: “Quarenta anos presumíveis”.
‒ Presumíveis está muito bem. Aliás, há agora uma teoria em voga que diz que a vida começa aos quarenta. De modo que aceite esse palpite.
‒ A que o senhor atribui sua prisão?
‒ Ora, doutor, eu julgava que o senhor é que vinha me dizer o motivo da minha prisão. Estava esperando que o senhor viesse me dizer: o senhor está preso por isso, por aquilo e assim por diante. Então, com toda a dignidade, eu iria me levantar e contestar com grande veemência, desmanchar este castelo de cartas, essa acusação contra uma pessoa séria. E, no entanto, o senhor me desarma e vem perguntar a mim, como se eu é que fosse o juiz do sítio. Quer saber por que e eu fui preso? Mas é isso que eu quero saber e o senhor tem a obrigação de me dizer vai perder a oportunidade de ouvir um brilhante orador, numa defesa não menos brilhante da sua honra e da sua dignidade.
‒ Mas o senhor nem desconfia? Não tem a mais vaga suspeita do motivo por que foi preso?
‒ Bem, o senhor já está me falando de outra maneira, com delicadeza. Isso pede uma meditação. Vou fazer um esforço de memória para reconstituir os fatos. Ah... Agora estou me lembrando. Quando fui preso, estava tomando um cafezinho. Em casa, tomava muito café. E me diziam sempre: não deve tomar tanto café, isso faz mal, um dia você se arrepende. Só posso atribuir minha prisão ao fato de estar tomando um cafezinho, o que na minha família sempre disseram que faz muito mal.
“O juiz virou-se então para o escrivão ‒ contou Apporelly ‒ e disse: Escreva: O depoente informa que vírgula no momento vírgula não pode precisar o motivo da sua prisão ponto no entanto vírgula desconfia vírgula, não tira a vírgula, que foi por causa do cafezinho ponto”.


“Sabe o que quer dizer aquelas duas cobras no anel do médico?”
“Que cobra duas vezes: se cura, cobra; se mata, cobra.”


Apparício na Faculdade de Medicina


Nos dois primeiros anos, durante o curso de farmácia e química, seu antagonismo nos temidos exames orais era o renomado professor Cristiano Fischer. Quando este pressionou o novato com uma pergunta particularmente difícil, o aluno espantou-se: “O senhor, que é doutor em química, vem perguntar justo a mim?”


Numa aula de anatomia de Sarmento Leite, catedrático famoso, o estudante encontrou um uma mesa cheia de ossos ao entra na sala. O professor apanhou um fêmur e estendeu-o em direção ao aluno:
‒ O senhor conhece este osso?
O jovem Apporelly, igualmente respeitoso, respondeu rápido, empertigando-se e sacudindo o osso num cumprimento:
 ‒ Não, muito prazer.


Durante outro exame, percebendo que Aporelly não sabia as respostas, o professor, irônico, pediu ao bedel:
‒ Traga um pouco de alfafa, por favor.
‒ E para mim um cafezinho ‒ completou rápido o aluno.


Ao chegar, o professor Marques Pereira o interrogou:
‒ Senhor  Torelly, o senhor sabe o que é um protozoário?
Apporelly respondeu simplesmente:
‒ Um protozoário é um bichinho muito pequeno que se enxerga no microscópio.


Insatisfeito com a resposta, o professor ironizou o estudante, que publicava alguns poemas em Porto Alegre.
‒ Mas o senhor é um literato... Não poderá responder melhor? Não acha que esse verbo “enxergar” poderia ser substituído com proveito por “ver”?
Aceitando o desafio, o rapaz limpou a garganta e anunciou:
‒ Um protozoário, preclaro mestre, é um animalúnculo tão minúsculo que só pode ser observado através de lentes côncavas-biconvexas e à luz meridiana. É um ser tão inferior que parece sentir-se à vontade chafurdando na lama das sarjetas.


Sem assistir a uma aula sequer de fisiologia prática, ele viu chegar o dia do exame. Na sala repleta de aparelhos de laboratório de aspecto misterioso para o estudante bissexto, o professor indicou um instrumento sorteado. Nervoso, Apporelly perguntou ao colega ao lado o nome do instrumento. Era um “carrinho de Bois-Reymond”. Ele, que não ouviu bem a cola, arriscou, inseguro, murmurando com o canto da boca:
‒ Carrinho de mão.
Gargalhada geral na sala. O professor, porém, bastante surdo, acreditou ter ouvido a resposta certa. “Isso mesmo, carrinho de Bois-Reymond.”


Talvez este episódio tenha inspirado Apporelly a escrever a pequena história do professor surdo e do aluno cínico:
Professor surdo:
‒ Quantas são as classes dos insetos?
Aluno cínico, a meia voz:
‒ Os heminópteros, os heminópteros, os heminópteros, os heminópteros e os heminópteros.
Professor surdo:
‒ Falta uma, vagabundo!
Aluno cínico:
‒ Ah! Os heminópteros.


Em outra oportunidade, numa banca de anatomia, o professor, cansado das respostas erradas do aluno e querendo ajudá-lo, perguntou: “Quantos rins nós temos?” A pergunta, por sua simplicidade, provocou risos. Apporelly, entretanto, demorou a responder e, pensativo, lançou um olhar à sala repleta de estudantes. O professor, irritado, insistiu:
‒ Vamos! Quantos rins nós temos?
‒ Quatro.
‒ Como?
‒ Sim – disse o aluno – Dois seus e dois meus.


Apporelly esclarece


      Fiz algumas molecagens na faculdade de medicina de Porto Alegre, à qual não compareci durante quatro anos, embora fizesse os exames finais e sempre me saísse bem. Acontece que eu deixara o ginásio com um bom curso fundamental e estudava, ao acaso, todos os assuntos universitários. Só ia à faculdade por troça. De tal forma que, quando comparecia às aulas, os professores resolviam suprimi-las em protesto contra a minha presença. O Dr. Fischer, principalmente, gostava de proclamar da cátedra quando notava a minha presença entre os outros alunos: “Em vista do extraordinário comparecimento do senhor Apparício Torelly, hoje está suspensa a aula.” Era uma farra!




Humor de Almanaques

Dos almanaques




          Um curioso pergunta a um notável poliglota:
          – É verdade que o senhor domina todas as línguas?
          – Todas não, algumas foram impossíveis...
          – Quais?
          – As da minha mulher, minha sogra e as das minhas cunhadas.


As mentiras

Da secretária: O senhor diretor não pode atendê-lo. Está muito ocupado.
Do dentista: Não vai doer absolutamente nada.
Do barbeiro: Não demora. Cinco minutos apenas.
Da modista: É um preço especial para a senhora. Não diga nada a suas amigas.
Das amigas: Você bem sabe que não conto nada a ninguém.
Do alfaiate: Pura lã inglesa.
Do editor: Lemos com grande interesse seu manuscrito e lamentamos que no presente momento nossa programação já esteja feita.
Do orador: E agora uma última palavrinha!
Do advogado: Estaria eu aqui caso não estivesse convencido da inocência de meu constituinte.


O homem ideal

          Duas amigas tomam sol, bem à vontade, na praia. Uma delas pergunta:
          ‒ Qual é seu tipo de homem ideal?
          ‒ O meu ideal? Bem, é o homem inteligente o bastante para ganhar muito dinheiro e burro o bastante para gastar tudo comigo!


E agora?

         Depois de longa ausência, dois amigos se encontram:
         ‒ Olá, Gustavo! Como vai o seu namoro com a Maria Gilda?
         ‒ Bem, acabou-se.
       ‒ Ótimo! Você nem sabe como me agrada essa notícia! Não sei como você foi gostar de uma idiota como aquela: piranha e periguete!
         ‒ Bem, acabou porque nos casamos...

A escolha certa

         ‒ É verdade que você desistiu de casar coma Maria?
         ‒ Sim descobri que ela gastava quase dois mil reais por mês na costureira.
         ‒ Dois mil reais!
         ‒ Sim. Dei o fora nela e resolvi casar com a costureira.


Para sempre

         ‒ Como é que o senhor ficou com esse anel de brilhantes?
         ‒ Porque era meu.
         ‒ Como seu? Já descobrimos a dona.
         ‒ Não pode ser. Dentro do anel está escrito: “Teu para sempre!”

O naufrágio

         O náufrago, no fim de suas forças, consegue nadar até uma ilha deserta. Já esperando, em terra, está sua mulher, aos berros:
         ‒ Onde você estava, seu cretino? O navio afundou ontem!


O melhor presente

         Na festa de aniversário de 10 anos de meu sobrinho, ficamos impressionados com a quantidade de presentes que ele ganhou. Quando perguntamos de qual havia gostado mais, ele respondeu sem pestanejar:
         – Os vinte reais do vovô!


Frases retiradas do livro Millôr Definitivo: a bíblia do caos

Não tenho superstições. Ser supersticioso dá azar.

Só conheço um afrodisíaco: a mulher.

O maior anticoncepcional é o mau hálito.

O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima.

Todo mundo, por mais chique que seja, em determinado momento enfia o dedo no nariz.

O demônio foi o primeiro líder radical, lutando violentamente contra o sistema.

Nunca neguei a ninguém o direito de concordar inteiramente comigo.

Morrer, por exemplo, é uma coisa que se deve deixar sempre para depois.

A antropologia, dama de má vida das ciências sociais.

A advocacia é a maneira legal de burlar a justiça.

A Desconfiança deu uma linda festa e compareceram todos os seus amigos: o advogado, o contador, o chaveiro, o detetive e o marido da mulher bonita.

A diferença entre existir e viver é mais ou menos dez salários mínimos.

Algumas pessoas matam. As outras se satisfazem lendo as notícias dos assassinatos.

O dinheiro é a mais violenta das invenções humanas.

O que o dinheiro faz por nós não é nada em comparação com o que a gente faz por ele.

Estou ganhando a vida, como diz o cara que se mata de trabalho.

Imagina, eles chamam você de evolução da espécie.

Eutanásia? É a última coisa que eu faria na vida.

Hoje em dia basta um cara assassinar a mulher sem motivo justo para ser considerado machista.

O problema de ficar na fossa é que lá só tem chato.

Já pensei em fundar uma religião, mas tenho medo de que me sigam.

Eu até não me importaria de ir para o céu se não tivesse que ir de caixão.

Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem!

Jamais fale a seu próprio respeito. Quando você sair os outros se encarregam disso.

Pois é, eles chamam isso de evolução da espécie.

Livre como um táxi.

E inútil chamar alguém de mentiroso. Todo mundo é.

Uma democracia começa com três refeições diárias.

O pudor dá, mas fica vermelhinho.

Quem não acredita em mula-sem-cabeça é porque nunca olhou em volta.

Sexo causa gente.

Há uma morte no seu futuro.


O Congresso Nacional é um local que:

se gradear vira zoológico,
se murar vira presídio,
se colocar uma lona em cima vira circo,
se colocar lanternas vermelhas vira prostíbulo
e se der descarga não sobra ninguém.


Humor de almanaque

Pérola da publicidade: “Serviço de coleta de esgoto. Se o serviço não for satisfatório, a Empresa devolve o produto”.

Besteirol do Twitter: “Se alguém te oferecer um par de óculos sem lentes, não aceite. É armação...”

A preguiça é a mãe de todos os vícios, e como mãe, deve ser respeitada!

Houve um tempo em que os animais falavam. Hoje, eles até escrevem."

Sem ambição: “Estou na vida só pela comida.”

Besteirol: “Pesquisas revelam que quem acorda cedo, gostaria de voltar a dormir.”

Cafajeste: “A única coisa que eu procuro em um relacionamento é a saída!”

Solidão da net: “Eu até tenho vida social, mas perdi a senha.”

Piada de loira: “Descobriram que as integrantes da quadrilha eram loiras porque, depois de roubar o cartão de crédito das vitimas, elas pagavam a fatura.”

Sinceridade: “Recado para as pessoas que ainda não decepcionei: calma aí que eu tô chegando.”

Sabe por que funkeiro escuta “Funk pancadão” muito alto? Porque o som não se propaga no vácuo, então não faz diferença nenhuma na cabeça deles.

Brasil tem quase 80 milhões de internautas, aponta Ibope. Imagina tudo isso trabalhando!

Se fetos sem cérebro não sobrevivessem, não teríamos compositores de música sertaneja, forrozeiros de plástico nem pagodeiros.

Falar de boca cheia é feio, falar de cabeça vazia é pior ainda.

Laboratórios conseguem produzir espermatozóides. Definitivamente, o homem não serve mais pra porra nenhuma!


Humor em pedaços

Frases curtas para sorrir (mas se quiser pode gargalhar):

• Há duas palavras que abrem muitas portas: “Puxe” e “Empurre”.

• Errar é humano. Colocar a culpa em alguém, então, nem se fala!

• Por que "já" quer dizer agora, e "já, já" quer dizer daqui a pouco?

• Por que “tudo junto” é separado e “separado” é tudo junto?

• Às vezes é melhor ficar calado e deixar que pensem que você é um idiota do que abrir a boca e não deixar nenhuma dúvida.

• Não sou um completo inútil... Ao menos sirvo de mau exemplo.

• Eu queria morrer como o meu avô, dormindo tranquilo, e não gritando desesperadamente, como os passageiros do ônibus que ele dirigia!


Libertem o violão



Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serena foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido. o famoso poeta e atual senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

Senhor Juiz.
Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime” que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade
Não
feriu nem matou um cidadão
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade
O crime a ele nunca se mistura
Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção
É sentimento, é vida, é alegria
É pureza e é néctar que extasia
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.
Mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo
Para a alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno acoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso
E
, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,
É desumana e vil destruição
De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte á rua, em vida transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de luz, plena madrugada,
Venha tocar á porta do Juiz.



Caricatura de J. Carlos




Mulheres segundo Graciliano Ramos



        Texto resgatado do escritor Graciliano Ramos trata do papel das mulheres no Nordeste da época, quando foi realizada a primeira eleição em que as mulheres tiveram o direito ao voto.

       No dia 20 de maio de 1933, Graciliano Ramos, um dos maiores literatos da língua portuguesa, publicou no Jornal de Alagoas o texto que segue. Nele aborda, dentre outros aspectos do papel das mulheres no Nordeste da época, a primeira eleição em que as mulheres tiveram o direito de voto.

        A frase com que termina o artigo ganha interesse singular ao vivermos, 80 anos depois de escrito este artigo, sob o comando da primeira mulher a assumir a Presidência da República, Dilma Rousseff. Nesse mesmo ano, ele publicou seu primeiro livro, Caetés.

     O artigo foi extraído de “Garranchos, textos inéditos de Graciliano Ramos”, organizado por Thiago Mio Salla e publicado ano passado pela Record.

Mulheres

Por Graciliano Ramos

        Afinal temos aqui vencedor o nosso pequeno feminismo caboclo. Pouco importam as opiniões irritantes que pessoas biliosas manifestam a respeito do cérebro da mulher. A esta hora nas mais distantes povoações do Estado senhoras decididas se aprumam, projetam vestidos e discursos de aparato, organizam comissões para atenazar o governo. Exatamente como os homens. Os mesmos pedidos, as mesmas embromações, mas aparência muito melhor.

      É possível que bom número delas se esteja preparando para a futura assembleia estadual e imaginando alterações em códigos de posturas e orçamentos municipais, que sempre foram ruins, apesar da competência dos conselhos e dos prefeitos. Por baixo dos cabelos curtos, como os nossos, fervilham programas que os homens não souberam executar em quarenta anos ou, se acharem pouco, em quatrocentos e trinta.

         Para usar da franqueza, tudo pelo interior está desorganizado, e a culpa não é delas. Ninguém tem o direito de julgá-las incapazes. Podem fazer as promessas mais elásticas. A verdade é que as nossas matutas estão muito mais preparadas que os matutos. Até a idade de 12 anos, vão à escola, enquanto os meninos arrastam a enxada ou se exercitam, em calçadas ou em bilhares de ponta de rua, para uma vida fácil de malandros. Crescem um pouco, e os ardores da puberdade as levam para os romances amorosos, que lhes corrigem a sintaxe.




quinta-feira, 30 de julho de 2015

Provérbios portugueses


         
Provérbio - uma sentença de caráter prático e popular, que expressa em forma sucinta, e não raramente figurativa, uma ideia ou pensamento, Há gente que está confundindo provérbio com citação.

"A açorda faz a velha gorda e a menina formosa. "
"A água de Janeiro vale dinheiro."
"A água é tão útil às plantas como o alimento aos animais."
"A água salobra, na terra seca, é doce."
"A ambição, assim como a cólera, é muito má conselheira."
"A ambição cerra o coração."
"A amenidade no semblante, anuncia a bondade do coração."
"A amizade não se adquire, senão pela amizade."
"A apressada pergunta, vagarosa resposta."
"A aversão é para o coração, o que a prevenção é para o espírito."
"A beleza não se põe na mesa, mas eu não como no chão."
"A boa fé é uma moeda, que quase não tem curso no comércio da vida."
"A boa ventura de uns, ajuda aos outros."
"À boca da barra, se perde o navio."
"A boca do ambicioso só se fecha com terra de sepultura."
"A boca não admite fiador."
"À boda do ferreiro, cada um com o seu dinheiro."
"À boda e a batizado, não vás sem ser convidado."
"A bom bocado, bom grito ou bom suspiro."
"A bom entendedor, meia palavra basta."
"A bom ou mau comer, três vezes beber."
"A cabeça não se fez só para usar chapéu."
"A cabeça não serve só para criar piolhos."
"A cada boca uma sopa."
"A carne é fraca mas o molho é muito bom."
"A jantar dado, não se olha o molho."
"A culpa morre solteira."
"A fome é a melhor amiga do cozinheiro."
"A fortuna ajuda os atrevidos, mas também, muita vez, os abandona."
"A galinha que canta como galo corta-se-lhe o gargalo."
"A grandes cautelas, cautelas maiores."
"A ignorância força-nos a fazer duas vezes o mesmo caminho."
"A magro não chego, e de gordo não passo."
"A maior virtude dos que falam é calar o que não devem dizer."
"A ninguém contenta, quem de nada está contente."
"A pena e a tinta, são as melhores testemunhas."
"Águas passadas já passaram"
"Antes não começar, que não acabar."
"Antes quero asno que me leve do que cavalo que me derrube."
"Antes só que, em casa, ouvindo a miúdo, a mulher a implicar com tudo."
"Ao rico mil amigos se deparam, ao pobre seus irmãos o desamparam."
"Aos olhos da inveja todo o sucesso é crime."
"As palavras voam, a escrita fica."
"Azeite de cima, mel do meio e vinho do fundo, não enganam o mundo."



Um texto de Flávio Rangel

EU SEI QUE VOU TE AMAR...
POR TODA A MINHA VIDA EU VOU TE AMAR...
NÃO VEM QUE NÃO TEM!

Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Ó lugar! Ó lugar! Tenho uma casinha lá na Marambaia: fica na beira da praia, só vendo que beleza. Cuando calienta El sol, en aquella playa, o Brasil fica vazio na tarde do domingo, Né? Domingo é dia de pescaria, e lá vou eu, de caniço e samburá. Valha-me Deus, Nosso Senhor do Bonfim! Nunca jamais se viu tanto peixe assim.

Um belo dia, a gente entende que ficou sozinho, vem a vontade de chorar baixinho: eu estava à toa na vida, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante surpresa tão rude, nem sei como pude chegar ao portão. Seu bilhete assim dizia:
– Não posso mais: eu quero é viver na orgia.

Pois é. Falaram tanto, que a morena foi embora. Disseram que eu voltei, americanizada. Falam de mim, falam de mim, mas eu não ligo. Só o meu passado foi lama, hoje quem me difama viveu na lama também. Todos dizem que eu bebo demais, todos dizem que eu falo demais e que guio meu carro depressa demais, mas sou bem feliz assim; muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim.

E agora? O que será de minha vida sem o teu amor, da minha boca sem os beijos teus, da minha alma sem o teu calor? Que será na luz difusa do abajur lilás? Sei lá não sei: sei lá não sei não. Nosso amor que eu não esqueço, e que teve seu começo numa festa de São João, morre hoje sem foguete. Ai, que saudade! Que vontade de ver nosso amor renascer. Volta, querida; os meus braços precisam dos teus, teus abraços precisam dos meus. Estou tão sozinho. Cara, te voglio tanto bene! Só quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo o mais vá pro inferno.

– Bom dia amigo. Que a paz seja contigo. Eu vim somente para dizer que te amo tanto que eu vou morrer.

– Ah, já tá naquela de voltar? Agora fica na tua que é melhor ficar. Porque vai ser fogo me aturar. Vou deitar e rolar.

– A vida é arte do encontro, e há tanto desencontro pela vida...

– Taí. Eu fiz tudo pra você gostar de mim. Agora reza pro nosso amor, que já chegou, ô ô ô, ao fim. Quem é, quem é você pra me fazer sofrer assim?

– Ah, se eu soubesse naquele dia o que eu sei agora! Eu não seria este ser que chora, eu não teria perdido você!

– Ouça, vá viver a sua vida com outro bem; hoje já cansei de pra você não ser ninguém.

– Daqui pra frente tudo vai ser diferente!

– Você vai aprender a ser gente?

– You’re the top; you’re the Tower of Piza.

– Mulher! Ai, ai, mulher! O nosso amor deu no que deu. Você me abraça, me beija, me xinga, me bota mandinga...

– Hoje eu volto vencida pedir pra ficar aqui; meu lugar é aqui, faz de conta que eu não saí.

– Helena! Helena! Helena! Eu ontem cheguei em casa, Helena, te procurei e não te encontrei, fiquei tristonho a chamar: “Acorda, patativa, vem ouvir o meu cantar!”

– Dá-me tuas mãos: os teus lábios eu quero beijar onde está, onde está o teu carinho, onde está você?

– Só porque és rica e elegante, queres que eu seja teu amante? Prefiro as curvas da estrada de Santos.

– Deixa o coração falar também, que ele tem razão demais quando se queixa; deixa, deixa, deixa!

– Acabou nosso carnaval: pelas ruas, o que se vê é uma gente sem se ver. Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião.

– Eu sei que eu vou te amar... por toda a minha vida eu vou te amar...

– Sabe você o que é o amor? Não sabe, eu sei. Sabe andar de madrugada, tendo a amada pela mão. Qual sabe o que, qual sabe nada, sabe não.

– Se é tarde, me perdoa... é que eu não sabia que você sabia que a vida é tão boa... Você se lembra da casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro ao lado...
– Nem vem que não tem!

– Tu veux ou tu veux pas?

– IF somebody loves you, it’s no good unless she loves you all the way. Eu agora sou feliz, eu agora vivo em paz: everybody is talking at me; raindrops keep faling on my head. Agora, deixa eu bater meu tamborim até chegar meu fim.

– Vem, vem, vem, vem sentir o calor dos braços meus à procura dos teus.

– Não vou; não vou, que eu não sou ninguém de ir na conversa de esquecer a tristeza de um amor que passou.

– E agora, o que faço da vida? Denise vai chorar, vai, vai chorar, dim-dim-dim-dim-dom.

– É só isto o seu baião? Não tem mais nada não? Escuta esta canção que eu mesmo fiz pensando em ti: foi um rio que passou na minha vida e o meu coração se deixou levar. Mas agora eu não quero e nem posso, nunca mais. O que tu me fizeste, amor, foi demais. Arrivederci Roma; good-bye, au revoir. Adeus amor, eu vou partir. Ouço ao longe um clarim. Pra você que me esqueceu, aquele abraço.

Texto de Flávio Rangel


Diretor Teatral, Cenógrafo, Jornalista e Tradutor

* Tabapuã, SP (06/08/1934)
+ São Paulo, SP (25/10/1988)

Publicado na edição nº 57, de julho de 1970, de O Pasquim


Frases e bordões que não esquecemos




Mengo, tu é o maior!”

- Peladinho, personagem criado pelo comediante Germano, um ardoroso flamenguista, num dos quadros do programa Balança, mas não cai.

“Quem sou eu, Primo?”

- Dito pelo Primo Pobre (Brandão Filho) após uma pergunta inconveniente (Você já comeu caviar, Primo?) do Primo Rico (Paulo Gracindo).

“O primeiro a dar as últimas!”

- Repórter Esso, na voz de Heron Domingues.

“Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos... Só o Sombra sabe.”

- Na voz de Saint-Clair Lopes, o Sombra, um dos heróis da Nacional.

“Chumbinho, apresente o seu relatório...”

- Era assim que o Caveira, inimigo de Jerônimo, falava com o seu principal ajudante.

“Ao soar o carrilhão dando as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no Programa Luís Vassalo, se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz.”

- Na voz de Lúcia Helena, a abertura do Programa Francisco Alves, que ia ao ar aos domingos às 12 horas.

“Alegria, meus senhores! Bom humor, muita alegria é o que trás esse programa com esse desfile de melodias populares encabeçado por esta irrequieta estrela que é Marlene e esse animador que é Manoel Barcellos!”

- Abertura do Programa Manoel Barcellos (Som da música "Nancy", cantada por Francisco Alves)

“Boa noite, ouvintes! Estão abertas as pesadas portas do Museu de Cera. Estas paredes guardam o que há de mais precioso! Nestas prateleiras empoeiradas pelo correr dos anos dormem empilhados milhares e milhares de discos, cada um deles capaz de fazer reviver momentos felizes da nossa vida. Museu de Cera. Um programa que rouba minutos preciosos de sua atenção mas em troca oferece emoções gostosas, como só a saudade pode oferecer. Aceita o nosso convite? Então, penetremos no Museu de Cera.”

- Palavras de Héber de Bôscoli na abertura do programa Museu de Cera.

“100% financiado pela perfumaria Mirta S.A., ergue-se em qualquer ponto da Cidade Maravilhoso o Edifício... Balança! (tantarán tã!) Balança! (tan-taranta!) Balança! (tan-tarantã!) Mas não cai!”

- Abertura do Programa Balança, mas não cai.

Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil. Aqui fala Jorge Veiga diretamente da Rádio Nacional. Estações do interior queiram dar os seus prefixos para guia das novas aeronaves.”

- Bordão usado pelo cantor Jorge Veiga nas suas apresentações.

“Pequeninas, mas resolvem!”

- Bordão, criado por Ghiaroni, das Pílulas de Vida do Dr. Ross.

“Gebaratíssimo!”

- Bordão criado por Ghiaroni para qualificar os produtos das Lojas Khalil M. Gebara.

“Meliantes, tremei! No ar, As Aventuras do Anjo.”

- Frase com que era iniciado As Aventuras do Anjo.

“No ar, o Radioteatro Colgate-Palmolive com mais um capítulo emocionante da novela de Félix Caignet, tradução de Eurico Silva, O direito de nascer.”

- Bordão de abertura da novela.

“Cavaleiros e cavaleiras de ambos os sexos, muito boa tarde. Acaba de subir pro ar a sua PRK-30, falando diretamente do segundo andar do Edifício Espícler, enquanto não anunciam a construção do primeiro andar. É por issoque anunciamos sempre: no ar, PRK-30!”

- Lauro Borges, anunciando o programa PRK-30.

“A pausa que refresca.”

- Bordão da Coca-Cola.

“Quem bebe Grapete, repete!”

- Bordão do Grapete.

“O amigo que lhe convém!”

- (Bordão do Phimatosan).

“A Pan American World Airways, a rede dos Clippers, apresenta... Aquarelas das Américas. Quadros sonoros em que estão retratados os países e os povos das Américas!”

- Abertura do programa Aquarelas das Américas.

“E atenção, ouvintes! Vem aí para contar o que acontece em todos os quadrantes do mundo!... O Correspondente Nacional.

- Abertura do noticiário Correspondente Nacional.

“Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex”

- Bordão da Gumex, um fixador do penteado masculino.

Regulador Xavier, o remédio de confiança da mulher! Duas fórmulas diferentes para dois males diferentes! N° 1 — excesso. N° 2 — escassez."

- Bordão do Regulador Xavier.

“O Dragão, a fera da Rua Larga.”

- Bordão de uma tradicional loja de variedades.

“Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Compre já!”

- Bordão da Camisaria Progresso.

“É a maior!”

- Grito das fãs para a sua estrela ou seu astro favorito.


Coisas do Rádio



Uma piada

O diálogo que se segue foi extraído do livro de Rosa Nepomuceno (1999)e mostra o tipo de humor que prevalecia na década de 1920, marcado, sobretudo, pela ingenuidade.
- Ô cumpadi. Sabe que lá na minha cidade fizeram uma torre tão arta, mas tão arta, que tiveram que virá a ponta dela?
- Pra quê, cumpadi?
- Pra lua pode passa, porque tava enganchada!
- Ô cumpadi! Na minha terra tem um trem tão ligeiro, tão ligeiro, que quando ocê entra nele já tem que compra o bilhete de vorta!
- Que mentira, cumpadi! Trem ligeiro tem na minha terra! O sujeito brigou com o chefe da estação, foi dá um tapa nele e acerto no chefe da outra estação, distante 30 quilômetros.


Contribuição à história das novelas no Brasil

Antes mesmo de inaugurar a era das novelas radiofônicas com a lacrimejante Em busca da felicidade, a Rádio Nacional vinha, desde sua inauguração, em 1936, levando ao ar, em meio à sua programação normal, pequenas "cenas", que os locutores da época chamavam de esquetes. O primeiro esquete apresentado pela PRE-8, Namorado capaz de tudo..., era da autoria de Genolino Amado, e dele tomaram parte Celso Guimarães e Amélia de Oliveira, que assim podem ser considerados os primeiros radioatores da emissora. O diálogo entre os dois atores, repleto de reticências, metáforas e juras de amor, é absolutamente inverossímil e risível, mormente o seu fim, digno de um programa humorístico. Na verdade, o esquete de Genolino Amado constitui um exemplo esclarecedor de como eram escritos os textos teatrais e radiofônicos na época. A coisa funcionava assim: quanto mais rebuscadas, aflitivas e heroicas eram as declarações de amor, mais sinceras pareciam ser as palavras do declarante. Para provar que amava sinceramente a outra, o sujeito dispunha-se a tudo, até passar por sacrifícios físicos. O texto a seguir, que é a reprodução literal do esquete Namorado capaz de tudo..., vale, portanto, como um documento duplamente histórico: testemunha um fato na evolução da Rádio Nacional e acentua um traço da nossa trajetória cultural.


Namorado capaz de tudo...



Ele - Ah! Meu amor... Por ti, seria capaz de dar até a minha vida.
Ela - Oh! Paulo... Gostas tanto de mim, de verdade? Não estás exagerando?
Ele - Não! Não é exagero... Eu sinto que o teu amor me dá forças sobre-humanas. Sinto que sou capaz de realizar prodígios por tua causa. O que pedires, eu farei... Queres aquela estrela que está brilhando no céu? Se quiseres, irei buscá-la...
Ela - Não é preciso tanto, Paulo. Para que quero eu uma estrela?
Ele - Dê-me, então, qualquer oportunidade para eu provar a grandeza da minha paixão. Queres que eu vá ao fundo do mar, trazendo a mais linda pérola do oceano?
Ela - Não... Não precisa molhar a tua roupa. Prefiro que vás a uma joalheria e me tragas um colar. É mais prático...
Ele - Mas eu quero arriscar a minha vida, passar por grandes perigos, resistir a muitos sacrifícios, a fim de demonstrar como é ardente o sentimento que me inspiras. Se me pedires para galgar essas montanhas inacessíveis que azulam a distância, subirei por aqueles penhascos e se rolar lá de cima, ficarei contente. Morrerei feliz, porque a morte pelo amor é melhor do que a vida.
Ela - Oh! Como és romântico!
Ele - Não é romantismo. É apenas sinceridade, devotamento do meu coração. Queres que eu desafie o mundo inteiro por tua causa? Desafiarei!
Ela - Para quê, Paulo? O mundo já tem tantas preocupações, tantas trapalhadas! Não convém complicá-lo ainda mais com esses desafios. Eu não preciso de provas. Já sei que gostas muito de mim. Já tenho a certeza.
Ele - Mas eu quero demonstrar que meu amor é diferente. Não é como esses amores comuns... Amores covardes, que não sabem ter as dedicações profundas. Queres que eu corte esta mão?
Ela - Não! De maneira alguma. Quero apenas que peças a minha mão em casamento.
Ele - Bem... Bem... Essa coisa de casamento fica para depois. Não se deve estragar essas horas de poesia com essas idéias burguesas de matrimônio. Faremos dos nossos sonhos de beleza, das nossas ilusões cor-de-rosa, dos nossos ideais tão puros e tão lindos...
Ela - Mas, Paulinho... Nem só de romantismo vive uma mulher... Falemos de coisas mais simples do nosso futuro, do ninho que iremos construir...
Ele - Está bem. Mas isso fica para mais tarde... Por enquanto deixe que minh'alma navegue nas ondas cristalinas da poesia amorosa...
Ela - Pois, então, vá navegando...
Ele - Eu quisera ser um Colombo para te oferecer uma nova América.
Ela - É muita coisa, Paulo. Uma nova América daria muito trabalho.
Ele - E que tem isso? Por ti, não me incomodaria de enfrentar riscos tremendos, gostaria de afrontar as vagas revoltas dos mares nunca d'antes navegados. Por ti, desafiaria dragões. Atravessaria desertos maiores do que o do Saara. Lutaria com as feras selvagens das florestas. Não há obstáculos que não possa vencer por tua causa. Para quem ama de verdade, não existe impossível. Manda buscar aquela estrela... Eu irei! Manda-me combater na guerra da Espanha. Serei um herói. Pede-me para que eu seja o homem. Com a tua inspiração, venceria a minha candidatura à Presidência. Por ti, para te ver e principalmente para te ver satisfeita e confiante em meu amor, farei tudo, tudo, que é possível.
Ela - E por que então não vieste me ver ontem à noite?
Ele - Ah! Choveu...
Ela - Ah! Choveu... Foi só por isso?...
Ele - E acha pouco? Não estava disposto a apanhar um resfriado...


Ela - Ah! É assim? Tu te ofereceste para apanhar uma estrela no céu, uma pérola no fundo do mar, mas não podes apanhar um resfriado... E ainda dizes que o teu amor é ardente... Não, mentiroso! O que tens é muito sangue-frio...


 Piadas do Manduca

O programa retratava uma sala de aula improvisada na casa da professora Dona Teteca (interpretada por Lígia Sarmento) e de seu marido(Renato Murce). Os alunos não podiam ser mais impagáveis: Manduca (Lauro Borges), Seu Ferramenta (Castro Barbosa) e Coronel Fagundes (Brandão Filho). A produção e o texto do programa eram de Renato Murce.
- Manduca!
- Sinhô.
- Dê o exemplo de uma coisa escura.
- Mas bem escura?
- Isso mesmo. Escura, bem escura, vamos.
- Bem escura... É o Leônidas, contrastando com o Maneco, dentro de um túnel, chupando jabuticaba, os dois vestidinhos só com uma tanguinha preta.



(Leônidas da Silva, que atuava no Flamengo, e Maneco, meia-direita do América, eram afro-descendentes).