domingo, 30 de novembro de 2014

Carmen MIranda




Mudança de nome: De Maria do Carmo Miranda da Cunha para Carmen Miranda.
Apelidos:Pequena Notável”, “Embaixatriz do Samba”, "The Brazilian Bombshell".

Data de nascimento: 9 de fevereiro de 1909.
Local de nascimento: Marco de Canavezes, Portugal.
Data de morte: 5 de agosto 1955.
Local de morte: Beverly Hills, Califórnia, EUA.
Túmulo: Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro, Brasil.

Altura: 1,54m
Peso: Entre 48kg e 56kg
Cor dos cabelos: Castanhos
Cor dos olhos:
Verdes
Nacionalidade: Portuguesa
Ocupação: Cantora e atriz

Você sabia?

Maria do Carmo recebeu seu apelido Carmen em homenagem a Carmen da ópera de Bizet. 

Carmen Miranda mudou-se para o Brasil quando tinha apenas 10 meses de vida.

As plataformas de Carmen chegavam a ter 18cm.

1939 foi o ano que Carmen revolucionou Nova Iorque. Foi sua estreia que a tornou a "Brazilian Bombshell".

Carmen Miranda foi a primeira Sul-americana a estampar suas mãos, pés e assinatura na calçada da fama.

Carmen se apresentou em países como Itália, Bélgica, Dinamarca, Finlândia e Noruega, mas nunca em seu país de origem, Portugal.

Em 1946, Carmen foi a atriz que mais pagou imposto de renda nos EUA.

Carmen tinha uma mancha amarela em seu olho esquerdo e por isso gostava de ser fotografada desse lado, pois a mancha não era visível.

Em 1998, quarenta e três anos após a morte de Carmen Miranda, a interseção entre Hollywood Boulevard e Orange Drive recebeu o nome de Carmen Miranda Square


A Morte de Carmem Miranda



   
Em maio de 1955, a Pequena Notável faria suas últimas apresentações, aparecendo para o público de Las Vegas e Havana. Depois de quatorze anos de ausência, visitaria pela última vez o Brasil, já mostrando profundo esgotamento nervoso. Era 03 de dezembro de 1954. Depois de aqui ter sido homenageada, regressa, em abril, para os Estados Unidos. A 05 de agosto de 1955, aos 46 anos de idade, sucumbiria em sua casa, situada em Beverly Hills, acometida por um colapso cardíaco, após as filmagens para um programa de televisão, feitas com Jimmy Durante.

Seu desaparecimento foi notícia em Hollywood, onde era muito popular e os grandes jornais Nova-iorquinos deram enorme destaque à sua morte. O New York Herald Tribune deu à sua edição três colunas na sua primeira página; o Daily Mirror dizia, numa gigantesca reportagem, que Carmem era a artista mais bem paga dos Estados Unidos; o Daily News afirmou que depois de sua estréia, seu sucesso fora tão grande que ela se transformara na artista que maior sensação causava nos Estados Unidos; o New York Times chamou-a de protótipo do tipo feminino, com sua maneira extravagante de se apresentar; no Brasil, a Gazeta de Notícias publicou, em primeira página, uma matéria intitulada: "Maior que o de Chico Alves o enterro de Carmem Miranda!" e em seguida dava algumas notícias do sepultamento. Seu corpo chegou ao Brasil no dia 12 de agosto, sendo velado na antiga Câmara dos Vereadores do Rio. Mais de quinhentas mil pessoas acompanharam, chorando, os funerais da querida cantora popular, enquanto cantavam (em surdina) os seus maiores sucessos. Estavam ausentes, por esgotamento nervoso, a progenitora e a irmã (Aurora) da atriz.

Cenas pungentes aconteceram no cemitério. Setenta e cinco sepulturas foram danificadas pela multidão. O número de seu jazigo é 1724-E 1. Várias personalidades do mundo político, social e cultural se manifestaram diante do acontecimento. Jorge Guinle: "Nossa dívida para com ela nunca poderá ser saldada"; Sra. Carlos Eduardo de Souza Campos: "O Brasil e a sua música popular perderam uma grande intérprete"; Embaixador Negrão de Lima: "Foi, a seu modo, uma admirável e efetivíssima embaixatriz do Brasil"; Almirante: "Foi por querer cantar a música brasileira que ela morreu"; Assis Valente: "Carmem Miranda foi minha obsessão"; Ary Barroso: "fiquei surdo, mudo, cego, paralítico de emoção"; Mário Reis: "Não creio que Carmem tenha morrido"; André Filho: "As pessoas que honram e ficam consagradas na música popular, não morrem. Ficam para sempre".

Nos Estados Unidos, onde Carmem fizera sucesso e carreira, as opiniões daqueles que compartilharam de sua vida artística foram as mais elogiosas. Daryl Zanuck, chefe dos estúdios da 20th Century Fox declarou: "Carmem Miranda foi uma grande atriz, que trouxe um novo estilo profissional ao teatro e à tela. Sua personalidade era tão vivaz e deslumbrante que dificilmente poderá ser substituída no teatro". George Murphy, porta-voz da Indústria Cinematográfica Americana, afirmou: "Carmem era uma artista das mais destacadas de nossos tempos. Causa profunda dor que aquela que representou, com tanta graça, um grande país latino-americano se haja retirado de cena para sempre". Joe Pasternack, diretor de Carmem, que lhe havia dado o papel principal no filme "Meet me in Las Vegas", comentou, emocionado: "Não sei o que pensar”.

É demasiada a surpresa. Porém Carmem continuará sempre conosco. Viverá eternamente na recordação dos milhões de pessoas a quem deleitou com sua arte e sua personalidade". Em Beverly Hills, realizou-se uma missa pelo padre Charles Dignan, na Igreja do Bom Pastor, ocasião em que o padre Charles diria: "Carmem Miranda entregou-se inteiramente à tarefa de tornar os outros felizes. Literalmente, ela havia posto todo o seu coração em sua dança e em seus cantos. Agora ela está morta". Em 1956, o governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, assinaria a lei nº 886, criando o Museu Carmem Miranda para a guarda de seus pertences, doados pelo seu marido David Sebastian. A 07 de novembro de 1960, era inaugurado seu busto, esculpido por Matheus Fernandes, no Largo da Carioca.



A mais ousada foto de Carmem Miranda,
dançando con Cesar Romero,
sem calcinhas...

Quem é?


 (Scena Doméstica)

Custódio Mesquita/Joracy Camargo 1937

Gravação de Carmen Miranda e Barbosa Júnior

Cantada pela primeira vez na revista “Maravilhosa”,
de Jardel Jercolis e Geysa Bôscoli, em 1937.

Abaixo, Carmen Miranda por Baptistão


Carmen Miranda cantando

Quem é que muda os botõezinhos na camisa?
Quem é que diz um adeusinho no portão?
E de manhã não faz barulho quando pisa
E quando pedes qualquer coisa não diz “não”?
Quem é que sempre dá o laço na gravata?
Quem é que arruma teus papéis na escrivaninha?
Quem é que faz o teu bifinho com batatas?
E estraga tanto as lindas mãos lá na cozinha?
E, no entanto, é só você que não me liga.
E ainda descobre sempre em mim cada defeito.
Pois é talvez porque eu sou muito tua amiga.
E nunca estás por isso mesmo satisfeito.
Quem é que reza por você lá no oratório, quem é?
Quem é que espera por você sempre chorando?
Quem é que sabe que não paras no escritório?
E acredita que estiveste trabalhando?
Quem é que trata dos botões da tua roupa?
Quem é que mais economiza luz e gás?
Quem é que sopra no jantar a tua sopa?
Quem é que diz no telefone que não estás?
E, no entanto você pensa em me deixar.
Vive dizendo que eu sou “pau”, não sei o quê...
E, no entanto você vai me abandonar
Mas é porque eu sou louquinha por você.

Barbosa Júnior cantando:

Espera aí!
Quem é que paga a costureira o ano inteiro?
Quem é que aluga um automóvel todo mês?
Quem é que paga seu chatô, sua empregada?
Quem é que gasta os cobres todos de uma vez?
Quem é que vive esbodegado, amofinado?
E que trabalha noite e dia sem parar?
Quem é que só para o seu luxo extravagante?
Anda sem ter um niquelzinho pra gastar?
E, no entanto, é só você que não me liga
Todas as outras estão querendo o meu amor!
E se eu fosse um pouco mais pão-duro e menos trouxa,
Você me dava com certeza mais valor.
Quem é que finge que não vê o seu namoro?
Quem é que dorme se você quer passear?
Quem é que espera por você sempre sorrindo,
E cochilando fica às vezes sem jantar?
Quem é que traz os embrulhinhos todo dia?
Quem é que compra tanta coisa na cidade?
Quem é que não me liga nem um bocadinho
Quem é que faz comigo assim tanta maldade?
E, no entanto, aturo tudo tão quietinho,
Fico calado sem dizer nada a ninguém.
Você precisa dar valor ao meu carinho,
Precisa ver que finalmente eu sou alguém!



As quase tragédias da TV

Encarando o lutador


Num antigo programa de televisão, Sérgio Malandro desafia um lutador, que ele nunca viu, a se defrontar com ele. Ele dizia: “Falam que o Tigre (nome do lutador) é o bom, eu quero ver é ele me enfrentar para ver o que é bom pra tosse, pois comigo o buraco é mais embaixo.” O programa continuava. E volta e meia vinha um novo desafio de Malandro: “Esse Tigre não é de nada, ele só bom pra negas dele, se ele é realmente bom vem aqui me encarar.”
No final do programa, Sérgio está lançando um novo desafio para o lutador, quando um cara forte e alto bate nas suas costas; “Eu sou o lutador Tigre, vai encarar?”. Malandro tenta desconversar, que não era bem isso que ele tinha falado... Quando um senhor, na primeira fila do auditório, (o programa era ao vivo) falou ao lutador: “Você não vai bater no garoto de jeito nenhum!” Sérgio Malandro se aproxima do senhor e cochicha no seu ouvido: “Fica tranquilo que está tudo armado.. tá tudo armado.” Se ele está armado, eu também estou... e puxa da cintura uma 44. Acabou o programa.

(Contado na TV por Sérgio Malandro)


O revólver

Um outro engano do contra-regra quase teve consequências funestas. No programa Clube dos morcegos, havia uma cena em que o ator Roberto Duval apontava uma arma para Alberto Perez, o qual, ao reagir, era baleado por Duval.
O ensaio transcorria normalmente, mas Duval errou o texto eu (João Lorêdo) peguei o revolver, mas achei que estava pesado demais para ser a arma de cena. De fato, era um revólver de verdade, e carregado. Souza, o contra-regra, para não atrasar o ensaio, e sabendo que isso acontecesse levaria uma bronca, pediu no revólver do segurança da Urca, porque o da Casa Teatral ainda não havia chegado.
Quase uma tragédia. Se Duval não tivesse errado o texto e eu não interrompesse o ensaio pedindo a ele que refizesse a cena, provavelmente ele teria matado Alberto Perez, que, ao perceber o que estava acontecendo, desmaiou de medo e precisou tomar vários copos de água com açúcar.

(Do livro Era uma vez... a televisão, de João Lorêdo)


No auditório...

Aquele político famoso vai assistir à inauguração do auditório de uma rádio numa pequena cidade do interior. O espetáculo começa com um recital de um pianista muito conhecido. Tentando evitar um vexame, o político vira-se para o seu assessor e pergunta:
Você entende de música?
- Um pouco - responde o assessor.
- O que é que esse cara está tocando?
- Piano!


Não pegou bem o espírito da coisa....

Uma senhora liga para uma emissora de rádio para responder a uma pergunta do locutor.
- Como a senhora se chama?
- O meu nome é Marli.
- Muito bem. E quantos anos a senhora têm?
- Eu tenho sessenta.
- Que maravilha! Pronta para responder?
- Pode perguntar!
- Dona Marli. Há um país que tem duas sílabas no nome e uma delas é uma coisa muito boa de se comer. A senhora sabe que país é esse?
- Sei, sim. É Cuba.
O locutor ficou mudo por alguns segundos e arrematou:
- Dona Marli! A senhora vai levar o prêmio pela criatividade, mas aqui na minha ficha estava escrito Japão.


Clichês de filmes

Seja franco, você não se aborrece quando nos filmes...


01) O despertador toca e a pessoa (ou o casal), acorda apavorada e diz: "caramba, estou atrasado!" Como atrasado se o relógio despertou no horário em que foi acertado para aquela hora?

02) O sujeito desce, pega a maleta, ajeita o paletó e toma um gole rápido de café. Quando lhe perguntam se não vai tomar seu desjejum ele diz que está atrasado. Ora quanto tempo ele perderia tomando seu café? Em quantos sinais de trânsito ele vai parar e quantas vezes ficará retido nos engarrafamentos?

03) O sujeito é procurado por um agente do FBI e de cara diz: "Esquece, não vou cumprir mais nenhuma missão pra vocês, não insista!" Se a gente sabe que ele vai fazer exatamente isso?

04) O cara vai revistar o escritório ou casa de alguém justamente quando esse alguém está pra chegar?

05) O sujeito vai pra prisão com mais vinte, entretanto, o chefe dos carcereiros cisma somente com ele. O chefe da gangue da prisão só procura confusão com ele?

06) Quando um cara, que é psicólogo e dá conselhos em programas de rádio (Frasier), fica todo abobalhado em frente de uma mulher?

07) Quando alguém faz absolutamente tudo, menos chamar a polícia, quando descobre um crime?

08) Quando dois parceiros policiais vão trabalhar juntos começam se odiando, quando a gente sabe que logo, logo, eles vão se apaixonar um pelo outro?

09) Quando o mocinho luta com dois bandidos, violentamente, e depois de vencê-los fica gemendo toda vez que a mocinha o toca com o algodão com remedinho?

10) Ou quando a heroína, por mais que corra, sempre dá de cara com o assassino?

11) Quando o mocinho é perseguido por horas, com os bandidos tentando alvejá-lo e quando ele, por fim, está encurralado, o bandidão diz: "quero ele vivo!”

12) Quando o avião cai, sempre explode atrás de um morro?

13) Quando toda pancada na cabeça leva ao desmaio?

14) Quando um índio é atingido por um tiro, ele sempre morre de prima, nunca fica agonizando?

15) Quando o soldado mostra a foto de sua namorada (Mary Lou), e a gente sabe que ele já era?

16) A mocinha tem certeza que na casa há um assassino, e ela, mesmo assim, entra na casa perguntando: “Tem alguém aqui?”

17) Toda hora, nos filmes, os carros pegam na maior facilidade, menos na hora que o assassino vai pegar o mocinho (ou a mocinha), aí sempre a chave não gira e o carro não pega.

18) O herói está amarrado, a arma está engatilhada na sua cabeça, o bandido está puto da cara, faz ameaças, mas, na hora H, dá mole, e não sei como, o mocinho consegue escapar e no final do filme acaba matando o bandido que o ameaçou.

19) Ocorre a maior fuzilaria, bala pra todo lado, explodem carros, vidros, casas, as balas acertam em tudo, menos no mocinho que dá um tiro só e mata um bandido na hora.

20) Quando a câmera se afasta e mostra uma paisagem, aí você percebe que o filme acabou.


Histórias de paraquedistas XI

Uma história incrível que dizem ser verdadeira.



O mudinho paraquedista

Nos anos cinquenta, havia, nas imediações da Área de Estágio, um surdo-mudo que era o maior quebra-galho dos paraquedistas. Com altura mediana, magro, mas muito forte, aparentava ter, na época do fato que vou narrar, mais ou menos vinte anos. Era um tremendo vibrador com coisas relacionadas ao paraquedismo.

Ele, constantemente, desafiava os pqdts para uma sessão de flexões, cangurus, pulos-de-galo ou polichinelos, e quase sempre ganhava. Quando tinham que testar algum equipamento da Área, o comandante dava a ordem: “Chama o mudinho!” Ele, para testar o cabo de aço da torre, saltava com o maior entusiasmo; testava o balanço, testava a potência do motor que arrastava os pqdts no chão ao serem arrastados numa ventania. Fazia tudo com o maior prazer e não tinha medo de nada. Se fosse normal, com certeza, seria um dos melhores paraquedistas do Exército Brasileiro.

Segundo contam os mais velhos, ele, geralmente, engraxava os butes dos oficiais, ia ao bar buscar refrigerantes ou água para os sargentos e soldados. Fazia tudo por qualquer gorjeta. Dava-se com todos, sorria para todos. Estava sempre de bem com a vida.

Um dia, um tenente falou: “Vamos fazer o mudinho saltar de uma aeronave.” Para um civil meio maluco-beleza e ainda surdo-mudo era uma temeridade. Mas todos concordaram que seria uma tremenda homenagem a um grande vibrador. Arranjaram um fardamento, equiparam o mudinho e foram para o Campo do Afonsos. Os pilotos nem desconfiaram que havia um deficiente físico num avião militar. E o mudinho saltou com maior entusiasmo. Imaginem vocês, o mudinho, ao chegar à sua casa, no subúrbio onde morava, e “contar”, na linguagem dos mudos, a sua façanha aos seus familiares e amigos. Devem ter internado o mudinho.

Os personagens desta história nunca vão assumir que ela tenha realmente acontecido. Ela é contada à boca pequena nas reuniões dos veteranos paraquedistas. Alguns sabem até o nome do autor da façanha, mas é segredo militar. Aqui a contamos pela primeira vez, para mostrar a mística que envolve a nossa corporação, que vê em um ser humano, mesmo sendo ele um deficiente, as qualidades inerentes de um vibrador que amava, infantilmente, tudo relacionado à nossa Brigada de Infantaria Paraquedista.

Se vocês ficaram impressionados com esta narrativa, não a levem muito a sério; ela pode ser, apenas, mais uma história de paraquedistas...


Adendos:

Eu conheci o Mudinho e sei até o nome do tenente que o fez saltar, parece que era Fonseca. Ele batia no peito, desafiando um pqdt, e mostrava qual exercício que queria disputar com ele, e sempre ganhava o desafio.

          Casemiro Scepaniuk

* * * * *

          Nobre companheiro Paraquedista!

          Bom dia:

De forma considerável é este seu amigo uma testemunha ocular no que diz respeito ao personagem descrito em seu belo texto. Vivi nas épocas – foram duas, décadas de 50 e 70 – depois de considerável período na primeira, ele simplesmente desapareceu, voltando bem mais tarde, na década referida, de forma surpreendente.

Na verdade, suas atuações dizem respeito, fundamentalmente ao exercício da atividade de engraxate. Exatamente magro não era, mas se confirma seu bom porte físico e músculos pronunciados, aprimorados em continuadas sessões de aparelhos de ginástica. É preciso, contudo, que se tenha cautela quanto à afirmativa que ele teria sido fardado e levado a saltar de paraquedas. Vivi mais de vinte anos no âmbito da Brigada e jamais ouvi qualquer alusão a esse fato. Não obstante, para uma confirmação mais definitiva, irei conversar com veteranos como este seu amigo e depois retomarei o assunto.

Afirmo, não obstante, que ao lado de outros detalhes mencionados em seu texto, o que está definitivamente confirmado, além da atividade de engraxate já referida, suas motivações pela aparência física, que procurava sempre demonstrar de forma ostensiva e orgulhosa, era, possivelmente os saltos da torre e o desafio para as corridas.

Complemento com o que faltou! Embora não se confirme, alguns dizem que se chamava Humberto.

Cap. Domingos Gonçalves – Rio de Janeiro

* * * * *

Rio, 17 Abril 2007

Caro Fagundes

O personagem ao qual se refere o texto existiu de fato, nos idos de 1957, ano de minha incorporação já o encontrei lá. Não me recordo o nome dele. Para nós ele era o “mudinho”, até porque ele não gostava e reagia. Vivia entre a Colina e o QG, mas só gostava de engraxar os boots dos oficiais. É verdade que, por graça, por vezes o uniformizavam. Mas nunca como na charge exibida abaixo porque naquela época boina não existia ainda.

A boina surgiu, anos mais tarde, em um 7 de setembro, quando no trajeto final para o desfile, trocamos o fibra preto que era o usual pela boina que trazíamos escondida sob o dolmam (época, hein, já vai longe). Na véspera corria um zunzum que algo iria acontecer por ocasião do desfile e toda a tropa da Colina, na época GUA ou GUD, não me recordo bem, fomos todos ameaçados de prisão. O Cel Cmt era f..., reuniu o grupamento, todos concordaram, e fomos à luta. Deu-se a implantação da boina vermelha, que uns dizem ser bordô.

Mas quanto ao mudinho saltar de uma aeronave, aí é forte demais. Nunca foi do meu conhecimento. Da torre sim. Saltou várias vezes. Era diversão!

Agradeço a oportunidade de me proporcionar  o prazer de boas recordações.

         Abraços, Ivan da Cunha Reis – Pqdt 3301 – 1957/5

* * * * *

 Nilo:

Realmente é muito legal e intrigante esta história do mudinho. Veja bem, eu soube em primeira mão disso, quando conversando com o nosso Cel. Cláudio Neto Di Primio, sobre a “Operação último voo da águia”, que é o nome batizado por mim, para o translado e posterior cumprimento do último desejo do Pqdt 7717, Lima Vieira, de após a cremação do seu corpo, que suas cinzas fossem levadas para o Rio de Janeiro e jogadas por uma aeronave em cima das dependências da Brigada Paraquedista.

O Di Primio, que estava em contato com o Coronel Gobatto, que é da Casa Militar em Brasília e que havia trabalhado com o Lima Vieira na presidência, para tentar facilitar a operação, quando ele veio com esta pérola:

- Freire, esta operação deve ser feita como o salto do mudinho, no mais absoluto sigilo.

Como ele viu que eu nem sabia de quem se tratava, ele fez o devido relato do assunto, e é claro que poucas pessoas tiveram acesso a tal informação.

Mas, para finalizar, sugiro que no final do teu relato, mantenhas o mistério. Talvez o Gonçalves consiga com outro companheiro o nome correto deste “desconhecido e pitoresco herói semiparaquedista”.

          Ricardo Freire, Pqdt 30.346 – 1978/1

* * * * *

   Prezado Fagundes:

A história é verdadeira! Eu conheci o mudinho. Nunca soube o nome dele e nunca vi ou ouvi alguém conhecê-lo pelo nome (mesmo porque, obviamente – não iria surtir efeito). Na verdade, ele “malhava”, e muito (o dia inteiro), naquele galpão que existia em frente ao avião, perto da torre velha. Lá havia uma espécie de ginásio (tinha cama elástica, paralela e muitos pesos e barras para prática de halterofilismo). Num de repente, o mudo sumiu de circulação. Voltou magro e dizia ter estado muito doente. Depois disso nunca mais soube dele. Quem conheceu o mudo: Luiz Gonçalves Correa (Luiz Mochila). O Luiz era da equipe de cama elástica/paralela/argola e outras modalidades existentes, também, no referido galpão. Outros... Itacolomi; Eneas; Aluízio; Gomes (carpinteiro); Bomfim (carpinteiro) e todos que estiveram na Colina Longa pelos anos de sessenta... e tal. O mudo foi lançado e se orgulhava muito. Usava boot marrom e calça de salto. Bons tempos. Sinto muitas saudades daqueles amigos (muitos já nos deixaram... mas ficou a lembrança de grandes amizades). É bom lembrar que o Mudo era pessoa de fino trato. Educado, respeitador e sempre com um sorriso acompanhados dos sons característicos de quem não fala. Quem teve o prazer de conhecê-lo sabe que não são elogios mentirosos.

           Abraços. Xavier. Até mais

* * * * *

 Assunto: O Mudo

Prezado Paulo Fagundes.

Realmente quem serviu naquela época (1963) sabe da existência do mudo. Ele era moreno, baixo, normalmente andava com a camisa aberta e, se não me engano, usava bute marrom. A história de que algum oficial o botou para saltar talvez seja invenção, mas que ele existiu, existiu. Só não sei que fim ele levou.
          Um abraço.

          Sergio de Oliveira Mattos, Pqdt 10919 – 1963/9

* * * * *

Uma lenda, um folclore, sem história? Fagundes, eu vivi e convivi com o nosso inesquecível Mudinho. Gostei da imaginação do autor anônimo da história. Como dizia um antigo político mineiro: O que vale é a versão e não a história.

Valeu!
          Ly Adorno – Pqdt 503 – 1951/3

* * * * *

 Caro Paulo Cezar:

Em fevereiro de 1955, quando incorporei na Art Pqdt, na Colina Longa – o último prédio, lá estava o mudinho; na ocasião ele era engraxate, fazia mandados, fazia educação física conosco (e que preparo físico), jogava dupla de vôlei bem e estava em todas as peladas, entrava sempre em forma com a Bia Cmdo Sv sob o Cmdo do Cap. Vieira, que mais tarde, devido a um acidente, passou a chamar-se Pé-de-Chumbo, fazia as refeições com todos nós cabos e soldados. Durante um bom tempo, tivemos o dia a dia com ele, mais ou menos até o ano de 1957. Na ocasião ele tinha cama e mesa proporcionada pelo quartel. Financeiramente, vivia dos engraxates e por contribuição de todos nós, que no dia do pagamento cada um dava um valor, inclusive oficiais e sargentos.

Ele era muito querido por todos e era o quindim do Cel Ascendino, Cmt do Grupo de Artilharia. Vou ver se consigo com o pessoal da época os dados pedidos pelo amigo, assim que souber de alguma coisa, envio-lhe.

Na mesma ocasião, havia um garoto que vendia doces (sonhos) na área do Grupo, lá na Colina Longa, que também, apesar de residir em Magalhães Bastos, após vender os sonhos, permanecia o dia todo nas dependências do Grupo – tomava parte e assistia às instruções como se soldado fosse; não me lembro o nome dele. Só me lembro que, por jogar futebol de campo muito bem, o Cap. Art Soares levou-o para o Flamengo; se profissionalizou e, durante uns três anos, fez sucesso como centroavante titular do Flamengo. Mesmo com o sucesso, sempre que tinha uma folga, aparecia no Grupo de Artilharia.

Abraços,

          Edgard Cordeiro, Pqdt 1709 – 1955/2

* * * * *

O Mudinho morava na Colina Longa e o nome dele era Arnaldo. Ele construiu uma academia de musculação lá no salão de ginástica, que ficava ao lado do rancho. Eu, inclusive, malhava com ele. Cheguei a ser Mister Pernambuco, em 1968, e Mister Brasil, em 1978.

Ele era muito forte e musculoso, morava e era arranchado na Colina Longa, até que um General Comandante do Núcleo da Divisão Aeroterrestre o mandou embora.

Resail Carmelo Alves de Castro, Pqdt 5621 – 1959/3

Epílogo do Mudinho da Colina

Sim, esta história é verdadeira. Ela se passou há mais 70 anos. As testemunhas, que foram poucas, sabiam que ela nunca poderia ser contada, mas um Cel contou para um pqdt, que contou a outro e ela chegou até a mim (?). Num dia da semana, num único avião colocaram o Mudinho numa aeronave e fizeram um único pedido a ele: Você entra mudo e sai calado”.

Dizem quem escreveu esta narrativa foi o... , mas isso é outro grande mistério...

(Do Almanaque Paraquedista, capa abaixo)



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pedaço de tempo, pedaço de felicidade


Crônica de Nilo da Silva Moraes


Estávamos todos sentados, ou melhor, desmanchados nas cadeiras. Do mar, não muito distante, vinha uma brisa suave que nos enchia de vida, nos refrescando até a alma. Na mesa, uma cerveja loura, geladíssima, espumante. Os copos enchiam e logo se esvaziavam. Os goles desciam pela garganta; as ideias, através das palavras diziam coisas sem nexo, sem se preocupar em formar algo de importância.

O sol do meio-dia nos tocava de leve, manso e macio como uma carícia de mulher amada. Enfim, arriscaria até a dizer que era um sol aveludado. As meninas, douradas, passavam por nós indóceis, mas ninguém ligava; estávamos completos, felizes sem saber por quê.

Éramos todos amigos de amizades formadas com o desenrolar dos anos, e, não sei por qual acaso, tínhamos nos reunido naquela praia. O tempo ali parecia que não passava. A vida ali era muito mais vida. Uma vida que Deus, talvez, reservasse somente aos seus escolhidos. Naquela praia, na mesa, éramos como anjos que se encontram para descansar num fim de semana no paraíso. Gente? Creio que não éramos, talvez fôssemos bichos, plantas... sei lá! Naquela hora, naquele momento, não pensávamos em nada. As sensações nos vinham de fora. Os olhos se fixavam em qualquer ponto. O corpo, só o corpo sentia e vivia. O único som era o balanço do mar batendo na areia. Um som que quando chegava aos nossos ouvidos, parecia um som celestial. Ríamos de qualquer coisa. Quando não tínhamos motivos para rir, pelo menos um sorriso ficava constantemente em nossos lábios.

Era depois do almoço, sentíamos de barriga cheia, como um ruminante que se deita ao sol, feliz, por haver saciado a fome, e como estar de barriga cheia fosse a maior ventura desta vida. Creio, aliás tenho certeza, que todos estávamos leves e com cuca fresca. Não tínhamos obrigações com horários, encontros formais, conversas desnecessárias, etc. Nós nem sabíamos quem éramos. Não tínhamos passado; não sabíamos o que fazíamos no presente e futuro não interessava a ninguém. Só queríamos viver, simplesmente.

 De vez enquando bocejávamos, o corpo se aconchegava ainda mais na cadeira. Uns, mudando de posição, procuravam um ângulo melhor para receber o sol. Outros queriam somente a minissombra dos guarda-sóis. O lugar comum entre nós era a preguiça repousante que nos entorpecia por completo. E sempre alguém, entre goles de cerveja, assobiava uma música que afluía espontaneamente em pedaços de pequenos sons. Para nós, além da inércia, existia uma felicidade inconsciente. Felicidade feita de sol, de mar, de cerveja e de muita amizade. Não queríamos saber de mais nada. O mundo estava muito distante, e coisas como fome, tristeza, trabalho, poluição, guerras, desamor, etc. Tudo isso ficou lá, no mundo real. O que ignorávamos alienadamente era justamente o que nos fazia felizes.

No ar, parava um cheiro agradável de maresia, um cheiro de vida. Parecia que ainda estávamos instalados no ventre materno, pois não sentíamos nenhuma sensação exterior. O sol era o cordão umbilical que nos enchia de vida. Não havia nenhum interesse de nascer para a realidade. A mãe natureza era prodigiosa para conosco. Creiam! Vocês precisam estar lá para ver como era bom!

De repente, depois de muito tempo, alguém sugere de irmos à beira-mar. Então uma sensação estranha de realidade (uma sensação leve) faz com que pensemos em outras coisas. Eu, por exemplo, lembro-me que estávamos brigados, talvez até uma separação definitiva. E com esta sensação, levanto-me da cadeira e começo a pensar em você... Com saudades.

(Tramandaí, RS, dezembro de 1971)


domingo, 23 de novembro de 2014

Fernando Pessoa

Heterônimos





Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

          Mais do que meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos literários diferenciados, e que produzem uma obra paralela à do seu criador. Fernando Pessoa criou várias dessas personagens. Três deles foram excelentes poetas e seus poemas estão nesta antologia, lado a lado com os que Pessoa assinava com seu próprio nome. Os estudiosos seguem discutindo por que Pessoa teria criado seus heterônimos. Seria esquizofrenia? Psicografia? Uma grande piada? Um genial jogo de marketing poético? De certo, sabemos que a genialidade de Fernando Pessoa é grande demais para caber em um só poeta. Como bem o sintetizou o seu heterônimo mais atribulado, Álvaro de Campos:

"Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora."

Alberto Caeiro (1889 - 1915)

         Fernando Pessoa explicou em detalhes a “vida” de cada um de seus heterônimos. Assim apresenta a vida do mestre de todos, Alberto Caeiro:

          "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."

        Pessoa cria uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição à sua poesia, como podemos observar nos 49 poemas da série O Guardador de Rebanhos, incluída por inteiro nesta antologia. Segundo Pessoa, foram escritos na noite de 8 de março de 1914, de um só fôlego, sem interrupções. Esse processo criativo espontâneo traduz exatamente a busca fundamental de Alberto Caeiro: completa naturalidade.

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...”

Ricardo Reis (1887 - 1935?)

        Se Alberto Caeiro era um camponês autodidata desprovido de erudição, seu discípulo Ricardo Reis era um erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, tanto na literatura quanto na política. De acordo com Pessoa:

        "Ricardo Reis nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria."

     Discípulo de Caeiro, Reis retoma o fascínio do mestre pela natureza pelo viés do neoclassicismo. Insiste nos clichês árcades do Locus Amoenus (local ameno) e do Carpe Diem (aproveitar o momento). Neoclássico, Reis busca o equilíbrio, a "Aurea Mediocritas" (equilíbrio de ouro) tão prezada pelos poetas do século XVIII. A busca da espontaneidade de Caeiro transforma-se em Reis, na procura do equilíbrio contido dos clássicos. Deixa de ser uma simplicidade natural e passa a ser estudada, forjada através do intelecto:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim como em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”

Álvaro de Campos (1890 - 1935?)

            Fernando Pessoa nos informa que Álvaro de Campos:

        “Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade."

        Como normalmente acontece com os poetas de carne e osso, o heterônimo Álvaro de Campos apresenta três fases distintas em sua poesia. De início é influenciado pelo decadentismo simbolista, depois pelo futurismo e por fim, amargurado, escreve poemas pessimistas e desiludidos.

          No poema Opiário, o engenheiro Campos, influenciado pelo simbolismo, ainda metrifica e rima. Escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico e já se apresenta amargurado e insatisfeito:

"Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmolas às portas da alegria."


Fernando Pessoa, ele mesmo

         A obra que Fernando Pessoa assinou com seu próprio nome está reunida nos volumes Cancioneiro e Mensagem. O Cancioneiro é composto por poemas líricos, rimados e metrificados,  de  forte  influência simbolista. É do Cancioneiro um dos poemas mais célebres de 
Pessoa, Autopsicografia, em que reflete sobre o fazer poético: 

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm."




Vinte e uma coisas que aprendi como escritor

Moacyr Scliar





APRENDI que  escrever  é  basicamente  contar  histórias, e que os melhores livros de ficção que li eram aqueles que tinham uma história para contar.

APRENDI que o ato de escrever é uma sequela do ato de ler. É preciso captar com os olhos as imagens das letras, guardá-las no reservatório que temos em nossa mente e utilizá-las para compor depois as nossas próprias palavras.

APRENDI que, quando se começa  a  plagiar  não  faz  mal  nenhum.  Eu copiei descaradamente muitos  escritores,  Monteiro  Lobato,  Viriato Correa e outros. Não se incomodaram com isto. E copiar me fez muito bem.

APRENDI que, quando se começa a escrever,  sempre se é autobiográfico, o que - de novo - não  prejudica.  Mas os escritores que ficam sempre na autobiografia, que só olham para o próprio umbigo, acabam se tornando chatos.

APRENDI  que,  para  aprender  a  escrever,  tinha  de escrever. Não adiantava só ficar falando de como é bonito (...).

APRENDI que uma boa ideia  pode  ocorrer  a qualquer momento: conversando com alguém, comendo, caminhando, lendo (e, segundo Agatha Christie, lavando pratos).

APRENDI que uma boa ideia é realmente boa quando não nos abandona, quando nos persegue sem cessar.  O grande teste  para uma ideia é tentar se livrar dela. Se veio para ficar, se resiste ao sono, ao cansaço, ao cotidiano, é porque merece atenção.

APRENDI que  aeroportos  e  bares  são  grandes lugares para se escrever. O bar, por razões óbvias;  o  aeroporto,  porque  neles  a vida como que está em suspenso. Nada como uma existência provisória para despertar a inspiração literária.

APRENDI  que as  costas do talão de cheque é um bom lugar para anotar idéias (é por isso  que  escritor  tem  de  ganhar a grana suficiente para abrir uma conte bancária). O guardanapo do restaurante também serve, desde que seja de papel e não de pano. (...).

APRENDI  que  o  computador  é  um grande avanço no trabalho de escrever, mas tem um único inconveniente: elimina os originais, os riscos, os borrões, e, portanto, a história do texto, a qual - como toda história - pode nos ensinar muito.

APRENDI  que  a  mancha  gráfica  representada  pelo  texto  impresso diz muito sobre este mesmo texto.  As linhas não podem estar cheias de palavras; o espaço vazio é tão eloqüente quanto o espaço preenchido pela escrita.  O texto precisa respirar, e quando respira, fica graficamente bonito. Um texto bonito é um texto bom.

APRENDI  a  rasgar  e  jogar  fora. Quando um texto não é bom, ele não é bom - ponto. Por causa  da  autocomiseração  (é  a  nossa  vida  que  está ali!)  temos a tentação de preservá-lo, esperando que, de forma misteriosa, melhore por si.  Ilusão. É preciso ter a coragem de se desfazer. A cesta de papel é uma grande amiga do escritor. (...)

APRENDI  a  não  ter pressa de publicar. Já se ouviu falar de muitos escritores batendo aflitos,  à porta de editores.  O que é mais raro, muito mais raro, são os leitores batendo à porta do escritor.

APRENDI  a  não  reler  meus livros. Um livro tem existência autônoma, boa e má. Não precisa do olhar de quem o escreveu para sobreviver.

APRENDI que, para um escritor, um livro é como um filho, mas que é preciso diferenciar entre filhos e livros.

APRENDI que terminar um livro se acompanha de uma sensação de vazio, mas que o vazio também faz parte da vida de quem escreve.

APRENDI que há uma diferença entre literatura e vida literária, entre literatura e política literária. Escrever é um vício solitário.

APRENDI a diferenciar entre o verdadeiro crítico e o falso crítico. O falso crítico não está falando do que leu. Está falando dos seus próprios problemas.

APRENDI que,  para  um  escritor, frio na barriga ou pelos do braço arrepiados são um bom sinal: um livro vem vindo aí.



 Escrever é reescrever

Nilson Souza (Zero Hora, 31-12-1990)


Qualquer pessoa pode redigir desde que tente para valer. O difícil é reler até nada mais ter para cortar ou acrescentar. A mensagem deve permanecer clara.

Primeiro, é preciso  saber que o universo reservou um lugar certo para cada palavra e só  ali  ela  faz  sentido. Como disse Voltaire, uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito.

Mas ninguém nasce com esta clarividência. Um texto se constrói, às vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. Depende do esforço do construtor. E de sua persistência para refazer a obra quando ela desabar, seja por insuficiência de alicerce cultural, seja por causa de desvios temáticos ou de implosões gramaticais.

Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo.

Uma boa  maneira  de começar é selecionar o que se tem a dizer e para quem. A partir daí, da forma  mais  simples  e  direta  possível,  narra-se o fato. Com as palavras que vierem à cabeça.  Até que se esgotem. Depois, sim, começa a tarefa mais trabalhosa: reler uma,  duas,  tantas  vezes  quantas  forem  necessárias.  E  ir  retirando,  sem autocomiseração, tudo o que parecer duvidoso, exagerado, sem graça nem sentido. Se não sobrar nada, começa-se  de novo. Se sobrar muito, talvez seja melhor fazer outra leitura.

Quando  não  houver  mais  nada  para  acrescentar  ou  tirar,  e  a mensagem principal permanecer clara, o texto está pronto.

Parece simples, mas dói um bocado. Só que não tem outro jeito.