sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A vida como ela é...

Nelson Rodrigues



Nelson por Cássio Loredano


Durante dez anos, de 1951 a 1961, Nel­son Rodrigues escreveu sua coluna “A vida como ela é…” para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Seis dias por sema­na, chovesse ou fizesse sol. A chuva podia ser como “a do quinto ato do Rigoletto” e o sol, daqueles “de derreter catedrais”, se­gundo ele. Todo dia, com uma paciência chinesa e uma imaginação demoníaca, Nelson escrevia uma história diferente. E quase sempre sobre o mesmo assunto: adultério. Desse tema tão simples e tão eterno, ele extraiu quase duas mil histórias. Os ficcionistas que fingem se levar a sé­rio precisam de toda uma aura de misté­rio para criar. Nelson dispensava esse mis­tério. Chegava cedinho à redação, acendia um cigarro e, na frente dos colegas, entre miríades de cafezinhos, escrevia A vida como ela é… As histórias saíam de casos que lhe contavam, da sua própria obser­vação dos subúrbios cariocas ou das cabe­ludas paixões de que ele ouvira falar em criança. Mas principalmente da sua me­ditação sobre o casamento, o amor e o desejo. O cenário dos contos de A vida como ela é… é o Rio de Janeiro dos anos 50. Uma cidade em que casanovas de plantão e mulheres fabulosas flertavam nos ônibus e bondes; em que poucos tinham carro, mas esse era um Buick ou um Cadillac; em que os vizinhos vigiavam-se uns aos ou­tros; e em que maridos e mulheres viviam sob o mesmo teto com as primas e os cunhados, numa latente volúpia incestuo­sa. Uma cidade em que, como não havia motéis, os encontros amorosos se davam em apartamentos emprestados por amigos - donde o pecado, de tão complicado, tor­nava-se uma obsessão. E uma época em que a vida sexual, para se realizar, exigia o vestido de noiva, a noite de núpcias, a lua-de-mel. E em que o casal típico - e, de certa forma, perfeito - compunha-se do marido, da mulher e do amante.





O canalha

         Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça:
          - Com o Dudu?
         E ela:
          - Com o Dudu, sim.
        As duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado pa­ra outro, ele estaca, finalmente, diante da pequena:
          - Olha, Cleonice, vou te pedir um favor de mãe pra fi­lho. Pode ser?
          - Claro.
         Puxa um cigarro:
        - É o seguinte: de hoje em diante, ouviu?, de hoje em diante, tu vais negar o cumprimento ao Dudu.
         Admirou-se:
         - Por que, meu anjo?
         Ele explicou:
        - Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste?
         - Percebi.
         Ainda excitado, ele enxuga com o lenço o suor da testa:
         - Pois é.
      Passou. Mas a verdade é que Cleonice ficou impressionadíssima. Dava-se com o Dudu, sem intimidade, mas cordialmen­te. Dançara com ele umas duas ou três vezes. Mas como o Du­du fosse fisicamente simpático e educadíssimo, Cleonice guar­dara dos seus contatos acidentais uma boa impressão. Caiu das nuvens ao saber que ele era capaz de “dar em cima de uma cunhada”. Teria, porém, esquecido. Voltando à carga, sentado com a noiva num banco de jardim público, ele começa:
         - Meu anjo, tu sabes que eu não tenho ciúmes. Não sabes?
         - Sei.
         Pigarreia:
        - Só tenho ciúmes de uma pessoa: o Dudu. E nunca te es­queças: é um canalha, talvez o único canalha vivo do Brasil. To­do mundo tem defeitos e qualidades. Mas o Dudu só tem defeitos.
         Inexperiente da vida e dos homens, ela fazia espanto:
         - Mas isso é verdade? Batata?
         Exagerou:
      - Batatíssima! Quero ser mico de circo se estou mentin­do! - E repetia, num furor terrível e inofensivo: - Indigno de entrar numa casa de família!

Obsessão

        Então, sem querer, sem sentir, Lima foi fazendo do Dudu o grande e absorvente personagem de suas conversas. Argumen­tava:
       - Você é muito boba, muito inocente, nunca teve outro namorado senão eu. Queres um exemplo? Sou teu noivo, vou casar contigo. Muito bem. O que é que houve entre nós dois? Uns beijinhos, só. É ou não é?
         Impressionada, admitiu:
         - Lógico!
         Lima continua:
       - Figuremos a seguinte hipótese: que, em vez de mim, fos­se teu namorado o Dudu. Tu pensas que ele ia te respeitar co­mo eu te respeito? Duvido! Duvido! Dudu não tem sentimento de família, de nada! É uma besta-fera, uma hiena, um chacal!
      Crispando-se, Cleonice suspira: “Parece impossível que existam homens assim”. Lima prossegue: “Vou te dizer uma coi­sa mais: o Dudu olha para uma mulher como se a despisse mentalmente!”.

A festa

      Dias depois, Cleonice está conversando com umas coleguinhas quando alguém fala do Dudu. Então, ela olha para os lados e baixa a voz: “Ouvi dizer que o Dudu deu em cima de uma cunhada!”. Uma das presentes, que conhecia o rapaz, a família do rapaz, protesta: “Mas o Dudu nem tem cunhada!”. Mais tar­de a espantadíssima Cleonice interpela o Lima. Ele não se dá por achado:
       - Eu não disse que o Dudu deu em cima de uma cunha­da. Eu disse que “daria” caso tivesse. Você entendeu mal.
        Mais alguns dias e os dois vão a uma festa, em casa de famí­lia. Entram e têm, imediatamente, o choque: Dudu estava lá! Jun­to de uma janela, com o seu bonito perfil, fumando de piteira, pálido e fatal, atraía todas as atenções. Lima aperta o braço da noiva. Diz, entredentes: “Vamos embora”. Ela, espantada, per­gunta: “Por quê?”. O noivo a arrasta:
       - O Dudu está aí. E não convém, ouviu? Não convém! Imagina se ele tem o atrevimento de te tirar para dançar. Deus me livre!

O medo

        Na volta da festa, Cleonice faz, pela primeira vez, um co­mentário irritado:
        - Fala menos nesse Dudu! Sabe que eu só penso nele? Te digo mais: tenho medo!
        Lima estaca: “Medo de que e por que, ora essa?”. Ela pare­ce confusa:
       - Essas coisas impressionam uma mulher. - E repete o apelo: - Não fala mais nesse cara! É um favor que te peço!
        Ele obstinou-se: “Falo, sim, como não? Você precisa olhar o Dudu como um verme!”.
        Cleonice suspirou:
        - Você sabe o que faz!

Ódio

      Corria o tempo. Todos os dias, o Lima aparecia com uma novidade: “Vi aquela besta com outra!”. E se havia uma coisa que doesse nele, como uma ofensa pessoal, era a escandalosa sorte do “canalha” com as outras mulheres. Nos seus desaba­fos com a noiva, Lima exagerava: “Cheio de pequenas! Tem na­moradas em todos os bairros!”. Um dia, explodiu:
    - Vocês, mulheres, parece que gostam dos canalhas! Por exemplo: o meu caso. Sem falsa modéstia, sou um sujeito decente, respeitador e outros bichos. Pois bem. Não arranjava pe­quena nenhuma. Até hoje não compreendo como você gostou de mim, fez fé comigo e me preferiu ao Dudu. - Pausa e baixa a voz, na confissão envergonhada: - Porque o Dudu me tirou todas as outras namoradas, uma por uma.
       Era essa, com efeito, a origem do seu ódio por Dudu, do despeito que o envenenava.

As bodas

     Chega o dia do casamento. Poucos minutos antes da ceri­mônia civil, Lima, transfigurado, ainda diz ao ouvido da noiva: “O Dudu roubou todas as minhas pequenas, menos você!”. Pois bem. Casam-se no civil e, mais tarde, no religioso. Quase à meia-noite, estão os dois sozinhos, face a face, no apartamento que seria a nova residência. Ele, nervosíssimo, baixa a voz e pede: “Um beijo!”. Ela, porém, foge com o rosto: “Não!”. Lima não entende. Cleonice continua:
       - Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido.
      Lima compreendeu que a perdera. Sem uma palavra deixa o quarto nupcial. De pijama e chinelos veio para a porta da rua. Senta-se no meio-fio e põe-se a chorar.




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Historinhas para sorrir I




Uma ilha deserta. Dois náufragos. Vários dias sem comer e sem beber. Tubarões nadando em volta da pequena ilha. Desesperado, um dos náufragos cai de joelhos e leva as suas mãos para o céu:
− Senhor, salvai-nos. Livrai-nos desta desgraça. Se o Senhor me salvar eu juro que terei uma vida de penitência. Juro que orarei e cantarei sempre em Vosso louvor. Prometo nunca mais beber. Prometo nuca mais fumar. Prometo nunca mais...
− Para, para – grita o outro náufrago para ele. – Está vindo um barco!



Lá vai o jornaleiro berrando pela rua:
− Vinte e cinco pessoas enganadas por um menino!
− Me dá um jornal desse aí – grita uma pessoa que vai passando: pega o jornal, abre e descobre que o jornal é velho. Vai reclamar, mas ouve o menininho que segue em frente, gritando:
− Vinte e seis pessoas enganadas por um menino!


Legado da Vida


Rico com uniforme: Coronel.
Pobre com uniforme: Porteiro.
Rico com arma: Praticante de tiro.
Pobre com arma: Assaltante.
Rico de unhas pintadas: Playboy.
Pobre de unhas pintadas: Boiola.
Rico com maleta: Executivo.
Pobre com maleta: Office-Boy.
Rico com chofer: Milionário.
Pobre com chofer: Preso.
Rico com sandálias: Turista.
Pobre com sandálias Mendigo.
Rico que come muito: Bem alimentado.
Pobre que come muito: Esfomeado.
Rico na mesa de bilhar: Desportista.
Pobre na mesa de bilhar: Viciado em jogo.
Rico lendo jornal: Intelectual bem informado
Pobre lendo jornal: Desempregado procurando emprego
Rico se coçando: Alérgico.
Pobre se coçando: Sarnento.
Rico correndo: Esportista praticante de joging.
Pobre correndo: Ladrão fugindo da polícia.
Rico vestido de branco: Doutor.
Pobre vestido de branco: Pai de santo.
Rico pescando: Lazer.
Pobre pescando: Vagabundo
Rico subindo morro: Rapel.
Pobre subindo morro: Voltando para casa.
Rico: em restaurante: Cliente.
Pobre em restaurante: Garçom.
Rico bem vestido: Elegante.
Pobre bem vestido: Estelionatário.
Rico Barrigudo: Bem sucedido.
Pobre barrigudo. Com vermes.
Rico coçando a cabeça: Pensando
Pobre coçando a cabeça: Piolhento.
Rico com curativo: Band-Aid
Pobre com curativo: Fita isolante.
Rico parado na rua: Pedestre.
Pobre parado na rua: Suspeito.
Rico de terno novo: Empresário.
Pobre de terno novo: Defunto.
Rico dirigindo: Proprietário do carro.
Pobre dirigindo: Chofer.
Rico na loja: “Eu compro.”
Pobre na loja: “Eu só estou olhando...”
Rico chorando: Sensível.
Pobre chorando: Molenga.
Rico traído: Adultério.
Pobre traído: Corno.
Rico com dor de barriga: Desarranjo intestinal.
Pobre com dor de barriga: Caganeira.
Rico em Shoping: Cliente
Pobre em Shoping: Rolezinho
Rico gay: Homossexual
Pobre gay: Viado
Rico gay: (mulher) Lésbica
Pobre gay (mulher): Sapatão
Rico direitista: Politizado
Pobre esquerdista: Comprado pelo bolsa-família
Rico torcedor: Desportista
Pobre torcedor: Alienado pelo futebol
Rico impotente: Disfunção erétil
Pobre impotente: Broxa


100 frases de Nelson Rodrigues



Nelson Rodrigues foi o maior frasista brasileiro, o nosso Rochefoucauld. Com a contribuição milionária de Erika Nakamura, o Diário selecionou, em 2012, 100 máximas de Nelson Rodrigues para festejar seus 100 anos, ele nasceu em 1912.

001. A adúltera é a mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela.

002. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.

003. A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.

004. A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

005. A liberdade é mais importante do que o pão.

006. A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.

007. A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.

008. A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.

009. A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.

010. A televisão matou a janela.

011. A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.

012. Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.

013. Amar é dar razão a quem não tem.

014. Amar é ser fiel a quem nos trai.

015. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.

016. As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.

017. Com sorte você atravessa o mundo, sem sorte você não atravessa a rua.

018. Começava a ter medo dos outros. Aprendia que a nossa solidão nasce da convivência humana.

019. Copacabana vive, por semana, sete domingos.

020. D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.

021. Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.

022. Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.

023. Deus está nas coincidências.

024. Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.

025. É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

026. É preciso trair para não ser traído.

027. Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome; outros vivem dela, com generosa abundância.

028. Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.

029. Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

030. Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.

031. Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.

032. Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.

033. Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.

034. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário.

035. Invejo a burrice, porque é eterna.

036. Jovens: envelheçam rapidamente!

037. Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…

038. Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo: - 14 anos!

039. Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.

040. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.

041. Não admito censura nem de Jesus Cristo.

042. Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca. A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: – é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.

043. Não existe família sem adúltera.

044. Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou.

045. Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.

046. Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.

047. Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.

048. Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.

049. Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.

050. O adulto não existe. O homem é um menino perene.

051. O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.

052. O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.

053. O asmático é o único que não trai.

054. O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.

055. O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

056. O Brasil é muito impopular no Brasil.

057. O brasileiro é um feriado.

058. O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.

059. O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: – dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses.

060. O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade.

061. O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.

062. O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.

063. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: - um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.

064. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.

065. O morto esquecido é o único que repousa em paz.

066. O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.

067. O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.

068. O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.

069. O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.

070. O puro é capaz de abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete.

071. O sábado é uma ilusão.

072. O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.

073. Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.

074. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: - ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

075. Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano.

076. Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.

077. Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.

078. Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro.

079. Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.

080. Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.

081. Sem paixão não dá nem para chupar picolé.

082. Sexta feira é o dia em que a virtude prevarica.

083. Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.

084. Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.

085. Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.

086. Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.

087. Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.

088. Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos.

089. Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.

090. Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

091. Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.

092. Toda mulher bonita tem um pouco de namorada lésbica em si mesmo.

093. Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.

094. Toda unanimidade é burra.

095. Todas as mulheres deviam ter catorze anos.

096. Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.

097. Todo desejo é vil.

098. Todo tímido é candidato a um crime sexual.

099. Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

100. Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.


Nelson Rodrigues por Baptistão



        

Um conto de Carlos Carvalho


Segunda-feira

Carlos Carvalho


De manhã cedo a mãe vai chamá-lo. Resmunga. De cuecas, arrasta os chinelos pela casa, lava o rosto na água fria, demora-se no banheiro.

Enquanto a mãe prega o botão na camisa, alisa o cabelo empastado de brilhantina. Olha o relógio: sete e cinco. Tem ainda quarenta e cinco minutos. Boceja.

Em criança, queria ser dentista. Com a morte súbita do pai, precisou trabalhar e não sobrou tempo para o estudo. Recém-saído do serviço militar empregou-se como vendedor numa firma de peças de automóveis. Aos trinta e cinco anos, ainda lá continua, à espera de uma promoção. Como o ordenado é pequeno e ganha gratificações pelas vendas, trabalha da manhã à noite. Foi, inclusive, citado pelo Diretor na festa do fim de ano e recebeu um diploma de Honra ao Mérito, que a mãe emoldurou e colocou na parede.

Nos sábados, à noite, vai ao cinema. Na volta, não se demora na rua, pois a mãe sofre do coração e não pode ficar só. Nos domingos, acorda ao meio-dia, toma uma cerveja no almoço e passa a tarde lendo revistas em quadrinhos, o cinzeiro enchendo de pontas de cigarro.

– Você precisa casar, meu filho.

– Tem tempo, mãe.

Coleciona fotografias de mulheres nuas, que esconde no armário, embaixo das roupas. Na rua caminha com passos lentos e pesados. A mãe diz que se parece com o pai. Sorri sem abrir muito a boca, para esconder a falha do dente.

Ultimamente tem sentido uma dorzinha enjoada na boca do estômago. Não conta à mãe, para não assustá-la. Temendo que seja úlcera, bebe um copo de leite em cada bar que entra.

Antes de sair, lava a louça do café, que a velha não pode fazer esforço.

– Depressa, meu filho, você vai se atrasar.

Pede dinheiro à mãe, que guarda o seu ordenado, e veste a camisa, enquanto ela recomenda:

– Cuidado no atravessar a rua.

Alisa ainda uma vez o cabelo, beija a mãe e sai. Da porta, ela abana, orgulhosa do filho. E os passos dele, iniciando a semana, parecem os de um bicho se arrastando penosamente.

*****


CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor.


Quando a língua parou



Damaso Viegas Nóbrega


Naquela manhã uma cerração mais densa que a das chaminés das fábricas turvou a cidade. E de repente todo mundo esqueceu as palavras

Poucos conseguiram chegar ao trabalho. Já não entendiam os letreiros dos ônibus e tomavam o bonde errado. Quem alcançava a pé os altíssimos edifícios dos escritórios tinha que subir pelas escadas porque os elevadores estavam parados. Ninguém mais sabia contar, nem ler os números dos andares para manejar o painel de controle.

Nos Correios e Telégrafos só as traças remetiam telegramas secretos dentro dos arquivos. Todos os telefones do mundo monologavam em seus cabides

Naquele dia os restaurantes não funcionaram. Os mestres-cucas, envergonhados, sem o auxílio dos tratados de culinária, pareciam mocinhas escriturarias recém-casadas à beira do fogão. Mal-e-mal sabiam cozinhar feijão e arroz.

Nos hospitais os doentes morriam mais do que sempre. As enfermeiras não compreendiam as prescrições dos médicos e os pacientes pararam de tomar os remédios. Raros médicos aparecidos, agora analfabetos, já não sabiam receitar.

Por força do hábito, estudantes foram às escolas e professores também. Pelo costume, os professores tentavam falar, e os alunos entender. Mas a única aula que saiu foi de onomatopeias. Tudo os dedicados mestres tentavam. Dona Trofozilda, catedrática em gramática, crocitava solenemente, A professora de Canto Orfeônico gorjeava em cima do piano. O diretor da escola relinchava no gabinete, e o fiscal de alunos ladrava pelos corredores.

Nas ruas o caos era total. Os motoristas choravam de raiva. Não, não era por causa do trânsito, que esse estava igual a todos os dias. É que haviam esquecidos todos os palavrões e não tinham como xingar-se uns aos outros. Alguns até consultavam dicionários de bolso na ânsia de comunicar-se. Porém, não sabiam mais ler e, mesmo que ainda soubessem, não ia adiantar, pois dicionários não registram “nomes feios”.

O pior foi à noite. Uma tristeza amarga invadiu todos os lares. Porque não podiam conversar? Não, por isso não, já que há muito tempo os familiares não conversavam mesmo; Acontece que a televisão não funcionou. Não havia scripts e, ainda que houvesse, ninguém poderia lê-los, visto que desaprenderam. Sem a telenovela, mamãe não conseguia emocionar-se e olhava indiferentemente para papai. Sem os programas de humor, não tinham por que rir e, quando não riam, estavam sempre tristes.

Aquela névoa antilinguagem envolveu todo o planeta. Em poucas semanas a civilização evaporou-se. Tudo virou de pernas para o ar. Não havia mais cavalheiros e damas – só  homens e mulheres. Logo os homens começaram a trepar em árvores e as mulheres deixaram de pintar os olhos e usar perucas.

Então os marcianos desceram. Observaram satisfeitos o resultado de sua fumacinha e disseram:

− Agora o planeta é nosso! Antes de um milhão de anos, esta macacada não faz bomba atômica outra vez.



terça-feira, 28 de outubro de 2014

O terrorista, ele observa

(Wislawa Azymborska)*


Traduzido por Nelson Ascher a partir da versão inglesa 
de Adam Czerniawski e da norte-americana de Magnus J. Krynski 
e Robert A. Maguire.



A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos.
Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinquenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas.
São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta.
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba,
ela explode.






Wislawa Szymborska

(2 de julho de 1923 ‒ 1° de fevereiro de 2012
Foi escritora e poetisa polaca)



O pitoresco na justiça


Num de seus inúmeros depoimentos na Justiça, Zé da Ilha,
"o Saudoso", prestou esta declaração:


“−Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho de sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira, e troquei por centavos um embrulhador. Quando então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na quebrada da rua, veio uma pára-queda se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a pista, colei. Solei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despistas porque, muito vivaldino, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando. Morando na jogada, o Zezinho aqui, ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a amarração dando a maior sugesta na recortada. Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas sem esperar recebi um cataplum no pé do ouvido. Aí, dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma muquecada nos amortecedores e taquei os dois pés na caixa da mudança, pondo por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai muito rápido, virou pulga e fez a Dunquerque, pois vermelho não combinava com a cor do meu linho. Durante o boogie, uns e outros me disseram que o sueco era tira e que iria me fechar o paletó. Não tenho vocação pra presunto e corri. Peguei uma borracha grande e saltei no fim do carretel, bem vazio, da Lapa, precisamente às quinze para a cor de rosa. Como desde a matina não tinha engulido gordura, o ronco do meu pandeiro estava me sugerindo sarro. Entrei no china pau e pedi um boi à Mossoró com confeti de casamento e uma barriguda bem morta. Engolia a gororoba e como o meu era nenhum, pedi ao caixa pra botá no pindura que depois eu ia esquentar aquela fria. Ia me pirá quando o sueco apareceu. Dizendo que eu era produto do mangue, foi direto ao médico legal pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou o Gato Félix, me queimei e puxei a solingem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América. Aproveitei a confusão pra me pirá, mas um dedo duro me apontou aos xipófagos e por isto estou aqui.”

          Atordoado, o juiz mandou chamar um "tradutor"
que esclareceu o seguinte:

Tradução do depoimento

“− Senhor Doutor, a história foi a seguinte: depois que fui abandonado por minha companheira, resolvi procurar uma outra que me preparasse a comida e lavasse meus ternos. Quando caminhava pela rua, entrei num botequim, tomei uma cachaça e comprei um jornal. Depois de ler as notícias do jornal, encostado num poste, na esquina da rua, vi que uma morena se aproximava toda faceira. Olhei-a, ela também. Segui-a de longe e olhando de soslaio para trás, vira que seu companheiro a seguia. Percebendo o jogo, fiquei de longe e vi quando ele a segurou pelo braço e mandou-a para casa. Fui saindo, mas antes de poder me afastar mais, o amásio da moça me agrediu. Revidei dando-lhe com o sapato um chute no peito, um soco no maxilar e de um salto, com outro chute no peito, joguei-o por terra. Ele sacou sua arma e atirou, mas eu já havia fugido, porque o sangue não combinava com a cor do meu temo. Durante a briga, disseram-me que o moço era policial e me mataria. Não tenho vocação para defunto. Corri e peguei um ônibus, descendo no fim da linha, no Largo da Lapa, precisamente às 15 para as seis horas (hora do crepúsculo). Como desde manhã não havia me alimentado, e meu estômago reclamava, entrei num restaurante chinês e pedi um bife a cavalo com arroz e urna cerveja preta bem gelada. Tomei a refeição e como não tinha dinheiro, pedi ao caixa para assentar no caderno que depois eu pagaria a conta. Ia sair quando o policial apareceu. Disse que eu era malandro, e foi direto ao cozinheiro para falar mal de mim. Eu sou preto, mas não sou Gato Félix, fiquei aborrecido e puxei da navalha. Agredi o meu rival. Ele ficou todo ensangüentado. Aproveitei a confusão para fugir, mas alguém me delatou apontando-me aos "Cosme e Damião" e por isto eu estou aqui.”


(Correio da Manhã - Rio de Janeiro – 5.4.1959)


Glossário do vocabulário do Zé da Ilha

patuá - forma giriática para substituir "o negócio", "a questão", "o problema".

gelo - desprezo

esquinar - ficar parado em esquinas, à espera de algo

cabrocha - mulher

que preparasse a marmita e amarrotasse o meu linho no sabão - que cozinhasse para mim e lavasse a minha roupa

bordejava pelas vias - perambulava pelas ruas

abasteci a caveira - tomei uma bebida - uma cachaça

troquei por centavos um embrulhador - comprei um jornal

na quebrada da rua - na esquina

veio uma pára-quedas se abrindo - veio uma mulher demonstrando interesse pelo malandro

eu dei a dica - o malandro dirigiu um gracejo à mulher

ela bolou - a mulher foi receptiva à lisonja do malandro

eu fiz a pista - acompanhei-a

colei - aproximei-me, caminhando ao lado da mulher

solei - conversei com a mulher

bronquiou - demonstrou com palavras iradas, o seu desagrado

vivaldina - viva, esperta, inteligente

o cargueiro estava lhe comboiando - o namorado a estava acompanhando

morando na jogada - compreendendo a situação

o Zezinho aqui - forma do malandro referir-se a si mesmo

o cargueiro jogou a amarração - o namorado se aproximou dela

um cataplum no pé do ouvido - um soco ou bofetada na orelha

dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça - dei-lhe um pontapé no joelho

uma muqueada nos mordedores - forma de muque - um soco nos dentes

taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança - saltei-lhe com os dois pés sobre o peito

ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas - sacou o revólver e fez dois disparos

papai - outra forma do malandro referir-se a si mesmo

virou pulga - deu um salto

fêz a dunquerque - evadiu-se, fugiu (alusão à famosa retirada de dunquerque, na Segunda Guerra Mundial)

vermelho não combina com a cor do meu linho - referia-se ao vermelho do sangue

tira - policial, detetive, investigador.

fechar o paletó - matar

não tenho vocação prá presunto - referia-se ao seu apego à vida

borracha grande - ônibus

no fim do carretel - no fim da linha, no ponto final

bem no vazio da lapa - no Largo da Lapa

às 15 para a cor de rosa - às 17 horas e 45 minutos

matina - manhã (observe-se a influência do elemento imigrante através desse vocábulo italiano)

o roque do meu pandeiro - o ruído do meu estômago

china-pau - "china" - (pequenos restaurantes chineses que serviam pratos a preços populares, na época, muito comuns no Rio de Janeiro)

boi a mossoró com confeti de casamento - bife a cavalo com arroz

e uma barriguda bem morta - cerveja bem gelada

como o meu era nenhum - como não tinha dinheiro...

pedi ao caixa pra botá na pindura que depois eu iria esquentar aquela fria - pedi ao caixa um crédito, dizendo-lhe que pagaria a despesa mais tarde.

dizendo que eu era produto do mangue - o Mangue é um dos prostíbulos do Rio de Janeiro - (curioso notar o eufemismo desta construção)

me queimei e puxei a solingea - irritei-me e saquei a navalha (a marca do instrumento Solingen, passou a sinônimo de navalha)

fiz uma avenida na epiderme do moço - fiz um talho na pele...

ele virou logo américa - ficou vermelho como sangue (América Futebol Clube, cujo uniforme se compõe de camisas vermelhas)

dedo-duro - delator

xifópagos - policiais do Rio de Janeiro que sempre andam em duplas (também chamados Cosme e Damião.




domingo, 26 de outubro de 2014

As três peneiras



(469 – 399 a.C.)

Augustus procurou Sócrates e disse-lhe:

- Sócrates, preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de...

Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:

- Espere um pouco Augustus. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?

- Peneiras? Que peneiras?

- Sim. A primeira, Augustus, é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro?

- Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!

- Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?

- Não, Sócrates! Absolutamente, não!

- Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coisa?

- Não, Sócrates... Passando pelo crivo das três peneiras, compreendi que nada me resta do que iria contar.

E Sócrates sorrindo concluiu:

- Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma coisa a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos. Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras porque:

Pessoas sábias falam sobre ideias;

Pessoas comuns falam sobre coisas;

Pessoas medíocres falam sobre pessoas.