terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tarefas de Pantagruel

Gangântua, o personagem de Rabelais,
pediu ao filho Pantagruel que atingisse as seguintes metas


Eu pretendo e insisto que você aprenda com perfeição todas as línguas; primeiramente e antes de todas as outras, grego, pelo método de Quintiliano; então latim, e depois hebraico, e depois árabe e o caldeu. No idioma grego, gostaria que seu estilo se formasse tomando Platão como modelo, e no latim, a Cícero. Que não existe nenhum episódio da história que não tenha na ponta da língua, e estude profundamente cosmografia e geografia. Das artes liberais, como geometria, matemática e música, das quais lhe transmiti as primeiras noções quando você tinha pouco menos de cinco anos, esperaria agora que você as dominasse plenamente. Estude astronomia, mas não quiromancia ou astrologia, as quais considero meras futilidades. Quanto ao direito civil, espero que saiba de cor os compêndios. Também deve ter um perfeito conhecimento das obras da natureza, de modo que não haja nenhum mar, rio ou o mais ínfimo córrego sobre o qual não saiba quais os peixes que ali são mais comuns, qual a sua fonte e para onde segue seu curso; todas as aves que andam pelos ares, todos os arbustos e arvores, pertençam eles a uma floresta ou a um pomar, todas as ervas e flores, todos os metais e pedras, devem ser dominados e conhecidos por você. Ao mesmo tempo não descuide de ler cuidadosamente todos os talmudistas e cabalistas, e certifique-se de, por meio de constantes dissecações, adquirir perfeito conhecimento desse outro mundo chamado microcosmo, que é o ser humano. Trate de dominar esses campos enquanto está nos seus anos de juventude e cuide para que nada seja conhecido de modo superficial; à medida que avançar pela vida adulta, você deve aprender a arte da cavalaria, da guerra e das manobras de campo.




“O homem vale tanto quanto o valor que dá a si próprio.”

François Rabelais Chinon, (1494 - Paris, 9 de abril de 1553) foi um escritor, padre e médico francês do Renascimento, que usou, também, o pseudônimo Alcofribas Nasier (um anagrama de seu verdadeiro nome).


Ficou para a posteridade como o autor das obras primas cômicas Pantagruel e Gargântua, que exploravam lendas populares, farsas, romances, bem como obras clássicas. O escatologismo é usado para condenação humorística. A exuberância da sua criatividade, do seu colorido e da sua variedade literária asseguram a sua popularidade.

A lógica da cor



(Da revista Planeta, novembro de 2011)


Por que o vermelho exprime ardor? E o azul, tristeza? Por que o blue se chama blue? A psicologia das cores é uma ferramenta do marketing de produtos e serviços. Mas até hoje ninguém entende por que certas cores alguns países e em outros não.

Influência das cores

Embora os efeitos variem por países e por culturas, saiba quais são as percepções dominantes associadas às cores principais, segundo estudos realizados por universidades norte-americanas.

Sensação

A impressão imediata causada por uma cor. Corresponde ao grau de excitação das redes neurais nas terminações nervosas da retina do olho humano, proporcional à magnitude da cor como estímulo eletromagnético.

Associação

A sensação da cor provoca uma reação emocional. A nomeação dessa emoção é possível dependendo do grau de atenção, de vivências emocionais anteriores, da memória e dos recursos linguísticos da pessoa.

Representação

O conjunto das opiniões e sensações comuns produzido pela maioria das pessoas sobre o significado de determinadas cores.

Impressão subjetiva

A referência por determinadas cores pode sinalizar traços de personalidade e aspectos inconscientes.


Verde

Sensação: frescor
Associação: relva, mata, ar puro
Representação: paisagens naturais, palmeiras, duendes, liberdade, abertura
Impressão subjetiva: angústia, autocontrole

Branco


Sensação: luz-espaço
Associação: neve, clara de ovo, papel, arroz, vestido de noiva
Representação: paz, harmonia, pureza, limpeza
Impressão subjetiva: inibição dos impulsos, bloqueios, perturbação

Vermelho

Sensação: euforia, exaltação, calor,
Associação: sangue, boca, maçã, morango, pimenta, Ferrari, Papai-Noel
Representação: perigo, desejo, força, paixão, fogo, sexo
Impressão subjetiva: agitação, impulsividade, agressividade

Laranja

Sensação: vigor, vitalidade, fulgor, intensidade
Associação: outono, laranja, girassol, cenoura, gema de ovo, Dias das Bruxas
Representação: poder, exuberância, calor, ingenuidade,
Impressão subjetiva: criatividade, entusiasmo, inquietude

Amarelo

Sensação: vitalidade, brilho, luminosidade
Associação: ouro, sol
Representação: prazer, riqueza, Brasil
Impressão subjetiva: alegria, disposição, ambição, medo


Preto

Sensação: escuridão-espaço
Associação: noite, ébano, carvão
Representação: morte, vazio, sofisticação
Impressão subjetiva: tristeza, melancolia, depressão


Azul

Sensação: frio, imensidão,
Associação: céu, firmamento, mar
Representação: magnitude, dignidade, beleza
Impressão subjetiva: supercontrole, negativismo

Roxo

Sensação: suavidade, profundidade
Associação: violeta, ametista,
Representação: magia, luxo, esoterismo
Impressão subjetiva: inquietação, intuição, profundidade, labilidade afetiva, introversão


Encontros e Despedidas

Milton Nascimento
&
Fernando Brant

Mande notícias do mundo de lá.
Diz quem fica.
Me dê um abraço venha me apertar,
Tô chegando...

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos.
Melhor ainda é poder voltar
quando quero...

Todos os dias é um vai-e-vem,
A vida se repete na estação.
Tem gente que chega pra ficar.
Tem gente que vai pra nunca mais...

Tem gente que vem e quer voltar,
Tem gente que vai, quer ficar.
Tem gente que veio só olhar,
Tem gente a sorrir e a chorar.
E assim chegar e partir...

São só dois lados da mesma viagem.
O trem que chega,
É o mesmo trem da partida.
A hora do encontro é também despedida;
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar...
É a vida dês meu lugar
É a vida...


Despedida de amigo de trabalho

Se por um instante, Deus esquecesse de que somos uma marionete de pano e nos presenteasse com mais um pouco de vida ao seu lado, possivelmente não diríamos tudo o que pensamos, mas definitivamente pensaríamos em tudo o que dissemos.

Por tanto, pensando no que dissemos, fizemos e sentimos, percebemos que os momentos de história que realizamos juntos foram mais grandiosos do que pequenos.

Trabalhamos, mas também rimos muito, e podemos dizer que se Deus nos concedesse mais um pouco de vida ao seu lado, morreríamos de tanto rir.

Neste momento, palavras perdem o sentido diante das lágrimas contidas nas saudades que iremos sentir, mas sorriso é o que lhe demonstraremos neste instante por ser o motivo deste até logo, a realização de mais uma vitória em sua vida.

Sempre há um amanhã e a vida nos dá sempre mais uma oportunidade para fazermos as coisas bem, e temos que aproveitar cada oportunidade, por isso sabemos que você tem que ir, mas ficaremos aqui torcendo pelo seu sucesso hoje e sempre. Que você faça mais histórias maravilhosas e intensas como foi a nossa.

Hoje é apenas a última vez que você verá as pessoas que conviveu no trabalho, mas o início de uma vida de convivência de amigos eternos.

Autor desconhecido


Apenas mais uma carta 
(a um ex-amor)

Não acredito em despedidas programadas, em último beijo ou em bilhete de adeus. Quanto menos remoemos a mágoa da separação melhor, cada um no seu canto, cada um com seus argumentos e verdades, sejam eles sinceros ou não. Portanto, essa é mais uma daquelas cartas que escrevo sem a intenção de enviar, uma carta que você nunca vai receber.

 Antes de tudo, preciso lhe agradecer por tornar nossa despedida muito mais fácil para mim. Se antes você mudava e alegrava o meu dia pelo simples fato de estar por perto, hoje você me perturba com seus rancores, me incomoda com suas loucuras e me entristece com suas tantas verdades omitidas durante todo o tempo em que estivemos lado a lado.

Obrigada por ter me feito acreditar que você era diferente de todos os outros homens, obrigada pelo amor que você me fez crer que sentia por mim. Obrigada pelo tempo em que vivi iludida e feliz, pelos anos em que eu confiei em você e no seu amor sem fim. Mas muito obrigada mesmo por agora me fazer enxergar que nada disso existiu, que eu estive sozinha quando pensei estar com você. Obrigada por me mostrar que eu não perdi nada pelo simples fato de que não posso manter comigo algo que nunca foi meu.

A verdade é que não posso lhe culpar por nenhuma das minhas penas. Se você fez o que quis de mim e mudou o rumo da minha vida foi porque eu permiti. Você nunca me pediu nada e eu sempre lhe dei tudo, já que era o único jeito de ficarmos juntos. E como eu queria viver perto de você.

Uma lástima que eu tenha percebido tarde demais que o amor precisa de dois para acontecer e que sozinha eu acabaria, cedo ou tarde, ficando pelo caminho, uma pena que eu tenha avistado o fim da estrada apenas quando o alcancei. Se eu tivesse aberto um pouco antes meus olhos talvez o choque fosse menor, talvez agora eu estivesse melhor preparada para lidar com tantas decepções. Talvez.

Dessa minha carta sem destino, só quero que você guarde uma coisa: muito obrigada. Obrigada por me mostrar a cada nova atitude que você não é nada daquilo que imaginei.

Márcia Duarte

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda


É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs.
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

Rabindranath Tagore

“Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente.”

Martha Medeiros


“Só preciso de alguns abraços queridos, a companhia suave,
bate-papos que me façam sorrir, algum nível de embriaguez
e a sincronicidade: eu e você não acontecemos por uma relação causal,
mas por uma relação de significado, que ainda estamos trabalhando.”

Caio Fernando Abreu


Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval - uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito - depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado - sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras - com flores e cantos. O inverno - te lembras - nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Extraído do livro “A Traição das Elegantes”, de Rubem Braga.


Os dez mandamentos da terceira idade



01º - Não se aposente da vida para se tornar a praga da família. A vida é atividade e o verdadeiro elixir da eterna juventude é o dinamismo. Não despreze as ocupações enquanto tiver energia para as lutas cotidianas.

02º - Seja independente e preserve sua liberdade mesmo que seja dentro de um quartinho. Quem renuncia ao próprio lar, obriga-se a andar na ponta dos pés para evitar atritos com noras, genros, netos e outros parentes.

03º - Mantenha o governo de sua própria bolsa. Ajude seus filhos financeiramente, na medida das suas posses, reserve uma parte para emergências e lembre-se que um filho ambicioso pode ser mais temível que um inimigo.

04º - Cultive a arte da amizade como se fosse uma planta rara, cercando os familiares de cuidados, como se fossem flores. Se sua memória estiver falhando, anote numa agenda sentimental as datas mais importantes das suas vidas e compartilhe com eles a alegria de estar presente.

05º - Cuide da sua aparência e seja o mais atraente possível. Não seja um daqueles velhos relaxados, que exibem caspa na gola do paletó e manchas de gordura na roupa que revelam o cardápio da semana. Nunca despreze o uso de água e sabão.

06º - Seja cordial com seus vizinhos. Evite implicar-se com o latido do cachorro, o miado do gato, o lixo fedorento na calçada ou o volume do rádio. Um bom vizinho é sempre um tesouro, especialmente se os parentes morarem distantes.

07º - Cuidado com o nariz e não se intrometa na vida dos filhos adultos. Eles são seres com cérebro, coração, vontade e contam com muitos anos para cometerem seus próprios erros.

08º - Fuja do vício mais comum da velhice, que é a "Presunção". A longa vida pode não lhe ter trazido sabedoria. Há muitos que chegam ao fim da jornada tão ignorantes como no início dela. Deixe que a “Humildade” seja a sua marca mais forte.

09º - Os cabelos brancos não lhe dão o privilégio de ser ranzinza e inconveniente. Lembre-se que toda paciência tem limite e que não há nada mais desagradável do que alguém desejar a sua morte.

10º - Não seja repetitivo, contando a mesma história três, quatro, cinco vezes. Quem olha só para o passado, tropeça no presente e não vê a passagem para o futuro...


Adaptação de “Compreendendo Melhor Como Viver a Terceira Idade,
na Opinião da Terceira Idade”, do Dr. Conceil Corrêa da Silva.



Explode, coração!





Gonzaguinha

Chega de tentar, dissimular
E disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não posso mais calar,
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter,
O que você não quis desabafar e me cortou.

Chega de temer, chorar, sofrer,
Sorrir, se dar e se perder e se achar
E tudo aquilo que é viver.
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada,
Quero sentir a dor desta manhã.

Nascendo, rompendo, rasgando,
E tomando meu corpo e então eu
Chorando, sofrendo, gostando
Adorando, gritando
Feito louca, alucinada e criança.
Eu quero o meu amor se derramando,
Não dá mais pra segurar,
Explode, coração!


Trata-se da paixão e o desenrolar da primeira vez de um casal. Veja só, como se fosse o sol desvirginando a madrugada, quero sentir a dor desta manhã. Alguma dúvida. Vejamos mais “Nascendo, Rompendo, Rasgando...” E mais “Sentindo o meu amor se derramando”, “explode, coração” o gozo final.


Nunca pare de sonhar

“Nunca se entregue, 
nasça sempre com as manhãs.
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar.
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá.
Nós podemos tudo, nós podemos mais,
Vamos lá fazer o que será.”

Gonzaguinha

(1945-1991)


A carta e o índio




Pequena teatralização para sala de aula

Personagens: (1) O Narrador (2) O amigo do fazendeiro (3) O índio


O narrador: Um fazendeiro incumbiu a um índio, ainda não de todo civilizado, que fosse levar dez belas frutas a um amigo. Sobre elas colocou uma carta.

No caminho, o índio teve vontade de comer uma das frutas. E não se conteve, comeu-a.

O amigo: - Você comeu uma das frutas?

O índio:   - Eu?

O amigo: - Sim. Está faltando uma.

O índio:   - Como é que o senhor sabe?

O amigo: - Ora essa! Pela carta.

O narrador: O índio não tinha a menor ideia de como a gente pode registra as ideias pela escrita, e desse modo transmiti-las aos outros. Por isso, olhou com admiração a folha de papel que o outro lhe exibiu e disse:

O índio:  - Ah! Isso conta o que a gente faz?... Eu não sabia!

O narrador: Uma semana depois, o índio foi de novo encarregado de levar um cesto de frutas ao mesmo homem. Levava também uma carta.

No meio do caminho, pousou a cesta no chão e, pegando na carta, disse:

O índio:  - Deixa estar, bicho mexeriqueiro, contador do que a gente faz! Agora, você não há de ver o vou fazer para contar aos outros!

O narrador: Dito isso, sentou-se sobre o envelope. Comeu três das frutas e atirou longe as cascas e os caroços. Então, levantou-se, pôs a carta no lugar e continuou no caminho.

O amigo: - Então... estavam boas as frutas?

O índio:   - Não sei não, senhor!

O amigo: - Como não sabe?... Pois comeu três delas?

O narrador: Vendo-se apanhado em falta, o índio muito sem jeito, confessou:

O índio:  - Comi, sim senhor. O senhor me desculpe... Mas... eu só queria saber com foi que o senhor descobriu...

O amigo: - É boa! Pela carta!

O índio:  - Não pode ser, não senhor! O senhor está brincando comigo, porque desta vez eu me sentei em cima dela e ela não viu nada...

O narrador: O homem sorriu daquela simplicidade, e o índio pôs-se a pensar no caso. Embora  não compreendendo tudo perfeitamente, começou a perceber que os sinais escritos deviam servir para transmitir um recado.



Francisco Viana – adaptação de Altino Martinez, 
em Leitura TeatralizadaSão Paulo, 
Ed Clássico Científica, pág. 67-8


As notícias da morte de Noel Rosa


Noel Rosa por William


Noel Rosa foi um marco na música popular brasileira. Um dos responsáveis pelo samba moderno e por ter trazido o samba as rádios, além de aproximar o samba do morro com o asfalto. Suas letras são atuais até hoje, assim como os textos de Shakespeare, pois tratam de temas inerentes ao ser humano. Apesar disso, o cantor, compositor, bandolinista, violonista ainda é pouco conhecido pela grande maioria das pessoas. Mesmo tendo vivido apenas 26 anos, o suficiente para deixar seu nome entre os maiores do samba carioca, Noel deixou mais de 200 composições gravadas. Entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como "Palpite Infeliz", "Feitiço da Vila", "Conversa de Botequim", "Último Desejo", "Silêncio de um Minuto", "Pastorinhas" e "Com Que Roupa?". Em 2010, se estivesse vivo, Noel Rosa completaria 100 anos.

Noel Rosa morreu no dia 4 de maio de 1937. No dia seguinte, os jornais da época deram o devido destaque a morte do homem franzino, frágil fisicamente, mas que se tornou forte e grandioso culturalmente por sua vasta produção de belas composições.

Noel morreu com 26 anos, mas mesmo com pouco tempo de vida, através das manchetes e alguns trechos de reportagens que aqui reproduzimos, conseguimos medir a profundidade do que representava o “poeta da Vila” no contexto da época. Enquanto alguns periódicos foram sucintos nas chamadas, alguns trouxeram já pela manchete a amplitude de Noel.



Noel Rosa por Lan


Manchetes dos jornais – data: Quarta-feira, 05 de maio de 1937.


O Jornal - Faleceu O Compositor Noel Rosa - Era Autor De Numerosas Músicas Populares.

Diário de Notícias - Faleceu Noel Rosa - O Conhecido Compositor Morreu Ouvindo Cantar Uma Musica De Sua Autoria.

Diário Carioca - Noel Rosa - Faleceu Ontem O Maior Cantor Da Alma Carioca.

Correio da Manhã - A Morte Prematura De Noel Rosa - Foi, Ontem, Sepultado, O Popular Cantor Do Radio

Diário da Noite - Morreu Cantando Noel Rosa A Figura Mais Popular Dos Nossos Compositores

A Noite - Morreu Noel Rosa



Abaixo, a transcrição da matéria do jornal “A Noite”:


       Morreu Noel Rosa. A cidade chora, nesta noticia, o desaparecimento do expoente máximo do sambista carioca.

       A letra era repleta de uma filosofia humana. Sentira a necessidade de ambientar a musica que vivia nos morros ao convívio da cidade. Fez letras onde o malandro e o jogo de chapinha não entravam. Traduzia a própria vida em ritmos e melodias.

       É seu esse samba canção: “Naquele tempo em que você era pobre / Eu vivia como nobre / A gastar meu vil metal / E, por minha vontade / Você foi para a cidade / Esquecendo a solidão / E a miséria daquele barracão./ Tudo passou tão depressa, / Fiquei sem nada de meu / E esquecendo a promessa, / Você me esqueceu, / E partiu, com o primeiro que aparece / Não querendo ser pobre como eu.” Dizem que essa história foi vivida.

       O morro era para ele motivo de verdadeiras crônicas musicais. "Mangueira" é um exemplo disso.

       Seu primeiro sucesso foi "Com Que Roupa". Nesse, plenamente, quer como autor quer como violonista. Costumava, constantemente, interpretar, frente ao microfone, suas produções. É enorme a sua bagagem musical.

     Noel Rosa morreu, vitimado por um colapso cardíaco, em tempo, prosseguindo os estudos, ele ingressava na escola de Medicina. Em pouco tempo, porém, abandonava os estudos, dedicando-se, inteiramente, á arte que o empolgara. Venceu, em toda linha sua residência, á Rua Theodoro da Silva. E - suprema ironia do destino!


Aqui, como “O Jornal” deu a morte de Noel:

      À meia-noite de ontem faleceu, nesta capital, em sua residência, à Rua Theodoro da Silva, 382, o compositor de sambas e marchas, Noel Rosa.

       Era uma figura simpática das rodas radiofônicas e dos nossos musicistas mais populares.

      Muitas de suas produções como "Tarzan, O Filho do Alfaiate" e "Maria Fumaça", tiveram um êxito extraordinário. Mas o seu samba que mais agradou, foi, sem duvida, "Palpite Infeliz". De alguns anos para cá, não havia Carnaval completo sem musica de Noel Rosa.

      Encontrava-se ele enfermo há varias semanas e os que o conheciam nada auguravam de bom, dado o seu físico franzino. Entretanto, ainda recentemente, concedeu uma alegre entrevista a uma de nossas revistas de rádio, traçando então os seus planos para o futuro. Não quis o destino que se justificasse o seu otimismo.

       O enterro sai, às 16 horas, de hoje, do referido endereço, para o cemitério de S. Francisco de Assis.


Agora, como divulgou o “Diário de Notícias”:

     Noel Rosa era um de nossos mais conhecidos compositores populares. Suas músicas nunca deixavam de alcançar sucesso nas temporadas carnavalescas.

      Havia meses vinha ele sofrendo de pertinaz moléstia, que lhe tirava toda a alegria. Ontem, à noite, em frente à sua residência, à Rua Theodoro da Silva, 382, em Villa Isabel, realizava-se uma festa familiar.

        Os rapazes, que compunham a orquestra, resolveram prestar uma homenagem a Noel, cantando em voz alta, o samba-desafio, de sua autoria, intitulado “De Babado Sim...”

       O compositor popular, que regressara havia três dias, de Piray, onde fora mudar de ares, ao ouvir a música, teve um estremecimento e morreu, talvez de emoção.


         O seu enterro será realizado hoje à tarde, saindo o féretro do endereço acima.

        Um verdadeiro artista se perpetualiza através de suas obras. Noel Rosa é um exemplo de um artista que mesmo sendo efêmero, se imortalizou pela magnitude de suas composições. Noel Rosa não morreu! Ele vive em cada calçada da 28 de setembro, em cada roda de samba e em cada mente que “saboreia” as suas músicas, cantadas até hoje em verso e prosa.

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação.”

Versos da música “Último desejo” de Noel Rosa

1910 - 1937



Noel Rosa por Nássara


O Ambiente Exige Respeito



Gafieira é, sobretudo, uma casa onde se pratica a dança, no sentido mais genuíno, e se mantém e se alimenta uma tradição popular que atravessa décadas. Um espaço de maestria dos dançarinos, que já exibem e exercitam a arte de dançar.


Estatuto da Gafieira

Billy Blanco

Moço,
Olha o vexame,
O ambiente exige respeito,
Pelos estatutos
Da nossa gafieira,
Dance a noite inteira
Mas dance direito.

Aliás,
Pelo artigo 120,
O distinto que fizer o seguinte:
Subir na parede;
Dançar de pé pro ar;
Debruçar-se na bebida sem querer pagar;
Abusar da umbigada de maneira folgazã,
Prejudicando hoje
O bom crioulo de amanhã,
Será distintamente censurado,
Se balançar o corpo
Vai pra mão do delegado.
Ta bem, moço?
Olha o vexame, moço!


Ao compor o samba Estatuto de Gafieira, Billy Blanco não estava inventando nada. Transpunha para  a pauta musical a realidade dos salões populares, conhecidos como gafieiras, e que seguem regulamento rígido, obedecidos pelos frequentadores. Geralmente gente humilde, mas excelente dançarinos, samba nas veias, na alma e nos pés, transformando o ritmo na mais pura expressão corporal, para inveja de muitos bailarinos e bailarinas famosos que, depois de anos de estudo em academias, não conseguem a performance natural e atávica dos dançarinos de gafieiras.

Antes de mais nada, por que gafieira? Onde teria nascido e, ainda qual o significado da palavra? Segundo o cronista e historiador Jota Efegê, quem cunhou a palavra foi o também cronista Romeu Arede, que se assinava Picareta, entre os anos 20 e 30. O tal Picareta misturou o francesismo gafe (indiscrição involuntária, transgressão de regras de etiqueta social) com a terminação eira (que dá ideia de sequência), resultando, assim, uma designação para o local onde se praticam, seguidamente, indiscrições e erros de etiqueta.

Como até a metade do século passado só existiam clubes fechados, para determinado número de sócios, quem a eles não pertencesse e quisesse dançar, somente poderia fazê-lo nos chamados “zangus”, bailes populares, sem entrada paga. Tal situação originou a primeira gafieira da história, aberta no Rio de Janeiro, em 1847/1848, por Dª Francisca Pacheco Silva, que solicitou licença para instalar sala de bailes, com ingresso cobrado, na Rua da Alfândega, 327.

Por isso, Júlio Simões, uma das maiores autoridades no assunto – como fiscal de salão da famosíssima Kananga do Japão, durante muitos nãos, e fundador da Elite*, a mais tradicional gafieira do Rio de Janeiro –, com conhecimento de causa, definia gafieira como “sinônimo de entrada paga e mistura de raça”. A Kananga do Japão, a mais organizada e comentada gafieira dos anos 10 e 20, ficava na Cidade Nova e devia o fastígio ao trabalho de seu presidente, José Constantino da Silva, o Juca da Kananga, que, entre outros méritos musicais, era tio de Elizeth Cardoso.

Às gafieiras ia-se para dançar. Registradas e conhecidas como Sociedade Familiar Dançante, tinham sempre um fiscal todo-poderoso que se encarregava de manter a moral e os bons costumes no salão. Cabia a ele, também, dar chance às damas que pouco (ou nada) dançavam, quando emitia a ordem: “Olha o belo seco!”, para que as mulheres tirassem os homens para dançar (seco era uma corruptela da palavra “sexo”...). Ou melhorar as finanças da casa, ao gritar “Damas ao bufete!”, obrigando os cavalheiros a pagarem um refrigerante ou algo de comer às companheiras.

Nas pistas enceradas ou parafinadas, os pares deslizavam – e ainda deslizam -,  em geral, ao som de excelentes orquestras e ótimos cantores. No Rio de Janeiro, além da Elite, ficaram famosas outras como a Estudantina*, a O Prazer É Nosso, a Fogão. Em São Paulo, reinou, durante muitos anos, a Som de Cristal, mas nada lhe ficaram devendo a Caçamba, a Garitão, a Lilás. Todas elas, porem, tinham seus estatutos, que deveriam ser cumpridos à risca. Os itens mais importantes diziam que:

· O fiscal de salão é o responsável pela boa ordem no salão e fora dele. Ele é o diplomata, mas rígido; educado, mas rigoroso. É intimorato em seu ofício.

· Palavrão, nem de brincadeira. Cuspir no chão, nunca.

· É proibida a intimidade excessiva ou o afago físico, nas contradanças. Beijos, só discretos e relâmpagos. Rosto colado pode, mas só dançando por dançar.

· Cavalheiros devem dançar com o lenço na mão, para evitar que o suor possa manchar os vestidos das damas.

· A compostura manda dançar com o paletó abotoado.

· Cavalheiro inteligente não provoca confusão, porque “urubu pra cantar demora”, até explicar quem tem razão, todos já brigaram.

· Embriagado não sobe a escada, quem se embriaga no salão, desce.

· Para gafieirense, o fundamental é dançar.



Flagrante carioca

Da série “Os Grandes Sambas da História”

* Gafieira Elite, Rua Frei Caneca, 4 – Centro do Rio de Janeiro. 

*. Gafieira Estudantina, Praça Tiradentes – Centro do Rio de Janeiro.


A Segunda Guerra Mundial e a música popular


Batendo em Hitler

A guerra constitui-se em grande tema para os compositores da primeira metade de década de 40. Ubirajara Nesdan e Afonso Teixeira ironizavam a figura de Adolf Hitler, principal liderança do nazismo:


Hitler por David Levine

Quem é o tal?

(Ubirajara Nesdan – Affonso Teixeira)
1942

Quem é que usa cabelinho na testa
e um bigodinho que parece mosca?
Só cumprimenta levantando o braço.
Ê, ê, ê, palhaço!

Quem tem o “G” que representa a glória?
Quem tem o “V” que ficará na história?
Com seu sorriso que nos dá prazer.
Ê, ê, ê, vitória!

*"G" Getúlio *"V" Vargas

Marchinha de carnaval brasileira de 1943 (contexto da Segunda Guerra Mundial, último anos da Era Vargas) ridiculariza a marcha das tropas hitleristas. Autor: Haroldo Lobo e Roberto Roberti, Intérprete: Aracy de Almeida. Gênero: Marcha, Gravadora: Odeon.

Que passo é esse, Adolfo?

Que passo é esse, Adolfo?
Que dói a sola do pé?
É o passo do gato, não é?
É o passo do rato, não é?
É o passo do ganso.
Qué, qué, qué...

Esse passo muita gente já dançou, ô, ô, ô
Mas a dança não pegou, ô, ô, ô
Ô Adolfo, a cigana te enganou, ô, ô, ô
Sai pra outra que a turma não gostou.

As referências a touros, toureiros e bandarilhas lembram o papel desempenhado pelas tropas e pela aviação de Hitler na luta contra a República durante a Guerra Civil Espanhola. Mas, agora, ele teria se metido com um inimigo bem mais indigesto: o touro de uma certa ilha (John Bull, um dos símbolos do Império Britânico). A marchinha aposta que ele será soprado pelas gaitas de foles (outro símbolo britânico) para bem longe.

Adolfito mata-mouros

(João de Barro e Alberto Ribeiro)
1943

.A los toros,
A los toros,
A los toros, Adolfito mata-mouros
(bis)

Adolfito bigodinho era um toureiro
Que dizia que vencia o mundo inteiro
E num touro que morava em certa ilha*
Quis espetar sua bandarilha.

Mas o touro não gostou da patuscada
Pregou-lhe uma chifrada.
Tadinho do rapaz!
E agora o Adolfito, caracoles,
Soprado pelos foles,
Perdeu o seu cartaz.

* Inglaterra
Abaixa o braço

(Elpídio Viana e Nelson Trigueiro)
1944

Abaixa o braço,
Deixa de cena,
Lugar de palhaçada é no cinema.
Seu Adolfito, pra que tanta valentia
Se nós queremos a democracia?
Dona Cecília já se convenceu
Que os aliados estão no apogeu.
Vocês do Eixo muito breve saberão
Que as Américas unidas vencerão.
Que bão! (breque)

A RAF em Berlim

(Benedito Lacerda e Darci de Oliveira)
1943

Ouvi um chefe nazista
Cantando numa emissora de Berlim
Uma marchinha muito engraçadinha
E a letra era mais ou menos assim:
RAF, RAF, RAF
Vê se tem compaixão de mim,
RAF, RAF, RAF,
Por que motivos destruístes o meu Berlim?
Estás estragando o meu cartaz.
Se assim continuares,
Este ano eu peço paz.

Calma no Brasil

(Nássara e Frazão)
1940

Nós vivemos no melhor pedaço da Terra,
calma no Brasil que a Europa está em guerra...
Nós vivemos no melhor pedaço da Terra,
calma no Brasil que a Europa está em guerra...

Neste Brasil é bem pacata a mocidade,
não anda armada nem sequer de canivete,
enquanto os outros tem batalhas de verdade,
nossas batalhas são batalhas de confete...

E não nos digam que nós somos teóricos,
pelo contrário somos muito práticos.
Nós combatemos com os carros alegóricos:
Fenianos, Tenentes, Democráticos.

Espera, Maria

(Custódio Mesquita e René Bittencourt)
1942

Se eu for para a guerra, Maria,
Amor, não fique triste não!
Eu volto, Maria, eu volto,
Eu volto pra pedir a sua mão.
Maria, deixa a porta aberta,
Espera que a vitória é certa.

Mais tarde vai ser pra nós dois,
Virão garotinhos depois
Se um dia, Maria, a pátria precisar,
Nós temos soldados pra dar.


Hitler por Vicarra





Humor de Raul Solnado

Texto que Raul Solnado escreveu e que foi colocado sábado junto à sua urna


          Raul Augusto Almeida Solnado (Lisboa, 19 de Outubro de 1929 - Lisboa, 8 de Agosto de 2009) foi um humorista, apresentador de televisão e ator português. É pai de Alexandra Solnado, José Renato Solnado e de Mikkel Solnado, além de avô da atriz Joana Solnado.





Um vazio no tempo

“Numa das últimas vezes que estive na Expo de Lisboa descobri estranhamente uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava dum templo grandioso.

Quase como um espanto senti uma sensação que nunca sentira antes e de repente uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem. Fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava só podia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo adormecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.

Quando os meus olhos se abriram, aquele meu Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta corri para a beira do Tejo para dar um berro de gratidão com a minha alma e sorri para o Universo.

Aquela vírgula no tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar e que me deu a esperança de que num tempo que seja breve, me volte a acontecer.

Que esse Deus assim queira!



"Raul Solnado”



Do arquivo morto



Importante bilhete que meu tio me deixou, antes de morrer,
esclarecendo um caso que esteve envolvido como testemunha.



        Sou obrigado a relatar o que aconteceu, com objetividade e sem grandes preocupações literárias, visto que este é o último papel que me resta e, além disso, a fita da máquina está demasiadamente gasta e temo que para o final da história muitas letras estejam imperceptíveis, podendo resultar, para quem lê, numa interpretação incorreta dos fatos, prejudicando não só as pessoas que, de uma maneira ou de outra, estiveram envolvidas num caso repugnante e altamente escandaloso e cujos nomes mencionarei sem dúvida alguma assim que for chegado o momento. O terrível incidente em questão, além de macular o nome de duas grandes famílias, distorce a imagem do país no estrangeiro e envergonha a raça humana. A necessidade de contar tudo de maneira correta é aumentada agora pelo fato de minha sobrinha ter fechado os meus óculos à chave, e o natural cansaço dos meus olhos faz com que az litras danzem, o que poderá ter como consequência as palivras ficarem com latras traçadas, e qualquer truca de um nome poderá não só ilobar o cukpado como incrumynar om onicente.

        Retas difer que suo o ínico pestemunha que koja msmoseghirei pêra o canyte poque n’o qiero omu nme ecolvido nets escavdio. Vou cojtra tudo com onetidade e onetidade polque o ppel está acabando: Ama Res desmofaba do cavalo, para beber aqgaú, seu pymt netysui e seus jetys priugdi, estavam escoj dioheh nsty nety, e seguidamente difama memsm covrdemente, atacaram pelas costradas terba sdnet asdiru dijah osd.

          Psiinnd b bsuiftzz ççsm hdh oi crime çah no foi.


(Texto de Raul Solnado, humorista português)




Pensamentos de Raul Solnado

“Nós demos aos brasileiros a terra, o povo e a língua - e nós é que temos sotaque!”

“Tá lá? É da maternidade? Olhe minha senhora, já nasceu o meu filho? Como? Cesariana? Não minha senhora, é um rapaz e nem sequer tem nome!”

“Quando o médico me deu uma palmada no rabo, em vez de chorar, dei uma gargalhada.”

“Façam o favor de ser felizes”…
  
  


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Assalto



O brilho dos olhos e da faca na mão
fez-me inundar de adrenalina.
Não era trote, nem piada, mas viva verdade.
Ele estava ali envolto em preto
E
com voz rouca sinalizou o que queria:
- Grana, quero grana!
Percebi que parte dele já se ausentara,
talvez a parte em que havia
um resto de dignidade.
Tremia um pouco; abstinência,
um pouco de ansiedade.
Sem alternativa, dei-lhe
o que tinha,
sabendo que este saque,
provavelmente,
sumiria na fumaça do craque;
e, por incrível que possa parecer,
senti-me agradecida ainda
por continuar a viver.

Ângela Maria