terça-feira, 17 de outubro de 2017

Nasce um escritor



O primeiro dever passado pelo novo professor de português foi uma descrição tendo o mar como tema. A classe inspirou-se, toda ela, nos encapelados mares de Camões, aqueles nunca dantes navegados; o episódio do Adamastor foi reescrito pela meninada.

Prisioneiro no internato, eu vivia na saudade das praias do Pontal onde conhecera a liberdade e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema de minha descrição. Padre Cabral levara os deveres para corrigir em sua cela.

Na aula seguinte, entre risonho e solene, anunciou a existência de uma vocação autêntica de escritor naquela sala de aula. Pediu que escutassem com atenção o dever que ia ler. Tinha certeza, afirmou, que o autor daquela página seria no futuro um escritor conhecido. Não regateou elogios. Eu acabara de completar onze anos.

Passei a ser uma personalidade, segundo os cânones do colégio, ao lado dos futebolistas, dos campeões de matemática e de religião, dos que obtinham medalhas. Fui admitido numa espécie de Círculo Literário onde brilhavam alunos mais velhos. Nem assim deixei de me sentir prisioneiro, sensação permanente durante os dois anos em que estudei no colégio dos jesuítas.

Houve, porém, sensível mudança na limitada vida do aluno interno: o padre Cabral tomou-me sob sua proteção e colocou em minhas mãos livros de sua estante. Primeiro "As Viagens de Gulliver", depois clássicos portugueses, traduções de ficcionistas ingleses e franceses. Data dessa época minha paixão por Charles Dickens. Demoraria ainda a conhecer Mark Twain, o norte-americano não figurava entre os prediletos do padre Cabral.

Recordo com carinho a figura do jesuíta português erudito e amável. Menos por me haver anunciado escritor, sobretudo por me haver dado o amor aos livros, por me haver revelado o mundo da criação literária. Ajudou-me a suportar aqueles dois anos de internato, a fazer mais leve a minha prisão, minha primeira prisão.

*****

Jorge Leal Amado de Faria foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos.
Nascimento: 10 de agosto de 1912, Itabuna, Bahia;
Falecimento: 6 de agosto de 2001, Salvador, Bahia;
Formação: Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1931–1935);
Cônjuge: Zélia Gattai (de 1945 a 2001), Matilde Garcia Rosa (de 1933 a 1941);
Filhos: Paloma Amado Costa, João Jorge Amado.


domingo, 15 de outubro de 2017

Bibiana



(Na foto acima, Fernanda Montenegro, como Bibiana ,
e Thiago Lacerda com Capitão Rodrigo.)

Sozinha no seu quarto, sentada na sua cadeira de balanço, e enrolada no seu xale, a velha Bibiana espera... O quarto está escuro mas para ela nestes últimos anos, sempre é noite, pois a catarata já lhe tomou conta dum olho e agora está começando a velar o outro. Ela mal-e-mal enxerga o vulto das pessoas, mas ouve tudo, sabe de tudo, conhece as gentes da casa pela voz, pelo andar e até pelo cheiro. Quando ouviu o primeiro tiroteio, ficou nesta mesma cadeira, esperando e escutando. Quando as balas partiam as vidraças ou se cravavam nas paredes, ela tinha a impressão de estar vendo – não! – de estar ouvindo uma pessoa de sua família ser fuzilada pelos inimigos. Medo não sentiu, isso não. Teve dó. E ódio. Estragarem o sobrado desse jeito! Mas a guerra para ela não é novidade. Tudo isso já aconteceu antes, muitas, muitas vezes. Viu guerras e revoluções sem conta, e sempre ficou esperando. Primeiro, quando menina, esperou o pai; depois o marido. Criou o filho e um dia o filho também foi para a guerra. Viu o neto crescer, e agora Licurgo está também na guerra. Houve um tempo em que ela nem mais tirava o luto do corpo. Era morte de parente em cima de morte de parente, guerra sobre guerra, revolução sobre revolução. Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.

Dona Bibiana se balouça na sua cadeira. Há momentos em que não se lembra de nada. Na sua cabeça há apenas uma cerração. Ouve ruídos, vozes, engole os mingaus que lhe dão, deixa-se levar para a cama – mas, ás vezes, não sabe quem é quem é nem onde está. Noutros momentos, porém, volta-lhe tudo. E na noite escura da catarata ela vê faces, vultos, cenas. De vez em quando lá longe ouve uma voz: “Bibiaaana!”. É o Capitão Rodrigo que entra como tufão, arrastando as esporas no assoalho. A pele de seu homem tem um cheiro de sol; suas barbas parecem macega, mas macega castanha. Seus olhos... Mas como eram mesmo os olhos do capitão? De que cor? Pretos? Cinzentos? Azuis? Tinha uma voz forte, como a do Curgo – disso a velha Bibiana se lembra.

Ela tem nos dedos murchos um rosário. Esqueceu quase todas as orações. Há uma para dia de tempestade. Outra para tempo de peste. Agora ela precisa rezar pelo bom sucesso de Alice. Para que botar filhos no mundo, se mais tarde ou mais cedo a guerra leva as criaturinhas?

A velha Bibiana gosta do barulho da cadeira nas tábuas do assoalho. É como uma voz, uma companhia. Lembra-lhe outros tempos, outras largas esperas. Estas batidas surdas e o uivo do vento, e o matraquear das vidraças, e o tempo passando...

******

(Do livro “O Tempo e o Vento”, 
de Érico Veríssimo, 1905-1975)


Escravos de Jô


Faixa etária → Acima de 3 anos;

Local → Praça, parque, calçada, salão de festas, dentro de casa, condomínio;

Estimular → Atenção, concentração, cooperação, coordenação motora, linguagem, memória, ritmo;

Participantes → 4 ou mais;

Material → Pedrinhas ou objetos pequenos.

Como brincar


Os jogadores sentam em círculo, cada um com uma pedrinha ou outro objeto pequeno, que será passado de um integrante para o outro em uma coreografia de vai e vem seguindo o ritmo da música “Escravos de Jó”:

Como brincar de Escravos de Jô

Escravos de Jó jogavam caxangá.

(os jogadores vão passando as pedras um para o outro do lado direito, de forma que cada jogador fique sempre com uma pedrinha só)

Tira,

(cada um levanta a pedra que está em suas mãos)

põe,

(colocam a pedra de novo no chão)

deixa ficar.

(apontam com o dedo para a pedra no chão)

Guerreiros com guerreiros

(voltam a passar a pedra para a direita)

fazem zigue,

(colocam a pedra na frente do jogador à direita, mas não soltam)

zigue,

(colocam a pedra à frente do jogador à esquerda, mas não soltam)

zá.

(colocam a pedra à frente do jogador à direita novamente)

Dicas: faça a mesma coreografia com os participantes em pé; no lugar da pedra, eles devem usar os próprios pés. Use duas pedrinhas em vez de uma. Para familiarizar a criança com os conceitos de dar e receber, sugira o uso do brinquedo favorito de cada um no lugar das pedras.
  
Jeito de brincar

As crianças formam uma roda com uma mão por cima da mão do colega ao lado e outra por baixo da mão do outro colega.

Canta-se a música abaixo, um batendo na mão do outro.

Quando se diz "tira", a pessoa que vai levar o tapa tira a mão. Quando se diz "põe", ela bota a mão de volta.

Na hora do "zig-zig-zag", a ordem das batidas, que era para a direita, vai para a esquerda.

Quem tem a mão acertada quando a música acaba vai para a roça (meio da roda).

Ganhará quem for o último a ir para o meio.

Letra da música

Escravos de Jó
Jogavam Caxangá.
Tira, põe, deixa ficar.
Guerreiros com guerreiros
fazem zig-zig-zá.



sábado, 14 de outubro de 2017

O Sacristão


W. Somerset Maugham


Tinha havido um batizado naquela tarde na Igreja de São Pedro, em Neville Square e Albert Edward Foreman ainda usava a sua opa de sacristão. Ele a envergava com orgulho, pois sentia que ela era o símbolo dignificante do seu ofício e, quando a tirava para regressar a casa, não conseguia deixar de se sentir insuficientemente vestido. A opa lhe dava trabalho, porque ele pessoalmente a passava a ferro. Durante os 16 anos em que fora sacristão daquela igreja, possuíra várias vestimentas como aquela, mas nunca tivera coragem de jogá-las fora quando se tornavam muito usadas. A coleção completa, cuidadosamente embrulhada em papel pardo, jazia nas últimas gavetas do guarda-roupa de seu quarto.

O sacristão esperava que o vigário terminasse a sua função, para poder ir embora. Pouco depois, viu o padre atravessar o templo, ajoelhar-se em frente ao altar e descer por uma das naves, ainda com a batina.

“O que estará ele esperando?", perguntou o sacristão para si mesmo, “Não sabe que está na hora do seu chá?”

Aquele vigário (um homem corado e forte, com seus 40 anos) havia sido nomeado recentemente, e Albert Edward ainda lamentava a partida do predecessor, um religioso da velha escola que fazia descansados sermões com voz monocórdia e adorava jantar fora com seus paroquianos mais aristocráticos. Ele gostava que as coisas na igreja fossem assim, mas nunca aborrecia ninguém; não era como este novo vigário, que se intrometia em tudo. Albert Edward, porém, era tolerante.

“Não sei para que essa bisbilhotice”, dizia Albert Edward, “mas um dia ele aprenderá.”

O vigário desceu a nave e dirigiu-se ao sacristão: “Foreman, pode vir à sacristia por um minuto? Quero lhe dizer uma coisa.” Albert Edward o seguiu até a sacristia e ficou surpreso ao encontrar lá dois fabriqueiros, homens de idade que serviam naquela igreja havia quase tanto tempo como ele próprio.

Albert Edward os encarou e, com ligeiro desconforto, imaginou qual seria o problema. Seus pensamentos, porém, não transpareceram em suas feições quase inescrutáveis. Manteve uma atitude não se diria obsequiosa, mas digna. Já trabalhara em casas de excelentes famílias, antes de ser designado para o serviço eclesiástico, e sua compostura era irrepreensível. Se não fazia lembrar um duque, parecia pelo menos um ator dos velhos tempos, habituado a representar esse papel. Albert Edward possuía tato, firmeza e segurança. Seu caráter era à prova de dúvida.

O vigário falou bruscamente. “Foreman, você tem trabalhado aqui há muitos anos, e acho que tanto Sua Eminência como os fiéis em geral partilham a minha opinião de que você tem executado o seu trabalho satisfatoriamente.”

Os dois fabriqueiros assentiram.

“Mas uma circunstância das mais extraordinárias chegou ao meu conhecimento no outro dia, e senti ser de meu dever confiá-la aos fabriqueiros. Para enorme espanto de minha parte, descobri que você não sabe ler nem escrever.”

O rosto do sacristão não demonstrou qualquer sinal de embaraço.

“O vigário anterior sabia disso, senhor”, respondeu ele. “Dizia que não fazia diferença, e, por outro lado, afirmava também que o mundo não precisava de viver com tanta educação.”

“É a revelação mais espantosa que já ouvi”, exclamou o vigário. “Você que dizer que tem sido sacristão desta igreja há 16 anos e nunca aprendeu a ler nem a escrever?”

“Comecei a trabalhar aos 12 anos, senhor. A cozinheira da primeira casa onde me empreguei tentou me ensinar, mas eu não tinha muito jeito para essas coisas, e depois, com um trabalho e outro, nunca dispus de tempo para aprender. Também nunca me fez falta. Minha mulher é muito instruída e, quando preciso escrever uma carta, ela a escreve.”

“Bem, Foreman”, disse o vigário, “o fato é que, numa igreja como esta, não podemos manter um sacristão analfabeto. Compreenda-me, pessoalmente não tenho nada contra você; pelo contrário, tenho grande consideração pelo seu caráter e capacidade, mas imagine se acontece um acidente provocado pela sua lamentável ignorância? Não queremos ser injustos, mas tomamos uma decisão. Vamos dar-lhe três meses, e, se no fim desse tempo não tiver aprendido a ler e a escrever, você terá que sair.”

Albert Edward nunca gostara do novo vigário. Desde o começo dissera que fora um engano designá-lo para aquela igreja. Tentou aprumar-se; conhecia o seu valor e não se permitiria ser passado para trás.

“Lamento muito, senhor, mas acho que não adianta. Já estou muito velho para aprender essas coisas. Pode contar com a minha demissão, assim que tiver encontrado um substituto.”

Quando Albert Edward, com sua habitual educação, fechou a porta da igreja, deixando o vigário e os dois fabriqueiros, já não conseguia sustentar o ar de imperscrutável dignidade com que recebera o golpe que lhe fora desferido. Seus lábios ficaram trêmulos. Voltou lentamente à sacristia e pendurou a opa no cabide. Guardou todo o resto, vestiu o casaco e, com o chapéu, caminhou pela nave a descer a praça, perdido em seus pensamentos, sem tomar a rua que o levaria para casa.

Caminhava devagar, como se o coração lhe pesasse. Não sabia o que fazer. Conseguira economizar uns trocados, mas não o bastante para que pudesse viver descansadamente. Nunca imaginara que passaria por aquilo. Os sacristãos de São Pedro, como os papas em Roma, eram vitalícios.

Albert Edward não fumava regularmente, mas, quando se sentia cansado, até que um cigarro ia bem. Ocorreu-lhe que fumar poderia confortá-lo naquele momento, e procurou qualquer lugar onde pudesse comprar um maço de cigarros. Era uma rua comprida, com toda espécie de lojas, mas sem uma única tabacaria.

“Por que até hoje ninguém pensou em montar aqui uma tabacaria?”, perguntou-se ele. “Para vender cigarros e balas.”

Este pensamento o fez parar.

“Hei, até que não é má ideia! Interessante! Como as ideias vêm quando a gente menos espera!”

Voltou para casa e tomou seu chá.

“Você está muito calado esta tarde, Albert,” comentou a mulher. “Estou pensando.”

No dia seguinte, voltou àquela rua e, por sorte, encontrou uma pequena loja para alugar, que lhe convinha perfeitamente. Vinte e quatro horas depois, já a tinha alugado. Um mês após, deixou a igreja de São Pedro, em Neville Square, para sempre. Albert Edward Foreman estabeleceu-se no comércio de fumo e jornais. Sua mulher dissera que, depois de ter sido sacristão, aquilo parecia uma terrível decadência. Ele respondeu que as pessoas tinham de evoluir com o tempo.

Albert Edward se deu muito bem. Tão bem que, em pouco mais de um ano, abriu uma filial e a confiou a um gerente. Então lhe ocorreu que, se podia ter uma loja, por que não ter dez de uma vez?  Assim, começou a andar por Londres e, sempre que encontrava uma longa rua sem tabacaria e com uma loja vaga ele a alugava. No curso de dez anos, já possuía nada menos do que dez tabacarias. Todas as segundas-feiras, Albert Edward fazia a ronda das lojas, coletava os lucros da semana e os depositava no banco.

Certa manhã, quando ele estava no banco, o caixa lhe disse que a gerência gostaria de falar-lhe. Foi levado ao gabinete, onde o gerente lhe apertou as mãos calorosamente.

“Senhor Foreman, sabe quanto dinheiro tem depositado conosco? Mais de 30 mil libras. Isto é muito dinheiro para se ter em depósito, e pensei que talvez o senhor gostasse de investi-lo.”

“Preferia não correr o risco. Ele está seguro no banco.”

“O senhor não terá a menor preocupação. Nós lhe faremos uma lista das melhores ações a comprar. Elas lhe renderão mais dividendos do que os juros que poderíamos pagar-lhe.”

Uma sombra de preocupação perpassou pelo rosto de Foreman. “Nunca lidei com ações, senhor, e eu teria que deixar todo o dinheiro em suas mãos.”

O gerente sorriu. “Nós cuidaremos de tudo. A única coisa que precisará fazer, quando voltar ao banco, será assinar os papéis de transferência.”

“Isso eu posso fazer”, disse Albert sem muita certeza, “mas como iria saber o que estou assinando?”

“Naturalmente o senhor sabe ler”, arriscou o gerente, um pouco irritado.

Foreman deu-lhe um sorriso desconcertante. “Aí é que está, senhor! Não sei ler nem escrever. Apenas assinar o nome, e isso só aprendi quando me tornei comerciante.”

O gerente ficou tão surpreso que quase saltou da cadeira. “O senhor quer dizer que montou o seu negócio e construiu tal fortuna sem saber ler nem escrever? Homem de Deus, pense no que poderia ser hoje se soubesse!”

“Isso é fácil de responder, senhor”, disse Albert Edward, com um modesto sorriso em suas feições aristocráticas. “Se soubesse ler, hoje seria simplesmente sacristão.


Histórias do Fraga


Istorinhas

Fraga, colunista


Erra uma vez

Era uma Errata errante. Mal digitada, andava a esmo por entre volumes acadêmicos, ensaios científicos. Tentava ser útil a códices e índices, esses livrões ávidos por exatidões linguísticas. Mas agora, idosa, parecia desnecessária: um novo funcionário, um corretivo eletrônico, não deixava serviço para trás. A Errata vagava, esnobada nos teclados de universidades e faculdades, centros de estudos, academias. Sonha com hecatombes digitais e a convoquem de novo.

Erário uma vez

Era um cofre público igual a qualquer cofre público: qualquer chefe de escalão metia a mão. Nos tempos de ilicitações, o Erário fazia de conta que suas contas fechavam. Aí nasceu, aqui assim, lá nele, um rombo. De início um furinho, cresceu, cresceeeuuu. Hoje o Erário tem dois poços no lugar dos olhos e fossa abissal em vez de boca. Sem nada mais entender de finanças ou de física, virou um buraco negro na administração pública.

Eros uma vez

Eros já fora parodiado várias vezes, em muitos idiomas. E de pastiche em pastiche por todos os lugares, se tornara enfarado de si mesmo. Tanto que seu erotismo desgastado em repetições fakes nem pro gasto dava. Figura sem atrativos em orgias e surubas, a olhos vistos perdia sua intensidade, em meio a banalizações visuais e explicitudes. Um dia Eros acordou e viu-se transformado num imenso ser assexuado. E nem ao menos num conto de Kafka era.

Hera uma vez

Era uma trepadeira atrevida: esverdeava tudo quando era muro, muralha, parede, empena, lateral de prédios. Iniciava pelo rodapé, disfarçada de broto, e subia. Quando viam, já tinha se alastrado. Antes que engrossassem com ela, engrossava seus talos. Ignorada pela consciência ecológica, sustentava a existência sugando a insustentável natureza ao redor. Quando se deram conta, ops: Hera era um casulo a envolver a Terra. E foi melhor assim pro planeta.

Heráldica uma vez

Escudos e brasões e bandeiras e flâmulas eram o habitat da Heráldica. Endurecida em bronze ou mármore, passava os séculos a admirar a História, seu álbum de recordações. Quando queria desfilar por aí, vestia-se de cetins e sedas, e tremulava à frente de milhares de adoradores. Porém seu simbolismo, miolo do ego, já não impressiona tanto. Nem os antigos sinais de nobreza animam Heráldica. Às vezes vibra, ao se ver reproduzida num ombro ou nádega. Mesmo assim não se engana: sabe que tatuagens são efêmeras, duram enquanto o corpo dura. Heráldica suspira, saudosa da força que possuía.

Errônea uma vez

Era um GPS desorientado: apegado ao seu usuário, aprendia seus trajetos e costumes e os seguia. Um servia ao outro, sempre chegavam aos destinos rotineiros. Até que a senilidade de um confundiu o outro. O usuário foi parar numa casa de repouso. E o GPS, sozinho, nunca mais achou o caminho pra casa.


(Do jornal Extra Classe, outubro de 2017)



Corações destroçados


Ivan Ângelo


Um pai matou o filho a tiros em Cabo Frio.

Na tragédia grega, o filicídio é um crime tão terrível que não é cometido por escolha humana, ocorre em consequência das tramas dos deuses, que traçam o destino dos homens. O mesmo acontece com o parricídio, o matricídio e o fratricídio. E não é por serem instrumento do destino que aqueles que matam sofrem menos. Édipo vazou seus dois olhos quando soube que o homem que havia matado era seu pai e que dormira com a própria mãe, mas nem assim aplacou sua dor e seu sentimento de culpa.

Qual foi a trama do destino que empurrou aquele pai para a tragédia em Cabo Frio? Talvez a ponta do novelo tenha sido puxada quando o garoto Leandro começou a jogar polo aquático na Tijuca, Rio de Janeiro. Era bom no esporte, destacou-se. Campeão, estudava e disputava. O destino deu mais corda: o garoto começou a puxar um fuminho, coisa à toa. Mais corda: o garoto foi convocado para a seleção brasileira, com chances de ir para a Olimpíada de Barcelona. Mais corda: ele foi chamado para o serviço militar, acabou-se o sonho olímpico. Saiu do serviço militar viciado em cocaína – e nisso o novelo da tragédia começou a enrolar a família, o pai, a irmã, a mãe. Tiveram de fugir da Tijuca e da dívida do viciado com traficantes, perigo de morte. Venderam tudo pelo preço do desespero e foram tocar um posto de gasolina em Barra de São João, no Estado do Rio. Novo traficante, nova dívida impossível de pagar, nova fuga, para Cabo Frio, nova perda de bens da família. Em Cabo Frio, o pai abriu um novo negócio, um bar, e o filho fez outra dívida com traficantes. Então o pai disse chega, com um bastão de beisebol na mão. O filho avançou. Outro lance do destino: havia um revólver embaixo do balcão, para o pai defender-se contra assaltos. Atira senão te mato, disse o filho, e o pai atirou quatro vezes. Está um trapo: “Minha sentença já foi dada, é o desespero da minha família.”

Reparem como tudo ser encadeou para este final de tragédia grega, em que os homens são peças que os deuses movimentam, peças pensantes e agentes, por isso trágicas, sofredoras.

Este caso lembrou-me outro, parecido e mais doloroso, e que me impressionou muito porque conheci o filho. O rapaz tinha um rosto lindo, delicado, de pele lisa, quase imberbe, olhos tímidos, boca pequena e rosada; o busto era delicado, fino, frágil; da cintura para baixo era aleijado de nascença, murcho, pernas sem musculatura, vergadas, moles, nas quais se equilibrava com o auxílio de muletas. Quando estava cansado, usava cadeira de rodas. Queria ser autor teatral, mas não conseguira domesticar sua revolta, ou organizá-la em uma forma de arte. O pai era funcionário público aposentado, viúvo, a quem o filho culpava pelo aleijão. O menino de pernas gelatinosas viciou-se em álcool e maconha. “Não reclama não! Não reclama não! Você que me fez assim!” – gritava ele bêbado para o pai. Perdido nessa revolta, tornou-se homossexual. Levava homens para casa, várias vezes fez o pai pagar quando o parceiro era garoto de programa. Depois veio a cocaína. O dinheiro do pai transformava-se em pó branco e sumia pelas narinas do filho. Ele batia o pó na frente do pai, olhando-o em desafio, mostrava as pernas, dizia “olha essas pernas, olha o que você fez”, e cheirava. Uma noite o pai sufocou-o até a morte com um travesseiro e matou-se com um tiro no ouvido.

A esses dois casos acrescento outro, para concluir. Éramos meninos, tínhamos um cachorro doente de raiva, preso no quintal da casa. De madrugada, quando todos dormiam, ouvi meu pai sair e, em seguida, barulhos de pauladas, ganidos, silêncio, passos, um tempo longo, passos novamente, água correndo no tanque, depois ele entrou na casa e ouvi seu choro na cozinha, durante algum tempo, até que adormeci.

Se matar um bicho de casa, raivoso, é capaz de destroçar assim o coração de um homem, que dirá matar um filho?

Malditos traficantes.

A notícia

10/04/2016

Ele matou com três tiros o filho caçula, Leandro,
então com 23 anos, após uma briga.


Leonardo, que era usuário de drogas, foi morto pelo pai há 20 anos.

Já se passaram quase 20 anos desde aquela noite do dia 24 de fevereiro de 1996. As lembranças, no entanto, não saem da cabeça de Eloy Salino da Costa, hoje com 74 anos. Ele matou com três tiros o filho caçula, Leandro, então com 23 anos, após uma briga. O rapaz era usuário de drogas e, transtornado, partiu para cima do pai com um taco de beisebol. Eloy foi absolvido pela Justiça, alegando legítima defesa.

A sua história foi destaque na capa da primeira edição do EXTRA, publicada em 05 de abril de 1998.

- Penso nisso todos os dias e choro lembrando dele. Meu filho era meu xodó, mas quando estava sob efeito das drogas, virava um demônio. Ele teria 42 anos hoje. Não me perdoo pelo que aconteceu - conta o aposentado.

Eloy ainda mora em Arraial do Cabo, no mesmo local de 18 anos atrás. O seu bar, onde o crime ocorreu, que ficava em Cabo Frio, foi vendido meses depois. O aposentado conta que perdeu seu patrimônio depois do crime, principalmente por causa dos gastos com advogados. Ele chegou a ficar preso por 45 dias.

- Esse assunto (a morte do filho) não é um assunto bem resolvido na minha família. Sinto que nem todos compreenderam o que aconteceu - relata.

Desde outubro, Eloy trabalha como vigia num hotel em Arraial do Cabo. Ele diz que assim mantém a cabeça ocupada.

- Foi uma bênção. Preciso me distrair. Tenho tentado me reerguer durante todos esses anos, mas nunca consegui - emociona-se.



Naquela mesa tá faltando um...


Mário Prata


Estava ontem sozinho jantando num restaurante. Cinco mesas ocupadas, incluindo a minha. Quatro casais e eu, sozinho.

Mesa um: estava claro que era o primeiro encontro entre os dois. Dava para perceber que um fazia muita pergunta para o outro. E riam muito, os dois. Percebia-se que ali estava acontecendo uma conquista de ambos os lados. Os dois cheios de solicitudes. Ficarei aguardando até que peguem na mão. Como sorriem um para o outro.

Mesa dois: outro casal ali pela casa dos 30, 35 anos. O pau está quebrando feio. Falam um pouco alto. Percebe-se que estão discutindo a relação. Só eles não devem saber que quando se discute a relação é porque não existe mais relação. A mulher está na ofensiva. Chego até a ficar um pouco com pena do homem. Aquilo não vai acabar bem.

Mesa três: sabe aquele casal que vai jantar fora sei lá por quê? Não falam entre si. Apenas com o garçom. Aliás, ela não fala nem com o garçom. Ele pergunta, ela diz para o marido e ele pede ao serviçal. Estão entre os 50 e cinquenta anos. Ela faz parte daquela geração – sabe-se lá o porquê – que não fala com garçom, conhece? Eles já devem ter discutido muito a relação anos atrás e chegaram à conclusão que a vida é assim mesmo, fazer o quê, vamos comer em silêncio.

Mesa quatro: um casal de velhinhos. Resolvidos, felizes. O casal mais feliz do lugar. Ela conta histórias longas, lentas e ele presta atenção, como se fosse a primeira vez que ela estivesse narrando aquilo. Ele alisa o braço dela, eles devem se amar há mais de cinquenta anos. Pelo jeitão, ela deve estar contando a última traquinagem de um neto. O velho é só sorrisos. Vida resolvida, nada a discutir.

Mesa um: o rapaz pede mais uma caipirinha. A moça me pareceu perguntar: mais uma? Mas ele confirma com o garçom.

Mesa dois: a mulher se levanta e vai – irritadíssima – para o banheiro. O marido, sozinho, bufa, pega o celular e disca rapidamente. No telefonema é só sorrisos. Uma outra mulher? E quem me garante que ela não está fazendo o mesmo lá do banheiro?

Mesa três: comem em silêncio.

Mesa quatro: os dois estão vendo um álbum de fotos. Pagaria a conta deles para ver as fotos. Olham, comentam, riem. Ela dá um beijinho na bochecha ele. Ele percebe que eu vi. Sorri meio envergonhado para mim. Eu faço um sinal de positivo para ele.

Mesa dois: ela volta. Ele já acabou o telefone. Ela empurra o prato. Ele chama o garçom, pede a conta.

Mesa um: o rapaz está falando muito alto. Vai perder a gata.

Mesa dois: antes de chegar a conta, ela se manda e entra no carro. É ela quem dirige. A grana deve ser dela. O marido vai até o balcão.

Mesa um: o cara tenta beijar a moça. Ela, educadamente, refuta.

Mesa três: ele pede a sobremesa para os dois. Ainda não se falaram.

Mesa um: começa a quebrar o pau. O pessoal da mesa três apenas observa.

Mesa quatro: os dois velhinhos estão abraçados. Chega um champanha. Estoura. O velhinho mandar servir para mim e para as outras mesas. O rapaz da caipirinha gosta da ideia. O cara da mesa dois sai. Inesperadamente, depois do gole de champanha, o casal mudo se beija na boca.

O som do restaurante aumenta. Começa a chover.

*****

(Do livro “Crônica Brasileira Contemporânea”,
Organização e apresentação de Manuel da Costa Pinto, Editora Moderna)