domingo, 17 de dezembro de 2017

A música de Ary Barroso que teve duas letras



Ary Barrosos por William

A história de “No rancho fundo” começou a partir de outra canção, denominada “Na grota funda” (Esse mulato vai ser meu), criada por Ary Barroso com versos de J. Carlos, renomado caricaturista que na ocasião faria sua estreia no teatro de revista. “Na grota funda” foi lançada pela grande estrela Aracy Cortes aos 13 de junho de 1930 na revista “É do outro mundo”, no palco do Theatro Recreio, RJ.


Lamartine Babo por Amorim

Diz a história que Lamartine Babo esteve na plateia de referida revista, não teria gostado da letra e criado a sua própria, lançando-a dias depois em seu programa “Horas Lamartinescas” na PRB-7, Radio Educadora do Rio de Janeiro. O sucesso inquestionável da nova composição teria causado o rompimento das relações entre J. Carlos e Ary Barroso. Levada ao disco pela gravadora Victor (disco 33444), lançado em agosto de 1931, e publicada pela Mangione (partitura E.M. 41), “No rancho fundo” também seria cantada no mesmo palco do Theatro Recreio pela cantora chilena Malena de Toledo, na revista “Miss Ester Lina”, com estréia aos 09 de outubro de 1931.

Fontes? Os biógrafos de Lamartine Babo e Aracy Cortes, respectivamente Suetônio Soares Valença e Roberto Ruiz. Aliás, peço licença para transcrever a letra de “Na grota funda” que Roberto Ruiz obteve diretamente do acervo de Aracy Cortes.


J. Carlos por Mendez

Na grota funda
1930
J. Carlos e Ary Barroso

Na grota funda,
na virada da montanha,
só se conta uma façanha
do mulato da Raimunda.

Matou a nega
com um pedaço de canela
e, depois, sem mais aquela
foi juntá c'uma galega.

Ela morreu
na virada da montanha,
vai havê outra façanha
esse mulato vai sê meu!

Esse mulato
vai fazendo o que ele qué,
já matou duas muié
porque bamba ele é de fato.

Se não morreu,
vou mansá esse cachorro,
na virada, ali do morro,
esse mulato vai sê meu.

No rancho fundo
1930
Lamartine Babo e Ary Barroso

No rancho fundo,
Bem pra lá do fim do mundo,
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade.

No rancho fundo,
De olhar triste e profundo,
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos d'água.

Pobre moreno,
Que de noite, no sereno,
Espera a lua no terreiro,
Tendo um cigarro
Por companheiro.

Sem um aceno,
Ele pega na viola
E a lua por esmola,
Vem pro quintal
Desse moreno.

No rancho fundo,
Bem pra lá do fim do mundo,
Nunca mais houve alegria
Nem de noite, nem de dia.

Os arvoredos
Já não contam
Mais segredos,
E a última palmeira
Já morreu na cordilheira.

Os passarinhos
Internaram-se nos ninhos,
De tão triste esta tristeza,
Enche de trevas a natureza.

Tudo por quê?
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
Pra uma casa de sapê.

Se Deus soubesse
Da tristeza lá na serra,
Mandaria lá pra cima
Todo amor que há na terra.

Porque o moreno
Vive louco de saudade,
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade.

Ele que era
O cantor da primavera,
Que até fez do Rancho Fundo
O céu melhor que tem no mundo!

O sol queimando,
Se uma flor lá desabrocha,
A montanha vai gelando
Lembrando o aroma da cabrocha!

O próprio Ary Barroso confirmou num texto chamado "Minha Luta" o "imbroglio" que cercou o nascimento de “No Rancho Fundo”, mas se exime de culpa. Ele conta a história assim:

“O primeiro aborrecimento sério que tive foi provocado pelo seguinte fato: Margarida Max cantava na revista “É do balacobaco” o samba “Na grota funda” com palavras do grande J. Carlos. Na estreia esteve presente Lamartine Babo. Ouviu a música e imediatamente fez outra letra, cantando no popularíssimo programa da Rádio da Educadora que era transmitido da “Casa do Disco”, ali na Rua Chile. Na grota funda morreu e nasceu No rancho fundo. J. Carlos nunca me perdoou aquilo que ele chamou de "traição" da minha parte. Juro, até hoje, que só vim a saber da estória depois que a música já caíra na boca do povo com a letra de Lamartine.”



Funeral Miliciano

(Oração a um brigadiano morto)


Sabes, pai... o corneteiro tocou uma longa e triste música
E todos os homens que ali estavam ficaram em silêncio.
Teus colegas em uniforme bonitos... bem passados,
Botas lustrosas como espelhos, levaram as armas em direção ao solo
E ficaram como estátuas, parados e sérios.
Tua mãe chorava baixinho e minha mãe caiu no chão, desfalecida,
Toda mole.
Eu nos braços de minha tia,
fiquei olhando Para onde estavas deitado naquele caixão escuro.
Mas não fiquei triste, pois tive orgulho de ti ao ver até o coronel
Levar a mão à testa e fazer continência para ti.
Só não compreendi porque teus colegas atiram sobre o caixão...
Pois todos diziam que tu foras morto
Como herói de cinema, de televisão.
Depois cobriram de terra teu caixão.
Botaram flores, coroas com fitas coloridas:
Amarelas, vermelhas, verdes
E todas as mulheres que ali estavam choravam juntas com meus tios...
Mas... Eu não chore pai... Eu não chorei... Pai...
  
Vanderlan Amaral da Costa

(No gibi “O Aba-Larga)


Aba-Larga foi uma criação de Getúlio Delphino, em 1962, publicado pela CETPA. Teve somente 3 edições: a 1ª em junho/62 e a 3ª em setembro.

“Os Abas-Largas era como se denominavam a Polícia Montada do popular 1º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, nos pampas gaúchos, em virtude do chapéu que servia de cobertura no uniforme...”

Aba-Larga, entre outros heróis, representa um movimento no Sul do Brasil, integrando um conturbado momento político brasileiro ligado a Leonel Brizola que apoiava a nacionalização da HQBR, através da cooperativa CEPTA. Primavam pela valorização dos tipos regionais brasileiros com a criação de personagens como o próprio “Aba-Larga”, “Sepé”, “O Gaúcho”, entre outros.

Com o fechamento da cooperativa, esses personagens e seus quadrinhistas ficaram marginalizados...

(Matéria retirada do site HQ Quadrinhos
“Quadrinhos de Todos os Tempos”).

O Aba-Larga é o policial militar gaúcho que faz patrulhas nos campos de criação de gado contra abigeatos (roubo de reses).


Acima, na foto, dois atores com o fardamento histórico no filme gaúcho Os Abas-Largas”.

Artur Azevedo

(1855-1908)

Arthur Azevedo, poeta, escritor e dramaturgo,
nasceu no Maranhão e viveu no Rio de Janeiro.


Talvez sua mais deliciosa criação em versos tenha sido este pequeno poema, onde reúne com intuição e talento a rima e o teatro. 

É um retrato tanto mais talentoso e exato, quanto breve. Uma síntese alcançada, num só momento de intuição, de descrição cênica, ironia crítica e fluidez rítmica. Deliciemos-nos então com as suas Impressões de Teatro.

Impressões de Theatro

Que dramalhão! Um intrigante ousado,
Vendo chegar de longa ausência o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

Naturalmente o conde fica irado
- O pai que é? Pergunta - Eu lhe responde
Um jovem que entra. - Um duelo! - Sim! Quando? Onde? -
No encontro morre o amante desgraçado.

Folga o intrigante... Porém surge um mano
E, vendo morto o irmão, perde a cabeça:
Crava um punhal no peito do tirano.

É preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido, e cai o pano,
Antes que outra catástrofe aconteça.

        

“Quando eu morrer, não deixarei meu pobre nome ligado a nenhum livro, ninguém citará um verso meu, uma frase que me saísse do cérebro; mas com certeza hão de dizer: Ele amava o teatro, e este epitáfio moral é bastante, creiam, para a minha bem-aventurança eterna.”

Arthur Azevedo - 1903

Robert Koch

(1843-1910)


→ Nascido em 11 de dezembro de 1843, na cidade de Clausthal, Alemanha, Heinrich Hermann Robert Koch foi um dos fundadores da microbiologia e dos estudos relacionados à epidemiologia das doenças transmissíveis.

→ Sua trajetória profissional iniciou-se em 1862, aos 19 anos, quando estudou medicina na Universidade de Göttinen. Depois de colar grau como médico em 1866, Koch foi para Berlim estudar química. Neste mesmo ano, Koch casou-se com Emmy Fraats, mãe de sua única filha, Gerttrud.

→ Em 1867, ele se estabeleceu como clínico geral, depois de um período como assistente no Hospital Clínico em Hamburgo. Em 1870, serviu na guerra Franco-Prussiana. De 1872 a 1880 Koch foi médico em Wollstein, onde conduziu suas pesquisas. Um de suas grandes contribuições deu-se em 1876, quando o médico alemão demonstrou o ciclo de vida do bacilo de antraz, o primeiro agente microbiano cujos efeitos patogênicos foram comprovados pela bacteriologia.

→ Em 1882, Koch descobriu o bacilo da tuberculose. Além de cultivá-lo fora do organismo humano, conseguiu provocar a doença em animais com o produto dessa cultura. Postulou, então, as exigências que julgava necessárias para a demonstração da etiologia bacteriana de qualquer doença: isolar o microrganismo em culturas puras, inoculá-lo em animais de experiência e produzir uma doença cujos sintomas e lesões fossem idênticas ou equiparáveis às da doença “típica” no homem.

→ Em 1883, Koch foi enviado para o Egito como líder da Comissão Alemã da Cólera para investigar o aparecimento da doença naquele país. Lá ele descobriu o vibrião e levou culturas puras para a Alemanha.

→ Foi nomeado Diretor do recém formado Instituto de Higiene da Universidade de Berlim em 1885. Seis anos depois, tornou-se professor honorário da faculdade de Medicina de Berlim e diretor do novo Instituto para doenças Infecciosas. Durante esse período, Koch retornou ao seu trabalho com a Tuberculose. Ele buscou prender a doença por meio de uma preparação, a qual chamou de Tuberculina, feita a partir de culturas do bacilo. Ele fez duas preparações deste tipo e as chamou de nova e velha Tuberculina respectivamente. A nova Tuberculina, embora tenha sido uma decepção em termos de valor de cura, levou à descoberta de substâncias de valor diagnóstico. Enquanto este trabalho sobre a tuberculina estava avançando, seus colegas do Instituto para doenças infecciosas, Von Behring, Ehrlich e Kitassato conduziram e publicaram seus trabalhos que marcaram época na Imunologia da Difteria.

→ Foi durante os últimos anos de sua vida que Koch concluiu que o bacilo que causa a tuberculose humana e bovina não são idênticos. Esta constatação, embora correta, causou controvérsia e oposição no Congresso Médico Internacional sobre a Tuberculose em Londres em 1901.

→ Koch recebeu prêmios (como o prêmio Nobel de Medicina em 1905) e medalhas, doutorados honorários das Universidades de Heidelberg e Bologna, cidadania honorária de Berlin, Wollstein e sua cidade natal de Clausthal e associações honorárias em sociedades culturais e academias em Berlin, Viena, Posen, Perugia, Nápoles e Nova York. Ele ganhou a ordem da Coroa Alemã, a Grande Cruz da Ordem Alemã da Águia Vermelha (a primeira vez que esta distinção foi dada a um médico), e ordens da Rússia e Turquia. Faleceu em 27 de Maio de 1910.

Fontes:

Biblioteca Virtual Adolpho Lutz. Estudos superiores e de especialização. Robert Koch




sábado, 16 de dezembro de 2017

A Guerrilha do Riso



Capa assinado pelo jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo, explica a ilustração da capa, em que o sorriso de um humorista contrasta com a carranca de um militar quando o desenho é virado.

Humor de Carlos Nobre:

“Se, como afirmava Darwin, o homem descende do gorila, então não houve evolução alguma. O gorila apenas botou um uniforme.” (Última Hora, 10/7/1963)

“Ah, meus amigos, quando a gente olha o Brasil para 64, fica-se torcendo para que os bombeiros não cheguem muito atrasados.” (Última Hora, 30/12/1963 – o golpe militar foi dado três meses depois)

“Gorilas do Brasil e da Argentina festejam a derrubada do Jango. Bom, se vale a expressão dos argentinos a nosso respeito, os gorilas deles são gorilas mesmo, mas os nossos são apenas macaquitos.” (Última Hora, 27/3/1964)

“O recesso parlamentar de julho foi interrompido pelas cassações. Engraçado, eu pensei que as cassações é que davam o maior recesso ainda.” (Zero Hora, 27/71964)

“Sim, só falta agora alguns governadores telegrafarem ao Castelo Branco solidarizando-se com sua feiura.” (Zero Hora, 7/4/1965)

“Milhares e milhares de pessoas cumpriram seu alistamento eleitoral recentemente na renovação de seus títulos. Agora estão aptas finalmente a não votar.” (Zero Hora, 9/9/1965)

“A nova lei de imprensa é clara: fará com que os jornais falem dos defeitos do governo como se eles fossem defeitos maravilhosos.” (Zero Hora, 17/10/1966)

“Com a nova lei de imprensa os jornais das TVs continuarão em circuito aberto. Os jornalistas é que poderão ser fechados.” (Zero Hora, 24/10/1966)

“Já está autorizado convênio autorizando jornalistas a gozar 20% de desconto no Pronto Socorro Particular. Esse negócio veio em boa hora. Os cassetetes estão cada vez mais aperfeiçoados.” (Zero Hora, 12/11/1966)

“No Rio de Janeiro o DOPS prendeu dois estudantes. Motivo: eles estavam soltos.” (Zero Hora, 12/7/1965)

“A eleição veio em boa hora. Já não há muito deputado aí para ser cassado.” (Zero Hora, 10/10/1966)

“Padres foram presos em Volta Redonda. Que ironia, hein? Justamente em Volta Redonda os padres estão vendo o sol nascer quadrado.” (Zero Hora, 27/11/1967)

“A ONU diz que brasileiro é o povo do mundo formado com a maior mescla de raças. Não duvido: aqui temos pretos, amarelos, brancos e agora já estão começando a aparecer os roxos de tanto apanhar.” (Zero Hora, 6/2/1968)

“Estudantes agora vão fazer plebiscito. Escolherão se preferem cassetete de borracha ou de madeira.” (Zero Hora, 14/4/1968)

“A sorte de muitos estudantes presos é que os presídios não cobram entrada.” (Zero Hora, 27/5/1968)

“O Ministro da Justiça vai publicar o livro branco justamente para desmentir este negócio de torturas. Eis algo que eu acho muito prudente, pois se tratando de um país de analfabetos, imaginem se o livro fosse escrito.” (Folha da Tarde, 5/10/1970)

“Acho uma baita injustiça dizer que até agora não se descobriu muita coisa sobre os chamados esquadrões da morte… E este baita número de cadáveres descobertos todos os dias?” (Folha da Tarde, 10/7/1970)

“Sorte é Jesus Cristo não passar pela Rua da Praia, senão pode ir em cana como cabeludo subversivo.” (Folha da Tarde, 23/1/1971)

“Conselho para perfeita liberdade de expressão na democracia. 1 – Não pense. 2 – Se pensar, não fale. 3 – Se por acaso alguém descobrir seu pensamento, desminta logo. 4 – Se o pensamento aparecer publicado, pelo amor de Deus, diga que é apócrifo. 5. Se não acreditarem prepare um baita desmentido. 6 – Se mesmo assim não adiantar, refugie-se na Embaixada do Senegal.” (Folha da Tarde, 20/7/1973)

“Ao receber a notícia de que as eleições continuariam indiretas, o MDB se declara perplexo. Besteira do MDB. Onde já se viu ficar perplexo com as coisas que acontecem neste país, né? Vai ficar perplexo a vida inteira.” (Folha da Tarde, 5/5/1972)

“Leio no jornal que o resultado da eleição para as prefeitura sairá oito dias depois. Por isso é que o resultado da eleição para governador é melhor. O resultado sai uma porção de dias antes.” (Zero Hora, 2/1/1976)

“A transmissão do ballet ‘A Morte do Cisne’ foi proibida pela censura. Aliás, a censura nem sabia que o cisne tava doente.” (Zero Hora, 3/4/1976)

“Ontem saiu nesta coluna que anteontem foi o dia da liberdade de imprensa. Em seguida todo mundo me cumprimentou. Foi a maior piada que eu escrevi até hoje.” (Zero Hora, 4/4/1976)

“Leio que a greve de 200 presos políticos agora é nacional. Isto não é nada. Precisa ver a fome sem greve de milhões que não tão nem presos.” (Zero Hora, 6/5/1978)

“Dizem que o AI-5 vai cair. Então sai de baixo, porque durão como ele é, se cair na cabeça de alguém mata na hora.” (Zero Hora, 14/11/1977)

“Com tudo o que o Figueiredo anda dizendo fica difícil ser humorista neste país com a concorrência cada vez mais forte.” (Zero Hora, 17/6/1978)

“Se os democratas deste país estão loucos para que prendam os terroristas que enviam cartas e pacotes explosivos pelo correio, imaginem os carteiros.” (Zero Hora, 30/8/1980)

“No ABC paulista Lula foi em cana. Em Ouro Preto 50 estudantes também. Não tô entendendo bem esta abertura. Vai ver que sou burro mesmo.” (Zero Hora, 22/4/1980)

“Delfim diz que não é o culpado pela inflação. Claro que não. Todo mundo sabe que o culpado pela inflação sou eu.” (Zero Hora, 16/1/1981)

“Dom Urbano Algayer espera a confirmação das eleições de 1982. Padre é assim mesmo: quase sempre acredita em milagre.” (Zero Hora, 30/12/1981)

“Nunca concordei que houvesse no Brasil uma maioria silenciosa. Para mim o que houve foi uma maioria silenciada.” (Zero Hora, 16/7/1982)

“E se não tiver eleições no Brasil? Ué, nada de mais. O país volta à normalidade.” (Zero Hora, 3/8/1982)

“Quando se diz que alguns povos não estão preparados para a democracia, quer dizer que estão preparados para a ditadura?” (Zero Hora, 18/10/1982)

“Pichar um muro a favor das diretas é fácil. É só correr o risco.” (Zero Hora, 8/7/1984)

“Eleições só em 1988, mas até lá, dada a incapacidade de governar este país, já devemos ter devolvido ele aos índios.” (Zero Hora, 18/4/1984)

“No regime da baioneta calada, a imprensa também tem que calar a boca.” (Zero Hora, 24/4/1984)

“O general Ludwig votando no Clube Militar: ‘Gostei de votar, já nem lembro quando foi a última vez’. Nós também, general. Aliás, brasileiro precisaria ter uma memória de elefante para se lembrar de uma coisa dessas.” (Zero Hora, 19/5/1984)

“Junto meu desejo ao do Presidente Figueiredo. Também tô contando os dias para que este governo acabe logo.” (Zero Hora, 8/8/1984)

“A preocupação agora no Brasil é que, além da democracia, voltem a funcionar também os intestinos do Tancredo.” (Zero Hora, 27/3/1985)


O Leão

Dalton Trevisan


A menina conduz-me diante do leão, esquecido por um circo de passagem. Velho e doente, não está preso em grades de ferro. Foi solto no gramado e a tela fina de arame é escarmento ao rei dos animais. Não mais que um caco de leão: pernas reumáticas, a juba emaranhada e sem brilho. Os olhos globulosos fecham-se cansados − sobre o focinho contei nove ou dez moscas, que ele não tinha ânimo de espantar. Das grandes narinas escorriam gotas e pensei, por um momento, que fossem lágrimas.

Observei em volta: todos adultos, sem contar a menina. Apenas para nós o leão conserva o seu antigo prestígio − as crianças ao redor dos macaquinhos. Um dos presentes explica que o bicho tem as pernas entrevadas, a vida inteira na minúscula jaula. Derreado, não pode sustentar-se em pé.

Chega-se um piá e, desafiando com olhar selvagem o leão, atira-lhe um punhado de cascas de amendoim. O rei sopra pelas narinas, ainda é um leão: faz estremecer a grama a seus pés. Simula ignorar a provocação e mastiga com dificuldade, no canto da boca, um pedaço de carne. Um de nós protesta que deviam servir-lhe a carne em pedacinhos.

− Ele não tem dente?

− Tem sim, não vê? Não tem é força de morder.

Continua o moleque a jogar amendoim na cara devastada do leão. Ele nos olha e um brilho de compreensão nos faz baixar a cabeça: é conhecido o travo amargoso de derrota. Está velho, artrítico, não se aguenta das pernas, mas é um leão. De repente, sacudindo a juba, põe-se a mastigar o capim. Ora, leão come verde! Lança-lhe o guri uma pedra: acertou no olho lacrimoso e doeu.

 O leão abriu a bocarra de poucos dentes amarelos, não era um bocejo. Entre caretas de dor elevou-se aos poucos nas pernas tortas. Sem sair do lugar, ficou de pé. Escancarou penosamente os beiços moles e negros, ouviu-se a rouca buzina de fordeco antigo.

Por um instante o rugido manteve suspensos os macaquinhos e fez bater mais depressa o coração da menina. O leão trovejou seis ou setes urros. Exausto, deixou-se cair de lado e fechou os olhos para sempre.

(Do livro O vampiro de Curitiba)


O matuto mineiro



Neste mundo há muita gente finória, sagaz e manhosa; porém, não creio que ninguém leve vantagem neste ponto ao campônio dos sertões de Minas. O tabaréu mineiro, com os seus ares simplórios e ingênuos, é uma criatura capaz de engazopar até o Fígaro de Beaumarchais.

Ele, porém, é inimbrulhável, invencível em finura, e quem se meter a embahilo com ardis e ciladas, pode contar com o arrependimento.

Note-se que o matuto de Minas é homem honrado e cumpridor da sua palavra, quando trata com gente que faz o mesmo. Porém, desde que desconfie do cristão, ai meu Deus! Quebra o corpo manhosamente e põe-se em guarda, como quem diz aos seus botões: Então vosmecê está coidando que eu sou algum pateta?

O seu semblante nada demonstra; continua a sorrir com ares inocentes, pitando o seu cigarro. E a cada léria ou balela que o outro pretende impingir-lhe, o matuto responde com um gesto de hipócrita credulidade:

− Apois, hein? Ora veja vosmecê!

Quando se pensa que o roceiro está cantado, ele sai-se com uma refinada astúcia, lenta e maduramente combinada, que nos deixa de orelha em pé e queixo caído.

Lembro-me de uma partida que se deu com um caipira lá para as bandas de Paracatu.

Como todo mineiro da gema, este não era lá muito amigo dos progressos e não gostava da estrada de ferro.

Tendo-se construído uma ferrovia em sua província, o homem torceu-lhe o nariz e protestou jamais embarcar em semelhante trapizonga. E durante muitos anos continuou a viajar no seu burrico, pelas suas estradinhas, fazendo o meio dia para comer á beira d’água o seu tutu com torresmos, armando a rede em dois pés de árvores, quentando fogo e contando anedotas do tempo de quorenta e dois.

O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo, demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e cômoda.

Porém, o matuto não se convencia.

Um dia, contudo, tem urgência de chegar a certa cidade e vê que a cavalo não o poderia fazer. Vai à estação e pergunta quanto custa o bilhete. O agente regojiza-se.

− Ora, até que afinal convenceu-se, hein?

− Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro...

− Para um burro?!

− Sim, seu compadre.

O agente consulta a tabela e diz:

− Treze mil e trezentos.

− Então, dê-me um.

Vendido o bilhete, o muar foi metido dentro do vagão próprio, e o dono também entrou, na ocasião em que o comboio se punha em movimento.

− Então − grita o agente − o senhor não salta?

− Não, senhor, eu também vou.

− Como assim? Não comprou bilhete!

O matuto meteu o pé no estribo, montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora da estação.

− Eu vou a cavalo!

*****

Notas biográficas

Urbano Duarte (Lençóis, BA, 31/12/1855 - Rio de Janeiro, 10/02/1902)

O major Urbano Duarte cursou a Escola Militar e foi professor da Escola de Tática. Jornalista e publicista, criticou, como Joaquim José da França Júnior, os costumes sestros e tipos da sociedade fluminense: o cronista foi um fino observador e contou o que observou com bastante naturalidade e chiste. E também, como França Júnior, foi autor dramático.

Urbano Duarte pertenceu à Academia Brasileira de Letras, cadeira França Júnior.

(Em Eugênio Werneck. Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de escritores nacionais.
15ª ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1932)