quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A origem da fome



Eu procurei entender
Qual a receita da fome,
Quais são seus ingredientes,
A origem do seu nome.
Entender também por que
Falta tanto o de comer,
Se todo mundo é igual.
Chega dar um calafrio,
Saber que o prato vazio,
É o prato principal.

Do que é que ela é feita
Se não tem gosto, nem cor.
Não cheira, nem fede a nada,
E o nada é seu sabor.
Qual o endereço dela,
Se ela está lá na favela,
Ou nas brenhas do sertão.
É companheira da morte,
Mesmo assim não é mais forte
Do que um pedaço de pão!

Que rainha estranha é essa,
Que só reina na miséria,
Que entra em milhões de lares,
Sem sorrir, com a cara séria.
Que provoca dor e medo,
E, sem encostar um dedo,
Causa em nós tantas feridas.
A maior ladra do mundo,
Que nesse exato segundo,
Roubou mais algumas vidas!

Continuei sem saber
Do que é que a fome é feita.
Mas vi que a desigualdade,
Deixa ela satisfeita.
Foi aí que eu percebi,
Por isso que eu não a vi.
Eu olhei pro lado errado,
Ela está em outro canto.
Entendi que a dor e o pranto
Era só seu resultado!

Eu achei seus ingredientes
Na origem da receita,
No egoísmo do homem,
Na partilha que é mal feita!
E mexendo num caldeirão,
Eu vi a corrupção
Cozinhando a tal da fome,
Temperando com vaidade,
Misturando com maldade,
Pro pobre que lhe consome!

Acrescentou na receita
Notas superfaturadas:
1 quilo de desemprego,
30 verbas desviadas,
Rebolou num caldeirão
20 gramas de inflação
E 30 escolas fechadas!

Sendo assim, se a fome é feita
De tudo que é do mal,
É consertando a origem
Que a gente muda o final.
Fiz uma ponte ligeiro,
Se juntar todo dinheiro
Dessa tal corrupção,
Mata fome em todo canto
E ainda sobra outro tanto
Pra saúde e Educação!

(Bráulio Bessa).



Bráulio Bessa Uchoa é um poeta de literatura de cordel, declamador e palestrante brasileiro. Nascido em Alto Santo, no Vale do Jaguaribe, Ceará, ficou famoso após apostar na internet para resgatar a tradicional literatura de cordel. Faz participações no programa Encontro com Fátima Bernardes, na Rede Globo de Televisão. 


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A vacina que salvou o jovem José Meister



É mundialmente conhecido o caso do rapazinho alsaciano de nove anos, José Meister, que, em Julho de 1885 foi mordido catorze vezes por um cão com a doença da raiva. A mãe suplicou a Pasteur que lhe salvasse o filho. Até à data ninguém sobrevivera a estas mordeduras. O cientista esteve hesitante, porque ainda só testara a sua vacina em animais e era um risco enorme experimentá-lo num ser humano. Pasteur disse mesmo ao seu colega de investigação Emílio Roux que estava disposto a servir ele próprio de cobaia para poder testar a reação. Porém surgiu esta emergência e Pasteur passou momentos de angústia até se decidir. E pensou: se o rapaz morre depois de vacinado? Como as hipóteses de sobrevivência sem vacina eram nulas, arriscou. Luís Pasteur era químico e hoje diríamos biólogo, mas não era médico, por isso não podia ser ele a ministrar a vacina sob pena de ser processado. Pediu então ao Dr. Grancher, seu assistente, que o fizesse. Sessenta horas depois de ter sido mordido, José Meister recebeu a primeira de 12 injeções antirraiva, que lhe foram sendo injetadas uma após outra sob apertada vigilância. Família e cientistas aguardaram várias semanas. Por fim o jovem sobreviveu. Este jovem ficou para sempre agradecido a Pasteur e deu mesmo a vida por ele, já vamos saber como e quando.

A repercussão do sucesso da vacina antirrábica foi tal que a Academia das Ciências desenvolveu um projeto para criar uma instituição de investigação (futuro Instituto Pasteur) que foi bem acolhido no estrangeiro, tendo o próprio czar Alexandre III contribuído com cem mil francos. O Instituto foi inaugurado em 1888, no mesmo ano em que Vicent Van Gogh pintava na Provença, a sequência dos «Girassóis».

Pasteur foi admitido como membro da Academia de Medicina, em 1873 e em 1882 na Academia Francesa, prestigiadas instituições.

Em 1940, na 2ª Guerra Mundial, quando as tropas de Hitler invadiram a França, um grupo de militares quis forçar a entrada do Instituto Pasteur – onde repousam, numa cripta, os restos mortais de Pasteur. José Meister era o responsável pela segurança e, ao verificar que não conseguia impedir que os nazistas entrassem, suicidou-se (os cientistas nazistas tinham a paranoia de estudar os cérebros de pessoas consideradas gênios). Mas o cérebro de Pasteur não foi roubado.

Luís Pasteur já entrara na História pela sua descoberta, mas a sua contribuição para a Humanidade foi muito maior. O estudo da fermentação levá-lo-ia a descobrir o porquê dos vitivinicultores, de diversas zonas do seu país, verificarem, com tanta freqüência, que os seus vinhos se transformavam em vinagre, sendo uma enorme perca para a economia francesa. E isto passou a ser particularmente grave a partir de 1860, depois de assinado o tratado comercial entre a França e a Grã-Bretanha, por se verificar que grande percentagem dos vinhos não resistiam à viagem, estragando-se irremediavelmente. Nessa época, a França produzia 50 milhões de hectolitros de vinho por ano. A perda do precioso líquido era uma calamidade. O imperador Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte) pediu a Pasteur que investigasse o porquê da fermentação do vinho e proporcionou-lhe as melhores condições de trabalho, equipando laboratórios para que o grande químico pudesse dedicar-se inteiramente a essa investigação. Foi criado, em 1867 o laboratório de físico-química expressamente para Pasteur, na Escola Normal Superior. Depois de aturados estudos o cientista descobriu que submetendo o vinho a um aquecimento elevado durante alguns segundos, e logo de seguida, a um repentino abaixamento da temperatura a menos de dez graus, matava os germes que alteravam os líquidos. Este sistema foi depois utilizado na cerveja e vinho, daí o termo «pasteurizado» que todos conhecemos.




Minha Casta Dulcineia


Fernando Sabino


Estou numa esquina de Copacabana, são duas horas da madrugada. Espero uma condução que me leve para casa. À porta de um “dancing”, homens conversam, mulheres entram e saem, o porteiro espia sonolento. Outras se esgueiram pela calçada, fazendo a chamada vida fácil.

De súbito a paisagem se perturba. Corre um frêmito no ar, há pânico no rosto das mulheres que fogem. Que aconteceu? De um momento para outro, não se vê mais uma saia pelas ruas − e mesmo os homens se recolheram discretamente à sombra dos edifícios.

− Que aconteceu? − Pergunto a alguém que passa apressado.

É a radiopatrulha: vejo o carro negro surgir da esquina como um deus blindado e vir rodando devagar, enquanto os olhos terríveis da Polícia espreitam aqui e ali. Não se sabe como, sua aparição foi antecedida de um aviso que veio rolando pelas ruas trazido pelo vento, espalhando o medo e possibilitando a fuga.

Eis, porém, que surgem da esquina duas mulheres, desavisadas e tranquilas. Uma é mulata e alta, outra é baixa e tão preta, que só o vestido se destaca dentro da noite − ambas pobres e feias. Veem o inimigo, perdem a cabeça e saem em disparada, cada uma para o seu lado. O carro da polícia acelera, ao encalço da mulata: em dois minutos ela é alcançada...

A outra, trêmula de medo, se encolhe a meu lado como um animal, tentando ocultar-se. O carro faz a volta e vem se aproximando.

− Pelo amor de Deus, moço, diga que está comigo.

Já não há tempo de fugir. A pretinha me olha assustada, pedindo licença para tomar-me o braço, e, assim, protegida, enfrenta o olhar dos policiais. Tomado de surpresa, fico imóvel, e somos como um feliz, ainda que insólito casal de namorados. Compenetro-me, forças secretas dentro de mim endireitam-me o corpo para enfrentar a situação. Ouço a voz de Quixote sussurrar-me que agora, ou vou preso com ela, ou ninguém vai, na verdade, neste instante de heroísmo, unido a um ser humano pelo braço, sinto-me capaz de enfrentar até o Juízo Final, quanto mais a Delegacia de Costumes.

Passado o perigo, a preta retira humildemente o braço do meu, faz um trejeito, agradecendo, e desaparece na escuridão. Eu é que agradeço, minha senhora − é o que pensa aqui o fidalgo. Tomo alegremente o meu lotação e vou para casa com a alma leve, pensando na existência daquelas coisas, como diria o poeta, pelas quais os homens morrem.

*****

(Do livro Quadrante I)


Os vestígios do velho garanhão



Aquele velho Coronel da Guarda Nacional de antigamente tinha muita coisa de Chicuta Campolargo e Tibério Vacariano admiravelmente pintados por Érico Veríssimo na inspiração de tantos tipos humanos espalhados pelo Rio Grande de outrora.

Sim, pelo passado de arbitrariedades e violências no calor de “entreveros” das revoluções; como delegado das zonas conflagradas pela polícia e contrabandistas, e onde campeava um abigeato desenfreado; e como “beleguim façanhudo” que fazia valer a sua “otoridade” nos bochinchos em carreiras, e, mais, na “limpeza” dos meretrícios infestados de maus elementos, contumazes desordeiros, arruaceiros inveterados...

Na longa crônica do Coronel, havia, também, o registro de um machismo safado de insaciável sátiro, inescrupuloso e prepotente no abuso de fêmeas de diferentes naipes e categorias sociais.

Orgulhava-se de ser um garanhão indócil que nunca “repugnava a beldroega”... Um pastor retouçando manadas de éguas e potrancas. Enfim, o mais legítimo “colhudo” como chamam os garanhões na campanha, e até de “cuiúdo”...

Agora, transitava tropegamente pelas ruas. Tendo virado os 85 anos, estava com aparência de muito mais velho, bastante surdo, com achaques respiratórios e urinários, e arrastando os pés.

Com o lombo arqueado ao peso implacável dos anos, apoiava-se em uma bengala que volta e meia brandia acompanhando uma enxurrada de impropérios que nunca lhe eram parcos, embora sem motivação...

Tentava ainda falar grosso em nostalgia de uma autoridade já perdida em pretérito  distante...

Naquele dia, ao sair do consultório médico em revisão clínica, meio afogueado pelo calor de um sol de janeiro, buscou uma mesa do principal bar da praça que carregava seu nome e cuja placa não cansava de ler e sentindo um justificado orgulho.

Passando o lenço pelo rosto suado, vermelho, e algo ofegante pediu alguma coisa para beber.

Alvo de olhares curiosos que lhe davam uma certa faceirice, o velho Coronel como que gozava a doce reminiscência de sua antiga autoridade.

Já achando o garçom um tanto displicente, deu uma batida com a bengala no chão, e alteou a voz meio rouquenha de maneira que chamava mais atenção dos circunstantes.

− Ô sacripanta, vai ou não vai me trazer a bebida que eu pedi?

Alguns segundos após as gargalhadas explodiram e a “otoridade” esboçou um sorriso gajo, vaidoso, inconfundível...

Graças à providencial surdez, o velho garanhão não se deu conta da humilhante, mas espirituosa “tirada” de um gauchão ali presente:

− Mas bah, tchê!... Do “cuiúdo” véio só ficou o relincho!...

*****

(Do livro “O sexo... Como Humor na Medicina”,
do Dr. Caio  Flávio Prates da Silveira)


O Que Restará de Ti


(It rastreatra de Toi)

O que restará de ti
É tudo aquilo que deste
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados.

O que restará de ti
E de teu jardim secreto
É uma flor esquecida,
Jamais fenecida,
E tudo que deste
Nos outros, florescerá,
Pois aquele que perde a vida
Um dia encontrará.

O que restará de ti
É tudo que ofereceste
De braços abertos,
Numa manhã ensolarada,
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada,
E tudo que sofreste
Nos outros reviverá,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

O que restará de ti
É uma lágrima caída,
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração.
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade,
E tudo que semeaste
Nos outros germinará,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

*****

O Que Restará de Ti é uma livre tradução de autoria de Miguel Falabella do poema francês “It rastreatra de Toi” e foi recitado em homenagem à atriz Márcia Cabrita (1964-2017), no Programa Fantástico (12/11/17).


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Histórias de Paraquedistas XXXII


A maior tragédia ocorrida do Regimento Santos Dumont

Hoje, 26° Batalhão de Infantaria Paraquedista

Numa instrução realizada no dia 10 de março de 1966, no RSD, no anfiteatro da 2ª Cia, defronte à cadeia, tendo como monitor o 3° Sgt Jorge Mendonça de Carvalho, Pqdt 1135, do 1954/1 e MS 414, uma granada de boca de fuzil explodiu no meio dos recrutas. Morreram, além do instrutor, oito soldados e dezenas ficaram feridos e mutilados.


Falecidos no acidente;

3º Sgt Jorge Mendonça de Carvalho   (02/09/1925 - 4/3/1966)
Sd Carlos Alberto Sandoval                (12/07/1947 - 4/3/1966)
Sd Edir Franklin de Brito                    (27/12/1947 - 4/3/1966)
Sd Jorge Oliveira  Duarte da Motta     (24/09/1947 - 4/3/1966)
Sd José Silva Moreira                          (22/03/1947 - 4/3/1966)
Sd José Henrique Casanova Mazzei    (21/02/1947 - 4/3/1966)
Sd Nelson Pitão Júnior                         (17/08/1948 - 4/3/1066)
Sd Roberto Fernandes Pereira              (10/12/1947 - 4/3/1966)
Sd Walmir e Silva                                 (28/10/1945 - 4/3/1966)

*Todos os soldados foram brevetados pós-mortem.

Testemunho de quem estava lá no dia do acidente:

Nesse dia, eu estava tendo uma instrução com Sgt Lima Vieira, no Bosque dos Campeões, quando fomos surpreendidos com a explosão. Ao vermos vários soldados correndo pelo pátio, em frente à quadra, foi que nos demos conta da gravidade do acidente. Eram soldados ensanguentados, alguns atingidos no rosto, e que, posteriormente, perderam a vista. O Comandante era o Tenente Coronel Pamplona, que deu ordem para que os feridos fossem levados para o Hospital Carlos Chagas, onde vi uma carreira de soldados mortos, e, posteriormente, para o Hospital Barata Ribeiro, em Mangueira. O Sd Roberto Fernandes Pereira estudou no mesmo colégio que eu, e eu o vi morto no Hospital Carlos Chagas junto com os outros. Foi realmente um acidente terrível.

Sérgio de Oliveira Matos

Eu cursava o CFS (Curso de Formação de Sargentos) realizado no REsI. (Regimento Escola de Infantaria) e fui incumbido de entrar em contato com a esposa dele, comunicando que ele (3° Sargento Jorge Mendonça de Carvalho), seria o patrono da nossa turma.

Clarival Vilaça

O Cabo Soares, hoje Capitão da Reserva, naquela ocasião estava auxiliando na instrução. Foi chamado na Cia para resolver um problema de serviço, quando estava regressando para o local da instrução, a granada explodiu.

Não sei se vocês recordam, e para outros que ainda não tem conhecimento do ocorrido, era uma instrução de granada de bocal usada no cano do mosquetão. Não sei se estava com ou sem a proteção do disparo, caiu no chão (terra batida), ocasionando a explosão. Tanto o sargento como os demais soldados sofreram mais pelo deslocamento do ar, tendo os seus corpos abertos. Os demais, como estavam em um anfiteatro, receberam estilhaços. Muitos foram atingidos nos olhos e nos órgãos genitais. Do outro lado da rua, ficava o xadrez, havia pedaços de peles coladas na parede. Foi um momento dramático e triste.

José Alfredo Stron Nunes

Fiz o Curso de Cabos (CFC/65) com o Sargento Mendonça em 1965. Era ele o responsável por alguns detalhes administrativos do Curso, entre o eles o Livro de Ocorrências, para o qual ele havia me nomeado escrivão por ter boa letra e redação. Com suas sobrancelhas grossas e sua cara indiática de Anthony Quinn (este na verdade um mestiço mexicano, imagino até hoje se seu verdadeiro nome não era Antonio Joaquim), Mendonça era a imagem da cordialidade.

Certos sargentos e tenentes se esmeravam, inflexivelmente, em procurar defeitos nos alunos para rebaixar seus conceitos, matéria eliminatória que podia anular os bons resultados das demais. O Sérgio Chaves já havia passado por esse pesadelo autoritário de um tenente, a quem detestava, merecidamente, pois, no CFC/64, foi o primeiro lugar em notas e reprovado em conceito graças à perseguição do insensível, segundo ele me contou.

Os instrutores e Monitores anotavam méritos e deméritos nas papeletas e depois me passavam para registrar no Livro de Ocorrências. Como também era aluno e assistia a todos os atos do curso de onde vinham os deméritos, ao recebê-las percebia muitas vezes maldade e perseguição em algumas declarações não condizentes com a realidade. Então, chamava o Mendonça e lhe explicava o que realmente vira. Ele sempre me autorizava a aliviar a anotação. Muito cabo, que continuou estudando e depois se tornou sargento metido a inflexível, não sabe até hoje dos riscos que o Mendonça correu para me autorizar a aliviá-los. Na época do acidente, também estava ainda meio doente, cursando o CFS no REsI, recém-alteado do HCEx. Ao fim do dia, fui ao RSD saber dos detalhes e dos mortos. Tive um choque com a morte do Mendonça, de quem gostava muito e com quem me identificava. Um colega me narrou, não lembro quem, que foi ajudar no socorro imediatamente após a explosão e chegou ao ferido, cujo sangue fluía abundantemente pela carótida. Tapou-lhe a artéria com a mão e este lhe disse que fosse atender os outros, que estava bem. O ferido levantou-se com a mão na carótida, deu alguns passos e caiu morto.

Zilton Tadeu

No que diz respeito à história revivida pelo Zilton, nada a alterar. Foi aquilo mesmo, mas não guardo mágoas. Daquela reprovação, por conceito subjetivo, tirei lições de que não se deve transigir com os deveres, mas que se pode transigir com as pessoas.

Nunca encontrei, no meu conhecimento, justificativa para o proceder de alguns oficiais e sargentos daquela quadra da minha vida. Mas, daquele infortúnio passageiro, advieram-me maneiras e procedimentos que muitas felicidades me trouxeram nos 29 anos seguintes em que permaneci no Exército.

Sérgio Chaves

Na realidade, os arquivos oficiais são, em sua maioria, estereotipados e "frios". Jamais um documento oficial, que narra o histórico de uma entidade, consegue colocar no papel a emoção, riqueza de detalhes ou sequer narrativas dos que vivenciaram o fato.

À guisa de detalhes, três fatos marcaram em minha vida naquele episódio: O primeiro foi a "pilha" de cadáveres que vi no hospital Carlos Chagas; o segundo, foi quando ajudava a levar um soldado para a sala de cirurgia do Hospital Barata Ribeiro. Segurando a garrafa de soro e com o braço para cima, minha gandola saiu de dentro da calça. O então Cap. Zamite da "PE" mandou um Sgt, também da "PE", dizer-me para colocar a "gandola para dentro da calça". Não prestou! Falei para o Sgt "PE" dizer ao seu capitão que ordem absurda não se cumpre (Hora imprópria para se falar em uso correto de uniforme). E o terceiro, foi quando, já no HCEx e como escrivão, fui falar com o médico legista - no necrotério - sobre o Sgt Mendonça, e ele veio me atender, fumando, com o cigarro todo sujo de sangue.

“JB” Rodrigues.
  
A explosão da granada

No início de março de 1966, estava conferindo e organizando a munição de dotação do Pelotão, em companhia do meu armeiro, quando ouvi uma grande explosão. Determinei ao Ariosi para que fosse verificar o que tinha ocorrido. O soldado voltou correndo e gritando: “Sargento, explodiu uma granada e tem gente morrendo!” Rapidamente fui verificar. Quando me deparei com aquele quadro horroroso, vendo companheiros despedaçados ou se arrastando pelo chão com os corpos mutilados, feridos ou atordoados, a reação imediata que senti foi de imobilidade. Entretanto, me veio logo à consciência de que eu poderia ser um daqueles acidentados, necessitando, portanto, de socorro. Voltei e fui prestar auxílio. Rapidamente chegaram viaturas que estavam disponíveis na garagem e que foram utilizadas na emergência, para transportar os feridos com a máxima urgência para o hospital. Eram colocados nessas viaturas conforme as condições e a situação permitiam e com a urgência que o caso exigia.

O acidente aconteceu, quando um Sargento estava dando uma instrução com granada de bocal. O manuseio acidental ocasionou a explosão desse artefato, resultando na morte instantânea do Sargento (caiu para trás, com o abdome dilacerado.) com mais seis soldados e outros trinta e quatro mutilados.

Mas porque explodiu a granada? Provavelmente devido a um defeito de fabricação.

Luiz Antônio Lima Vieira, pqdt 7717, 1961/5

No dia de instrução da colocação dessa granada no cano do mosquetão (1964), estava chovendo, por isso a instrução foi realizada no dormitório da 1ª Cia. Um sargento a colocava no cano e depois a retirava. Com a granada na mão, ele retirava um dispositivo de segurança, segurando-a firmemente, dizendo que se ele a largasse, ela explodiria.

Sentado no chão, na primeira fila, atento às instruções, eu. Se desse algum problema, seguramente, eu seria um dos primeiros a morrer.

Nilo da Silva Moraes

Adendo final

Normalmente, a instrução com essa granada, no cano do mosquetão, era feita com uma réplica da mesma. Parece-se com a real, possui todos os dispositivos, mas não tem a carga explosiva. Naquele dia, não se sabe por qual motivo, o sargento realizou a demonstração com uma granada verdadeira. Tirou o seu dispositivo de segurança e a colocou em cima da mesa, quando apanhou a granada, com a parte frontal para baixo, impulsionou o percussor de encontro à carga explosiva ocasionando o trágico acidente. Há outra versão de que a granada, com o dispositivo de disparo armado, caiu da mesa com a cabeça da granada para baixo, explodindo na hora.


Além desses nove (9) mortos, 80 soldados, recrutas e veteranos, foram feridos e alguns mutilados seriamente.


O lenço do gaúcho



Desde o início da colonização do território do atual Rio Grande do Sul, o lenço vem acompanhando nossa evolução. As tribos indígenas, que habitavam nossas terras, especialmente os Charruas, Jaros e Minuanos, com cabelos compridos, usavam tira, fita ou “vincha”, prendendo suas cabeleiras.

Após a chegada dos espanhóis e portugueses é que surgiu a moda de cortar o cabelo.
Em razão dos longos cabelos, que usavam, os indígenas prendiam com tiras de imbira ou couro de pequenos animais. Já na época dos padres missioneiros espanhóis passaram a usar o pano, que circundava a testa a parte traseira do pescoço. Essa tira servia para prender os cabelos e afastá-los dos olhos, na investidas para as caçadas, disputas esportivas ou batalhas de guerra.

As matas bravias e as grandes distâncias a percorrer foram tornando pouco eficaz tal forma de uso da tira. Passaram a prender seus cabelos, puxando parte para trás da cabeça, atando o maço rente a cabeça. À moda “colo-de-cavalo”. Nesse período registra-se o “Peão das Vacarias”. Ele usava tal fita prendendo os cabelos e que era chamada, pelos platinos de “vincha”.

As lutas barbarescas do sul-rio-grandense primitivo mesclaram o ideal e a coragem retemperados pelo sangue bravio, suor e o Vento Pampeano. Ficaram impregnadas, na vincha do herói anônimo, que a história esqueceu, muitas lições de bravura.

Embora que em nossas pesquisas não encontrássemos, qualquer autor referindo-se ao fato, temos a firme convicção de que o lenço de pescoço não surgiu como um adorno, mas sim da evolução da vincha, pelas circunstâncias da época. Quando no modismo de cortar os cabelos não havia mais motivos para o peão usar a tira atada à cabeça. Foi, possivelmente, conservada, enlaçada no pescoço, com as pontas atiradas para trás, grande, retangular, com as pontas viradas para trás, nos moldes usados atualmente pelas mulheres.

O lenço desceu da cabeça para o pescoço, ainda com as pontas para trás. Sua maior afirmação foi quando adotado politicamente, como designativo de cor partidária. Os companheiros ou inimigos eram reconhecidos, na distância, pela cor do lenço. As pontas atiradas para trás pouco destacavam a cor – símbolo de luta. Surgiu, finalmente, o lenço do gaúcho, nos moldes atuais, atado ao pescoço, solto ao peito. Passou a ser instrumento de identificação, ao longe, tremulando ao vento.

Em certo tempo chegou-se a usar o lenço e a vincha, conjuntamente, hoje, em certas apresentações artísticas, ainda encontramos o duplo uso. Há muitas cores de lenços, sendo o branco e o vermelho os mais tradicionais. Há várias formas de atar o lenço gaúcho. As mais tradicionais são 8 formas. Duas têm origem política, o Nó Farroupilha, de uso nos anos de 1835 a 1845 e o Nó Federalista, de 1893 a 1896. O pano geralmente usado é a seda. Um lenço esvoaçando ao vento, sobre o peito de gaúcho, é uma marca registrada da altivez de nossa indumentária gaúcha.

Fonte: Salvador Ferrando Lamberty
 ABC do Tradicionalismo Gaúcho. 146p.


Lenço – nó comum