quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Café de chaleira


Raul Annes Gonçalves


Quatro gaúchos, desde a madrugada, troteavam estrada afora com um lote de cavalos por diante. Às nove horas acamparam junto a uma sanga, onde havia algumas árvores, para tomarem café e mudarem de cavalo.

Improvisaram uma forma contra um aramado e pegaram os cavalos para muda. Fizeram fogo e puseram as chicolateiras com água para esquentar. Depois, desencilharam os montados, tirando das malas de garupa o café, as bolachas e o açúcar.

Naquele tempo o café era composto, isto é, com açúcar dava uma tintura preta com um forte e agradável cheiro. Em geral, os tropeiros costumavam dividir as obrigações do fogão entre si. A um tocava fazer café, outro era o assador de carne; a um terceiro cabia fazer e encher o mate, a outro, a responsabilidade de juntar lenha; desta maneira tornava-se fácil e até mesmo divertido o trabalho.

O encarregado de fazer café naquela manhã, assim que ferveu uma das chicolateiras, a retirou do fogo e despejou dentro dela duas colheres de café em pó. Mexeu-o bem com a ponta da faca até dissolver todo; depois tornou a pôr a chicolateira no fogo. Quando levantou nova fervura, deixou que transbordasse um pouco do líquido pela beira da vasilha. Em seguida, retirou-a do fogo e meteu um tição aceso dentro do café, que provocou nova ebulição. Ali o manteve por segundos.

Isso feito, com as costas da faca, deu algumas pancadinhas por fora, na chicolateira. Estava pronto o café. Quando não há tição, por exemplo, em fogo de gravetos, ou em zona que existe lenha e o fogo é feito com corunilha, isto é, esterco seco de gado, nestes casos, pondo água fria na fervura do café, ajuda a sentar a borra.

Feito o café em chicolateiras ou cambonas, ficava à disposição dos tropeiros. Estes serviam-se despejando o café em seus canecos alouçados ou guampas onde botavam açúcar a seu contento.

Depois de servidos, com uma bolacha na mão e o copo de café na outra, sentavam nos arreios ou nos pelegos dobrados, às vezes colocados em cima de uma caveira de vaca, já limpa pelo tempo, ou de alguma pedra, fazendo às vezes de banco. Alguns preferiam ficar acocorados nos “garrões”, como é hábito entre nosso homem do campo, e, assim acomodados, tomavam tranquilamente, o café da manhã.

Finda esta ligeira refeição, lavavam os copos e guardavam na mala de garupa o açúcar, bolacha e o café em pó. A sobra do café nas cambonas era posto fora e as vasilhas bem lavadas na sanga. Estas mesmas chicolateiras ou cambonas serviam para, ao meio-dia, aquentar a água para o amargo, como também para preparar a salmoura para o assado. Levantando o acampamento, os tropeiros seguiam a trote chasqueiro, estrada afora, pitando um crioulo.

Os gaúchos viajavam dias, fazendo 10 a 15 léguas diárias sem se aborrecerem. Nem se davam conta do tempo perdido nestas jornadas. Para eles a questão do tempo era indiferente; depois de um dia vinha outro; o importante, sim, era o serviço que estavam incumbidos de fazer.

Do livro “Mala de Garupa – Costumes Campeiros”,
de Raul Annes Gonçalves”. Martins Livreiro Editor. 1999.

Vocabulário Gaúcho do texto:

Cambona → Pava* – recipiente que serve para aquecer líquidos.


Chicolateira → Pava ou recipiente (obra de funileiro) que serve para aquecer líquidos. Figura abaixo:


*Pava → É recipiente onde se verte em cima água quente proveniente de um recipiente esquentado ao fogo denominado “pava” (chaleira).

Garrões → Tornozelos.


Mala de garupa → Estas peças da indumentária campeira se chamam “mala de garupa”, porque originalmente eram colocadas sobre o lombo do cavalo. Eram feitas em couro, e o seu nome era “peçuelos”.

Pitar um crioulo → Fazer um cigarro de palha com fumo picado.

Chasqueiro → Diz-se do trote largo e incômodo dos cavalos.

Sanga → Pequeno curso d’água menor que um regato ou arroio.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Fatos inusitados da Revolução de 32


O Dia da Pátria nas trincheiras



Buscando destruir-se, os exércitos alinhados na vale do Paraíba morriam e matavam em nome do amor pelo Brasil. Chegou o 7 de setembro. Paulo Duarte recolheu em Palmares pelo avesso o sucedido.

“Às 7 horas de uma fulva manhã, estava todo o QG nos esporões do morro do Canhão. A bandeira foi hasteada no centro e no ponto mais alto das linhas. Um pelotão de combatentes (paulistas) subiu em cima das trincheiras, na posição mais exposta ao fogo inimigo (gaúchos). Ao lado, formaram, em continência, todos os oficiais do comando (...).

O inimigo emudeceu como uma onça magnetizada por um foco de luz. Depois atônito, impulsionado por uma ordem irresistível, se pôs também de pé, no alto de suas posições, ao longe.

Enquanto isso, a bandeira subia e os clarins cantavam.

Os seis quilômetros que podíamos ver de nossas linhas alcançaram-se nas cristas a uma ordem geral que ninguém deu, mas todos ouviram e obedeceram. As trincheiras ficaram de pé, ao sol!

E a Mantiqueira viu dois exércitos adversários interromperem a batalha a prestar continência à mesma bandeira que só um deles desfraldou.

O pavilhão chegou ao alto do mastro, tremulando. Os clarins pararam.

O capitão Saldanha deu a voz de descansar armas. Mas o inimigo, voltado a si, quis comemorar a liberdade a seu modo.

Uma rajada grunhiu ao longe e assoviou sobre o nosso grupo, ainda no alto das trincheiras”.

A passageira clandestina


Quando o exército paulista viu que a revolução estava perdida, os oficiais superiores, políticos e alguns intelectuais resolveram se exilar. Foram todos, principalmente, para Portugal. E entre eles um poeta: Guilherme de Almeida. Durante a travessia, com data de 5 de novembro, escreveu em seu diário de bordo:

Não há mulheres a bordo? Há. Viaja conosco uma passageira clandestina, de volta a Portugal, seu país de origem.

Vive toda e sempre escondida. Nem a oficialidade, nem o pessoal de bordo, nem os agentes de polícia que nos espiam, nem a escolta que nos... que nos inveja – ninguém, ninguém notou ainda a sua presença entre nós, na prisão flutuante.

E, no entanto, ela está por toda a parte. E ela divide, a clandestina, por todos nós, o seu carinho santo, com piedade generosa de uma irmã de caridade. Vai de cabine em cabine, de mesa em mesa, de pensamento em pensamento. Senta-se no beliche, maternalmente, à cabeceira daquele que a insônia atormenta, e repete o gesto antigo que cobriu, como uma asa, o nosso berço; apóia-se, como uma cruz suavíssima, ao ombro daquele que, sentado num rolo de cordas da popa, finge olhar o crepúsculo exangue; debruça-se sobre o que escreve ou o que lê, e conduz a mão sobre o papel, ou volta as páginas do livro...

Quando ela veio de Portugal, era loira e leve: parecia a `velida` de Dom Diniz, a `bem talhada´, a `delgada´, a `muito alongada de gente´, bailando ´solo verde, ramo frolido´... Mas aqui, nos trópicos, americanos, queimou-se de sol e amolentou-se no balanço das redes e das palmas.

E eis, agora, regressa mais lânguida e mais humana à sua pátria...

Viaja conosco uma passageira e clandestina de volta a Portugal, seu país der origem.

Ela é a saudade.”

(Do livro “A Revolução de 32”*, de Hernâni Donato)

*Embate militar entre gaúchos e paulistas.

O Sombra



“Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?
O Sombra sabe! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!”

→ Esse personagem tão temido, entretanto, é um homem de carne e osso como todos nós, mas como nenhum de nós possui um poder sobrenatural: há muitos anos na Índia, ele conquistou, através do ocultismo, a invejável faculdade de se tornar invisível – prendendo os inimigos no mais flagrante delito, não raro empenhando-se em brigas perigosíssimas para si e para quem conhece sua noiva, a linda Margot Lane, a única aliás que conhece o segredo de o Sombra. Esse homem de carne e osso não é outro senão Lamont Craston, jovem rico e elegante, possuidor de excelente ilustração e praticante de esportes como todo bom americano.

Fonte: Acervo particular de Frederico Jorge Barwinkel.

E quem interpretou O Sobra no Brasil foi:

→ Saint-Clair Lopes* foi locutor, ator, apresentador, noticiarista, produtor de programas, animador e uma referência jurídica na área de radiodifusão. Seu maior sucesso foi o seriado 'O Sombra', na Rádio Nacional, atual Nacional do Rio. 

→ O personagem Sombra**, interpretado por Saint-Clair, era muito popular nos anos 1940, numa versão brasileira do seriado americano que veio no pacote da chamada 'Política da Boa Vizinhança' entre os Estados Unidos e os países sul-americanos. O programa já fazia sucesso, nos anos 1930, na América do Norte na voz de Orson Welles.

→ Algumas frases do seriado ficaram na memória dos ouvintes por muito tempo. As principais: sempre que o Sombra perguntava: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos?”, vinha a resposta: “O Sombra sabe!”, e vinha uma gargalhada sinistra: “Ah! Ah! Ah! Ah!”.***

→ No quadro 'O rádio faz história' do programa Todas as Vozes, a jornalista e professora da faculdade de comunicação da PUC-RJ, Rose Esquenazi, conta como a atração repercutia nas famílias brasileiras a mostra as vozes de Saint-Clair Lopes e Orson Welles na interpretação do personagem O Sombra.

→ O programa Todas as Vozes vai ao ar de segunda a sexta, das 7h05min às 10h na Rádio MEC AM do Rio de Janeiro, com apresentação do jornalista, radialista e professor Marco Aurélio Carvalho.


*Saint-Clair nasceu no Rio de Janeiro, em 1906. Ao contrário de muitos radioatores que se acomodaram, ele decidiu estudar Direito e Jornalismo. Por essa razão, era sempre chamado para criar leis e defender os interesses da radiodifusão que estava crescendo no país. Foi professor de radiojornalismo na Faculdade de Filosofia da UFRJ e na PUC. Foi comentarista de assembleias da ONU, em 1947, sendo a sua palavra ouvida através da Rádio Nacional. Exerceu também a consultoria jurídica da ABERT, dos empresários do rádio. Escreveu livros sobre a história do rádio, como Radiodifusão, hoje e divulgou a jurisprudência da radiodifusão.

→ Antes da Rádio Nacional, ele passou por várias estações. A primeira foi na Rádio Philips, onde fez um teste para o programa Hora do Outro Mundo, de Renato Murce. Era uma atração criativa, já que, supostamente, era irradiada de Marte para a Terra. Depois, trabalhou na Rádio Educadora do Brasil, Transmissora e, finalmente, na Rádio Nacional, onde ficou 33 anos. Foi ali que Saint-Clair Lopes mostrou todo seu talento. Com aquela voz tão poderosa chegou a apaixonar uma fã que, ao morrer, deixou toda a fortuna para ele. A mulher de Saint-Clair não gostou nada daquilo.

→ Para o livro do amigo Renato Murce, Bastidores do Rádio (Ed. Imago, 1976), seu padrinho no rádio, Saint-Clair fez uma pequena biografia que terminou assim: “Entrei pobre para o rádio e saí dele pouco menos pobre, mas rico, muito rico de realizações que confortam e com a consciência tranquila do dever cumprido”.

*     Saint-Clair Lopes morreu em 6/3/1980, aos 73 anos.

**   O Sombra ficou no ar por seis anos na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

*** A gravação da vinheta que apresentava o programa, está disponível na Internet.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Monstro é aquele que não sabe amar*


Samba Enredo 2018 da Escola Campeã do Carnaval
 do Rio de Janeiro

Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar*

(Os Filhos Abandonados da Pátria Que Os Pariu)

G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis (RJ)


Oh pátria amada, por onde andarás?
Teus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar,
Você que negou o amor,
Vem aprender na Beija-Flor.

Oh pátria amada, por onde andarás?
Teus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar,
Você que negou o amor,
Vem aprender na Beija-Flor.

Sou eu, espelho da lendária criatura,
Um monstro carente de amor e de ternura.
O alvo na mira do desprezo e da segregação,
Do pai que renegou a criação,
Refém da intolerância dessa gente.
Retalhos do meu próprio Criador,
Julgado pela força da ambição,
Sigo carregando a minha cruz,
À procura de uma luz, a salvação!

Estenda a mão, meu senhor,
Pois não entendo tua fé,
Se ofereces com amor,
Me alimento de axé,
Me chamas tanto de irmão,
E me abandonas ao léu,
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu.

Estenda a mão, meu senhor,
Pois não entendo tua fé,
Se ofereces com amor,
Me alimento de axé,
Me chamas tanto de irmão,
E me abandonas ao léu,
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu.

Ganância veste terno e gravata,
Onde a esperança sucumbiu.
Vejo a liberdade aprisionada,
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora,
Feito um arrastão de alegria e emoção, o pranto rola.
Meu canto é resistência no ecoar de um tambor,
Vem ver brilhar mais um menino que você abandonou.

* Compositores: Di Menor, Kiraizinho, Diego Oliveira, Bakaninha Beija-Flor, JJ Santos, Julio Assis e Diogo Rosa − Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

→ A Beija-Flor de Nilópolis venceu o Carnaval carioca, desfilando no segundo dia do Grupo Especial, na Sapucaí, com o enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, do carnavalesco Cid Carvalho. Num resultado disputado, nesta quarta-feira (14), a escola de Nilópolis venceu por um décimo a Paraíso do Tuiuti.

→ A campeã Beija-Flor aproveitou os 200 anos do romance “Frankenstein”,* de Mary Shelley, para fazer um paralelo com as mazelas brasileiras. O enredo fez uma extensa crítica à sociedade brasileira, incluindo o campo político e a intolerância religiosa.

Jornal do Brasil

*Na obra, um cientista dá vida a uma criatura construída com partes de pessoas mortas, tornando-se uma figura feia. No desfile, a figura foi usada para críticas a problemas sociais como corrupção e desigualdades.


Medicamentos


Perguntas e respostas sobre o uso de medicamentos

Por Camila Kosachenco


→ Esquecer-se de tomar o medicamento na hora indicada pelo médico, comprar comprimido de dose maior para parti-lo ao meio ou guardar os remédios no banheiro de casa são comportamentos comuns de boa parte dos pacientes. Embora rotineiras, essas atitudes merecem um cuidado especial, pois podem comprometer a eficácia das drogas, prejudicando o tratamento. Aqui reunimos as dúvidas mais comuns na hora de comprar, administrar e armazenar medicamentos e as esclarecemos junto a especialistas. Mas lembre-se: antes de tomar qualquer fármaco, peça orientações para um médico ou para o farmacêutico e nunca se automedique. 

Cuidado com automedicação

→ Nunca tome um medicamento usado por terceiros ou mesmo que tenha sido receitado para você em outra situação. “Nenhum medicamento sem prescrição pode ser usado em casa, os dados de automedicação são alarmantes no Brasil e no mundo.” Nelci Dias, enfermeira e conselheira do Conselho Regional de Enfermagem.

Quais medicamentos dá para ter em casa?

→ Embora a automedicação seja fortemente reprovada pelos profissionais da saúde, medicamentos de venda livre podem compor uma farmacinha caseira. Leila Beltrame Moreira, coordenadora da Comissão de Medicamentos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, cita analgésicos, anitérmicos, antiácidos e dipirona – se a pessoa não for alérgica à substância – como itens que podem ser armazenados em casa.

− Esses medicamentos não vão curar um problema patológico, vão aliviar os sintomas. Mas se você tomou a dose indicada e não teve alívio, deve procurar um serviço de saúde – recomenda.

− Vale lembrar que cautela é sempre a melhor orientação.

− São drogas relativamente seguras, com particularidades de paciente para paciente. Para uso esporádico, não tem problema – completa Leonardo Fernandez, chefe do Serviço de Emergência da Santa Casa de Porto Alegre.


Qual a diferença entre comprimido, drágea e cápsula?

→ Comprimidos são obtidos, como o próprio nome diz, por meio da compressão de um pó. Todo o ar presente entre as partículas é retirado, resultando em um produto sólido. A digestão do medicamento começa já no estômago. As versões sublinguais são elaboradas para se dissolver com a saliva, para que os princípios ativos sejam absorvidos pela mucosa bucal, passando diretamente para a corrente sanguínea, acelerando seu efeito.

− Drágeas são comprimidos revestidos com açúcar ou algum polímero derivado da celulose. Essa cobertura serve para proteger a substância ativa do ar, da luz e da umidade, além de retardar a digestão do fármaco.

− Em algumas situações, o revestimento é necessário para que a liberação ocorra somente no intestino – explica a professora Denise Milão, do curso de Farmácia da Escola de Ciências da Saúde da PUCRS.

− Já as cápsulas contêm o fármaco envolto em um revestimento de gelatina – a mesma que você come −, que pode ou não receber pigmentos. Essa “embalagem” serve para preservar o medicamento do ar, da umidade e da luz. Há no mercado das farmácias de manipulação cápsulas com revestimento de polímeros vegetais, opção para pessoas veganas – aquelas que não consomem nada de origem animal. Independentemente do revestimento, as cápsulas são digeridas no estômago.


Dá para cortar um comprimido?

→ Não. Nenhum comprimido deve ser partido, principalmente se for revestido. Isso porque essa camada serve tanto para proteger do ambiente externo quanto para evitar a degradação da substância ativa. Além disso, esse tipo de manipulação altera a dosagem.

− Às vezes, as pessoas compram uma dosagem de 40mg, por exemplo, porque é mais em conta do que a de 20mg. Mas o barato pode sair caro, pois o medicamento não vai controlar a doença. Estudos já mostraram que, mesmo usando equipamentos de corte, há diferença na dosagem de cada metade. Antes de cortar, é importante consultar o médico – diz a farmacêutica Denise Milão.

− Dividir os medicamentos de liberação prolongada – que liberam a substância ativa ao longo de um período maior – pode ser ainda mais arriscado, pois se corre o risco de ingerir uma dose muito maior do que a correta.

− A regra vale também para medicamentos que já vêm com um vinco, pois eles sofrem perdas igualmente em função do esfarelamento.

Dá para abrir cápsulas?

→ Não. A parte externa serve como uma proteção para a substância ativa. Se você tem dificuldade de ingerir esse tipo de medicamento, converse com médico para avaliar opções.

Há combinações de drogas que devemos evitar?

→ Quem toma muitas drogas deve pedir auxílio para o médico na hora de administrar as doses. Segundo o médico Leonardo Fernandez, medicamentos para diabetes, colesterol e hipertensão geralmente toleram-se entre si. Mesmo assim, é preciso conversar com o médico antes de tomar. O que merece cuidado especial é a combinação de sulfato ferroso com antiácido ou antibióticos com antiácidos, alerta Leila. Se for o caso, dê um intervalo de duas horas entre um e outro.

− Fernandez alerta para os riscos da chamada polifarmácia em idosos, que é a grande lista de medicamentos prescritos.

− Eles acabam tendo muitos médicos e cada um dá seu medicamento. Não é incomum o idoso estar usando 18 drogas, e muitas vezes nem lembra. A interação é um risco, pois eles têm as funções renal, pulmonar, cardíaca e hepática menor – destaca Fernandez, acrescentando que a solução para diminuir essa realidade seria ter um médico para gerenciar toda a saúde do paciente.


Bebida alcoólica interfere nos medicamentos?

→ Fernandez afirma que o álcool pode interferir na ação dos medicamentos que, assim como as bebidas, são metabolizadas no fígado. No caso dos antibióticos, é melhor esquecer os drinques.

− O problema é o abuso, pois o álcool aumenta e eliminação dos antibióticos. É preciso manter no sangue uma determinada concentração do medicamento em um intervalo de tempo, e o álcool acelera essa eliminação. Caindo essa concentração, diminui a eficácia – exemplifica a médica Leila Moreira.

− A combinação pode potencializar os efeitos de alguns medicamentos. É o que acontece com certos antialérgicos e ansiolíticos, por exemplo – diz a presidente do Conselho Regional de Farmácia do RS, Silvana Furquim.

Antibiótico diminui o efeito dos anticoncepcionais?

→ Conforme a médica Leila Moreira, algumas substâncias alteram as bactérias do intestino que são importantes para o efeito desejado dos anticoncepcionais.

− Mulheres em idade fértil devem cuidar esse casos – avisa a médica.

→ Ampicilina e amoxicilina são algumas das drogas que pode causar alterações.

É melhor tomar o medicamento em jejum ou com as refeições?

→ Essa orientação deve ser dada pelo médico e pode ser reforçada pelo farmacêutico na hora da compra, pois varia de acordo com a substância.

− Algumas medicações têm a absorção prejudicada pelos alimentos, e outras podem causar irritação gástrica se tomadas em jejum – observa o médico Leonardo Fernandez.

− Sulfato ferroso e antibióticos, por exemplo, funcionam melhor quando ingeridos com a barriga cheia. Se a recomendação for tomar a droga em jejum, deve-se dar um intervalo de uma hora entre o medicamento e a refeição ou duas horas após se alimentar.
  
Só posso tomar com água?

→ Depende da droga. A maioria pode ser ingerida com água ou leite.

− Na dúvida, tome com água – sugere a médica Leila Moreira. Vale perguntar ao médico ou ao farmacêutico, pois, em alguns casos, o leite pode fazer com que o medicamento não seja absorvido adequadamente.

Existe horário recomendado?

→ Via de regra, não há melhor horário para ingerir medicamentos. O importante é manter a regularidade – especialmente na ingestão de antibióticos, que deve respeitar o intervalo de tempo estipulado pelo médico, sob pena de perder a eficácia caso haja atrasos. Há alguns tipos específicos de drogas para colesterol e úlcera que funcionam melhor à noite.

Em caso de esquecimento, o que fazer?

→ Volta-se a tomar a substância assim que lembrar. Mas nunca dobre a dose.

Onde guardar medicamentos?

→ Deve-se mantê-los longe do calor, da umidade e da luz, ou seja, jamais deixe no carro ou no banheiro. Denise orienta que eles sejam guardados dentro de suas respectivas caixas com a bula. Outro ponto importante é retirá-los do invólucro de alumínio somente na hora da ingestão.

− Quem faz uso de muitas substâncias e costuma utilizar embalagens fracionadas com todas juntas deve ficar atento à higiene do suporte.

− O ideal é que se organize esses medicamentos para, no máximo, uma semana. Quando se retira o medicamento do invólucro, ele perde estabilidade. O prazo de validade escrito na caixinha diz respeito àquela embalagem. Ao modificá-la, modifica-se também o medicamento – alerta Denise Milão, professora de Farmácia da PUCRS.

Como descartar medicamentos?


→ Nunca jogue medicamento em desuso ou vencidos no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário, pois eles são resíduos químicos poluentes do meio ambiente. As farmácias disponibilizam coletores específicos para isso.

− Os estabelecimentos que não têm coletores recebem esses medicamentos e encaminham para o descarte adequado. Converse com seu farmacêutico e verifique a melhor alternativa – recomenda Silva Furquim.

(Do Caderno Vida, de Zero Hora. fevereiro de 2018)




sábado, 17 de fevereiro de 2018

A formação intelectual de um gênio

Machado de Assis



Machado de Assis retratado por Marc Ferrez

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu pobre, em família de trabalhadores manuais, num Rio de Janeiro plenamente escravagista e capital do império brasileiro. Seu pai, filho de escravos alforriados, era pintor de paredes, e ao que tudo indica era também dourador, quer dizer, sabia fazer aqueles arabescos e vinhetas que enfeitavam as paredes de casas ricas e médias em seu tempo. Sabia ler, informação que temos porque havia assinatura de almanaque em seu nome. A mãe de Machado era portuguesa imigrada, talvez aos seus 12 anos de idade, pobre e trabalhadora: provavelmente foi empregada doméstica na casa-grande em que o futuro escritor nasceu e viveu até seus 5 anos de idade.

Neto de escravos de um lado, filho de imigrante pobre por outro – e órfão de mãe na infância. Sua única irmã morreu doente, antes dos 7 anos. Como estudou? Quanto estudou? Pouco se sabe ao certo. De concreto, temos as evidências de sua alta inteligência e capacidade de trabalho. Desde os 15 anos publica regularmente na imprensa e em livros. Conhece uma impressionante ascensão social: de pobre, passa à classe remediada como trabalhador intelectual (depois de passagens como aprendiz de tipógrafo e caixeiro, foi jornalista até os 30 anos de idade), e daí para as classes funcionalmente superiores depois de ingressar na burocracia federal.

Não tinha curso superior, aliás, quase inexistente na época no país, mas era funcionário letrado, trabalhando em altas esferas da administração federal. Trabalhando mesmo: entre seu ingresso no serviço público, lá por 1870, e sua morte, praticamente não tirou férias, nem aceitou ser aposentado quando já podia. Deu expediente até o último mês de vida. E isso tudo enfrentando uma doença silenciosa e implacável, a epilepsia. Consta que ela o acompanhou desde a meninice, e retornou com força em seus 40 anos – hoje se associa esse fenômeno justamente ao estresse. Tinha medo de ser acometido por um ataque em situação pública, o que de fato ocorreu.

Morreu com quase 70 anos de idade, depois de um casamento amoroso, de que não resultaram filhos, com uma portuguesa de grande preparo intelectual, que foi sua companheira de cama, mesa e escrivaninha. Nunca viajou para além de uns 100 quilômetros em volta de sua cidade, não saiu do Brasil jamais; mas foi o grande animador e líder da criação da Academia Brasileira de Letras, que tem lá um forte lado conservador, mas é também uma importante instituição de cultura, num país tão frágil nessa área. Deixou dez romances, mais de 200 contos, centenas de crônicas, umas quantas peças de teatro, muitíssimas resenhas e artigos, cartas e pareceres, uma obra enfim que chega fácil à casa de umas 4 mil páginas impressas. Em sua obra, a capital do Brasil e, mais amplamente, a experiência ocidental foram acompanhadas, de 1854 até 1908. Não é pouca coisa.

(Excerto do texto “Machado e Borges”, de Luis Augusto Fischer,
Correio do Povo, fevereiro de 2018)


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A mulher dengosa

(Pernambuco)



Era uma vez um homem casado com uma mulher muito dengosa, que fingia não querer comer nada diante do marido. O marido foi reparando naquelas afetações da mulher, e quando foi um dia ele lhe disse que ia fazer uma viagem de muitos dias. Saiu, e em vez de partir para longe, escondeu-se por detrás da cozinha, num cocho.

A mulher, quando se viu sozinha, disse para a negra: “Ó negra, faz aí uma tapioca bem grossa, que eu quero almoçar”. A negra fez e a mulher bateu tudo, que nem deixou farelo. Mais tarde ela disse á negra: “Ó negra, me mata aí um capão e me ensopa bem ensopado para eu jantar”. A negra preparou o capão, e a mulher devorou todo ele e nem deixou farelo. Mais tarde a mulher mandou fazer uns beijus muito fininhos para merendar. A negra os aprontou e ela os comeu. Depois já de noite ela disse á negra: “Ó negra, prepara-me aí umas macaxeiras bem enxutas para eu cear”. A negra preparou as macaxeiras e a mulher ceou com café. Nisto caiu um pé d'água muito forte. A negra estava tirando os pratos da mesa, quando o dono da casa foi entrando pela porta a dentro. A mulher foi vendo o marido e dizendo: “Oh! marido, com esta chuva tão grossa você veio tão enxuto”? Ao que ele respondeu: “Se a chuva fosse tão grossa como a tapioca que vós almoçastes, eu viria tão ensopado como o capão que vós jantastes; mas como ela foi fina como os beijus que vós merendastes, eu vim tão enxuto como a macaxeira que vós ceastes”. A mulher teve uma grande vergonha e deixou-se de dengos.

Contos Populares do Brazil por Silvio Romero


Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (Lagarto, Sergipe, 21 de abril de 1851Rio de Janeiro, 18 de junho de 1914) foi um advogado, jornalista, crítico literário, ensaísta, poeta, historiador, filósofo, cientista político, sociólogo, escritor, professor e político brasileiro.